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6 outubro 2009

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África do Sexo

Publicado por: Luiz Monteiro

Junho de 1991. Lá se vão quase vinte anos desde que o último presidente branco da África do Sul - Frederik Willem De Klerk – revogou o regime do Apartheid, que separava brancos de negros.

sexpo 6 África do Sexo

Corredores e stands concorridos durante a Sexpo

Em abril de 1994 as primeiras eleições democráticas conduziram Nelson Mandela à presidência da República. Mesmo depois de tanto tempo, eu tinha a impressão de que Johanesburgo ainda vivia um comportamento muito conservador, tornando as pessoas reclusas. Some-se a isso a influência do introvertido comportamento britânico de muitos descendentes que vivem na África do Sul.

Analise comigo: aqui a maioria das pessoas dorme cedo. Chega a ser pecado ligar pra alguém depois das 8 da noite. Restaurante aberto depois das dez? Quase impossível. Serviços de entrega nesse horário? Não conheço. Casais de namorados andando pelas ruas ou se beijando em público? É raro.

sexpo 3 África do Sexo

Enfermeiras, dançarinos e fetiches em Johannesburgo

Mas qual não foi minha surpresa ao visitar a Sexpo – Feira do Sexo – nos últimos dias? A fila pra entrar no Gallagher Convention Centre, um dos maiores do país, dava voltas no quarteirão. Pessoas de todos os sexos, de todas as idades e tendências esperavam felizes (o termo correto em inglês seria "excited") para entrar no Pavilhão (como diria o jornalista Agamenon Mendes Pedreira: "sem trocadilho, por favor") de 12 mil metros quadrados e visitar os quase 400 concorridos stands montados no local.

"Sexo é um estilo de vida, não importa se você é conservador ou não. Johanesburgo está abraçando esta causa", explicou um dos organizadores da Feira à reportagem da Rede Record.

Logo na entrada vimos uma exposição de quadros e estatuetas sensuais. É claro que o artista contratou uma modelo escultural para desfilar entre os objetos de arte. A cada pose da moça, centenas de máquinas e celulares piscavam os flashs em direção à modelo. Entre as obras, havia um busto de Mandela. Pode parecer exagero meu, mas a sensação que tive é que Madiba, como o eterno líder sul-africano é chamado aqui, sorria discretamente. Veja na foto se estou mentindo.

sexpo 2 África do Sexo

Mulheres com o corpo pintado dão entrevista durante a Sexpo

O que mais chamou atenção das mulheres estava no portão principal do Centro de Convenções: uma escultura de gelo de dois metros de altura, em forma de pênis. As moças sul-africanas, incluindo nossa produtora, tiravam fotos abraçadas com aquele "negócio". Não ouso publicar a imagem aqui. Acho que Johanesburgo está me deixando conservador também.

Lá dentro o que predominavam eram animação e descontração. Pessoas felizes, sorridentes, se esbarravam nos enormes corredores. Entrei num stand só com camisinhas animadas. Algumas traziam gracinhas impressas do tipo "Não deixe secar". Outras vinham com signos do Zodíaco e as respectivas características sexuais de cada um. Cada uma em formato de cartão de visitas. Por dentro o preservativo. Na embalagem, nomes e dados do indivíduo. Ou seja, quem ganhava um cartão, levava de brinde o preservativo.

Uma cabine com vários headphones disponíveis convidava o visitante a ouvir relatos de fantasias eróticas vividas por anônimos. Pelos risinhos e outras expressões de surpresa dos ouvintes, imaginei que as histórias eram curiosas. Como havia muito o que conhecer, este repórter preferiu não ouvir os detalhes das gravações. Juro que não foi por conservadorismo. Era tempo curto mesmo.

sexpo 1 África do Sexo

Modelo e Mandela

Outra infinidade de atrações aguardava o público: distribuidores de vinhos atraíam os que não dispensam uma boa uva antes de namorar. Academias de ginástica mostravam exercícios que melhoram o desempenho sexual. Laboratórios mostravam pílulas que prometem potência além do normal. Moças e rapazes vestidos com trajes provocantes cruzavam o caminho dos freqüentadores a toda hora. Uma boate de strip-tease dentro da feira levou milhares de casais a ocupar as mesas. Terapeutas montaram suas macas e faziam massagens nas visitantes que pagassem o equivalente a 40 reais. Era preciso tirar a roupa. E as clientes ficavam nuas, à vista de quem passava pelos corredores. Não havia constrangimento.

sexpo 4 África do Sexo

O artista Pricasso em ação

Mas uma das atrações que mais chamou atenção foi o intrépido Pricasso, um senhor cinqüentão que pinta rostos de anônimos e famosos utilizando o órgão sexual. Primeiro ele tira uma foto do cliente e o computador imprime o desenho numa folha de papel. Depois, Pricasso passa o pênis na bandeja de tintas e colore a moldura. Tudo isso com dezenas de curiosos em volta do stand. Nada mais autêntico.

Tinha espaço para assunto sério também. Palestras promovidas por um fabricante de preservativos davam dicas sobre sexo seguro. Assunto de extrema importância no país que tem onze por cento da população contaminada pelo vírus HIV. O mesmo problema atinge um terço das mulheres grávidas no país. As sessões eram sempre concorridas.

E como sexo não é tudo, os organizadores montaram a Capela do Amor, onde dezenas de casamentos foram realizados por um reverendo de Johanesburgo. Ao pedirmos autorização para filmar um dos casais, a noiva lembrou que não tinha contratado ninguém para fazer imagens e nos pediu cópias da fita.

sexpo 5 África do Sexo

Obama e John MacCain, na obra de Pricasso

O sucesso da anual Feira do Sexo em Johanesburgo animou os organizadores. Houve um aumento de vinte por cento no número de visitantes, em relação ao ano passado. Com casa cheia todos os dias e previsão de faturamento equivalente a oito milhões de Rands, cerca de um milhão de dólares, o evento pode ter um dia a mais a partir do próximo ano. Ao invés dos atuais 4 dias de duração, os coordenadores estudam a possibilidade de estender para 5 dias, em 2010. Cada ingresso vendido este ano custou o equivalente a 50 reais, por cabeça. Nada mau para uma exposição que reuniu quase quinze mil pessoas por dia. Além da ex-conservadora Johanesburgo, a Sexpo tem edição também na paradisíaca Cidade do Cabo. Acho que me enganei. O conservadorismo aqui não é tão grande. Agora vou chamar o país de África do Sexo.

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5 outubro 2009

comentarios-icon26 Comentários »

Arquitetura do terremoto

Publicado por: Catarina Hong

Peço desculpas por demorar a publicar notícias sobre a Indonésia aqui no blog. O acesso à internet é difícil. Só hoje a conexão no centro de operações do desastre está razoável. Há menos jornalistas por aqui, o que deve contribuir para uma internet menos congestionada.Aqui um resumo de como viemos parar nesse lugar, uma cidade pobre no meio da Indonesia.

Quando chegaram as primeiras notícias de Samoa, cogitamos viajar para as ilhas do Sul do Pacífico, mas havia a dificuldade de acesso. Quando, no dia seguinte, surgiram as informações sobre o terremoto de 7.6 graus de magnitude na Ilha de Sumatra (a mesma castigada pela tsunami em 2004), pegamos o primeiro avião que saía de Tóquio. De Jacarta para Padang – maior cidade próxima ao epicentro – já não havia mais voos naquele dia. Ao tentar garantir o voo para a manhã seguinte, lembrei dos “cambistas de passagem aérea” que, no terremoto de 2006 em Yogyakarta, já haviam nos tirado do sufoco. Não sei exatamente que tipo de acordo eles fazem com as companhias, mas esses “cambistas” têm passagens para todos os voos domésticos, estejam lotados ou sejam voos extras não-anunciados.

Pegamos um desses, que saía dali em menos de uma hora. Primeira missão cumprida: chegar a Padang ainda na quinta-feira.No avião, praticamente todos os passageiros eram parentes de moradores da região atingida. Gente que perdeu a casa e que retornava para saber dos familiares, conferir os estragos.O aeroporto de Padang era a porta do caos. Assoalho quebrado, buraco no teto, gente amontoada, dormindo no chão, a espera do primeiro voo pra sair dali.

Um estudante da Malásia nos contou que estava sem luz, sem água e sem comida há 24 horas. O aeroporto só tinha eletricidade fornecida por gerador e imaginem, com aquele monte de gente no saguão, não havia água no prédio. Aliás, não há até hoje. Passamos para conferir a situação.A cidade estava no escuro. E ainda está. Luz só de gerador ou de fogueiras. Os moradores estão com medo de dormir dentro de casa. Ninguém quer ser pego de surpresa caso haja um novo tremor.

A terra treme o tempo todo. Desde quarta-feira, ja foram registrados mais de 500 abalos – fracos, claro, mas que ainda pregam sustos.Meu tempo está curto. Preciso enviar imagens para o Brasil. Visitamos os vilarejos mais arrasados pelo terremoto hoje. Ouvi histórias tristes e vi imagens que nunca vou me esquecer.Assim que tiver nova conexão, atualizo o blog (com acentos!) e prometo publicar fotos. Enquanto isso, vou correndo que está chovendo. É um alívio depois de tanto calor.

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2 outubro 2009

comentarios-icon19 Comentários »

Surge a oportunidade de dividir melhor o bolo

Publicado por: Heloisa Villela

A situação da população de Honduras muitas vezes surpreende até mesmo quem está acostumado a lidar com conflitos políticos e desigualdades sociais. Foi o que aconteceu com um diplomata cujo nome eu não posso mencionar. Mas ele está na capital, Tegucigalpa, procurando brechas para estabelecer algum tipo de ponte. De diálogo.

 Surge a oportunidade de dividir melhor o bolo
Pois nesta estadia ele se sentou para jantar com um amigo americano. Conversa vai, conversa vem, ele aos poucos foi abrindo o jogo. Ficou sabendo que a Igreja Católica hondurenha, co-partícipe do golpe de estado, anda rezando, e implorando onde encontra ouvido disponível, para que a suspensão de vistos americanos para cidadãos hondurenhos seja revertida. E o quanto antes.

O que acontece? A classe dominante aqui – dizem os hondurenhos que são entre 10 e 12 famílias – tem muitos negócios nos Estados Unidos, passa fins de semana em Miami e gosta de esquiar em Áspen, no Colorado. "Aqui, os coitadinhos não têm neve!", explicou o diplomata.

Infelizmente, o governo americano andou suspendendo os vistos. E os ricos estão desesperados. Mas a grande viravolta nisso tudo é a conscientização dos miseráveis hondurenhos. Eles, claro, nunca tiveram e nunca vão conseguir visto para entrar nos Estados Unidos. Se já é difícil, muitas vezes, para a classe média brasileira, imaginem para os operários e camponeses hondurenhos...

Por isso mesmo, eles estão achando lindo, pela primeira vez, de certa forma, estarem em igualdades de condições com os ricos. E mais: a maior fonte de divisas do país são os dólares enviados, dos Estados Unidos, pelos imigrantes que entram no país a pé, cruzando a fronteira com o México, arriscando a vida no calor do deserto e na mira da polícia da fronteira. Pois esta é a realidade: o principal item da pauta de exportações deste país é a gente pobre, que precisa de emprego, e vai para os Estados Unidos juntar alguns dólares. E a vida deles, já sabemos como é: 7 a 10 em um apartamento pequeno. Todos trabalhando o dia inteiro a tempo de chegar em casa para jantar e dormir. E nada de sair à noite para se divertir porque é preciso juntar os dólares e enviar para as famílias, em Honduras.

Na conversa, no restaurante, o americano ainda estava incrédulo. Mas o diplomata se surpreendeu, e se emocionou, quando um garçom pediu desculpas, interrompeu a conversa e fez questão de apertar a mão do diplomata. Ele e vários outros funcionários do restaurante. Eles acabaram ouvindo a conversa. E sabem, ou ao menos esperam, que Honduras, este país da América Central ao qual o Brasil nunca deu muita importância, está na bica de dar uma guinada. Essa pode ser a hora de consolidar algumas mudanças que forcem uma distribuição um pouco menos injusta do bolo.

O diplomata, com os olhos mareados, está na torcida. Mas certeza?! Ah... isso seria pedir muito!

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2 outubro 2009

comentarios-icon70 Comentários »

Chicago, uau!

Publicado por: Adriana Araújo

Cheguei com a frase pronta. "Em Chicago, torcendo pelo Rio". Seria essa a manchete deste texto. Eu só não imaginava que Chicago fosse tão apaixonante.

 Chicago, uau!
Calma, antes de me acusarem de traição a pátria, deixa eu contar.

Chicago é a terceira maior cidade dos Estados Unidos. A região metropolitana tem mais de 9 milhões de habitantes. E onde estão os problemas de qualquer grande cidade? Ainda nao achei.

 Chicago, uau!

A arquitetura é esplêndida.

A cidade, literalmente, renasceu das cinzas. Depois de um grande incêndio no século 19, se tornou pioneira na construção de grandes edifícios. Lindos!

 Chicago, uau!

Chicago é segura - tem a segunda maior força policial dos Estados Unidos - quase 14 mil policiais.

Mais: lixo na rua, não tem. O trânsito é bem razoável, mesmo nos horários de pico.

 Chicago, uau!

Parques e praças? São mais de 500 por toda a região.

Mendigos? Já andei dois dias pela cidade e só vi um. Levou 25 centavos - era o que eu tinha disponivel na hora.

E, além de tudo isso, a cidade ainda tem o lago Michigan. Uma orla linda que parece praia mesmo. E ainda limpa! Que audácia.

 Chicago, uau!

Ontem, quarta-feira, mostramos todo esse charme da cidade no Jornal da Record. Hoje você vai ver Chicago por outro ângulo. Se o Rio tem o Cristo Redentor, Chicago tem passeio de guindaste, a 400 metros de altura! Lá do alto, as imagens da orla, onde poderá ser instalada a Vila Olímpica, são incríveis.

Como eu confessei, logo no começo, é difícil não suspirar por Chicago. Até a rejeição dos moradores a realizar as olimpíadas aqui me impressiona. Muitos dizem que os gastos são altos demais e o dinheiro poderia ser investido de outra maneira, pra melhorar a cidade. Mas uma cidade que já parece perfeita?

 Chicago, uau!

Será que nós, brasileiros, é que deveríamos pensar assim?

Antes de 2016, vamos fazer uma Olimpíada na saúde - ninguém mais pode morrer de dengue ou por falta de atendimento.

Antes de 2016, Olimpíada na segurança - ninguém mais pode morrer de bala perdida. E bandidos não podem intimidar o cidadão de bem como se fossem os donos da cidade.

Antes de 2016, Olimpíada na educação - criança não pode frequentar a escola sem aprender.

 Chicago, uau!

Calma, não estou defendendo a renúncia do Rio à sede olímpica.

Acho, sim, que o esporte pode ser transformador e uma Olimpíada pode melhorar muito a cidade.

Sobretudo a mentalidade dos moradores.

Se tudo deu certo nos Jogos Panamericanos, por que não pode dar certo 365 dias por ano?

Se tudo pode dar certo em 2016, por que não dá certo sempre?

O coração dessa mineira, apaixonada por Chicago, continua brasileiríssimo. Então que venha 2016... que vença o Rio.

E que todos nós possamos aprender algumas lições com Chicago.

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1 outubro 2009

comentarios-icon26 Comentários »

Lula: economia e futebol na África do Sul

Publicado por: Luiz Monteiro

O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, chega a Brasília na próxima semana para melhorar as relações comerciais com o Brasil. Mas não pense que as discussões bilaterais tratarão apenas da compra e venda de produtos. O presidente Lula vai aproveitar a oportunidade para comunicar ao colega que estará em território sul-africano durante a Copa do Mundo do ano que vem.

lula e lula Lula: economia e futebol na África do Sul

As duas Nações, mais a Índia, fazem parte do grupo econômico conhecido como Ibas (sigla em português para Índia, Brasil e África do Sul). Atualmente, o comércio entre o trio é de dez bilhões de dólares por ano. No encontro que acontecerá nos próximos dias, os líderes pretendem aumentar esse valor para quase vinte e cinco bilhões, até 2015.

Para reforçar essa intenção e oferecer produtos brasileiros aos sul-africanos, a viagem que Lula fará em 2010 terá caráter de visita de Estado. Mas como ninguém é de ferro, Luiz Inácio vai aproveitar para dar uma espiada em alguns jogos da seleção brasileira. A única dúvida de Lula é puramente estratégica. Ele ainda não resolveu se vem para ver a estreia do time de Dunga ou espera uma fase mais avançada da competição.

Assessores de Lula avaliam que esse segundo caso seria mais arriscado em caso de algum tropeço e a consequente eliminação do Brasil. A última coisa que o governo deseja é que o presidente, com bons índices de popularidade, tenha sua imagem aliada a uma eventual eliminação do Brasil. O pesadelo de qualquer político é ter fama de pé-frio. Por isso, o mais provável é que Lula, apaixonado por futebol, apareça logo no primeiro jogo.

Eu estive no Brasil recentemente para resolver assuntos pessoais. Aproveitei a folga para ir a Brasília, onde morei antes de assumir o posto de correspondente internacional da Rede Record,. Fui recebido por Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada, que confirmou a visita. "Vou pra África do Sul e vou ver o Brasil", disse.

Lula mostra um certo brilho nos olhos ao falar da primeira Copa do Mundo no continente africano: "É uma coisa extraordinária essa Copa na África do Sul. Ajuda muito a mostrar o potencial dos países em desenvolvimento". E complementa: "O Brasil vai fazer uma Copa inesquecível. O projeto é lindo".

O Presidente evita arriscar um palpite, mas não esconde a confiança na Seleção: "Esses meninos estão com fome de jogar bola".

Conheço o Presidente desde 2003, quando estreamos o programa de rádio em que Lula anuncia projetos que o governo julga de interesse do cidadão. Minha função era formular perguntas que ajudassem o ouvinte a entender a intenção do governo. Criamos uma relação de respeito profissional e vez por outra, quando vou ao Brasil e a agenda dele permite, sentamos para uma rápida conversa informal.

O Café, como chamávamos, é produzido pela Secretaria de Comunicação da Presidência em conjunto com uma equipe de jornalistas e técnicos da NBR, antiga Radiobras. O programa, é claro, continua no ar com a apresentação do jornalista Luciano Seixas.

Quando surgiu o convite da TV Record aceitei de imediato porque eu nutria uma inquietação de viver o jornalismo diário. Agora, como correspondente do Jornal da Record na África do Sul, temos o desafio de mostrar notícias e curiosidades de um continente cheio de belezas e contrastes. Que a seleção faça grandes apresentações no ano que vem e os brasileiros possam comemorar o Hexa.

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1 outubro 2009

comentarios-icon39 Comentários »

Dia quente aqui em Honduras

Publicado por: Heloisa Villela

Sol forte e calorão se somaram à fumaça das bombas de gás.

Confesso: foi a primeira vez que senti o efeito. É horrível! A gente chora sem querer, a garganta arranha. Não dá nem prá abrir os olhos.

batalhão de choque Oswaldo Rivas Reuters Dia quente aqui em Honduras

Manifestantes enfrentaram o batalhão de choque da Polícia hondurenha

Mas ainda assim, deu pra ver muito bem o exagero. Não havia a menor necessidade de usar bombas de gás. A manifestação diante da Rádio Globo, fechada porque denuncia o golpe, era pacífica, relativamente pequena e não estava provocando nenhuma confusão. Aliás, esses manifestantes hondurenhos são super de paz. Fazem de tudo para evitar uma reação mais exaltada da polícia.

Eles já estavam se retirando. Saíram andando quando foram perseguidos por um batalhão armado de cacetetes e bombas de gás. Pra que? Apenas uma demonstração de poder e força. Depois que tudo passou, o tenente Molina, porta-voz da polícia, levou na brincadeira: "você quase se afogou, hein?!", me disse sorridente. E aconselhou: "da próxima vez, não passe a mão nos olhos, não ponha água, deixe o ar bater que vai melhorando". Ok. Anotei o conselho. Mas ainda não entendi qual foi a graça.

Aqui nesse blog, alguém me perguntou sobre centros de tortura em Honduras. Há 3 dias venho procurando um líder camponês que andou denunciando isso. Hoje, na manifestação, finalmente o encontrei. Ele me chamou num canto. Entramos numa garagem, longe da confusão, e ele me disse: "acho que me entenderam errado. Não falei em centros de tortura. Mas muitos companheiros foram espancados e torturados em cadeias do país. Entendo que você precise falar com alguns deles. Mas por enquanto está difícil. A polícia está ameaçando matar as famílias deles. Estamos buscando lugar seguro para as famílias e aí sim eles vão poder falar".

Ficou a promessa de uma conversa futura. Assim que aparecerem as provas e denúncias, com certeza, vocês também vão ficar sabendo.

Por hora, o que se sabe é que o governo golpista está rebolando para voltar atrás e admitir que vai negociar com o presidente Manuel Zelaya.

Ah! E para esclarecer: essa conversa de que o Zelaya estava procurando uma forma de se perpeturar no poder... Aqui, o que todos os líderes do movimento popular me explicam é o seguinte: a consulta sobre a constituinte estava marcada para 28 de junho, dia do golpe. Se a medida fosse do agrado da maioria, o próximo presidente (eleito dia 29 de novembro) poderia convocar a Constituinte para promover mudanças na constituição. Entre elas, instituir a possibilidade de um segundo mandato para o presidente. Para quem é bom de voto, uma boa notícia. Mas de qualquer forma, para Zelaya, não haveria tempo hábil para emendar o primero mandato no segundo.

Discussões legalistas à parte, onde já se viu ser deposto por procurar saber a opinião do povo?

Mais uma para a minha lista do "não entendi".

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30 setembro 2009

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Mudança de rumo?

Publicado por: Herbert Moraes

A apenas um dia do encontro entre o Irã e os países que compõe o Conselho de Segurança da Onu, Israel mudou a estratégia e adotou um tom mais ameno, de apoio à sanções mais rigorosas que devem desestabilizar a já abatida economia iraniana.

irã 11 Mudança de rumo?

Cidade de Isfahn, onde está uma das instalações nucleares

O discurso que Israel divulgou nos últimos dias para jornalistas do mundo inteiro é que abalando ainda mais o frágil sistema financeiro do Irã, comprometeria também o regime dos ayatolás - que enfrenta, desde a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, ondas de protesto. Jornais americanos como o The New York Times divulgaram hoje que o Primeiro Ministro de Israel, Benyamin Netanyahu está, fazendo lobby no congresso americano e tenta impor a decisão por sanções severas ao Irã.

A mudança de rumo da diplomacia israelense provocou um certo alívio na comunidade internacional, já que poucos dias atrás o governo falava apenas em um ataque às instalações nucleares do Irã e cinicamente criticava a tentativa americana de solucionar a questão através do diálogo. Mas há uma explicação para isso, caro internauta. E está intimamente ligada a aposta que o governo Obama fez ao anunciar o fim dos planos de um escudo anti-mísseis no Leste Europeu, e que a Rússia entendia como uma ameaça.

irã 21 Mudança de rumo?

Deserto entre Teerã e Qom...

Com o fim da idéia implantada pelo governo Bush, os russos poderiam apoiar as sanções que serão colocadas contra o Irã. Os ayatolás contam com o apoio da china e da rússia nas decisões do G6. Os dois países já anunciaram que são contra novos embargos. Mesmo assim o presidente Obama acredita numa virada.

O diálogo que começa esta semana deve durar até dezembro quando as novas sanções deverão ser implementadas. Encontros intermináveis devem acontecer até lá. E todos sabem que esta é a última parada antes da formação de um cenário militar de ataque às intalações nucleares do Irã. E pelo andar da carruagem, Israel agora deve mostrar a Obama e à comunidade internacional que está pronto para discutir a exaustão todas as opções não-militares. Os israelenses entenderam que o momento é de negociação.

irã 31 Mudança de rumo?

... onde foi revelada mais uma instalação nuclear

A bola agora está com os EUA. A revelação de que o Irã possui outra instalação nuclear em Qom, ao norte de Teerã, inflamou o discurso do Secretário de Defesa Robert Gates que disse claramente que o programa nuclear iraniano tem outros fins, e não são pacíficos. Os EUA começam a mostrar as cartas e entre as sanções mais severas deverá pedir a suspensão de investimentos estrangeiros na indústria de petróleo e gás do Irã, além de novas restrições bancárias. Mas mesmo que aprovem o embargo, será que o Irã, depois de 15 anos em busca da energia atômica, irá suspender o projeto que vai transformar o país dos ayatolás numa potência nuclear?

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29 setembro 2009

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Bastidores da Notícia

Publicado por: Heloisa Villela

É uma cena digna dos melhores romancistas do realismo mágico latino americano.

A esquina da Avenida da Paz com Rua República do Panamá, no centro de Tegucigalpa, nunca viu tanto movimento...

Nessa esquina, os hondurenhos cantaram, gritaram e empunharam cartazes exigindo a volta do Presidente Manuel Zelaya ao poder. Agora, eles já não chegam aqui porque os golpistas instituíram o estado de sítio. As passeatas foram banidas. E a Avenida da Paz se tornou território exclusivo das barricadas de cimento e das tropas do exército e da Polícia Nacional. Esta é a principal via de acesso à Embaixada brasileira, onde está abrigado o presidente Manuel Zelaya.

Além dos homens armados de cacetetes, escudos e bombas de gás, existe também um pequeno exército de testemunhas. Máquinas fotográficas, câmeras de televisão, gravadores ou apenas papel e caneta na mão, jornalistas do mundo inteiro acompanham a movimentação. Um ou outro carro que entra e sai com a permissão dos soldados. Quase todos falam espanhol. Mas aos poucos vão aprendendo uma ou outra palavra em português porque somos mais de dez brasileiros nessa empreitada.

Este batalhão de jornalistas instituiu, na camaradagem, uma “sala de imprensa” na lanchonete Burger King. Verdade seja dita, foi o repórter cinematográfico da TV Record,  Joaquim Leite Neto,  que inaugurou o espaço. Descobriu que a conexão com a internet era boa. Ligou o computador na tomada e começou a transmitir imagens para São Paulo brincando: “este é o Record King”. A idéia foi rapidamente adotada. Agora, ocupamos mais da metade das mesas da lanchonete, que fica bem na esquina. As vantagens são inúmeras: banheiro limpo à disposição. Comida (hum...). Tomadas para os computadores. E o essencial: acesso à internet.

Na nossa sala de imprensa, entram hondurenhos de todas as classes sociais. Homens de terno e gravata que trabalham aqui no centro. Mulheres que também trabalham na área. Crianças. E o mais curioso: soldados e policiais, que montam guarda nas proximidades da embaixada, também procuram água, refrigerantes e sanduíches.

Esta semana, um oficial do exército, vestindo uniforme de camuflagem, com fuzil a tiracolo, entrou na lanchonete, depositou a arma na mesa como se fosse um prato inofensivo, e desancou Zelaya e a embaixada brasileira. Parecia muito inclinado a entrar lá e arrancar o presidente eleito na marra. Será que fazia cena para impressionar os jornalistas? Conosco, ele costuma ser simpático. Não é que ele tem uma filha brasileira?!

Hoje, o capitão Molina, da polícia nacional, passou a tarde inteira sentado, diante do computador, navegando na internet. O que será que ele leu todo esse tempo? Ainda não descobri. Mas depois de alguns minutos de conversa, ele confessou: “sou melista (apóia “Mel” Zelaya). Ele fez muito pelo povo, é carismático e vai entrar para a história do nosso país”.

Só não se sabe ainda como será, nos livros de história, o fim deste capítulo.

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29 setembro 2009

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Bem vindo ao R7!

Publicado por: Catarina Hong

A Ásia também está aqui. Esse rico continente que se fragmenta em vários, onde vive mais da metade da população mundial, é quase um planeta à parte. Aqui se misturam culturas tão diversas, exóticas para nós, brasileiros - parecem mesmo de outro mundo - mas tem papel cada vez mais importante para nós.

shinjuku Bem vindo ao R7!

A avenida principal de Shinjuku vira um calçadão nos fins-de-semana

Vivo em Tóquio há 4 anos e ainda me surpreendo com o Japão e os japoneses. Este país, que é um pouco maior que o estado de Goiás, está entre os dez mais populosos do planeta. É muita gente num espaço pequeno. E é uma nação muito rica - se bem que pobre em recursos naturais. Em PIB, só perde para os Estados Unidos e deve ceder posição para a China em breve.

Este é o lugar onde vivem cerca de 250 mil brasileiros. Eram 312 mil em 2008, mas 54 mil retornaram ao Brasil desde setembro do ano passado. Foi a crise econômica, que afundou o Japão, tão dependente do mercado externo, na recessão. Aos poucos, o país se recupera. A produção industrial cresce há 5 meses consecutivos, as fábricas anunciam reabertura de postos de trabalho, mas os brasileiros ainda sofrem com o desemprego.

shinjuku1 Bem vindo ao R7!

Ambulantes e artistas de rua são proibidos, segundo um chefe do Shinjiuku Police "Stasion" (sic)

Para muitos dos que resistem no Japão, o último recurso, o auxílio-desemprego, está no fim ou já não existe mais. Os brasileiros voltam a ficar contra a parede. Retornar ou persistir? Encontrei famílias em extrema necessidade. Aluguel atrasado, luz e gás foram cortados por falta de pagamento. Janta-se hoje, sem a garantia do almoço de amanhã. E justo aqui, neste país tão rico. O pior é a incerteza. Muitos não querem voltar sem reserva, nem qualificação. Depois de 10 anos de trabalho no Japão, atravessar o mundo para se sentir imigrante novamente? Ninguém quer isso.

aglomeração Bem vindo ao R7!

A aglomeração...

Este país já foi símbolo de prosperidade pra muita gente. Hoje, desemprego, baixo consumo, uma população que envelhece rapidamente... São alguns dos principais desafios do Japão, que acaba de passar por uma importante mudança política, depois de mais de meio século sem revezamento partidário. Os japoneses confiam desconfiando. As coisas podem melhorar.

Esta é uma nação organizada, de gente polida e rica cultura. Tradicional e pop. Novidades tecnológicas, games, mangá, animê. Artes marciais, sumô, judô. Sushi, sashimi, sake. Gueixas, cerimônia do chá, Harajuku. O Japão é tudo isso mesmo. Um montão de clichê que a gente conhece bem. Mas é muito mais, claro. E é esse "muito mais" - ou "um pouco mais"- que eu vou tentar ilustrar aqui.

aglomeração 2 Bem vindo ao R7!

...é por causa dos gatinhos, que alguém colocou em cima da placa.

Domingo mesmo, andei por Shinjuku - um dos movimentados bairros de Tóquio, ainda muito animado, mas que teve sua época de ouro 30, 40 anos atrás. Aqui vão minhas primeiras fotos, de um dia cinzento, início de outono, com uma brisa suave e um perfume de kinmokusei no ar (ou osmanthus, também conhecido como jasmim-do-imperador).

Mata ne!*

* "Até mais"

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28 setembro 2009

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A crise em Honduras, por trás das aspas

Publicado por: Adriana Araújo

Passei a última semana seguindo os passos do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim - o protagonista brasileiro nas negociações por um fim pacífico para a crise em Honduras.

celso amorim A crise em Honduras, por trás das aspas

“Se fosse a embaixada americana...”

Na última quinta-feira, pude fazer uma entrevista exclusiva com ele para o Jornal da Record. Nesse período, as palavras e até a expressão no rosto do ministro Amorim se agravaram, na medida em que o impasse se aprofundava.

Abaixo, a repórter se permite algumas observações sobre o caso. Não como a nova blogueira de plantão que tem a solução para todos os problemas do mundo que só o governo não vê. São apenas observações de quem perguntou, ouviu algumas respostas, mas não todas.

"Não havia outra atitude possível. Qualquer outra atitude seria covarde."

Assim Amorim explicou porque Zelaya foi recebido na embaixada brasileira.
Será que havia outra resposta possível para um presidente eleito que saiu do País sob a ameaça de uma arma, quando ele bate na porta da embaixada? Um “não” seria possível?

Não.

Estou partindo do princípio de que o Brasil foi surpreendido com o pedido de Zelaya. Apareceram muitas especulações mas não uma prova do contrário. E, surpreendido, não havia outra atitude a tomar.

Mas isto não explica porque 60 pessoas estão lá dentro com água e comida racionadas. Abrigar Zelaya, alguns parentes e um ou outro assessor, dá pra compreender. Mas as imagens que até agora vimos lá de dentro da embaixada mostram outra situação. Zelaya parece o chefe de uma hospedaria-comitê de campanha.

"Para bom entendedor, meia palavra basta".

Assim o ministro tentou assegurar que a resposta do Conselho de Segurança da ONU foi muito satisfatória. Não foi.

Da boca da presidente do Conselho, Susan Rice, poderia ter saído o verbo exigir, mas veio só um pedir. “Peço que cessem as intimidações contra a embaixada brasileira”. O representante do México no Conselho disse: “se a embaixada for invadida o Conselho volta a se reunir”. Oba! Vamos comemorar uma futura reunião pra quando a embaixada for invadida?

O Brasil terá que encontrar ajuda em outra freguesia. No Conselho de Segurança, só ganhou meia palavra.

Em tempo, não vi bronca, nem bate boca entre o ministro Amorim e Susan Rice. Ela achou desnecessário o Brasil pedir a reunião ao conselho. “Se fosse a embaixada americana...”, disse Amorim. No meu vocabulário isso se chama discordar. Os dois fizeram segredo da conversa, mas ai a discordância já havia se transformado em bronca ou bate-boca nos jornais.

"A única solução pacífica possível é o retorno imediato de Zelaya ao poder.'"

Essa o presidente Lula disse várias vezes. E Amorim também.

Não seria hora de pensar num plano B? Levar Zelaya como asilado para o Brasil?

Fiz essas perguntas a Amorim na entrevista ao vivo para o Jornal da Record. Ele disse que não.

Mas os dois lados perderam credibilidade.

Zelaya apelou para um referendo pra tentar a reeleição - o que é crime em Honduras. Micheletti apelou para o fuzil - crime em qualquer lugar do mundo.

Não creio que um ou outro tenha condições políticas de coordenar uma eleição transparente e democrática.

Não seria hora de pensar em promover eleições isentas, sob a coordenação de organismos internacionais, para que a população possa dizer nas urnas que caminho deseja para o País?

A sensatez me diz que sim. Mas sensatez e sabonete andam em falta na crise de Tegucigalpa.

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