minas gerais

A justiça tarda, mas… não (Será?) falha

No dia 28 de janeiro de 2004 quatro servidores do governo federal foram executados numa estrada de terra em Unaí, município do nordeste mineiro. Quase treze anos depois, os dois mandantes do crime continuam livres, embora condenados a mais de 100 anos de reclusão e, acreditem, quando foi buscar informações do processo na Justiça Federal, o ex-delegado do Ministério do Trabalho em Minas, foi informado de que “está desaparecido”. A colega Alessandra Mendes conseguiu uma nota da Justiça que não consigo ler para entender o que está acontecendo.

 
Meus amigos, os dois pistoleiros estão presos e prestaram depoimentos ricos em detalhes, permitindo completo entendimento da chacina, que foi cuidadosamente planejada. Os irmãos Norberto e Antério Mânica são grandes plantadores de feijão e se sentiam muito incomodados com a ação de um fiscal do Trabalho, de pré-nome Nelson. Decidiram matá-lo. Pediram ajuda aos cerealistas Hugo e Zé que, como capatazes, trataram de contatar Chico Pinheiro que, por sua vez, contratou os dois matadores no interior de Goiás. Valor da empreitada: R$ 45 mil.

 
Quando preparavam os últimos detalhes da execução, os pistoleiros descobriram que Nelson estava acompanhado de mais dois auditores fiscais e motorista, recém-chegados da capital e ligou para os contratantes. A resposta foi: “Tora tudo”. Dois tiros na cabeça de cada um. Não conseguiram sequer sair do banco do carro.

 
Treze anos depois, os pistoleiros estão presos. Quem os contratou, Chico Pinheiro, morreu na prisão. Zé e Hugo estão soltos, aguardando os intermináveis julgamentos. Os irmãos Mânica foram condenados a mais de 100 anos de prisão no dia 15 de outubro do ano passado e, até hoje, continuam em Unaí. Aliás, vale lembrar que o Antério, quando esteve preso (depois foi solto pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal) foi eleito prefeito da cidade. Isso mesmo, preso, acusado de mandar matar quatro servidores federais, foi escolhido no voto direto pelos conterrâneos.

 
Não bastasse tanta perplexidade, a pior notícia é que Carlos Calazans, delegado do Ministério do Trabalho à época e que continua brigando por uma condenação compatível com a crueldade, esteve recentemente na Justiça Federal e foi informado pelos juízes do caso que o processo estava “sumido”. A Itatiaia cobrou e, horas depois, veio uma nota que eu não consigo entender. Veja:
“Prezado Repórter,

Recebemos da 9ª Vara Federal a seguinte resposta:

No TRF/1ª Região tramitam as apelações dos seguintes processos:
2004.36647-4 (que recebeu o n. 36441-22.2004.4.01.3800) – concluso para relatório e voto,
8946-85.2013.4.01.3800 – concluso para relatório e voto,
36888-63.2011.4.01.3800 – recebido hoje neste Juízo; foi mantida a sentença de Rogério Allan.

Para informações detalhadas sobre esses processos que correm no Tribunal, pode-se entrar em contato com a assessoria de comunicação através do telefone (61) 3314-5379.

O processo 26932-52.2013.4.01.3800 já havia retornado com provimento parcial da apelação.

Aos condenados Rogério Alan, William Gomes de Miranda e Erinaldo de Vasconcelos Silva foi negado o direito de recorrer em liberdade e eles cumprem pena na Vara de Execuções Penais da Comarca de Contagem, onde poderão ser obtidas informações mais detalhadas.

Aos réus Norberto Mânica, Hugo Alves Pimenta, Antério Mânica e José Alberto de Castro foi concedido o direito de recorrer em liberdade, de modo que aguardam soltos o julgamento da apelação.

Atenciosamente,

Seção de Comunicação Social
Justiça Federal de Primeiro Grau em Minas Gerais
(31) 3501-1358/1402”

Eu amo meu quintal

Nos Estados Unidos, há um movimento que chamam de “I love my backyard” que significa, em tradução mais rápida e descomplicada, gostar da casa da gente, sentir o cheiro da varanda, criar galinha ou cultivar orquídeas nas árvores... Ser caseiro! Impressionante como cada vez mais eu quero ficar em casa, tenho preguiça da noite, dos eventos, de multidão e de agito. E me pergunto se não é a má velhice, rabugice, mas, imediatamente me tranqüilizo, pois, graças a Deus, continuo adorando a rua, caminhar na Praça da Liberdade ou no Parque Municipal, visitar o Catatau no Distrital do Cruzeiro e, principalmente, sentir cheiros e cores do Mercado Central.

 
Na verdade, estou mais recluso porque o mundo está mais chato. Não eu. Claro que a idade pesa. A paciência até aumenta com o tempo, só que a sabedoria de evitar a chateação atinge níveis divinos. Anos atrás encontrei o Nelinho – aquele mesmo, jogador raro, gente boa; bem casado com dona Wanda – e disse a ele que um dos meus sonhos era comprar uma casa nos morros de Novo Lima, para sentir o vento da montanha e, se possível, ver o sol nascer atrás da Serra do Gandarela. Ele advertiu: “Você corre o risco de ficar anti-social”. Fui e fiquei. Sair de casa, na sexta a noite, no sábado pela manhã ou a qualquer hora no domingo só se for por motivo muito especial, como comprar canjiquinha para os canários no Mercado.

 
Essa divagação resulta de uma experiência na última quarta-feira. Realizei um antigo sonho de minha mulher de ver Messi e Neymar. Os preparativos começaram 45 dias atrás quando pedi ao colega Mateus Castanha para comprar os ingressos. Especialista em internet, ele precisou de cinco horas para conseguir, depois de adiamentos, indefinições e uma canseira da CBF. Depois, teve de ir ao posto fixo retirar o ingresso. Não bastasse, ainda pagou 40 reais a mais por entrada a título não sei do quê. Quando falamos de sonho, superamos a extraordinária capacidade nossa de complicar as coisas simples. Detalhe: depois de anunciar por dias a fio que só teriam acesso ao Mineirão torcedores com ingresso, a entidade que comanda nosso futebol abusou das rádios para insistir, horas antes da partida, que 3 mil ingressos estavam encalhados. Mesmo assim, 53 mil foram e a renda superou 12 milhões de reais. Dinheiro que a gente não sabe se será utilizado para melhorar o esporte, dada a história da entidade.

 
Pior que a CBF, só a Bhtrans. Na verdade, ambas têm algo em comum: estão desmoralizadas. A nossa empresa de trânsito e transportes perdeu o direito de multar e passou a fazer de contas. Amigos, quantas vezes fui ao estádio com público de 80, 90, até 120 mil pessoas e, embora mais demorado, o tráfego fluía. Agora, depois da Bhtrans, impossível. Nesta quarta, sai as 7 da noite no Bairro Funcionários, esperei o táxi por 20 minutos na porta, consegui chegar as 8 na Avenida Carlos Luiz e, com a dica da repórter no rádio, resolvi sair do atoleiro mudando o curso, pelo Caiçara, Pedro II, Avenida Tancredo Neves, Bairro Ouro Preto e Avenida Fleming. Dali, minha mulher e eu corremos até o estádio aonde chegamos pouco depois das 9...
O tropeiro não é mais aquele, a couve das antigas tinha molho de tomate por cima que fazia a diferença... Ah, antes de o jogo começar, o arroz já tinha acabado. Tristeza. Dentro do estádio, não adianta ter cadeira numerada se o infeliz que está à frente insiste em ficar em pé. Tome bolinha de papel nele! E minha mulher apavorada – “Confusão não, é um jovem, de braços fortes, se resolve te bater...”. Na boa, como estragaram o estádio depois de gastar uma fortuna! Diminuíram o estacionamento pela metade, derrubaram árvores, fizeram um deserto de concreto e até a ventilação piorou... Lá dentro tá um calor danado!

 
E começa o jogo. Espetáculo. Tite é do ramo, Felipe Coutinho e Gabriel Jesus nasceram pro campo e Neymar é coisa do outro mundo. Espetáculo. Alegria pura! Vale a pena!

 
E, 3 a 0, fatura liquidada, 35 do segundo tempo, chamei minha mulher para irmos embora. Ela nem se mexeu, apenas resmungou: “Vou só quando acabar, sem pressa”. Advinha se, depois, caminhamos até a Antônio Carlos e tomamos táxi em cima de um viaduto, no meio de um monte de alucinados, disputando uma corrida? Enfim, uma da madrugada, em casa. Para quem precisava levantar as cinco e só conseguiu dormir as duas, esse jogo será mesmo inesquecível. Já avisei a patroa que sonho desses agora só daqui a dez anos!

 
E vou dizer uma coisa para o futuro: como sonhar com metrô na porta dos estádios, como no mundo inteiro, é demais, pelo menos, caro Kalil, faça alguém da Bhtrans pensar dois minutos sobre os eventos... Ah, peça também à companhia, a Guarda Municipal, a Polícia Militar, quem puder ajudar para colocar pelo menos um agente a cada dois quilômetros... Afinal, não há nada pior que estar encurralado, absolutamente abandonado, pensando no arrastão e não ver um funcionário público por perto…

 
Mas, faça isso para os outros, meus amigos, minhas filhas, pois, eu, cada vez mais, vou amar meu quintal, sem flanelinha, sem maus educados, sem incompetentes, sem aborrecimentos. A rua, atualmente, me lembra uma frase bem humorada: “O mundo é bom, está é mal habitado”.

O voto do desespero

Concordo com meu amigo Rodrigo Ferraz: o Kalil é personagem, maluco e inteligente. Agora, é saber qual dos três vai governar Belo Horizonte. Na primeira entrevista depois da vitória o inteligente já prevaleceu, quando acenou com o diálogo para a Câmara dos Vereadores e diminuiu o tom do discurso, sem, todavia, perder a contundência – e exemplo disso foi falar que pretende conversar com Alkmin... Aécio não. Ele deixa transparecer – embora eu não tenha dados concretos para dizê-lo – que o governador paulista deve sim ter agido na campanha do atleticano em Belo Horizonte sabendo que, com mais essa derrota, Aécio fica fragilizado. E como ficou.

 
Mas, por que Belo Horizonte escolheu Kalil? Por conta do desespero. De cada dez pessoas com as quais conversei, sete diziam que queriam Kalil porque cansadas das mesmas figuras, com os mesmos discursos. Os taxistas, por exemplo, acreditam que ele vai segurar o UBER, liberar o tráfego dos veículos na pista do “Move” e abrir a caixa preta da Bhtrans. A propósito, o futuro prefeito tem promessas que prometem barulho no cumprimento e uma delas diz respeito ao transporte por ônibus; afinal, as empresas que prestam o serviço passaram por licitação, têm seus direitos. Kalil também promete retirar as pessoas de áreas de risco, convencer os servidores a tratarem bem as pessoas e mais, muito mais. Até governar sem oferecer cargos a políticos ele prometeu. Aí, o presidente da Câmara, Wellington Magalhães, se antecipou e propôs a extinção dos 4 mil cargos comissionados que a PBH tem, o que, claro, inviabiliza qualquer governo.

 
Acho sinceramente um salto no escuro o que Belo Horizonte vai dar em janeiro do ano que vem. Nunca imaginei que pudéssemos escolher alguém com IPTU atrasado, 38 processos e uma condenação por não recolher encargos sociais dos trabalhadores para nos governar. Mas, quem sou eu para dizer que a maioria dos eleitores está errada. Na verdade, a maioria simplesmente não decidiu, pois, juntando abstenção, nulos e brancos os que não escolheram ganharam no primeiro e no segundo turno.

 
Agora, fazer o quê? Torcer contra, espalhar o apocalipse? Não, é torcer por Kalil. E pegar no terço, pois, com um presidente que muita gente não considera legítimo e um governador cheio de problemas com a justiça, se o prefeito for aquele que prefere taça a mulher e acha que igreja só serve para levar 10 por cento, estamos “no do zé esteves”.

Belo Horizonte não merece!

Este espaço tem o poder de diminuir minha frustração por não poder dizer ao vivo, no rádio e na TV, da minha tristeza com a tragédia que é a campanha neste segundo turno para a Prefeitura de Belo Horizonte. Impedido pela legislação eleitoral, estapafúrdia, grotesca e antidemocrática – por impedir que profissionais da mídia eletrônica se posicionem em relação aos candidatos exatamente às vésperas do pleito – sinto-me em dívida com a cidade que me abraçou, me viu crescer, me ajudou a ter emprego, amigos, família, vida digna. A capital de todos os mineiros vai se desintegrando aos poucos, sofre com administrações incapazes e o que vem por aí beira o desespero.

 

Belo Horizonte está se tornando a cidade proibida. Se chove, você não deve sair de casa, mas, se não tiver outro jeito, fique atento às placas e jamais se aproxime das áreas baixas, sob pena de morrer afogado; se morreu um parente, programe o velório para as 7 da manhã seguinte, sob pena de ser assaltado durante a noite, enquanto chora o ente querido; se quer evitar apuros, tenha sempre dinheiro vivo no bolso, pois, depois das 8 da noite – quando é importante existir caixa eletrônico – você não deve procurar as máquinas 24 horas porque poderá ser assaltado; a cidade tem mais de 100 parques, porém, convém evita-los, a maioria tem problemas sérios de conservação e segurança e o que é chamado de ecológico tem carrapato, que transmite a maculosa e mata; por falar nisso, o nosso patrimônio cultural da humanidade continua a selva das capivaras, dos jacarés, de eventos inapropriados e palco do faz-de-contas das autoridades; a briga de taxi x uber não teve solução; sequer a polêmica mais antiga, entre os taxistas de Confins e os de Belo Horizonte foi resolvida, assim, se você chega no nosso aeroporto internacional e a quer tomar o veículo credenciado pela empresa, não pode... Enfim, em Belo Horizonte os relacionamentos estão cada vez mais esgarçados, os vizinhos cada vez mais distantes e, quando um político quer aparecer, ainda vai aporrinhar os comerciantes do Mercado Central, último reduto da felicidade na antiga Curral Del Rey.

 
O pior, meus amigos, é que a campanha não nos deixa otimistas em relação ao futuro. Os dois candidatos não nos convencem porque não têm propostas, na verdade não puderam explicitá-las... Temos um festival de baixarias no rádio e na TV... Vamos acabar votando no Seu Geraldo, aquele que segundo um o outro não pagou, mas, segundo o outro, foi comprado pelo um. Consigo compreender a indisposição de muitos em votar no afilhado de Aécio Neves – também estou cansado do príncipe. O problema é o diálogo que tem ouvido com muita insistência. Um eleitor pergunta o outro como pode votar em alguém com tantas denúncias, tantos processos e o outro responde coisa do tipo “azar, se der errado, a gente tira...” O impeachment da Dilma parece ter desobrigado as pessoas da escolha consciente.

 
Sinto que temos duas opções tristes. E percebo que a maioria vai ficar com a mais arriscada. Não vou votar em branco, nem anular e muito menos bandear para o lado que vai vencer só para não perder. Me dá uma saudade danada do brasileiro que mais admirei – Darcy Ribeiro. E das frases maravilhosas que disse, a mais profunda me consola nas horas de angústia:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Sexagenário

Estou chegando aos 60. E quero dividir com vocês. Com alegria. Verdadeiramente. Até por que sexagenária é aquela pessoa ou coisa que completa o interregno de sessenta anos de existência ou de utilidade. A certidão confirma e sinto-me útil. Com certeza, cheio de equívocos, tanto que a única certeza hoje é a de que muito ainda irei aprender. Não me sinto velho, doente, acabado, mas, aceito pacífica e honrosamente a condição de idoso. Afinal, só quem viveu 60 anos sabe o que isso significa de desgaste dos neurônios, dos olhos, dos joelhos, da coluna, da virilidade… Mas, há o lado de melhor idade que é pensar duas vezes antes de errar, administrar os obstáculos, considerar a diversidade uma bênção e não um imbondo e, claro, comemorar o fato de que muitos ficaram pelo caminho. Ora, se Riobaldo tem razão – “o que a vida quer da gente é coragem doutor”- emplacar seis décadas merece velas, fogos e graças.

 
E, embora esteja aberto a um novo olhar sobre limites da velhice, considerando a longevidade cada vez maior dos humanos, passo, imediatamente, a exigir meus direitos. Não vou me constranger com as prioridades na fila, no transporte, no estacionamento… Fiz por merecer, trabalhei desde os 11, paguei impostos, respeitei o direito dos outros, nunca chamei aposentado de pé na cova e não devo nada a ninguém, exceto obrigações e o reconhecimento aos que contribuíram para para que o 26 de outubro de 2016 fosse possível.

 
Chegar aos 60 implica em aumentar um quilo a cada ano, um novo comprido também; olhar com mais cuidado onde pisar, sobretudo se temos a companhia dos bi-focais; sentar com jeito, deitar com leveza, levantar com cuidado, beber com moderação e rir de máximas como a que diz “não neglicencie um pum, não recuse um banheiro e jamais desperdice uma ereção”. Aos 60, temos maturidade suficiente para escutar (de verdade) quando interessa e fazer cara de paisagem na prosa ruim. Se o cara acha que Pelé não jogou muito, Roberto Carlos não tem valor e o Papa não é diferenciado a gente simplesmente diz “tá certo, amigo, desculpa, estou atrasado, fui”. Mesma coisa com o empolgado que quer te converter e o vizinho sabichão de mil ideias. Quando se tem 60, aquela colega de trabalho que fez pacto com a infelicidade já não lhe incomoda mais… Graças a ela, você valorize a esposa.

 
Não faço a menor ideia de até quando estarei neste plano. E – o que é melhor – isso não me incomoda nem um pouco. Se tiver de ficar por mais 30 anos, vou adorar, continuarei sofrendo para o Galo e rindo de piada ruim. Se amanhã for o meu dia, sigo feliz, absolutamente convencido de que dei o melhor de mim, tenho muitos acertos a fazer e, depois do umbral, virão dias ainda melhores que os de hoje… Que já são ótimos.
Se você leu até aqui é porque tem muita paciência ou quer ficar meu amigo… Então, vou lhe avisar: sou da civilização do oi, não tenho lealdade e persistência como Lúcio Braga; sou espalhafatoso, não tenho discrição como Célio Marcos; vejo três fatos ao mesmo tempo, posso até não ver, mas estou ligado como Geraldo Magela, o ceguinho; e um de meus defeitos é não ter o hábito da leitura, como Luis Borges. A propósito, agora vou lhe dar mais pistas, com três textos que Luis me mandou… O primeiro é o teste de DNA – Data de Nascimento Antiga. Vê se você é do meu tempo, respondendo com sinceridade:

01. Você já tomou Q-Suco?
02. Você bebia Grapette?
03. Sua primeira bebida alcoólica foi Cuba Libre?
04. Já comeu goiabada cascão?
05. Você tomou leite que vinha em garrafa de vidro com tampinha de alumínio?
06. Já tomou Cibalena?
07. Tomou Biotônico Fontoura?
08. Você cuidou de suas espinhas adolescentes com pomada Minâncora?
09. Sua mãe usava Violeta Genciana para cuidar de seus machucados?
10. Seu pai usava aparelho de Gillete com lâminas removíveis?
11. Sua mãe tinha secador de cabelos com touca?
12. Sua mãe usava Leite de Colônia?
13. Você jogava bilboquê?
14. Usava tampinha de guaraná para fazer distintivo de polícia?
15. Soltava bombinha de quinhentos em época de festa junina?
16. Você andou de carrinho de rolemã?
17. Brincou de queimada?
18. Você lembra quando o Ronnie Von jogava a Franjinha de lado, Meu Bem?
19. Você assistia Perdidos no Espaço?
20. Você sabia de cor a música de Bat Masterson?
21. Sabe quem foi Phantomas?
22. Quem foi Ted Boy Marino?
23. Você assistia ao Repórter Esso?
24. Assistia ao Toppo Giggio?
25. Assistia Vila Sésamo?
26. Você sabe quem foi Johnny Weissmüller?
27. Assistiu ao Vigilante Rodoviário?
28. Sabe quem foi Odorico Paraguassu?
29. Você se lembra o que era compacto
simples e o que era um compacto duplo?
30. Você já teve um Bamba?
31. Se lembra do Vulcabrás 752?
32. Você usava japona?
33. Quando estudava, os graus eram: primário, admissão, ginásio e científico?
34. Você chamava revista em quadrinhos de gibi?
35. Sua mãe tinha caderneta no armazém?
36. Usou bomba de flit?
37. Já andou de Simca Chambord?
38. Conheceu o Aero Willys?
39. E o Kharman Guia?
40. Já andou de Vemaguete?
41. Já usou gasolina azul no seu carro?
42. Sua mãe usava cera Parquetina?
43. Você se lembra do sabão em pó Rinso?
44. Da televisão com seletor de canais rotativo?
45. Sua mãe usava bombinha de laquê de plástico?
46. Ela chegou a usar meia com risca atrás?
47. E anágua?

Agora, se você quer saber para quem darei mais atenção depois dos 60, vou lhe contar um segredo: há dois anos pedi aos chefes na Itatiaia para sair da cobertura diária… Me afastei da Prefeitura, do Palácio, da Assembleia… Quero distância dos poderosos, o máximo que puder… E conviver com gente simples, fundamental no dia a dia, como o Reginaldo, motorista da Itatiaia e meu companheirão de duas décadas. Aos simples como ele gostaria de lembrar um texto maravilhoso. Veja só:
Charles Plumb era piloto de caça dos EUA e serviu na guerra do Vietnã. Depois de muitas missões de combate, seu avião foi derrubado por um míssil.
Plumb saltou de pára-quedas, foi capturado e passou seis anos numa prisão norte-vietnamita.
Ao retornar aos Estados Unidos, passou a dar palestras relatando sua odisséia e o que aprendera na prisão.
Certo dia, num restaurante, foi saudado por um homem: “Olá, você é Charles Plumb, era piloto no Vietnã e foi derrubado, não é mesmo?” “Sim, como sabe?”, perguntou Plumb. “Era eu quem dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem, não é verdade?” Plumb quase se afogou de surpresa e com muita gratidão respondeu: “Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje.”
Ao ficar sozinho naquela noite, Plumb não conseguia dormir, pensando e perguntando-se: “Quantas vezes vi esse homem no porta-aviões e nunca lhe disse Bom Dia? Eu era um piloto arrogante e ele um simples marinheiro.” Pensou também nas horas que o marinheiro passou humildemente no barco enrolando os fios de seda de vários pára-quedas, tendo em suas mãos a vida de alguém que não conhecia.
Agora, Plumb inicia suas palestras perguntando à sua platéia:
Quem dobrou teu pára-quedas hoje?
Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos seguir adiante. Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: um físico, um emocional, um mental e até um espiritual.
Às vezes, nos desafios que a vida nos apresenta diariamente, perdemos de vista o que é verdadeiramente importante e as pessoas que nos salvam no momento oportuno sem que lhes tenhamos pedido.
Deixamos de saudar, de agradecer, de felicitar alguém, ou ainda simplesmente de dizer algo amável. Hoje, esta semana, este ano, cada dia, procura dar-te conta de quem prepara teu pára-quedas, e Agradeça-lhe.
Ainda que não tenhas nada de importante a dizer, envia esta mensagem a quem fez isto alguma vez. E manda-a também aos que não o fizeram. As pessoas ao teu redor notarão esse gesto, e te retribuirão preparando teu pára-quedas com esse mesmo afeto.
Todos precisamos uns dos outros, por isso, mostra-lhes tua gratidão. Às vezes as coisas mais importantes da vida dependem apenas de ações simples. Só um telefonema, um sorriso, um agradecimento, um “Gosto de Você”, um parabéns…ou Simplesmente você é 10! Somos todos irmãos....voar é preciso....amizade é nescessária...o amor obrigatório.... Quem dobrou seu para-quedas hoje?

Por fim, como todo mundo tem de ter desconfiômetro, mas, especialmente os que falam muito como eu, faço minha a oração que circula nas redes sociais:

Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.
Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros.
Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando, com modéstia, a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.
( Esta é ótima, não?)
Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos, e que só se preserva os amigos e os filhos...... quando não há intromissão na vida deles...
Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá-me asas no assunto para voar diretamente ao ponto que interessa.
Não me permita falar mal de alguém.
Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças..
Elas estão aumentando e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada dia que passa.
Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; seria pedir demais.
Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com alguma paciência.
Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões.
Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçantes e desagradáveis.
Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento, peço:
Mantenha-me o mais amável possível.
Livrai-me de ser santo.
É difícil conviver com santos!
Mas um velho ou uma velha rabugentos, Senhor, é obra prima do capeta!!!!!
Me poupe!!!
Amém!

Crime e política

Duas frases que tenho ouvido com insistência irritante: judicialização da saúde e criminalização da política. Primeiro, tratemos da saúde onde a prosa revela um enorme prejuízo para os brasileiros, mas, infinitamente menor que no caso da política.

Prefeitos incompetentes, gastadores, muitos deles defensores daquela farra de emancipações que tivemos, com a criação de milhares de municípios sem condições de sobrevivência, vivem a reclamar do que chamam de judicialização... É quando um advogado ou promotor pede e o juiz defere, determina alguma providência como comprar um medicamento ou pagar uma cirurgia, às vezes até no exterior. Dizem que tais ordens estão abalando as finanças e quebrando administrações. Para justificar a grita, costumam afirmar que ricos estão se tratando com recursos dos cofres públicos graças a ações judiciais. Ora, primeiro pergunto: então, se o cidadão está doente, não recebe o remédio, não faz a cirurgia, o juiz não pode mandar o prefeito cumprir a lei? Se há irregularidades, abusos, por que não denunciá-los, em separado? Se rico está usando a saúde pública – e isso é verdade, pois, conheço abastados que buscam remédio no posto – qual o problema se o SUS foi criado para ser universal? Deve, portanto, atender a todos os brasileiros, desde os mais miseráveis até os que pagam muitos impostos, por terem mais.Os prefeitos, no lugar de diminuir cargos em recrutamento amplo, evitar as safadezas nas licitações e falar sério ficam buscando desculpas nesta palavra bonita: judicialização.

Agora, começaram a falar na criminalização da política. Ora, seria leviano dizer que todo político é criminoso, mas, com certeza, é pueril, para não dizer imbecil, ignorar que a prática da política no país é sim criminosa e, por tanto, deve ser criminalizada. Ou o que as oligarquias fazem em Brasília há décadas e décadas, séculos, é a boa política? O melhor exemplo ocorreu na noite de segunda-feira quando queriam, na calada da noite, aprovar um projeto indecente com dupla finalidade: acabar com a proibição de doação de empresas para as campanhas (que, com muito custo, conquistamos e agora vivemos a primeira eleição nesta nova realidade) e anistiar, isso mesmo, perdoar todos os que praticaram o chamado crime do Caixa 2, ou seja, receberam “por fora” para fazer campanha. São indecentes demais. E aí estão parlamentares do PSDB, do PT, do PMDB, todos eles... Foram uns dez deputados, da Rede e do PSOL, que barraram a tramoia lá no Congresso. As velhas raposas que mandam na nação não têm limites. E nos fazem de idiotas ao garantirem que, recebendo uma fortuna de uma construtora ou de um banco, depois não vão retribuir com afagos que custam nosso dinheiro.

Por isso, insisto, sabendo ser um chato: se não fizermos uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva, com pessoas que não têm e não pretendem ter cargo político, ou não vamos acabar com a indecência nunca.

Brasil

Não sou do tipo ufanista, que vibra com tudo e acha nosso país o melhor do mundo. Faço manutenção preventiva do “desconfiômetro” e sofro com nossas mazelas. Mas, não admito baixa estima nem gente de fora falando mal. Todo mundo tem problema; toda nação seus dramas. Ou um pai de criança norte-americana não sofre com a possibilidade de um maluco entrar atirando na escola? Viste Paris, Madri ou Lisboa e descuide de sua bolsa no Mercado ou no metro por alguns instantes e depois me diga se não perdeu a alegria de turista. Tudo aqui parece pior, mal feito, corrupto ou de baixa qualidade… Para nós! Agora, que as Olimpíadas já acabaram, foram um sucesso, deixaram legado material e emocional inquestionáveis ainda tem gente resmungando… É verdade que nao resolveram nossos problemas de saúde, segurança e educacão, mas, e daí, não podemos ser felizes três semanas? Os problemas verificados não foram menores que nossa capacidade de solução? E o Rio de Janeiro, que continua lindo, não ficou melhor?

 
Minha colega Jacqueline Moura lembrou-me de um texto, atribuído à escritora holandesa Aliefka Bijlsma. Não tenho certeza da autoria (a internet é um perigo) e o relato não é novo, mas, sem dúvida é uma vacina contra nosso complexo de vira-latas:

 
"Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil, realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos. Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque não há nada automatizado. Só existe uma companhia telefônica e pasmem: Se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.
Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com mesma mão suja entregam o pão ou a carne.
Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.
Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.
Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de ‘Como conquistar o Cliente’.
Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos...
Vocês têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa. Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua, etc… Os brasileiros mais esclarecidos sabem que temos muitas razões para resgatar suas raízes culturais.
Os dados são da Antropos Consulting:
1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.
9. Telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas..
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.
Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?
1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?
2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?
3. Que suas AGÊNCIAS DE PUBLICIDADE ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?
4. Por que não falam que são o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?
7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem? Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.
É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada BRASIL!

O WhatsApp é meu atestado de modernidade

Os leitores mais assíduos desse espaço sabem que o escriba se preocupa em evitar a síndrome da velhice precoce. Gosto dos jovens, de escutá-los, admirá-los na sua volúpia e especialmente aprecio os que creem na possibilidade de mudar o mundo. Também procuro entender as novidades, adaptar-me aos avanços estupendos da tecnologia, mas, por outro lado, os que me conhecem mais de perto sabem das dificuldades com que me relaciono com ferramentas modernas. E, convenhamos, há manifesta falta de desejo de aprender. No campo da comunicação, demorei três anos para me render à TV a cabo, uso o celular só no básico (falar, ouvir e ler mensagens) e nunca quis conhecer Orkut, facebook, twitter e outras redes sociais que prefiro chamar de mídias. Tem agora tal de Linkedim para a qual me convidam todo dia; topo não. Não discuto a importância; afinal, diariamente minhas filhas ou colegas de redação me ajudam a encontrar alguém, resolver algum assunto urgente, encontrar a foto de um criminoso, enfim, são infinitas as possibilidades na “rede”.

 
O homem tem competência sem limites para criar coisas fantásticas e mais talento ainda para estragar... Então, faltam-me tempo e paciência para, quando de um passeio único, em lugar dos sonhos e momentos exclusivos, em vez de celebrar a vida ficar tirando fotos para enviar aos outros. Recentemente, estava em uma cidade espetacular, uma Ouro Preto plana, cheia de flores, de vida, de paz, chamada Guimarães, em Portugal, arrepiado com tudo e todos a minha volta, e era ladeado por uma mulher que fotografava freneticamente enquanto dizia à colega que não via a hora de chegar em casa para “postar”. Tudo bem, a vida é dela, mas, duvido que tenha observado detalhes de praças inesquecíveis e de banheiro público tão limpo como o da nossa casa.

 
Por pensar assim, ter dificuldades em acreditar que as pessoas estejam felizes como aparecem nas “postagens” que tenha tanto jovem correndo na Praça da Liberdade caçando Pokémon, fico preocupado: será que preciso de uma reciclagem? Ah, lembro-me de dois anos atrás quando realizei o sonho de levar a Sara para passar o réveillon na praia... De trem! Para animá-la, sugeri que convidasse uma coleguinha. Foi prazer inenarrável, excetuando-se o fato de que ela passou 90 por cento do tempo ao celular... Pior, ela no dela e a colega no outro! Tudo bem, de vez em quando a gente tomava um lanche no vagão restaurante e, enquanto elas navegam, eu viajava no minério de Itabira, no verde do Caraça, nas águas de Aimorés... Foi bom, mas, voltou a dúvida de sempre na minha cabeça: por que tem de ser assim, as pessoas, pior, os jovens, o futuro, só olhando para as maquininhas, no trem, no restaurante, na cozinha... A prosa está com os dias contados e isso me perturba.

 
Mas, como não há doença sem remédio, eis que apareceu o WhasApp! Já gostei do nome porque há anos e anos, minha Fernanda me perguntava de vez em quando: WhatsApp? Ao que indaguei e ela explicou que era uma gíria americana que queria dizer “e aí?” ou “qual é?”, “qual o problema?.” Quando conheci o funcionamento do aplicativo, me apaixonei, por muitos motivos, mas, sobretudo dois: posso responder quando possível e bloquear os chatos. Com o tempo descobri o óbvio dada a qualidade maior dos brasileiros que é o bom humor: as piadinhas fracas, a molecagem do bem, a gozação que não ofende me prendem para sempre a essa modernidade.

 
Um ano atrás, quando já apreciava os filmes que telespectadores da Record enviavam com suas queixas, pedindo respostas das autoridades, ouvi, numa madrugada, em rádio de São Paulo, um cidadão falando sobre problema de trânsito. Pela manhã disse a minha diretora na Itatiaia, Maria Cláudia, que pretendia utilizar no aplicativo no cotidiano. E fui convincente: com o “Zap” teríamos qualidade de som, controle do tempo e de conteúdo porque haveria necessidade de receber as mensagens, levá-las para apreciação de nossa Central Técnica para aprovação. Uma semana depois começamos. Dois dias depois meu colega João Vitor Xavier avisou que iria usar, o Robson Laureano foi também e virou rotina em outras emissoras. Hoje, na Itatiaia, por causa dos cuidados com o período eleitoral e a lei que impõe limites para a mídia eletrônica, há uma determinação da diretoria que todos os programas só coloquem ouvintes no ar pelo aplicativo. Podem dizer que, assim, sem o telefone, ao vivo, no ar, podemos fazer uma censura... Mas, o que fazer se a emissora pode até ser fechada caso um ouvinte desatento ou apaixonado anuncie seu voto? É controlar ou se explicar na Justiça Eleitoral.

 
Dia desses, um ouvinte querido, o José Teixeira, Mutum, do Barreiro, escreveu para lembrar que no sábado, dia 20, faz um ano que o WhatsApp entrou para a história do programa.
Quero comemorar com os ouvintes e leitores. Quantas emoções!
No nosso Chamada Geral de toda tarde, a repercussão do WhasApp é emocionante. São mil exemplos. Ficarei em dois, da semana passada: quando pedimos comentários sobre o fato de uma americana ter sido levada ao altar pelo homem que recebera o coração do pai, um mineiro já transplantado ligou para agradecer; um dia antes, quando a pergunta era sobre sucesso e felicidade, um rapaz simples mandou mensagem que, para ele, felicidade é levar remédio e café para a mãe, todas as manhãs, na cama. O WhatsApp salva vidas, chama policia, pede SAMU, dá o resultado do jogo, combina o encontro, transmite a música, anima a família, alerta contra o crime e não nos obriga a nada. Grupo, por exemplo, eu saio na hora. O “Zap” é tão bom que, quando um juiz manda bloquear porque não está cooperando contra bandidos, o Brasil fica “p” da vida... Com o juiz! Enfim, como a moda é americanizar nosso dia a dia e quero ser moderno, encerro com afirmando: “I love WhatsApp!”.

A política não combina com a moral

Ao tomar conhecimento das reviravoltas na corrida eleitoral em Belo Horizonte, tive de voltar a um livro da época do descobrimento do Brasil e é, pelo menos na minha visão, indispensável para quem quer entender a política: O Príncipe. Afinal, a sua principal lição é a de que o poder político não combina com a moral. Hoje, atribui-se a seu autor, Nicolau Maquiavel, a frase “os fins justificam os meios” quando, na verdade, ele não teria dito isso; diz-se de “maquiavélico” o que é mal, planejado para prejudicar, quando, até onde consigo visualizar, não era essa a intenção que o poeta queria nos transmitir, ao contrário, ele estava na era do Renascimento e procurava abrir nossos olhos para uma verdade cristalina: a política não é a arte do bem comum, como acreditava Aristóteles ou “a arte de governar os homens e administrar as coisas, visando o bem comum, de acordo com as normas da reta razão”, como disse Tomás de Aquino.

 
Os homens são como são e não como deviam ser, ensinou Maquiavel para, a partir daí, escancarar as verdades que movem a sede do poder.

 
A partir do século XVI a igreja católica já não reinava absoluta com as verdades que lhe interessavam. Maquiavel ensinou que o governante tem de ser prático, calculista, fazer o bem devagar e o mal de uma só pancada; se esforçar para ser amado, mas, se impossível, que seja temido... Odiado não, porque, nesse caso, os governados já não têm nada a perder e partem para o confronto. Hoje, a gente sabe que a sorte de muitos políticos tupiniquins é essa característica pacata dos brasileiros - não vivemos momentos sangrentos que forjaram grandes nações.

 
Outra lição maquiavélica: todo político tem de saber definir a hora de agir como homem e como animal, neste caso forte como leão ou esperto como raposa. Esperto para, por exemplo, fazer uma aliança hoje e amanhã, se ela não mais convier, romper sem constrangimentos e seguir adiante. Cabe lembrar que O Príncipe não sugeria a prática rotineira da esperteza: naquele tempo, as questões em jogo eram mais sérias, como segurança e manutenção do território... Ainda assim, advertiu ele, só se pode ser imoral quando não há alternativa.

 
Impressionante como Maquiavel era um visionário. Seu principal livro foi publicado depois de sua morte e hoje, 484 anos depois, explica a sucessão em Belo Horizonte como nenhum cientista político seria capaz: temos um príncipe, que mora no Rio, decide em Brasília e manda em Minas e um monte de vassalos que, por amor ou temor, obedecem. Claro que, como em toda regra, há raríssimas exceções. Uma delas, Alexandre Kalil, parece único com coragem para dizer a verdade: “Eles vão passando rasteira um no outro para, depois, juntos, passarem a rasteira na cidade”.

 
E a gente ainda pergunta por que não tem metrô, anel, saúde, cidade grande...
Da vontade de ouvir Zé Ramalho:
“Êh, ô, ô, vida de gado
Povo marcado
Êh, povo feliz!”

 Quem quer meu voto?

Sou do time que leva o voto a sério por acreditar que não há outro caminho conhecido para a mudança da vida hoje e, principalmente, para o futuro. Isso não quer dizer que não erre; ao contrário, as decepções são recorrentes nas minhas escolhas como acontece com todos os eleitores em determinadas votações. Agora, me preparo para escolher o futuro prefeito de Belo Horizonte e não vejo um candidato natural. Então, quero tornar públicas as minhas condições para escolher um dos inúmeros pretendentes.

Inicialmente, tem de ter coragem o bastante para exigir – essa é a palavra – logo depois da posse mais respeito do governo federal para com a capital dos mineiros. Isso inclui enquadrar os 53 deputados e mais três senadores por Minas que têm se revelado omissos, descomprometidos e indiferentes às nossas grandes causas como anel rodoviário e metrô. O futuro prefeito tem de dizer, respeitosa e claramente ao presidente da República que a capital dos mineiros só quer dez por cento do que tem sido levado para o Rio de Janeiro ou São Paulo nos últimos dez anos.

Além disso, o futuro prefeito tem de prometer que não terá a arrogância de Márcio Lacerda, ou seja, vai conversar com a cidade, respeitando os legítimos representantes dos segmentos econômicos, sociais e culturais, mas, se comprometer a continuar com os projetos bem resolvidos da atual administração. Precisamos fechar o ciclo dessa prática horrenda de não dar ênfase a determinadas ações porque elas remetem a outros governantes... Caso do próprio Lacerda, que não tratou como deveria o excelente projeto do Vila Viva, de erradicação das favelas. No entanto, o atual prefeito merece respeito por várias razões e uma delas é a excelência das unidades municipais de educação infantil.

No entanto, no entender desse cronista da vida urbana, nem sempre sensato, mas, repleto de amores pelo mais belo horizonte do mundo, o grande mérito de Lacerda é a elaboração de um programa chamado Plano Estratégico 2030. São desafios e metas que podem fazer a diferença, nos entregar uma cidade mais saudável, com mobilidade, segura, próspera, moderna, compartilhada, enfim, sustentável. Nunca é demais lembrar que nossa capital tem 2,5 milhões de habitantes, é nave mãe da terceira maior região metropolitana do Brasil, com 5,2 milhões de pessoas e carências que vão de falta de terreno para novas habitações a um transporte coletivo mais humano.

Não vou descer a detalhes porque as metas dizem respeito a todas as mazelas por nós conhecidas e todos já podem imaginar: erradicar a extrema pobreza, melhorar o produto interno bruto, melhorar a qualidade de vida urbana, aumentar a oferta e esgoto e manter o atendimento com água tratável, reduzir a mortalidade por doenças crônicas, viabilizar o acesso universal à educação infantil, reduzir a taxa de crimes violentos...

Continuo convencido de que o Brasil não aguenta eleição ano sim ano não... Quem ganhar esse ano, passará 2017 conhecendo a estrutura e, em 2018 já terá de cuidar da eleição para governador, presidente e deputados. Acho um crime contra a administração publica. Se a gente conseguir obrigar os políticos a seguirem uma cartilha, um programa, a ter continuidade, há esperança... E enquanto há esperança, a gente respira!