minas gerais

A próxima tragédia de BH

Ainda estamos cabisbaixos pela queda do viaduto e outra ocorrência grave está prestes a ser escrita, com prejuízos para os mais pobres. A Santa Casa examina a possibilidade de fechar sua maternidade, a Hilda Brandão, já no mês de setembro, por falta de recursos. Pode ser o fim de uma casa de 98 anos que atende, na esmagadora maioria de seus 350 partos mensais, os casos mais complicados, que exigem profissionais qualificados para preservar bebês e mamães. Guilherme Riccio, superintendente de assistência à saúde da Santa Casa, admite a possibilidade de fechamento sob o argumento de que as dívidas já superam R$ 500 milhões e a instituição não pode continuar acumulando prejuízos. No caso da Hilda Brandão, há um déficit mensal da ordem de R$ 900 mil, sendo que a própria Prefeitura da capital já admitiu que o custeio mensal devesse sofrer uma injeção de R$ 1,3 milhão ao mês, para adequação de recursos humanos e cumprir determinações da Vigilância Sanitária. Aliás, é a vigilância que exige investimentos imediatos de R$ 3 milhões e procedimentos que acrescentariam R$ 400 mil aos gastos mensais com a maternidade.

Ainda impactado pelas recentes notícias de fechamento do Pronto Atendimento da Santa Casa de São Paulo, fiquei embasbacado quando soube da possibilidade de fechamento da Hilda Brandão. Então, pensando nos campos da Copa, em centros administrativos e outros luxos, lembrei-me da carta de despedida que o Imperador Vespasiano deixou para seu filho Tito, aconselhando-o a construir o Coliseu de Roma e indagando onde o povo prefere pousar o “seu clunis (sua bunda): numa privada, num banco escolar ou num estádio”. A carta:

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis : numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro. Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum (por todos os séculos) e sempre que o olharem dirão: ‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’. Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo). Esperarei por ti ao lado de Júpiter”.

O fantasma do dragão

Na semana passada, quando foram divulgados os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o governo brasileiro reclamou, dizendo que se os números fossem computados conforme seu entendimento, o país subiria do 79º para o 67º lugar no ranking. De qualquer forma, estamos mal numa lista que mede fatos importantes sobre expectativa de vida, educação e saúde em todo o planeta. Mas, se a nossa realidade não é a ideal, pelo menos há o consolo de que estamos melhorando nos últimos 20 anos – concordaram todos os especialistas, inclusive os da ONU. Repararam que, exatamente neste mês, estamos celebrando as duas décadas do real? É ou não verdade que, além dos aspectos puramente econômicos, a moeda estável permite as políticas sociais (como o Fome Zero), melhora a inclusão e a qualidade na educação e, em consequência, melhora as vida das pessoas?

Os mais jovens não viveram o sufoco pelo qual passamos nas últimas décadas do século XX, com tabelamentos de preços, congelamento de salários, mudanças de nomes de nosso dinheiro e sucessivos cortes de zeros na moeda, que virava cruzeiro, cruzado, cruzado novo, URV... Eram tempos de efeitos nefastos da inflação. Acredite: em 1993, ano anterior ao surgimento do Plano Real, ela chegou a 2.477%. Era loucura. O que mais se via dentro de um supermercado era a máquina de remarcação de preços e, quando recebia um salário, o cidadão corria para as compras porque, no dia seguinte, já não compraria o mesmo número de latas de óleo de soja ou pacotes de arroz. O Brasil ainda é dos países mais caros do mundo, a nossa média anual de inflação – em torno de 8% – está distante dos padrões de nações desenvolvidas, mas, seguramente, ninguém tem saudades daqueles tempos nos quais o salário perdia a metade de seu poder de compra entre o início e o fim do mês. Tudo mudou. Para melhor. Mas, hoje, uma luz amarela está acesa. Desde 2010, a inflação permanece acima do centro da meta oficial que é de 4,5% ao ano. Nos últimos meses, o índice aproxima-se perigosamente do teto aceito que é de 6,5. Todas as famílias têm sentido os efeitos do reajuste dos preços, que diminuem o poder de compra dos que vivem de salário. Também não são poucos os que estão mudando hábitos de consumo.

A agravante é que, além da majoração desenfreada, os preços estão nas alturas. Alguns surreais. Tanto que, recentemente, quando a Copa acabou, todas as pesquisas indicaram que os estrangeiros adoraram nossa gente, nossa comida, a beleza natural de nosso país, mas, em sua grande maioria, ficaram assustados com os preços. Então, que cada um de nós faça a sua parte, para não perdermos os ganhos com o Plano Real. Afinal, a derrota da hiperinflação representou muito para a economia, foi uma nova fase de prosperidade para todos, mas, especialmente, os mais pobres, que não têm assessoria e nem mecanismos para sofrer menos com o dragão.

“Todo ato tem que ter consequência”

A frase do psicanalista Jacques Lacan me faz abstrair das últimas notícias para visitar a “Neverland”, rancho da Califórnia onde viveu boa parte de sua vida o rei do pop Michael Jackson, que o vendeu para uma empresa dele mesmo. É onde gostaria de ir, pelo menos para um fim de semana. Quem sabe lá, na Terra do Nunca, poderia entender melhor as coisas que se passam por minha cabeça, numa mistura de fatos e ficção, especulações e declarações, fingimentos e sofrimentos.

Quem sabe se lá eu conseguiria entender como alguns malucos que se dizem separatistas atiram num avião a dezenas de milhares de metros de altura e matam três centenas de inocentes, que sequer conheciam, só para avisar que estão na área. Já que na Terra Santa a guerra nunca termina – e ninguém consegue me explicar tanto ódio – quem sabe na Terra do Nunca a gente encontre religiosos conhecedores do sexto mandamento? Ah, pode ser que lá eu entenda melhor a história de uma construtora que fez um viaduto, o viaduto caiu, e a empresa diz que a culpa é de outra, que fez o projeto, e que a obrigação de fiscalizar para ver se tinha ferragem suficiente e não apenas um décimo era da outra, a contratante, que até agora nada diz e manda o coronel dar explicações para as pessoas? É Terror... Lá, tem-se certeza de que quando a famosa pega a obra não terceiriza serviços e explicações. Lá, talvez, os R$ 14 milhões do asfalto do aeroporto fossem transferidos para a duplicação da rodovia de Neves (a cidade), até porque, é onde moram centenas de milhares de trabalhadores que precisam chegar enquanto o aeroporto passa a maior parte do tempo no cadeado que, por sinal, está nas mãos do Senhor. E, a propósito de aeroporto, se todo dia cancelam voos para Juiz de Fora, Uberlândia e outras cidades de médio porte, que história é esta de asfaltar Cláudio... Bem, assim como o tal projeto, do tal viaduto que caiu, pode ter sido feito por algum magnata que já presidiu sindicato das consultoras, quem sabe o asfalto do campo de pouso não foi feito pelo líder das construtoras? E, quem sabe, não seja ele também um amigo doador para campanhas e mais campanhas e choques de gestão? Falar nisso, eu vi um filme no qual o avô bancou a abertura da pista e o neto asfaltou... Laços de família! Mas, tudo isto é só desvario, Lacan na minha cabeça... Aliás, é também dele a frase: “Você pode saber o que disse; mas nunca o que o outro escutou”... A propósito, lembrei agora de que tem gente que vive num mundo diferente, onde eu ganho a obra, contribuo prá campanha, vou jogar pôquer no Panamá e, se o viaduto cair, bem, “acidentes acontecem”. Pessoas morrem. E a conta? A deputada carioca sumiu com os ativistas procurados pela polícia, o prefeito de Muzambinho proibiu criação de galinha no perímetro urbano... Ah, e tem também o Dunga. Virgem Maria!

Bem, abraço a todos e, no fim de semana, em “Neverland” ou não, vou tomar umas, pois, como diz Sebastião Nery, que lançou livro nesta semana em BH, “a embriaguez é a lucidez da consciência trôpega”. Fui!

Ainda há medo na Pedro I

Antes mesmo da entrevista coletiva concedida pela Construtora Cowan, na tarde dessa terça-feira (22), duas coisas já estavam decididas dentro da Prefeitura de Belo Horizonte: não há data prevista para reabertura da avenida Pedro I e, pelo menos por ora, não há a menor intenção de se apontar um engenheiro como responsável pelo viaduto que caiu. A interdição vai continuar por motivo forte – a Cowan não considera segura a liberação do tráfego de veículos, não garante a estrutura da outra alça – e a ideia de se colocar a Sudecap como dona da obra é para evitar estragos pessoais, considerando que, entre projeto, execução e fiscalização, existem mais de 30 engenheiros envolvidos.

Por não ser convincente, mas é uma resposta. Agora, falta outra, pois, até onde quem é leigo consegue entender, para toda obra deve haver uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) junto ao Conselho Regional de Engenharia. Assim, o Crea continua devendo tal informação, até porque ele é rápido no gatilho para multar qualquer um de nós que ousar fazer um pequeno anexo em casa, se a bendita placa não estiver lá em local visível. Quando ocorrem tragédias, o Crea sempre repete o mesmo discurso de que apenas exige que haja um responsável para que, constatado algum erro, este seja devidamente responsabilizado. Sou obrigado a lembrar da frase muito repetida nas pichações: “Tá certo, mas tá esquisito”.

No mais, agora vamos esperar as definições da Polícia Civil, quando o laudo apontará oficialmente as causas e o delegado fará o indiciamento dos responsáveis. No âmbito da PBH, o prefeito já deve ter dado broncas e fica devendo alguma atitude administrativa. Afinal, ele é quem “pagou o pato” da exposição, teve coragem de ir ao local logo após a queda e, provavelmente tomado pela emoção, acabou proferindo uma frase pela qual foi criticado: “Acidentes acontecem”. Ele visitava as obras aos sábados, estava empolgado com o novo sistema e sequer pode colher agora os primeiros frutos do novo sistema de transporte coletivo (afinal, posso até estar enganado, mas penso que o trânsito está melhorando, sim, na cidade). De minha parte, vou esperar as conclusões da polícia esperançoso de que haverá punição para os graves equívocos e que um novo viaduto será feito pela construtora, com dinheiro de seguro ou não, sem que os contribuintes sejam chamados a pagar a conta novamente.

A propósito, e a título de curiosidade, por que, a exemplo do Montese, o viaduto que caiu não foi chamado pelo nome da rua? Será que Olímpio Mourão Filho foi o general que recebeu o então militante político Marcio Lacerda quando este foi preso, nos tempos duros do Brasil? Homenagear o carcereiro? Nem pensar. Vale dizer que a Batalha dos Guararapes foi travada em dois confrontos entre o exército da Holanda e os defensores do Império Português, no Morro dos Guararapes, atual município de Jaboatão dos Guararapes, 10 km ao sul do Recife, no estado de Pernambuco.

Quem é o responsável?

Até hoje não apareceu o nome do responsável pela fiscalização das obras do viaduto que caiu na avenida Pedro I porque não havia um engenheiro cumprindo esse papel. Permito-me especular por dois motivos: pela ausência de respostas para essa e outras perguntas e por tudo o que ouvi desde aquela quinta-feira à tarde quando o inacreditável aconteceu. Já sei, também, de onde devem vir, urgentemente, as razões e os pedidos de desculpas: da Sudecap, Superintendência de Desenvolvimento da Capital, através de sua diretoria de obras, e do Conselho Regional de Engenharia (Crea), por seu serviço de fiscalização. Essas duas referências nas obras da cidade devem explicações às nossas inquietações.

Por que digo isso? Porque o engenheiro responsável pela fiscalização da obra, quando ela começou, era Joaquim Gonçalves Pimenta Filho. Hoje, quando procurado por repórteres, ele evita qualquer comentário, afirmando apenas que trabalhou na Sudecap por 40 anos 255 dias e que, logo após a reeleição do prefeito Marcio Lacerda, pediu aposentadoria, consumada em 7 de dezembro de 2012. Três meses antes, ele não já não respondia como responsável técnico pelo viaduto Batalha dos Guararapes. Aliás, essa obra do Move é mesmo uma novela. Em setembro de 2009, o presidente da BHTrans disse que teríamos o sistema implantado em 2010. Em agosto deste ano é que ficaram prontos os projetos, elaborados pela Consol.

A obra, no todo, na Pedro I desde a José Dias Bicalho até a Estação de Venda Nova, foi alvo de dois contratos, ambos com a Cowan e a Delta (aquela, dos escândalos, que transferiu seus 20 por cento para Cowan), no total de 170 milhões de reais. O segundo contrato, que incluída o viaduto cuja base cedeu e o outro o que caiu, teve as obras iniciadas em abril do ano passado. Portanto, não há dúvidas de que a empreiteira responsável por todas as obras, incluindo as de artes, é a Cowan. Também parece claro que a causa do desmoronamento está em um pilar construído com cinco estacas de 22 metros de profundidade e 80 centímetros de diâmetro, de cada lado, instaladas sobre um bloco de concreto com oito metros de cumprimento e quatro de largura, pesando 1.300 toneladas.

Mas a causa da queda do viaduto e a responsabilização criminal dos culpados pela falha são tratadas em processo naturalmente mais lento e de exclusividade da polícia. O que nós, que pagamos a conta e passamos a maior vergonha da Copa temos o direito de saber o mais depressa possível da Sudecap é quem estava fiscalizando a execução das obras. Talvez o superintendente, José Lauro Nogueira Terror, tenha dado uma pista, quando, na única entrevista, “admitiu falha de fiscalização”. É pouco. E o Crea, esse conselho que nos aborrece a todos, mandando fiscal quando a gente vai fazer um puxadinho, exigindo “ART”? Quem o Crea anotou como responsável técnico por uma obra daquela magnitude, no dia 26 de fevereiro de 2013, quando Joaquim foi lá e pediu baixa de seu nome? A Copa acabou; nossas dúvidas, não!

Ninguém vai elogiar a polícia?

Desde domingo, há uma permanente cobrança na minha consciência. Esperei por alguns dias, para ler ou ouvir alguma contestação ou - melhor seria, alguém cumprindo a missão de elogiar o trabalho da polícia na Copa. Pensei: se outro cumpre a tarefa, livro-me dos que vão dizer que não se fez mais que a obrigação. Cada um tem sua consciência e dorme com ela. Então, em nome da voz quase imperceptível, que fica cobrando postura da gente, quero aproveitar esse espaço para ficar entre os que consideraram positiva a ação de policiais civis, militares, federais, bombeiros, enfim, as forças de segurança durante o mundial de seleções.

E o faço nesta sexta-feira (18) porque, em Brasília, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, terá um encontro com secretários de segurança para pedir que o trabalho seja preservado, no que for possível. Qualquer um de nós sabe que a PM não poderá manter na Savassi o mesmo número de policiais... Porque não os tem em número suficiente. Assim será no país inteiro, mas, com inteligência, boa vontade, parceria entre os três níveis de governo, dá para ficarem as ações estratégicas, centros de monitoramento e, principalmente, trabalho em conjunto.

Mas, voltemos ao elogio. Como era de se esperar, com a geração de políticos covardes e preguiçosos, avessos a mais pueril das artes políticas que é a conversa, a negociação, sobrou para oficiais da PM o contato com a população em geral e os líderes dos manifestantes em particular. O resultado é quem quis jogar bola na Avenida Getúlio Vargas jogou e, felizmente, não vimos a barbaridade do vandalismo destruidor, avassalador contra empresas, prédios públicos e pessoas. Tivemos um ano entre as manifestações do ano passado e o início da Copa, tempo suficiente para secretários e assessores de governos acertarem normas de conduta com os insatisfeitos, mas, como tenho escrito, os responsáveis por este trabalho ficaram escondidos atrás do escudo da PM. Sobrou para os oficiais que, com suas limitações, o olhar implacável do Ministério Público, as câmeras ligadas por todos os lados, permitiram a festa em todas as cidades. Os estrangeiros que vieram com medo de assalto, voltaram felizes; a máfia internacional dos cambistas foi presa no Rio; pedófilos foram detidos em Confins, enfim, a polícia trabalhou.

Agora, o comandante-geral promete um incremento de dois mil homens no policiamento diário da capital o que será ótimo. Mas, se os policiais continuarem enxugando gelo, prendendo as mesmas pessoas, o desassossego vai continuar. É uma pena que nosso Congresso esteja de recesso branco, as assembleias em ritmo de eleições e a Câmara da capital de férias...

 

Humildade evita vexame

Sei que ninguém aguenta mais repercussão daquele jogo. Mas, permitam-me lembrar de que as comparações entre Brasil e Alemanha devem ficar restritas ao futebol. Caso contrário, a surra vai ser pior. Queria dividir com vocês parte de um texto de Luiz Flávio Gomes. É preciso refletir sobre os dados:

“Entre 1980 e 2012, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Alemanha passou de 0,780 para 0,920. É o 5º país no índice geral, 80 anos de esperança de vida e renda per capita de US$ 41 mil. O IDH mede a renda das pessoas, escolaridade e expectativa de vida. Ela saiu arrasada da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Saiu destruída do nazismo e da Segunda Guerra Mundial (1933-1945). Hoje é a nação economicamente mais forte da Europa, tendo alcançado o nível excelente em qualidade de vida em poucas décadas. Técnica, planejamento, organização, dedicação, empenho: são qualidades que eles esbanjam orgulhosamente. E o Brasil? De 1980 a 2012 nós melhoramos (saímos de 0,522 para 0,730 no IDH), mas ocupamos a vergonhosa posição de número 85. Somos hoje menos que a Alemanha em 1980. Pior: há muitos anos estamos patinando na casa dos 80 no IDH. O Brasil melhorou, mas estamos longe das nações civilizadas. Nossa esperança de vida é de 74 anos, escolaridade média de 7 anos (contra 13 dos alemães) e nossa renda per capita é de US$ 12 mil.

Tanto Brasil como Alemanha estão entre os 10 países mais ricos do planeta. Ocorre que eles são ricos e promoveram o desenvolvimento da qualidade de vida das pessoas (5º do mundo); nós somos ricos e extremamente desiguais: baixa escolaridade, ¾ da população são analfabetos funcionais, piores índices na educação, ridícula competitividade, precária inovação, serviços públicos de quinta categoria, transporte público indecente, saúde doente, Justiça injusta e morosa, escola analfabeta etc. Somos, não por acaso, o 85º país do mundo (dentre 186) em termos de qualidade de vida. Temos capacidade para produzir riqueza, mas nunca soubemos transformar isso em qualidade de vida para todos. Sabemos ganhar, mas não temos a menor ideia do que seja distribuir. Socioeconomicamente sabemos rivalizar, não cooperar. O índice Gini da Alemanha (é o que mede a desigualdade: quanto mais se aproxima do zero, mais igualdade; quanto mais perto do 1, mais desigualdade) é de 0,27; o do Brasil é 0,51. Somos o dobro de desiguais. O que isso provoca? Violência, desorganização social, péssima qualidade de vida, miséria, fome etc. Um exemplo: os alemães contam com menos de 1 assassinato para cada 100 mil pessoas (0,8, em 2011).

E o Brasil? 29 para cada 100 mil (em 2012). Somos mais de 30 vezes mais violentos que eles. Essa é uma das nossas tragédias, que os alemães não conhecem. Somos ainda o 12º país mais violento do mundo, o campeão mundial nos homicídios em números absolutos (56 mil por ano) e, das 50 cidades mais letais, 16 estão no nosso país”. Só me permito acrescentar: lá, eles não dirigem com medo de serem esmagados por um viaduto em via de grande tráfego.

Alguém tem de explicar

Como Luís Borges escreveu nessa quinta-feira (10), em seu blog “Observação e Análise”, depois de cada acidente, crime ou tragédia surgem perguntas que buscam identificar os culpados e as causas do ocorrido. Classicamente, as autoridades envolvidas nas investigações falam da necessidade de se fazer uma perícia técnica pelos especialistas no tema e invariavelmente terminam suas falas dizendo que o laudo pericial ficará pronto em 30 dias. Nesse período muita coisa acontece. A comoção pública é atenuada, a desinformação continua, e, como temos tragédias todo dia, a gente esquece.

Por que, só agora, apareceram com um lado sobre o outro viaduto – Montese – cuja estrutura cedeu quatro meses atrás? A propósito de laudos, cadê o referente ao incêndio de 16 caminhões de uma empresa coletora de lixo na cidade, em dezembro? Temos de cobrar explicações para o inexplicável que foi o afundamento de um pilar de seis metros ou, dois andares. Como os especialistas se esquivam porque ninguém, do ramo, quer contrariar a poderosa Cowan e muito menos a Sudecap, estou especulando como leigo.

Tenho recebido informações de que ali, onde foi construído o viaduto, numa espécie de bacia da Pedro I, havia um brejo, nos tempos da Fazenda Renê Gianetti, com uma nascente procedente da Lagoa do Nado que jorrava água na avenida, então de uma pista só, e, depois, havia uma ribanceira.

Agora, muita coisa vem à tona. Meu colega Álvaro Damião fez uma foto, em janeiro, que precisa ser vista. Ele voltava do CT do Galo e viu aquele mundo d’água, mais alto que um prédio, jorrando no meio do viaduto.

Não se trata, neste momento, de dizer que era uma mina, até porque a Copasa tem adutora de 400 milímetros que passa por ali. Mas, que tal se a perícia da polícia incluir essas fotos no processo? Esse vexame tem de ser explicado!

Lenhadores do mal

Quando menino, no começo dos anos 60, lenhador era sinônimo de alguém trabalhador, do tipo que enfrenta a labuta de sol a sol para extrair da natureza matéria-prima essencial à vida. Afinal, depois da obrigatória viagem levando o leite das fazendas, meu pai encontrava tempo para encher o caminhão de lenha e abastecer padarias da capital que faziam o pão nosso de cada dia. Naqueles bons tempos, a lenha era também sinônima de lúdico porque estava presente em tudo: a gente buscava pedaços de pau seco para a mãe cozinhar, lá na mata havia o que chamávamos de grota (espaçamento entre as copas das árvores e os pequenos cursos d’água) e era ótimo lugar para passar um pedaço da tarde, até retornar para o café com bolo; além disso, a lenha embalava nossos sonhos junto ao fogão, de noitinha, esperando papai chegar e, nos fins de tarde, até para espantar os pernilongos, havia sempre uma pequena fogueira com o lixo no quintal.

Nos anos 80, já jornalista, descobri que aquela alegria tinha um preço. Um alto preço para natureza. Que o desmatamento deveria ser contido, os móveis poderiam vir de reflorestamentos, a nossa comida do fogão a gás e as mamães poderiam inventar outras tarefas para ensinar aos filhos como colaborar no dia a dia de casa. Depois da virada do século, me espanta ver gente ainda querendo usar de todos os artifícios para derrubar árvores e colocar concreto no lugar. Agora, de novo, enquanto estamos de olho na Copa, apareceu um projeto tratando de desafetação de parte do nosso vale da Mutuca. Inacreditável. Mas, verdade! Já ouvimos e falamos um milhão de vezes que o vale, em Nova Lima, remanescente da Mata Atlântica, é uma das principais áreas verdes da Região Metropolitana de Belo Horizonte e serve de proteção a mananciais e espécies – algumas em extinção – da fauna e flora brasileiras. O Mutuca guarda o bem mais precioso da vida humana, a água. Às margens dos mananciais há uma vegetação original, que abriga várias espécies de pássaros e mamíferos de pequeno e médio porte. O córrego do Mutuca faz parte da bacia do rio das velhas e é um tributário dessa rede fluvial tão vital para a Grande BH.

De novo, Ubirajara Pires, presidente da Associação dos Amigos do Belvedere, está denunciando a existência de projeto que quer descaracterizar parte da região, permitindo assim o avanço do concreto sobre o verde. Apontado como autor da matéria, o deputado Adalclever Lopes não foi encontrado nessa terça-feira (8) para falar a respeito. Nem o assessor de imprensa. Uma pena. Ele precisa vir a público urgentemente para dizer que não é bem assim, que houve um equívoco, qualquer coisa para aplacar nosso medo.

Vejo essas notícias e penso nos meus tempos de criança, quando os lenhadores eram outros senhores, com outros interesses.
Que saudade!

E quando a Copa acabar?

Bem sabe o caro leitor que não sou economista e, portanto, devo medir as palavras antes de assustar os outros. Mas, com a responsabilidade de quem ajuda as pessoas a refletirem, quero multiplicar os avisos de muita cautela com as compras a prazo. O que vem por aí não é animador. Um amigo me disse que determinada revenda de automóveis que vendia, em média, 180 carros por mês conseguiu emplacar apenas 18 em junho. Dez por cento.

Você pode até lembrar que o ministro da Fazenda prorrogou a alíquota reduzida do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos até dezembro, alegando intenção de estimular as vendas no setor. Fico com os que classificam tal medida de equívoco, na medida em que o IPI é a base do Fundo de Participação dos Municípios – principal fonte de arrecadação da esmagadora maioria das cidades e, com menor arrecadação, transfere-se o problema para os prefeitos, em médio e longo prazo.

E o pior é que o problema não se resume ao setor automotivo. Outro amigo queixa-se de que sua ótica faturou 40 por cento a menos no mesmo mês. A constatação é generalizada, até porque, numa conta rápida, sete dias foram perdidos ou tiveram ritmos diferenciados de funcionamento do varejo por conta da Copa. Procure um comerciante da Savassi e pergunte se alguém, além dos bares e restaurantes, está feliz. Converse com representantes da indústria (que teve crescimento negativo nos últimos três meses), do setor de serviços – pessoal de academia, por exemplo.

E não apontemos o mundial de seleções como responsável por temos de baixa. O clima ruim vem de algum tempo. Lembremo-nos, por exemplo, dos números de março, levantados pelo IBGE. Sete em dez atividades do varejo tiveram redução nas vendas, aí incluídos alimentos, combustíveis, automóveis, informática e até materiais de construção. Foi o pior mês de março desde 2003. Os entendidos dizem que a inflação eleva os juros e, por medo da inadimplência, os bancos reduzem o crédito, limitando o apetite do consumidor. Isto sem falar que mais de 60% das famílias brasileiras estão endividadas com o cheque especial, o cartão de crédito, etc.

Por enquanto, estamos tapando os buracos na caixa d’água porque é tempo de Copa. Depois, teremos um período de faz de contas, pois, o que realmente importa é vencer as eleições, mas, quando 2015 chegar só os cautelosos terão nervos no lugar. Não se trata aqui de palpite incendiário; é só observação de quem, por força da profissão, fica de olhos e ouvidos em pé quando os encarregados de prever o futuro falam de macroeconomia. E, com alguns anos de estrada, qualquer um de nós sabe que o político não se acanha de passar o abacaxi adiante... Exemplo? Dois 8 mil quilômetros de pavimentação prometidos para as estradas de Minas, só 42 quilômetros foram concluídos até agora. As máquinas pararam até na duplicação da rodovia que liga Neves a Belo Horizonte.