minas gerais

Ele voltou!

O horário de verão está de volta. Sei que pode soar ultrapassado discutir sua utilidade; afinal, existe entre nós há décadas e foi inspirado em experiências ao redor do mundo. Além do mais, embora esteja entre os trabalhadores obrigados a sair da cama antes de 5 da madrugada não tenho embates com o saudável vento das manhãs. O problema é que, todo ano, me incomoda muito a argumentação do governo. De novo, estão querendo economizar em até 4,5% o consumo de energia entre 18h e 21 horas, o equivalente a mais ou menos R$ 278 milhões.

Embora o número de dias este ano seja maior – 126 – a economia deve ser 31% menor que a do ano passado, em razão da falta de chuvas e, consequentemente, maior uso das usinas térmicas, que são mais caras do que a energia de hidrelétricas. Por aí já começam meus questionamentos. Será que, se houvesse o mínimo de planejamento, para que não precisássemos usar tanto as térmicas, não seria o bastante para a tal da economia? Outra coisa: Todo dia a gente não ouve falar de mais um escândalo, quase sempre jogando no ralo dinheiro público em montante superior ao economizado?

Mas, de verdade, a economia não é minha bronca maior. Quero falar de aspectos humanos, a começar pela eterna discussão sobre os riscos à saúde com a mudança de hábitos agredindo nosso relógio biológico. Será que o dano eventualmente causado a muitos de nós não é maior que o tal benefício econômico? E as questões de segurança? Desde domingo, quando milhões de brasileiras estão indo para o ponto de ônibus durante a madrugada ainda está escuro, ambiente favorável aos ladrões, que estão cada vez mais ousados e se valendo da mobilidade que as motocicletas permitem aos que querem furtar e fugir.

Enfim, mais e mais acredito numa convicção de minha mulher de que certas economias devem ser evitadas. Por exemplo, comprar um sapato de R$ 50; afinal, você sabe que não é de boa qualidade, mas, se insiste – sem ser necessário – está abrindo uma brecha para ficar com raiva; vê-lo acabar rapidamente e ter de comprar mais dois, enquanto se, ao contrário, tivesse optado, lá atrás, por um bom par de sapatos de R$ 150 teria elegância, segurança e conforto.

Então, que fique clara minha adesão a qualquer iniciativa que resulte em economia de energia, pois sou um dos brasileiros que percebem a escassez dos recursos naturais, sofre com o mau uso e prevê dias difíceis para as próximas gerações. O que quero é qualidade na economia, no gasto, no uso, no gerenciamento das ações. Algumas decisões governamentais me soam como o discurso do pai que, bebendo cerveja e discutindo, no bar, detalhes de mais uma viagem ao exterior, tenta explicar suas dificuldades em bancar um cursinho preparatório para o filho que sonha fazer faculdade. Ou, a defensora dos animais que me procurou no rádio para ajudar numa campanha de arrecadar ração para seus cães e, quando lhe perguntei se a mãe estava viva, respondeu: “Infelizmente...”

Lições de uma noite inesquecível

Sou dos que acreditam que a felicidade está nas coisas simples. Talvez por isso o futebol seja uma paixão mundial, pois, basta uma bola rolar para um grupo de pessoas se divertirem a valer, mas, se por um acaso houver talento entre os praticantes, incontáveis outras gostarão de assistir. Os jogos da noite de quarta-feira, envolvendo os dois grandes clubes de Minas, reafirmaram a convicção de que o único esporte coletivo no qual o imponderável é parte do jogo é o futebol.

No Nordeste, o Cruzeiro, indiscutivelmente o melhor time do Brasil nos últimos tempos, sofreu muito para arrancar classificação e não evitou a derrota para um ABC cuja folha de pagamento – incluindo funcionários – não deve chegar ao montante que apenas um Júlio Batista recebe na Toca. Mas foi no Mineirão que o significado de épico se revelou mais apropriado do que nunca para definir um momento único na vida de milhões de pessoas. E aquela noite deixou muitas lições:

1 – Mesmo que os clubes sejam mal administrados, por mais que os recursos de patrocinadores e direitos de transmissão decidam dias, horários e detalhes dos jogos, o resultado não poderá, nunca, ser definido em salas fechadas com ar condicionado e interesse comercial porque, se tudo estiver armado para dois jogos de Flamengo e Corinthians, podem aparecer homens resolutos, apoiados por um bando de fanáticos, e determinar uma terceira via nas semifinais;

2) No futebol como na vida, a inspiração é necessária, mas, sem transpiração não há talento que brilhe, pois, para a maioria dos humanos um prato de comida significa glória incomensurável e, se um Jemerson bate de frente com um Guerreiro, pode dizer “calma Mano”, devagar com o andor que o santo é de barro... Ou, aqui é Galo, ô meu!

3) A propósito de inspiração, Guilherme confirmou o que todos já sabiam... É um exemplo pronto e acabado do gênio que sabe muito, mas, precisa de motivação (ou jogo bom, como diz ele) para desabrochar ou, em outras palavras, equipe tem de ter a mescla de quem sabe como ele com quem quer, como o Luan;

4) Os que não se cuidam, não estão preparados, emocionalmente estruturados, como Jô, devem saber que se o cavalo passa arriado e eles não montam poderão ser atropelados quando o próximo pangaré vier;

5) Os intocáveis como Kalil carecem da leveza, flexibilidade, entender que o Independência é ótimo para o aperitivo, mas, tímido para o banquete da massa;

6) Alguns detalhes mexem com nosso imaginário, como saber que a rede preferida pelo Cruzeiro no Mineirão – azul e branca – foi substituída naquela noite pela usada na Copa, inclusive naquele Alemanha x Brasil... Ou seja, a bola quer caixa e aquela caixa quer muita bola;

7) Torcedor é sinônimo de “resiliência”... De agora em diante, não falo mal do Levir, tolero a preguiça do Guilherme e chamo o moço de Sete Lagoas, que tanto já me irritou, de Marcos Pelé Rocha;

8) Respeitem o Galo!

Tempos bicudos

Em um país de maioria católica, a combinação de Dia da Padroeira, Dia das Crianças e a coincidência com um domingo indicariam horas de festa, confraternização e muita paz. Pois, foi exatamente nesse dia que algumas ocorrências chamaram a atenção pela bizarrice.

A pior delas foi, sem dúvida, protagonizada por um homem de 37 anos que invadiu o Cemitério da Saudade, desenterrou uma criança recém-falecida, pegou o caixão, pulou o muro e foi caminhando rua afora, com o caixão debaixo dos braços ameaçando quem se aproximava com uma enxada. Não fosse bastante tamanha loucura, doeu ainda mais a entrevista do irmão, em nome de uma família desnorteada; afinal, a mãe, já cega e sem uma das pernas, tem sofrido com o maníaco que insiste em roubar restos mortais para, entre outras coisas, fazer colar com ossos.

No momento em que a polícia prendia o ladrão de caixões na capital, equipes de socorro se esforçavam para diminuir as consequências de uma tragédia na cidade de Ibituruna. Um ônibus despencou de ponte, na zona rural, matou um menino e deixou mais de 20 feridos entre adultos e crianças. Pior que a morte do pequeno Cauã Silva Roque foi ouvir o prefeito Ebert Teixeira de Resende afirmar que a ponte não apresentava problemas. Ele deve duvidar de nossa inteligência ou vive em outro planeta porque a travessia se resume a um amontoado de taboas, visivelmente soltas, na mesma largura que o micro-ônibus... Ou seja, não é preciso ser perito ou ir ao local para saber que o movimento de um dos mourões de sustentação era o bastante para provocar o estrago. Embora tenha apenas três mil habitantes, a cidade tem vários deputados votados tanto para a Câmara Federal quanto para a Assembleia Legislativa. A pergunta que o prefeito deve responder é: qual deles tem efetiva responsabilidade com o município?

E houve atropelamento de uma criança na avenida Silviano Brandão com fuga do motorista responsável, acidente com dois mortos e três feridos na estrada de Nova Lima e mais, muito mais. No entanto, foi um homicídio em Ribeirão das Neves, na sexta-feira, o campeão disparado entre fatos que beiram o inacreditável: Daniel Fernandes de Souza, de 18 anos, matou a tia e ficou esperando a polícia para confessar. Depois, diante dos repórteres, mostrou frieza espantosa para dizer que há três meses viera do Espírito Santo para trabalhar como auxiliar de pedreiro. Tentava um recomeço, pois, envolvido em crimes, estava ameaçado de morte. Depois de algumas semanas, desenvolveu inimizade com a tia e tomou a decisão: pulou o muro da casa e surpreendeu aquela que o acolhera com golpes de facão, até matá-la. É impressionante a naturalidade com que o rapaz repete a quem quiser ouvir que, diante da tia desesperada, disse apenas: “Eu não ia matá-la, mas, como você disse que eu queria matá-la, decidi que agora vou matá-la”. É loucura ou não é?

Meritocracia

Naqueles dias em que me sinto perto de jogar a toalha, com tanta safadeza e falta de perspectivas, concentro-me na convicção de que o país está, sim, mudando. O problema é que o tempo da história é diferente do nosso, ele segue um curso sem considerar ansiedade e atalhos; nós queremos a mudança aqui e agora e as instituições não funcionam assim. Um bom exemplo é a crescente cobrança para o fim do preenchimento de cargos públicos importantes com critérios políticos. Os policiais federais e os auditores do Tribunal de Contas da União já colocaram o bloco na rua e, com certeza, outros vão desfilar exigindo respeito àqueles que se profissionalizaram e não aceitam o comando de um paraquedista.

Em Congresso recente, os auditores pediram uma Audiência Pública para debater a revisão dos atuais procedimentos de indicação e escolha de ministros do Tribunal de Contas da União (TCU). Para eles, a indicação deve ser feita por votação direta entre os próprios auditores do órgão. Acham a normatização do processo de indicação e escolha dos ministros ultrapassada, tendo sido instituída há mais de 20 anos por decretos legislativos, e precisa passar por uma profunda revisão para fins de seu aperfeiçoamento democrático.

De acordo com a entidade, a escolha dos ministros não pode ser feita de “forma adoçada”, a portas fechadas e sem a necessária transparência e publicidade dos atos para a sociedade. De seu lado, policiais federais fizeram uma manifestação em frente ao Ministério da Justiça, para pedir a saída do diretor-geral, Luiz Fernando Corrêa, e o reenquadramento de carreira. O presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal , Cláudio Avelar, disse que a categoria está insatisfeita com a intervenção política que, segundo ele, vem ocorrendo na Polícia Federal. “Queremos que o melhor investigador comande os investigadores e que o melhor administrador administre”,disse.

São duas categorias que abrem a temporada de manifestações, mas, com certeza, brevemente vamos ter uma enxurrada de abaixo-assinados, audiências públicas e cobranças para que a meritocracia funcione na definição de cargos importantes. Sempre me perguntei como pode um governador na solidão de seu gabinete decidir quem vai comandar as polícias Civil e Militar. Da mesma forma, um governador escolher os conselheiros do Tribunal de Contas, um presidente da República escolher ministros do Tribunal de Contas e, pior, o chefe da Nação escolher ministros de tribunais superiores... Ora, se vencer a reeleição, ao final de seu próximo governo, Dilma Roussef terá participado (junto com o ex-presidente Lula) da escolha de dez dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal. Não que isso signifique automaticamente favorecimento a ela ou a qualquer governante, mas, no mínimo, fica a gratidão. E quando se trata de tribunais que conferem prestação de contas, corporações que cuidam da segurança e, principalmente, de altas cortes da Justiça, não pode haver dúvidas.

Patrulhas

A partir do texto sobre preconceito, publicado anteontem, recebi inúmeras manifestações e descobri pesquisa interessante do professor Carlos Frederico de Brito d’Andréa, da UFMG, sobre a controvérsia em torno do grande número de votos do PT no Nordeste. Fez mapas, que agregam 1.713 twiters em cinco horas, na noite de domingo, nos quais brasileiros de diversas partes do país disparam contra os irmãos daquela região, com adjetivos como idiotas, burros e preguiçosos. Também existem propostas de explodir a região e até separá-la do restante do país.

Sem querer minimizar, Carlos Frederico concorda comigo que a maioria das pessoas que escreve determinadas aberrações sequer sabe direito o que está falando e não considera, por exemplo, que alguns de seus ídolos, como Gonzagão, Ariano, Caetano, Jorge Amado e Ivete Sangalo, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros nasceram naquela parte do Brasil. Esquecem-se até de que as regiões hoje mais desenvolvidas vieram depois; tudo começou lá, no litoral baiano. O problema é que algumas manifestações são de fato preocupantes, como um blog que reúne mais de 100 mil pessoas da área da saúde – especialmente médicos – e propõe castração química para o Nordeste.

A conversa com o professor ganhou outro rumo. Ele, mais jovem, concorda que em momentos de maior comoção, como na Copa do Mundo e nas eleições, a gente deixa fluir algo que está no nosso interior e, como as mídias sociais dão a impressão de que se pode falar o que quiser, a boca abre e assusta o mundo. Quando há disputa, a gente esquece a riqueza da diversidade, do pensar diferente, e deixa de torcer pelo nosso candidato para hostilizar os que gostam de outros. Eu contei a ele que, no domingo, ao comentar, no rádio, que os tucanos perderam em Minas pela arrogância na indicação de Pimenta, fui acusado de ser petista. Na segunda, instado a comentar o segundo turno, disse, entre outras coisas, que Aécio chegara por se mostrar (pelo menos nos debates) mais tranquilo e preparado; fui ameaçado de processo por propaganda tucana. Na quarta, depois do texto sobre o preconceito, usuários do Facebook anunciaram a minha filiação petista. Por que as pessoas acham que um atleticano não pode admitir o título para o Cruzeiro? É proibido ter um lado e respeitar o outro? E por que tanta preocupação com o que pensam os outros, se Deus deu uma vida a cada um de nós exatamente para que possamos cuidar dela? Tchekhov tinha razão: “O amor, a amizade e o respeito não unem as pessoas tanto quanto o ódio a alguma coisa”.

No que me toca, declaro minha preferência: entre Aécio e Dilma, fico com o Darci Ribeiro. Os três são mineiros, mas, infelizmente, o meu modelo de governante está em outro plano. Então, terei de fazer minha opção dia 26 escolhendo o (a) que é menos perigoso (a) para o futuro de minhas filhas. Advertindo a Dilma e Aécio que ambos devem muito a seu Estado natal, a começar por um metrô de verdade, BR- 381 duplicada e um Anel Rodoviário decente, humanizado.

A eleição escancara nossa hipocrisia

O fato de ter apenas 18 mil votos como candidato a deputado federal não decepcionou o humorista Geraldo Magela. Na verdade, já imaginava que sem dinheiro e máquina partidária poderia não obter sucesso, mas, como experiência, tentou e não se arrepende. O que dói é uma pergunta que viu na internet: “O que esse cego vai fazer em Brasília?” O internauta não sabe que a diversidade é a beleza da vida, que as pessoas com deficiências devem ter representação no Legislativo; melhor, não sabe sequer o poder do “ceguinho” mais querido do Brasil, que faz shows no exterior, encanta plateias onde quer que esteja e vive com agenda lotada de convites.

A chateação do “ceguinho” serve apenas para falarmos de algo grave que insiste em travar o nosso crescimento enquanto nação: o preconceito. É impressionante como a gente finge que está tudo bem, mas, ao menor sinal de incômodo, desanca a falar mal dos outros, preferencialmente desfilando adjetivos ofensivos. Agora mesmo estamos lendo que a eleição presidencial gera nova onda de comentários racistas nas redes sociais e, mais uma vez, tendo a população do Norte e do Nordeste do Brasil como vítima. Eleitores de outras regiões do país usaram o Twitter e o Facebook para culpar os cidadãos dessas regiões pelos problemas que o Brasil enfrenta. O grande volume de críticas deu origem inclusive a uma página – “Esses Nordestinos” – que reuniu diversos posts repletos de ódio e discriminação. “Alguém separa o Nordeste desse país, por favor”, dizia uma mensagem. “Só aqueles nordestinos malditos que votam na Dilma, nossa! Espero que nunca mais chova lá. Seca para sempre”, publicou outra pessoa. Somente em uma semana (do dia 28 de setembro ao dia 5 de outubro deste ano), 2.080 denúncias envolvendo 645 páginas com menções racistas, homofóbicas e xenofóbicas foram registradas pela ONG Safernet Brasil.

Às vezes, passo perto de madames que dizem frases do tipo “como podem votar naquela mulher que tem cara de empregada doméstica?” E, assim como no caso do idiota que critica o ceguinho, fico me perguntando se uma dessas dondocas que passam a vida mantidas pelo marido rico conseguem imaginar pelo que passaram pessoas como Marina Silva ou Dilma Rousseff para chegar aonde estão. Fico arrepiado de ver como os mais estudados, os mais brancos, os mais ricos e poderosos, têm pavor da chegada ou permanência de alguém que não tem origem tradicional ao poder. E, também, me vejo perguntando por que estamos tão intolerantes. Estava na fila para votar no domingo quando um jovem dizia um monte de asneiras à namoradinha, incluindo, claro, sua confissão (como a de todo analfabeto político) de que não vota em deputado, que são todos corruptos, etc... De repente, uma senhora chegou e se colocou em posição de ganhar a sala para votar; foi interpelada por ele, porque não enfrentara fila. Espinafrei com ele, lembrando-o de que os deputados nos quais ele não votou fizeram uma lei para beneficiar pessoas idosas, como aquela brasileira, a mãe dele, a avó dele e, quem sabe, até ele, se não morrer moço contaminado pelas ideias fracas.

Toda arrogância será castigada!

Tenho insistido, no cumprimento diário do meu dever de informar, que duas palavrinhas atrasam nosso tempo, pioram nossas vidas e impedem um avanço da civilização: imobilismo e arrogância. Estão presentes na rotina de todos, desde a indiferença diante de um corpo mutilado sobre o asfalto até a impaciência que demonstramos ao dirigir, ao entrar no ônibus ou simplesmente ao conversar com familiares. Entre os políticos, é pior, pois, quando se tornam nossos governantes fazem do imobilismo a chave para não desagradar ninguém; afinal, ano sim, ano não, tem eleição. E revelam arrogância para se distanciar dos governados.

É sobre arrogância que quero falar. Ela manda o boleto de cobrança. Vamos nos ater a dois exemplos. Recentes. O primeiro foi em 3 de julho, quando o viaduto caiu. A obra fora decidida em gabinete, sem que qualquer cidadão fosse ouvido, ainda que a estrutura planejada levasse o concreto até sua janela; ninguém sequer conseguia chegar perto dos chamados de responsáveis técnicos; na hora de executar, nada de conferir o projeto, dispensaram o acompanhamento remunerado, não quiseram saber se a quantidade de aço era compatível com o peso; na hora de retirar o escoramento, nada de vistoria... A casa caiu! O Terror ficou humilde.

Agora, as eleições para o governo do Estado deram-nos outra mostra inequívoca de que a gente precisa ouvir os outros, importar-se com o que pensam os representados e, sobretudo, não fazer pouco da inteligência alheia.

Independentemente de sua liderança política, Aécio Neves devia ter ouvido pelo menos alguns mineiros antes de escolher seu candidato. Não a turminha de sempre que acompanha qualquer político importante e se divide entre os que amam demais – para não dizer bajuladores – e os que têm medo de falar a verdade. Para não contrariar. Na verdade, Aécio devia ter aprendido quando, em companhia de Pimentel, inventou a candidatura de Márcio Lacerda e só não perdeu porque a opção era inaceitável. Alheio ao nosso Estado, longe, deslocado, Pimenta, nos debates, nas carreatas e nas entrevistas, parecia aquele moço que, penetra por natureza, entrou numa festa e perguntou pelo aniversariante... Alguém avisou que era um casamento.

Agora, alguém precisa dizer para o prefeito parar de insistir no aumento de alíquotas de ISSQN, ITBI e outros impostos... Será que não veem que ninguém aguenta pagar mais imposto? E, quanto ao governador eleito, como vou me encontrar com ele hoje, direi que ninguém aguenta mais peso... Vamos usar a criatividade, cortar na carne, diminuir a pompa e combater a sonegação. Sem esquecer que daqui a dois anos tem mais eleição, afinal, se eles só pensam nisso, estamos ficando especialistas também. Quanto a Aécio, a gente sabe que ele ama o Rio, mas convém ser mais presente em Minas.

A hora da responsabilidade

Quem tem juízo sabe que o próximo domingo é extremamente importante em nossas vidas. Temos de nos esforçar ao máximo para convencer amigos, vizinhos, empregados, patrões e até estranhos de que votar é fundamental. Sei que é difícil, nas é hora de agir. Não se trata de fazer a cabeça, sugerir nomes ou reprovar escolhas. Eu falo é do significado do ato. Aí, cabe liquidar o mito de que, se todos anularem o voto, a eleição também fica nula. Mentira. Quanto mais os verdadeiramente bem intencionados desistirem, melhor para os que fazem da política o trampolim para o enriquecimento e outras conquistas que aparentemente podem mudar suas vidas.

Essa é a hora de quem tem filhos, netos, lembrar que nós, humanos, não somos bons o bastante para viver sem governo; que, por tudo o que conhecemos, o melhor regime de governo ainda é a democracia e, no nosso caso, ela é representativa, isto é, temos de eleger aqueles que vão nos representar nas casas legislativas e na governança do Executivo. Não vale bancar o sabichão e dizer que todos são safados... Porque não são! Há, sim, gente séria, quase sempre massacrada pelos bandos que se especializaram em saquear nossas riquezas. Ninguém é inocente o bastante para não enxergar as famílias que se eternizam no Congresso Nacional, passando de pai para filho, neto, genro... Também não somos cegos a ponto de não ver a interminável jogada dos safados, caso do ex-governador do Distrito Federal que, cassado, em todas as instâncias, fez de um aliado o candidato e colocou a mulher como vice... Claro que vai mandar!

Mas, ainda não há outro caminho. Então, é exercer o direito ao voto, lembrando que ele é único, pessoal e intransferível. E que o seu voto tem o mesmo peso que o da Dilma, da Marina, então, o seu voto, mais o meu e nossos vizinhos podem fazer a diferença... Eu sei que você vai dizer que estou sonhando, que a realidade é outra, mas, pense se não estamos evoluindo... Repare se as campanhas não estão minguando... É que o dinheiro está desaparecendo, pois, as grandes empresas, os financiadores estão com as barbas de molho... Os espertalhões também. É um processo demorado, afinal, o tempo da história é diferente do nosso. Se você se julga capaz, inscreva-se num partido e apresente-se na próxima eleição, para que seja uma opção para aqueles que, como eu, preferem contribuir na profissão, na vida pessoal, não planejam disputar. Nós não podemos cruzar os braços. Não nos esqueçamos do analfabeto político, retratado por Bertolt Brecht:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Tempos de indecências

Como faz falta uma mãe na vida da gente! Não há um dia sequer em que não me lembre da minha, embora ela esteja no andar de cima já há quase cinco anos. Às vezes, no fim da tarde, chego a pegar no telefone para ligar e ver como ela está... Mas, sem dúvida, a frase dela que mais passeia por minha cabeça foi dita no Réveillon de 2001 e já escrita neste espaço por várias vezes. Quando a provoquei, lembrando-me de seu sentimento religioso preferido – “De mil passará, a dois mil não chegará” – ela, tranquilamente, me respondeu com uma pergunta: “E não acabou?”

Dona Miralda, como a senhora tinha razão! A começar pelo fato de que o Ebola, bendito vírus que prefere os pobres, já fez 4 mil órfãos em pleno século XXI. Pior, a senhora ouviu o que disse Levy Fidelix, um inacreditável candidato à Presidência na televisão, diante do Brasil inteiro? Vale a pena repetir, na íntegra:
“Luciana [Genro, candidata do PSOL], você já imaginou que o Brasil tem 200 milhões de habitantes? Se começarmos a estimular isso aí [casamentos entre homossexuais], daqui a pouquinho vai reduzir pra 100. Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria . Vamos enfrentar, não ter medo de dizer que sou pai, mamãe, vovô. E o mais importante é que esses, que têm esses problemas, realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo mas bem longe da gente, bem longe mesmo por aqui não dá”.

Tem base, dona Miralda, no ano de nosso senhor Jesus Cristo um homem presumidamente letrado falar uma coisa dessas para o Brasil inteiro ouvir? Alguém vai dizer que é o direito dele, estamos numa democracia etc. e tal, mas, não se trata de um posicionamento... É incitamento ao ódio. E digno de repreensão vigorosa, para não dizer criminalização. Mas, quando aumenta a saudade da minha mãe vem voz amiga da sensatez e lembra que todos nós temos a nossa hora e não seria inteligente prorrogar indefinidamente a estadia por essas terras. Afinal, quem daria conta?

Alguém aí pode considerar normal, aceitável, decente algumas campanhas que estão nas ruas? São várias de assustar. Tomemos como exemplo a do Tibé, que quer continuar na Câmara dos Deputados. O que esse moço está gastando é um espanto! No Estado inteiro, bandeirolas, cartazes, cavaletes e até alegorias... Sem falar que arrumou baldes de 20 litros de margarina industrial que, colocadas em fila, vão daqui ao Amazonas. No jornal de campanha, ele fala de três projetos de lei, sem detalhar como está a tramitação; destaca mesmo é a sua ação de despachante, levando dinheiro pra tudo: grama de campo de futebol, ambulância, ônibus escolar... A pergunta é: se um deputado ganha aproximadamente, líquidos, R$ 18 mil por mês, R$ 216 mil por ano e R$ 864 mil durante os quatro anos de mandato, por que diabos esse moço gasta cinco, seis vezes mais na campanha? E nós, não vamos fazer nada? É do jogo democrático? Ou dos tempos do faz de conta?

Por que tem de ser assim?

Hoje quero convidá-lo para reflexão sobre a instalação de uma banca de revistas em Belo Horizonte. Você pode até achar que sou um chato de galocha por dedicar espaço a assunto tão simples e absolutamente comum nas grandes cidades. Acontece que o que me importa não é a banca, mas, como ela chegou ao novo destino.

No sábado, 20, pela manhã, o executivo do setor de imóveis me ligou pedindo ajuda porque acabavam de desembarcar uma banca de revistas em frente à sua loja. Mais que isso, assim que ela desceu do caminhão, já teve início o processo de vendas, pois, as revistas estavam em seu interior. Ele, entre assustado e irritado, queria saber se não havia como argumentar; não se conformava com o fato de ao lado de sua empresa existir uma enorme área de estacionamento e, na outra ponta, a gigantesca calçada daquele Hotel Mercure, na avenida do Contorno. Na cabeça dele, se houvesse bom senso a banca poderia ficar em área mais apropriada, sem causar tanto estrago na frente do estabelecimento.

Eu disse a ele que, como repórter, apenas denuncio situações como esta, mas, indiquei um amigo que poderia fazer a ponte para que ele tivesse respostas da prefeitura. Até hoje, não ligaram de volta, mas, já informaram ao interveniente que a banca foi instalada dentro dos preceitos legais, não há o que fazer e fim de papo.

O meu amigo não é contra o dono da banca trabalhar. Também concorda que se trata de um comércio útil. Mas, como empresário bem sucedido, que percorreu os caminhos do mercado imobiliário da cidade nas últimas três décadas e é hoje o representante da maior corretora da América Latina, ele achou que teria ao menos a chance de parlamentar. Negaram-lhe a oportunidade. É aí que reclamo. É aí que discordo não apenas da atual administração, mas, de como as cidades têm sido administradas.

Na minha cabeça, quando houve o pedido de instalação da banca e os estudos indicaram que a região precisa, dentro das preliminares seria incluída uma visita ao cidadão estabelecido bem em frente ao local escolhido para dar-lhe ciência da licença de instalação e explicar o processo de permissão. Não que o município tivesse de ceder, caso houvesse rejeição porque o prefeito tem nossa procuração para administrar.

O que faltou nessa ocorrência e tem faltado corriqueiramente é atenção mínima ao cliente, ao consumidor, ao condômino, àquele que paga a fatura. O dono da banca merece respeito. E o outro, que está ali há anos, paga os impostos, gosta da cidade? O problema é que todos os políticos falam em participação, envolvimento da comunidade, mas, na prática, as nossas administrações públicas são autoritárias. Você, caro leitor, decida, por favor, se é apenas chatice minha ou se, assim, a gente não desanima as pessoas de irem às urnas.