Brasileiro não poupa e a culpa é do Brasil

Brasileiro enfrenta juros altos e inflação, o que dificulta poupar (Foto: Getty Images)

Um estudo inédito feito a partir de um levantamento do Datafolha concluiu que o brasileiro é imediatista e tem baixíssima tendência a poupar. O resultado é encontrado em todas as faixas de renda, mas maior entre os menos escolarizados e menos ricos.

Dentre os motivos apresentados, o professor do Insper Ricardo Brito afirmou que há pouco incentivo a poupar porque a aposentadoria e o FGTS repõem ou superam a renda atual na maior parte dos casos. Já para o economista Paulo Costa “poupar para futuro é algo que vai contra a natureza do ser humano”, além das características brasileiras em comparação outros países que não incentivam a poupança, como universidades públicas gratuitas, um sistema generoso de aposentadorias e um sistema de saúde gratuito.

O ramo das finanças comportamentais já demonstrou que sim, o ser humano tem dificuldade de abrir mão de recompensas de curto prazo em detrimento de longo prazo, mas um ponto fundamental que torna o brasileiro imediatista e com baixa propensão a poupar não foi comentado no estudo, a relação entre instabilidade econômica, inflação e a forma de lidar com o dinheiro.

A sociedade brasileira está exposta há pelo menos 40 anos a altos e baixos na economia e por muito tempo a um processo inflacionário muito elevado em que há perda constante do poder aquisitivo, ou seja, para comprar as mesmas coisas precisamos cada vez mais de dinheiro.

Até mesmo o bem-sucedido Plano Real em seus 23 anos de vida não conseguiu evitar uma queda brutal no poder de compra da moeda. De julho de 1994 a novembro de 2017 a inflação acumulada foi de 470,98%! O poder de compra de R$ 1 do começo do Plano Real equivale hoje a R$ 0,17, uma queda de 83% no período. A cada ano precisamos de mais dinheiro para comprar as mesmas coisas.

Estar exposto por um longo período a crises econômicas e inflação alta tem uma série de efeitos na mentalidade da população e a forma de lidar com o dinheiro:

1. O medo do futuro

O histórico de crises e planos econômicos torna o consumo no curto prazo irresistível e os investimentos incertos, já que diante de tantas mudanças no passado, não há condições para projetar horizontes de longo prazo. O amanhã se torna o agora.

2. “Punição” aos poupadores

Quem guarda dinheiro em espécie por não ter acesso a aplicações financeiras ou consegue rentabilidade abaixo da inflação nos investimentos mais acessíveis tem seu poder aquisitivo reduzido e é reforçado que o melhor é consumir o quanto antes.

3. Mais endividamento

Períodos inflacionários exigem taxas de juros mais elevadas, o que potencializa o crescimento das dívidas e o efeito bola de neve — é muito fácil perder o controle das finanças pessoais.

4. Maiores exigências para a aposentadoria

Com o poder aquisitivo em constante deterioração e períodos de elevado desemprego as exigências para desfrutar de uma aposentadoria tranquila são cada vez maiores. Está cada vez mais difícil conseguir contribuir para a Previdência Social, ou mesmo ter condições e conhecimento para montar uma previdência privada.

Além destes efeitos, os brasileiros ainda têm que conviver com uma série de distorções que encarecem ainda mais produtos e serviços e corroem a renda, como a elevada carga tributária e a baixa abertura comercial, que impede consumidores e empresas de terem acesso aos melhores produtores mundiais.