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Daniel Castro é jornalista desde 1988. Durante 18 anos, trabalhou no Grupo Folha. Em 1996, passou a fazer reportagens sobre televisão.

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27 de setembro de 2009 - 15:33

Jovem trocou novela pela internet, afirma Silvio de Abreu

Para Silvio de Abreu, autor do primeiro time de novelistas da Globo, a televisão aberta terá no futuro que "competir mais acirradamente" com as novas mídias. Ele não acredita que o jovem, já conectado à internet, volte para as novelas. No entanto, diz que o interesse do grande público pelo gênero ainda não amornou".

Abreu escreve atualmente as primeiras linhas de Passione, a substituta de Viver a Vida. Sobre a novela, adianta apenas que será uma mistura de "melodrama, humor e thriller".

Nesta entrevista exclusiva ao R7, o autor lamenta a falta de "critérios" claros na classificação indicativa, que hoje pode, hipoteticamente, obrigar uma emissora a exibir às 21h uma novela originalmente veiculada às 19h.

 Jovem trocou novela pela internet, afirma Silvio de Abreu
Por que as novelas das oito já não dão 60 pontos e, de três anos para cá, raramente ultrapassam os 50? O que mudou?

Silvio de Abreu - Na minha opinião, o número de televisores ligados diminuiu, o que fez diminuir todas as audiências. Porque se você observar vai ver que os "shares" [participações de determinados programas no total de televisores ligados] continuam altos.

Por outro lado, o menor número de ligados diminuiu em muito a audiência de outros programas que nunca tiveram o mesmo índice das novelas. Ou seja, mesmo diante de uma aparente queda, as novelas, principalmente a novela das 21h, continuam a ser o programa mais assistido em todo o Brasil.

Vou começar a acreditar que amornou o interesse do público nas novelas quando outros programas derem mais audiência. E lembre-se que, quando se diz que uma novela deu, digamos, 40 pontos, e outros programas semanais deram 35, a audiência da novela se refere a uma média de seis programas diários e o do programa semanal é de um único dia, o que faz uma enorme diferença.

As novas mídias e tecnologias ameaçam o futuro da televisão aberta?

Silvio de Abreu - Não sei se ameaçam, mas sem dúvida vão dividir o interesse do público. Imagino que no futuro a televisão aberta terá que competir mais acirradamente com outras mídias.

Aliás, a televisão já foi a vilã dessa história, quando surgiu no final dos anos 40, e diziam que ela desbancaria para sempre o cinema, ou quando o cinema surgiu no fim do século 19, e diziam que ele desbancaria para sempre o teatro. Acho que os modismos vão passando e que no futuro haverá lugar para tudo, como tem havido até agora.

É mais difícil escrever novela hoje do que nos anos 1980, quando você assinou sucessos como Guerra dos Sexos? Por quê?

Silvio de Abreu - Não é mais difícil, é diferente. Nos anos 1980 ainda tínhamos a Censura Federal e isso era uma grande dificuldade a ser transposta. Não se podia falar em adultério, personagens negativos não podiam ser simpáticos, a moral era controlada, a violência era proibida, não se podia falar de política etc etc.

Hoje temos a classificação etária na programação que nos obriga a sermos eternos vigilantes, porém, sem saber claramente que critérios devem ou não devem ser tomados. É muito difícil trabalhar assim, porque a qualquer momento podemos ter o trabalho proibido para determinado horário ou mutilado, apesar de continuarem afirmando que não é censura.

Por outro lado a produção hoje é muito melhor do que era nos anos 1980, a tecnologia se aprimorou e as nossas novelas conseguiram um grande prestígio internacional.

O trabalho de escrever aumentou muito. Antes uma novela pedia de 20 a 25 páginas de texto, porque os capítulos no ar eram mais curtos; hoje pede de 35 a 40 páginas, o que é quase impossível para um autor produzir sozinho.

Daí que o número de colaboradores aumentou, a maneira de desenvolver o trabalho modificou. Mas acredito que os autores que conseguiram passar para suas equipes o seu modo particular de pensar novelas continuam fazendo sucesso até hoje como fizeram na década de 1980.

O jovem de hoje é menos interessado em televisão aberta e, consequentemente, em telenovela? Como conquistar esse novo telespectador, seduzido pela internet, suas redes sociais e pelos vídeos on-demand?

Silvio de Abreu - Infelizmente, acho que quem está ligado no computador ou na internet vai continuar lá. Não acho que esse público venha para a novela, mesmo que a novela tente a mesma linguagem clipada que eles gostam. Na verdade, isso seria um grande risco porque a audiência de uma novela não pode ser segmentada, deve ser abrangente.

Deve agradar aos mais diferentes segmentos da sociedade, e temo que, ao tentar conquistar esses jovens, as novelas acabem esquecendo o seu principal público, que é mais fiel e conservador.

Tenho um bom exemplo disso com A Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden [2001], que era uma novela moderna, revolucionária. Pegou o público jovem, mas se esqueceu do público mais conservador, e o resultado de audiência foi dos mais decepcionantes.

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