minas gerais

Que tal ouvir quem entende?

Quando disse, no último texto publicado neste espaço, que o sistema prisional exige prioridade e a reforma administrativa do Governo do Estado era boa hora para criarmos uma pasta exclusiva para administrar os quase 70 mil presos e perto de 20 mil agentes, faltou esclarecer que não imagino mais uma secretaria. Ninguém aguenta mais cargos, cafezinho, carros oficiais, gastos públicos. Sugeria o desaparecimento da “Defesa Social” com a volta de uma Secretaria de Segurança integrando as policias Civil e Militar, mais os Bombeiros e outra pasta exclusivamente para tratar desse assunto gravíssimo, que se torna barril de pólvora nos presídios e não nos deixa vislumbrar dias melhores nas ruas – exatamente por falta de novas vagas e, em consequência, prisões. No entanto, não passo de aprendiz de feiticeiro, cronista da cidade e, se o governador quer mesmo mudanças deve ouvir conhecedores profundos do tema. Como Amauri Meireles, que passou por todos os escalões da PM, chegou ao posto de comandante do policiamento da capital, sempre estudando, se reciclando. É dele o artigo “Equívocos na Segurança” que divido com os senhores, pedindo reflexão:

Uma das grandes aflições atuais da sociedade brasileira, certamente, é a “segurança”. Quando pesquisada, analisada, identificam-se vários equívocos em seu equacionamento e, também, na busca de procedimentos que, se não acabem, pelo menos reduzam e/ou restrinjam suas origens, suas causas, seus fatores geradores.

Assim, é o caso de se começar enquadrando corretamente essa necessidade, pois a população clama por efetivos instrumentos e mecanismos de proteção que baixem o nível de insegurança no ambiente em que se vive. Em miúdos, o povo (que não é especialista, mas, sim, demandante) clama por “segurança”, quando, na verdade, ele quer é proteção, pois o ambiente de segurança é uma utopia, vez que é totalmente impossível eliminar vulnerabilidades no tecido social e/ou acabar com as ameaças ao corpo social.

Portanto, uma necessidade fundamental é a delimitação conceitual, destacando-se aqueles conceitos mais heterogêneos, para que “se fale a mesma língua”. De início, ratifica-se que segurança não é um produto, não é sinônimo de proteção, mas, sim, é consequência.

Outro fato diz respeito à interpretação de certas informações estatísticas.

Comparando-se as relativas a janeiro e fevereiro de 2015 e 2016, fica visível que a criminalidade violenta volta a aumentar em nosso Estado. Os números mostram que o roubo teve alta de 32,19%, o furto de 8,63% e a extorsão mediante sequestro cresceu 43,4%. Considerada a incidência apenas na Capital, os percentuais de aumento foram, respectivamente, de 40,64%, 14,94% e 166,6%.

Esses dados são suficientes para uma abordagem preliminar, visando a identificar-se por que isso está ocorrendo e que correções devem ser feitas.

A mídia tem divulgado manifestações (sob minha óptica, equivocadas) de integrantes de certos segmentos, nas quais afirmam que esse crescimento é decorrente do aumento do desemprego, da pobreza e da desigualdade social. Absolutamente discutível essa posição, para não se dizer, de pronto, equivocada!

Comparem-se as taxas de desemprego em alguns países, aleatoriamente, com suas respectivas taxas de homicídios: Argentina 6,6% e 6,1; Austrália 6% e 1,1; Brasil 9% e 25,0; Chile 6,56% e 4,6; Espanha 20% e 0,8; Itália 10% e 0,9; Portugal 12% e 1,4; Rússia 6% e 13,1; Venezuela 6,0% e 57,6.

Quanto à pobreza, lembra-se que a Índia é o segundo país mais populoso do mundo (1,2 bilhões de habitantes), com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,61 e uma taxa de criminalidade de 1,63 crimes por 1.000 habitantes. Comparando-a com os números do Brasil, temos 204 milhões/hab, IDH de 0,74 e a taxa de homicídios (divulgada) é de 25,0 (a ONU acredita que beira os 32,0).

Já, em relação à desigualdade social, ao comparar-se o Índice Gini (IG), que mede a desigualdade de renda, e o nível de segurança – NS – (englobando número de homicídios, de crimes violentos, percepção da criminalidade, terrorismo e mortes no trânsito), que é dos aspectos analisados para obtenção do Índice de Progresso Social, encontramos os IG e NS nos seguintes países: Argentina: 44,5 e 62º lugar; Austrália: 36,2 e 118º; Brasil: 54,7 e 11º; Chile: 52,1 e 94º; Espanha: 34,7 e 109º; Itália: 36,0 e 84º; Portugal: 38,5 e 114º; Rússia: 40,1 e 23º; Venezuela: 44,8 e 3º lugar.

Fica evidente que desemprego, pobreza e desigualdade social não são causas de aumento da criminalidade, ao contrário do propagado por aqueles que confundem marginal com marginalizado. Afinal, nem todo marginalizado é bandido e nem todo bandido é marginalizado. Pode ser discutida a hipótese de a cobiça, a inveja, o egoísmo serem, dentre outros, fatores residuais que estimulem o crime, em razão de fragilidade de caráter de seus autores”.

 

Prioridade na reforma

O governador Fernando Pimentel anuncia nesta segunda, dia 2, a tão prometida reforma administrativa. Tomara que não se esqueça da questão prisional, que está se tornando mais grave a cada dia e ameaça reviver aqueles tempos de “ciranda da morte” quando presos se matam para ganhar mais espaço nas celas. Sabemos que no país são mais de 600 mil presos, empilhados porque as vagas não chegam a 400 mil. Como Minas Gerais tem dez por cento de todos os números nacionais, bons ou ruins, aqui somos 64 mil presos e um déficit superior a 24 mil.

Para se ter uma ideia de como a necessidade é desproporcional à realização, vale refletir sobre números. No intervalo de 12 anos entre 2003 e 2014, ou seja, nos governos Aécio Neves, Antonio Anastasia e Alberto Pinto Coelho, a população carcerária de Minas Gerais saltou de 23.298 para63.557 pessoas. No entanto, no mesmo período, o governo do Estado criou apenas 15.768 vagas para presos, gerando um déficit acumulado de 24.511 vagas. No último governo, de 2011 a 2014, o número de presos em Minas aumentou em 16.863, de 46.694 para 63.557, mas foram criadas apenas 2.710 vagas, produzindo em quatro anos um déficit acumulado de 14.153 vagas.

O governo Fernando Pimentel abriu 1.277 vagas para presos num intervalo de um ano e quatro meses. Estão em obras quatro presídios, com 1.128 vagas, e quatro centros de reintegração social do Método Apac, com 492 vagas, totalizando 1.620 vagas adicionais. A população carcerária do Estado, seguindo a tendência nacional, continua a crescer. No fim de 2015, subiu para 66.799 presos, 3.242 a mais do que no fim de 2014. O sistema prisional absorve atualmente mais de 80% do orçamento da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds): R$  1,76 bilhão de R$ 2,16 bilhão. As principais despesas da Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) sãopessoal (R$ 1,45 bilhão), alimentação (R$ 274 milhões), e água (R$ 67 milhões). Vale ressaltar que o orçamento da Seds previsto na LOA de 2016 embute um déficit aproximado de R$ 150 milhões, o que explica o fato de pessoal, alimentação e água, somados superarem a orçamento total da Suapi.

Minas Gerais tem hoje um quadro de 18.294 agentes penitenciários, o que resulta numa relação de um agente para 3,2 presos, bem superior à proporção recomendada pelo Ministério da Justiça, que é de um agente para cada 5 presos. O número considera apenas a população carcerária existente em abril de 2016 – 58.879 presos - nas unidades da Suapi, excluídas a Parceria Público Privada Prisional (PPP) de Ribeirão das Neves, as Apac’s e as carceragens da Polícia Civil, que não possuem agentes penitenciários empenhados na segurança interna. No atual governo, o quadro de agentes penitenciários teve um aumento de 1.451 servidores em relação a dezembro de 2014, ou seja, houve um crescimento de 8,6%. Essa evolução foi garantida com a nomeação de pessoas aprovadas em concurso público e a dispensa de parte dos servidores sob contrato, o que fez o número de efetivos subir de 5.896, em 2014, para 8.995 em 2016 (+52%).

A solução? Não sou capaz de oferecer, mas, a sugestão é destinar mais atenção ao sistema prisional, urgentemente, quem sabe criando uma pasta para cuidar exclusivamente do tema e reservando outra (de Segurança Pública) para fazer a interlocucão entre as polícias.

 

 

Entropia e anomia

Por meu pai, minha mãe, minha mulher, as duas filhas e pelos (poucos) amigos que me desanimaram de entrar para a política – nas raras vezes que seriamente cogitei – eu digo obrigado! E aproveito para agradecer a Deus os talentos que me deu e que procuro multiplicar, estudando, refletindo, me redimindo de forma a não precisar sair dos trilhos para sobreviver com conforto. O que todos nós vimos ontem, ao vivo e direto do Congresso Nacional, é espetáculo que dispensa quaisquer adjetivos ou discursos acerca da tragédia que é a nossa democracia representativa.

E estar dentro dela só é possível para três tipos de pessoa: os jovens sonhadores (sonhar é bom, mas tem de ter prazo de validade), os espertalhões sem limites que procuram o guarda-chuva da imunidade e os meninos bobos cujos papais e vovôs fazem da política a profissão deles até por que na maioria esmagadora dos casos, falta-lhes cociente de inteligência para outra profissão de destaque, como fazem questão os amantes do faz de conta. A política de pai prá filho no nosso país é asquerosa porque não exige do herdeiro qualquer aptidão, respeito ou gosto pela coisa pública.

Quando vejo aquelas figuras caricatas no papel de crianças carentes, que vão ao parque pela primeira vez, me pergunto se não deveria ouvir Martin Luther King e sua frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Como posso ficar aqui, falando mal, ao invés de disputar eleição, buscar um mandato e contribuir, tratar o mandato com o mínimo de seriedade? Por que não aproveitar a exposição que o jornalismo me dá, me deixar seduzir pelas sugestões de candidatura de todo dia e dos convites para filiação que sempre aparecem? Quando me vejo no auge da dúvida, levo um beliscão da consciência advertindo que no rádio, na TV, no jornal ou em outro meio, sem cor partidária, posso ser mais útil. E logo retomo a convicção de que o meu caminho é outro. Até por que já não sou mais menino e fatalmente teria a saúde afetada pelo convívio diário com algumas figuras que frequentam o Congresso Nacional. Não gostaria de toma café toda tarde com Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Paulinho da Força e adjacências.

Sempre é bom lembrar que os deputados não caíram do céu; nós os colocamos lá, com nosso voto. E, para o bem da democracia representativa que temos, é bom respeitá-los (quem acha que a outra forma, direta, pode ser melhor deve ver imediatamente uma assembleia de condomínio). Os senhores deputados e as senhoras deputadas são o retrato do nosso país, da nossa sociedade. Temos de aguentar a frieza do Cunha, que não reage ao ser chamado de gangster; tolerar idiotice, hipocrisia e má fé de tantos porque assim é a vida... Como ela é!

Pense comigo o que é pior: gente como o Jair Bolsonaro que defende torturadores, odeia gays e outras minorias ou o Jean Willys, que defende as liberdades e cospe em Bolsonaro? Pior é a turma da direita, o reacionário que agora vai lutar por mais 100 anos sem qualquer chance de ascensão para os pobres ou o militante de esquerda, petista aborrecido que encheu nossa paciência durante décadas, patrulhou todo mundo 30 anos e, tendo chance de poder, meteu a mão com força, com sede de roubar e errar, a ponto de se misturar com Renan, Sarney, Collor e todos os outros coronéis?

Quem deixa mais intrigada a nossa cabeça: o Newton Cardoso Júnior votando contra a corrupção ou a Jô Morais pedindo respeito depois de 13 anos de indecência na cozinha de seus companheiros? E os religiosos, hein? Falando de Deus... Sei que vou passar pelo umbral e estou me preparando; caso contrário, não desejaria vê-los lá. Não consigo ser bom o bastante para chamar essa elite política de irmã.

Nietzsche falou que, quando a gente acorda, de noite, sobressaltado, os fantasmas que já vencemos voltam para nos assombrar. Como não conseguia pegar no sono de domingo pra segunda, lembrei-me do amigo e conselheiro Luís Borges que tem falado muito sobre duas palavras. Diz ele que nos sentimos na “anomia”- estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, ou, não nos sentimos representados por aqueles senhores; e que, no mundo de nossos governantes o tempo é de “entropia” - em termodinâmica, é a medida de desordem das partículas em um sistema físico - no contexto das partículas, como sabemos, ao sofrerem mudança de temperatura, os corpos alteram o estado de agitação de suas moléculas. Então considerarmos esta agitação a desordem do sistema.

Diferenças inexplicáveis

Nada me aborrece mais no futebol que essa conversa fiada de poupar jogador. Os técnicos de futebol – maiores inventores que a humanidade já produziu – reclamam de falta de tempo para treinar e, quando ganham a oportunidade de testar o conjunto, insistem na escalação de times que já foram chamados de misto e agora são alternativos. Esse Aguirre é imbatível em substituir mal e entrar com time reserva na hora errada. O exemplo do último domingo é dos mais doídos em nós, atleticanos, porque ele coloca o nosso melhor jogador, recém operado, e poupa uma defesa inteira que, sabemos, carece de jogo e mais jogo porque não nos passa a menor segurança. O Marcos Rocha (apesar de os verdadeiramente cronistas esportivos pensarem diferente) é, para o corneta aqui, razoável no apoio e inexistente na marcação. O Douglas, que parece ter futuro, estava irreconhecível contra aquele time de pelada do Equador. Já Leo Silva e Erazo nos dão um susto a cada jogada do adversário, revelam-se lentos por baixo e pelo alto... E estão descansando.

Com certeza, alguém está pensando agora: como pode esse moço que não frequenta centro de treinamento, não conhece medicina esportiva e nem estudou fisiologia ficar aí falando asneiras. Falo por comparação. Vejo o melhor time do mundo jogar duas vezes por semana e, quase sempre, sem um ou dois jogadores, mas, com o núcleo sempre presente. Então, se Messi pode jogar a temporada inteira por que temos de entender tanto descanso para o time que, quinta passada, lá no Equador, parecia um monte de desconhecidos, peladeiros desinteressados, apáticos...

Outra comparação, que posso fazer depois de ouvir, na noite de sábado, o amigo João Vitor Xavier, ao vivo, de Brasília, entrevistando os jogadores do Sada Cruzeiro. Ele bateu um ótimo papo com o Leal, um verdadeiro monstro nas quadras que, na manhã seguinte, espantava o mundo com sua performance. Repetindo: Leal estava concentrado, doze horas antes de começar a decisão, e dava entrevista tranquilamente, Ao lado dele, no mesmo hotel, batendo papo descontraidamente, sua família e as dos colegas. Ah, os adversários também... Todos no mesmo hotel, confraternizando, comemorando o ótimo desempenho na Liga. No dia seguinte, três horas de um jogo espetacular... Sem frescura, sem cara feia.

Voltemos ao Diego Aguirre: o Atlético tem hoje um dos melhores elencos dos tempos recentes, ele escala mal, substitui pior ainda, coloca Carlos Cesar no lugar de Robinho, mantém Patric e tira Cazares, e, quando a gente olha para o túnel, lá está, com mais dois ou três cidadãos de sua confiança, conversando no pé do ouvido, com a mão na boca, como se estivessem lendo direitinho o que acontece dentro do campo. Mas, fazem tudo errado. E lá se foi a Primeira Liga, vexames no Mineiro e a Libertadores...

Por que os treinadores são tão teimosos?

Por que, agora que inventaram equipamentos que sondam o “estresse muscular” estão em ação, ficam nessa frescura de poupar jogador? Vez por outra um deles machuca no treino...

O Givanildo, depois do jogo desse domingo, disse que a semana não é o ideal para entrar nas semifinais... Quando é que ele vai ter o time pronto? E, com o devido respeito aos americanos, alguém aí duvida que a permanência da serie A será muito curta com o atual elenco?

Nunca passei de peladeiro falador, mas, tenho certeza absoluta de que jogador gosta é de jogar. Jogar é uma das maiores alegrias. Vamos parar de complicar e por a turma em campo, para justificar os altíssimos salários...

Poesia, a voz da alma

Queria falar de uma coisa, que não fosse crise, política, desemprego, intolerância, irritabilidade... Aí, encontrei no blog “Observação e Análise” texto de Sérgio Marchetti, educador, palestrante e professor, que divido com os amigos, convencido de que é o melhor remédio para dias tão sombrios:

“Quero falar de uma coisa. Advinha onde ela anda. Pode estar dentro peito ou caminha pelo ar.” (Milton Nascimento e Wagner Tiso).

Quero falar da poesia. Dizem que ela morreu. Que ninguém mais declama versos, nem se lembra dela. É que os tempos são outros – menos versados e mais proseados. Confesso que já tive uma paixão muito forte por ela. Andamos juntos na mesma estrada. Depois veio o tempo…

Lamento que não tenhamos mais a leitura de poemas, como faziam os alunos de antigamente. Sinto falta também de poetas. Eles eram um misto de homens e santos. Hoje, dizem que alguns desses homens eram chatos. Mas o mundo era melhor quando tínhamos mais poetas do que ladrões.

Quero chorar pela morte da poesia e prestar minha solidariedade aos poetas vitimados pelo vento devastador – efeito colateral da contemporaneidade. Sei que os mais jovens nem vão me entender, porém remeto minhas palavras àqueles que conheceram e que conviveram com a poesia. Ela foi cupido de muitos casais apaixonados. Era universal e serviu, tanto aos amores realizados como aos nunca correspondidos. Servia de catarse. Aliviava dores, sobretudo dores de amor. Possuía muitos trajes, várias formas e também deu voz aos insatisfeitos com governos e outras situações.

Confesso que não sei definir o que é poesia. Mas imagino que sua finalidade não era a de atacar e sim de conquistar, de exaltar. Seus alvos eram os corações das pessoas amadas. Os poetas eram os magos do amor.

“Poetas, seresteiros, namorados, correi/ É chegada a hora de escrever e cantar/ Talvez as derradeiras noites de luar …” (Gilberto Gil)

O que era poesia? A pureza das donzelas? O respeito ao próximo ou os versos inteligentes de outrora? Talvez tudo isso fosse poesia. No seu período de esplendor, a poesia tinha variadas linguagens que veneravam

um amor ideal. Sei, caros leitores, que isso tudo é apenas fantasia. Então a poesia é uma ilusão? Penso que em parte sim. E este pensamento está representado nestes versos:

“o poeta é um fingidor/ e finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente…” (Fernando Pessoa, psicografado).

Convenhamos, pense em você, seu traje de executivo não é uma fantasia? Sua maquiagem não é uma forma de se fantasiar? A vida é ilusão, “é o sopro do criador numa atitude repleta de amor” (Gonzaguinha).

A poesia, se estivesse em uso, provavelmente poderia atenuar os “sapos” que engolimos em nossa rotina do dia-a-dia. Antes se fazia poesia. Hoje se faz terapia.

“O imposto, a conta, o bazar barato/ O relógio aponta o momento exato/ da morte incerta, a gravata enforca/ o sapato aperta, o país exporta/ E na minha porta, ninguém quer ver/ Uma sombra morta, pois é, pra quê?”(Sidney Miller)

Dizem que ser poeta é ser “brega”. Mas antes era característica de destaque social e cultural. Havia o poeta do bem. Havia o poeta do mal. Também havia o poeta ruim. Oscar Wilde, o talentoso escritor irlandês, disse que “os verdadeiramente grandes poetas escrevem a poesia que não conseguem viver; já os poetas medíocres vivem a poesia que não conseguem escrever – por isso são tão encantadores”.

Com tudo isso eu afirmo que a poesia pode ser ressuscitada. “Mas há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. (M.N. e W.T.).

Para quem tem mais de 60

Circula na internet texto atribuído a Gustavo Krause do qual gostei muito e quero dividir com o maior número possível de pessoas, em especial aqueles que, como eu, se aproximam as seis décadas de existência:

“Dicas para quem já passou dos 60 anos.

A primeira delas: É hora de usar o dinheiro (pouco ou muito) que você conseguiu economizar . Use-o para você, não para guardá-lo e não para ser desfrutado por aqueles que não tem a menor noção do sacrifício que você fez para consegui-lo. Geralmente as pessoas que não estão sequer na família: genros, noras, sobrinhos. Lembre-se que não há nada mais perigoso do que um genro ou uma nora com ideias. Atenção: não é tempo para maravilhosos investimentos, por mais que possam parecer, eles só trazem problemas e é hora de ter muita paz e tranqüilidade. Pare de preocupar-se com a situação financeira dos filhos e netos. Não se sinta culpado por gastar o seu dinheiro consigo mesmo. Você provavelmente já ofereceu o que foi possível na infância e juventude como uma boa educação. Agora, pois, a responsabilidade é deles. Já não é época de sustentar qualquer pessoa de sua família. Seja um pouco egoísta, mas não usurário. Tenha uma vida saudável, sem grande esforço físico. Faça ginástica moderada (por exemplo, andar regularmente) e coma bem. sempre compre o melhor e mais bonito. Lembre-se que, neste momento, um objetivo fundamental é de gastar dinheiro com você, com seus gostos e caprichos e do seu parceiro. Após a morte o dinheiro só gera ódio e ressentimento. Nada de angustiar-se com pouca coisa. Na vida tudo passa, sejam bons momentos para serem lembrados, sejam os maus, que devem rapidamente ser esquecidos. Independente da idade, sempre mantenha vivo o amor. Ame o seu parceiro, ame a vida, ame o seu próximo… Lembre-se: “Um homem nunca é velho enquanto se lhe reste a inteligência e o afeto”. Seja vaidoso, cabeleireiro freqüente, faça as unhas, vá ao dermatologista, dentista, e use perfumes e cremes com moderação. Porque se agora você não é bonito, é, pelo menos, bem conservado. Nada de ser muito moderno triste e doloroso ver pessoas com penteados e roupas feitas para os jovens.Sempre mantenha-se atualizado. Leia livros e jornais, ouça rádio, assista bons programas na TV, visite Internet, com alguma frequência, envie e responda “e-mails” use as redes sociais, mas sem estresse ou para criar um vício. Chame os amigos. Respeite a opinião dos jovens. Muitos deles estão melhor preparados para a vida, como nós quando estávamos a sua idade. Nunca use o termo “no meu tempo¨. Seu tempo é agora, não se confunda. Pode lembrar do passado, mas com saudade moderada e feliz por ter vivido. Não caia em tentação de viver com filhos ou netos. Apesar de ocasionalmente ir alguns dias como hóspede, respeite a privacidade deles, mas especialmente a sua. Pode ser muito divertido conviver com pessoas de sua idade. E o mais importante, não vai funcionar com qualquer um. Mas sim se você se reunir com pessoas positivas e alegres, nunca com “velhos amargos”.Mantenha um hobby. Você pode viajar, caminhar, cozinhar, ler, dançar, cuidar de um gato, de um cachorro, cuidar de plantas, cartas de baralho, golfe, navegar na Internet, pintura, trabalho voluntário em uma ONG, ou coletar alguma coisa. Faça o que você gosta e o que seus recursos permitem. Aceite convites. Batizados, formaturas, aniversários, casamentos, conferências … Visite museus, vá para o campo … o importante é sair de casa por um tempo. Mas não fique chateado se ninguém o convidou. Certamente, quando você era

jovem também não convidava seus pais para tudo. Fale pouco e ouça mais. Sua vida e seu passado só importam para você mesmo. Se alguém lhe perguntar sobre esses assuntos, seja breve e tente falar sobre coisas boas e agradáveis. Jamais se lamente de nada. Fale em um tom baixo, cortês. Não critique qualquer coisa, aceite situações como elas são. Tudo está passando. Lembre-se que em breve voltará para sua casa e sua rotina. Dores e desconfortos, apresentará sempre. Não os torne mais problemático do que são. Tente minimizá-los. No final, eles só afetam você e são problemas seus e do seu médico. Lamentações nada conseguem. Permaneça apegado à religião. Mas orando e rezando o tempo todo como um fanático, não conseguirá nada. Se você é religioso, viva-o intensamente, mas sem ostentação. A boa notícia é que “em breve, poderá fazer seus pedidos pessoalmente” Ria-se muito, ria-se de tudo. Você é um sortudo, você teve uma vida, uma vida longa, e a morte só será uma nova etapa, uma etapa incerta, assim como foi incerta toda a sua vida. Não faça caso do que dizem a seu respeito, e menos do que pensam de você. Se alguém lhe diz que agora você não faz nada de importante, não se preocupe. A coisa mais importante já está feita: você e sua história, boa ou ruim, seja como foi. Agora se trata de uma jubilação, o mais suave, em paz e feliz possível.

E lembre-se: “A vida é muito curta para beber vinho ruim”

Em cima do muro

Na sexta-feira da semana passada um ouvinte mandou a mensagem de voz pelo WhatsApp: “Desce do muro, Eduardo!”. Fiquei atordoado, disse que não havia por que me posicionar contra ou a favor do governo Dilma, e segui em frente. Nos dias que se seguiram, aprendi respostas muito mais qualificadas e convincentes para o ouvinte, cujo nome é Valdemar.

No sábado, participei de um encontro de mídias em São Lourenço e lá estava o grande Zuenir Ventura que, em dado momento, afirmou: “O jornalista não tem camisa; não deve vestir a camisa deste ou daquele time, deste ou daquele partido; o jornalista não deve vestir a camisa nem da empresa em que trabalha, mas, sim, se posicionar em cima do muro para que, de lá, possa contemplar os dois lados”. Fiquei estupefato com aquela simples e rica resposta que poderia ter dado ao Valdemar.

Na segunda-feira, recebi do amigo Luís Borges texto muito legal da Eliane Brum sobre o momento em que vivemos e, em determinado trecho, ela sentenciou: “Recusar a polarização, não aderir a um lado nem ao outro, não é ficar em cima do muro: ao contrário, é posição”.

Agora, fortalecido por argumentos irrefutáveis, quero agradecer ao Valdemar pelo questionamento... São ouvintes, leitores e telespectadores que vão além de aceitar nossa mensagem os que mais contribuem com o crescimento profissional do jornalista, pois, nos obrigam a pensar, buscar uma resposta que convença não apenas ao inquiridor, mas, a nós mesmos. E é exatamente isso que devo dizer a quem quiser saber: estou em cima do muro, com todas as letras.

De um lado estão os que defendem o governo petista. E têm sim razão quando comemoram a retirada de 36 milhões de brasileiros da situação de extrema pobreza, que houve aumento expressivo do salário mínimo (262 por cento em 12 anos), com 72 por cento de reajuste além da inflação e dezenas de milhões ascenderam a nova classe trabalhadora, que pobre passou a andar de avião, que muitos humildes tiveram mais direitos trabalhistas (confirmem com as empregadas domésticas), que mais pobres tiveram sim aumento de renda, a casa própria chegou para muitos, foram criadas 18 universidades, pobres chegaram à faculdade e alunos de escola pública tiveram mais chance de chegar a um curso superior.

Do outro lado estão os que querem Dilma fora e Lula na cadeia. E têm sim razão quando lamentam a roubalheira desenfreada que não foi inventada pelo PT, mas, ganhou corpo, forma e cinismo exatamente com os que juraram por 30 anos fazer diferente. Durante o “mensalão”, Lula só dizia que não sabia, não via e não ouvia; no “petrolão” ele só abre a boca para acusar a mídia, os golpistas e os meninos promotores de perseguição quando poderia, apenas, explicar de vez sua presença naquele sítio de Atibaia e sua participação na reforma do apartamento do Guarujá.

Se Dilma vai cair, não sei, mas, seguramente o Congresso que vai destituí-la carece de moral porque é comandado por um Renan de folha corrida volumosa e um Eduardo Cunha que dispensa comentários. Como gostaria de acreditar que, com Dilma fora, teríamos um líder capaz de fazer a transição, devolver o Brasil aos trilhos. O problema é que o país está aplaudindo Jair Bolsonaro...

Estou em cima do muro. E, pelo visto, não desço tão cedo; afinal, daqui exerço o princípio básico do meu trabalho que é considerar o fato... E qualquer fato tem, no mínimo, duas versões.

Dizer o quê?

O que escrever diante das últimas notícias na política do país?

De minha parte, apenas uma frase: pelo que consigo farejar (esta é a palavra porque nunca fui da intimidade ou frequentei os bastidores do poder) em quase quatro décadas de jornalismo, tudo o que o senador Delcídio disse é verdade. E é pouco. Com as raras exceções que toda regra exige, ser político significa entrar no sistema e este é de falsidade, safadeza e conchavos, além de acordos indecentes e vantagens pessoais, seja através de dinheiro, viagens, encaminhamento de parentes, sexo ou qualquer outra benesse.

No mais, gostaria de transcrever um e-mail de Morávia, uma senhora de 34 anos, mãe de três filhos:

“Gostaria de manifestar a minha indignação contra esse País. Como pode haver tanta malandragem e manobras para que os responsáveis pelos atos de corrupção (independente de partido) desse país possam escapar ilesos e ainda com o bolso cheio de dinheiro? Não tenho muito conhecimento sobre política, mas gostaria de saber se não existe ALGUÉM ou ALGUM ÓRGÃO que possa paralisar as nomeações da presidente da República. Será que em nosso País não há políticos honestos que possam ter voz ativa? Até quando teremos que aguentar essa hipocrisia e essa falta de respeito com os cidadãos sai para trabalhar cedo, pagar seus impostos corretamente e ainda tem a árdua missão de ensinar aos seus filhos que ser honesto vale a pena? Não consigo entender esse país!!

Aonde já se viu o auxílio reclusão ser superior ao salário mínimo?!

Pessoas passam mais de 5 meses do ano trabalhando para pagar os impostos?!Caos na educação! Caos na saúde! E ainda existem manobras para proteger verdadeiros "LADROES" da sociedade. Custo a acreditar que isso não possa ser impedido (nomeação do Lula como Ministro da Casa Civil)! Além de receber o salário de "ex-presidente" vai receber salário como Ministro e ainda se livrar de uma boa cadeia. Agora como ele pode assumir um cargo de tamanha responsabilidade sem ao menos ter um curso Superior? É brincadeira! E depois precisamos dar credibilidade a "Concursos Públicos", e ao nosso governo. Posso ter misturado vários assuntos (que me perdoe meus professores que sempre me ensinaram a ter coerência em nossas redações) mas a indignação é tanta que as vezes é difícil concentrar em um só assunto. A única coisa que posso dizer que estou "À espera de um Milagre"! A cada dia cresce em mim a vontade de ir embora desse país que é uma VERGONHA!”.

Nas ruas, sem lenço, sem documento!

Como ocorreu em praticamente todas as manifestações de rua, em Belo Horizonte, desde 1977, estarei trabalhando no domingo. Esse detalhe me desobriga de reflexões sobre a conveniência de ir ou não, mas, aumenta a responsabilidade sobre o que dizer, especialmente porque a cobertura no rádio é ao vivo, de improviso, não permite deslizes, não admite retoques. Falou; tá falado! E quero dividir com vocês o quanto o sentimento é de amargura, mais desta vez do que em 2013, 2002, 1984...

Na transição dos anos 70 para 80, do século passado, levava pedrada na cabeça, corria do cachorro e era atropelado pelo cavalo da polícia (foram 11 pontos de uma só vez), via espertalhão discursando, soldados a marchar sem saber direito para onde ir e por que, idealistas apanhando, mas, havia em meu peito uma certeza – a de que era um processo, a passagem de um tempo de escuridão para a luz, da tortura para a esperança e das sombras para a transparência. Naqueles tempos, vez por outra eu era destacado para entrevistar um barbudo, sindicalista, que falava com a língua enrolada, atirava para todos os lados e empolgava por suas posições corajosas. Era Lula que, de tão carente, um dia ficava no Hotel Wembley (do Zé de Alencar), outro no Normandy, às vezes na casa do Dídimo, outras com o João Paulo... Lula era para mim e milhões a representação do brasileiro que nasceu pobre, foi humilhado, venceu no chão de fábrica e queria desmanchar o poder das elites, que mandam desde 1500. Certa vez, ouvi Lula dizer:

“Eu conheci o pão pela primeira vez com 7 anos de idade, até então o café da manhã era acompanhado com farinha de mandioca e sei o que é desespero de uma mãe diante de um fogão sem gás com meninos em volta”.

Lula chegou lá, manteve a política econômica que arrepiava seus pares, combateu a fome, aumentou o salário mínimo, reduziu a mortalidade infantil, correu o mundo. Eu vi o encantamento dos indianos e chineses acompanhando visita dele ao outro lado do mundo. Torcia por ele e custava a me conter diante dos que não aceitavam aquele operário sem dedo sendo chamado de “o cara” por Barack Obama.

Mas, a mosca azul picou Lula. E ele passou a andar na companhia dos endinheirados, na política era abraço para Collor, Sarney, Renan...

O tempo passou, cá estamos de novo nas ruas. Agora, sem uma só liderança nacional capaz de nos fazer ouvir um discurso de credibilidade. A esperança venceu o medo, Lula e sua turma mataram a esperança, e os que sonham com os pobres no poder vão esperar mais 500 anos. Se fosse para a praça domingo como manifestante, provavelmente levaria um cartaz com os seguintes dizeres: “Mãe, me dá um colo”.

O mosquito bate à porta

O tal mosquito que transmite a dengue, a zika e outras doenças é um desses sacolejos que Deus nos dá para mostrar o quanto somos pequenos e desunidos. Como pode um inseto aparentemente frágil e cuja proliferação depende de condições especiais, criadas pelos humanos, fazer tanto estrato e trazer tanta preocupação ao mundo inteiro?

A cada dia me pergunto por que a gente chega a um buraco desse tamanho. A falta de políticas públicas, de preocupações efetivas o que realmente importa, a indiferença dos governantes e à nossa orgulhosa mania de achar que o pior só acontece aos outros têm nos feito sofrer muito. E só piora. As doenças mais antigas, de nomes impronunciáveis estão de volta, matando, alarmando e nossos líderes políticos continuam falando de crise, roubalheira e eleições.

O coronel Alexandre Lucas, coordenador de Defesa Civil em Belo Horizonte, faz contas que não deixam dúvidas: Belo Horizonte tem 800 mil imóveis; considerando que a média nacional de domicílios não visitados pelas equipes de endemias é de 20 a 25 por cento – por conta de ausência do proprietário, residência fechada, imóvel em discussão judicial, etc., - podemos imaginar que 200 mil lotes, casas e prédios não são visitados na capital dos mineiros... Ora, levando em conta que, na média nacional, em quatro por cento das visitas são encontradas as larvas do “aedes”, pode-se afirmar que entre 8 e 9 mil domicílios de nossa cidade estão com focos do mosquito perigoso absolutamente fora de controle. O coronel chega a afirmar que os proprietários desses imóveis devem iniciar um processo de escolha, entre os familiares, daqueles que deverão adoecer e, pior, morrer.

Afinal, são 4 mortes confirmadas, dezenas esperando exames de laboratório, num cenário de 31 mil casos notificados, 24 mil aguardando confirmação, 6 mil já confirmados... Ou seja, o mosquito existe, está por aí, voa muito, não respeita limites de municípios, e mata. E a gente faz de conta que é lá no sul da África, algo perigoso, mas, distante. Há um hotel desativado na Rua Rio de Janeiro, o terraço inacabado do Mercado Novo na Olegário Maciel e um sem número de outros locais em que a água está parada, aguardando a chegada dos mosquitos.

Há um insistente pedido para que cada um de nós dedique dez minutos de seu tempo para o controle da proliferação, eliminando, em nossas casas, os locais ideais para procriação, que são vasos de flores, copos plásticos e qualquer lixo mal cuidado no terreiro. A gente não tem esse tempo. E continua vendo futebol, novela, tomando cerveja...

O mosquito é uma realidade e a gente não se deu conta.