minas gerais

Roda-Viva

“Tem dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu; a gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu; a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar; mas eis que chega a roda-viva e carrega o destino pra lá”.

Depois de passar o dia assustado, descobri, ao cair da noite de ontem, que o meu recado de hoje só poderia ser precedido de Chico Buarque que, com sua inteligência poética, resume o sentimento de impotência que invade nossa alma de repente. Alguma coisa saiu do controle, além da violência em Betim.

Na cidade de Coluna, uma mulher esfaqueou, até a morte, uma garotinha de 4 anos para se vingar da mãe, que agora está com o ex-marido da assassina; no Nordeste, a mãe colocou veneno no sorvete para matar o filho; na Assembleia, aumentaram em 53% o recém-criado auxílio-moradia que já passou de R$ 4 mil e tem deputado achando pouco, enquanto o governo oferece R$ 160 de abono para professores que sonham ganhar R$ 2 mil; na Fernão Dias, a carreta que interrompeu o tráfego por 30 horas está lá até hoje e, nesta quinta-feira (16), atazanou a vida de milhares de motoristas, de novo; mais três viadutos têm problema de estrutura na Pedro I e o prefeito em exercício – acredite! – diz que a culpa é da lei de licitações, que exige uma empresa para fazer o projeto, outra para executar a obra e uma terceira para fiscalizar...

E no futebol, alegria do povo? Cruzeiro e Atlético disputam domingo o troféu de pior time da capital em 2015; os azuis levaram um jogador sem visto para a Argentina e agora reclamam do jogo domingo sem lembrar que assinaram contrato com a TV e agora é cumprir; os alvinegros, que um dia vibraram com Nelinho e Reinaldo, agora toleram Patrick e Carlos... Ufa!

Chama a polícia! Mas, como? O comandante de trânsito anunciou, semanas atrás, o fim do fechamento de ruas na cidade, especialmente na Praça Sete e às seis da tarde, mas, nem os soldados ouviram; um carro dos bombeiros derrubou o muro do Palácio da Liberdade e simples abastecimento resultou em incêndio de viaturas em quartel de Sabará...
“Na cidade de Coluna,
uma mulher esfaqueou,
até a morte, uma garotinha de 4 anos para se vingar
da mãe, que agora está
com o ex-marido da assassina”

Violência fora de controle

Finalmente, uma autoridade assume sem rodeios a situação de emergência para a criminalidade em Minas: o secretario de Segurança de Betim, Luis Flávio Sapori, não usa meias palavras para declarar que a violência está fora de controle e que precisa da ajuda de todos, desde o mais simples cidadão até o governador do Estado. E urgente.

Os números corroboram a fala do secretário que tem bagagem prática e teórica para pedir socorro: nos primeiros 14 anos deste século, o número absoluto do crime mais grave, o homicídio, subiu 70 por cento, o que significa taxa de 55,6 mortes para cada 100 mil habitantes, índice alarmante mesmo comparado com outros municípios brasileiros também violentos.

O tráfico de drogas é o motor da avalanche mortal, tanto que um estudo do Centro de Pesquisa em Segurança Pública da PUC Minas revela que de 552 inquéritos relativos a crimes ocorridos entre 1987 e 2012, nada menos que 66,1 por cento não tiveram autoria definida e, portanto, foram arquivados. A propósito, as drogas são a causa de mais de 42 por cento dos assassinatos. A situação não é menos grave quando se verifica o gráfico de furtos e roubos. Aumento de 51 por cento nos últimos dois anos. Sem falar nos não registrados. Faltam policiais civis, militares e vias de maior comércio na região central, mais os bairros Jardim Teresópolis, Alterosa, Laranjeiras e São Caetano abrigam pessoas apavoradas.

Com apoio do prefeito Carlaile Pedrosa, o secretário sugere o fortalecimento da Guarda Municipal, implantação de patrulhas comunitárias, esforços junto ao Tribunal de Justiça para diminuir a impunidade, articulação com o governo do Estado para a construção de centro para internação de menores e de presídios no modelo APAC, além de uma serie de programas, voltados para crianças em situação de risco, jovens, mulheres e usuários de drogas. Outra boa notícia é a criação de um Conselho Municipal de Segurança, a reativação do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e, sobretudo, o chamamento da comunidade para uma grande discussão. O desafio é gigantesco, mas, começa com a virtude da consciência de que Deus precisa ajudar.

Moda que devia virar moda

Quando a gente pensa que a vida está cada dia mais chata, difícil e sem perspectivas, eis que a criatividade brasileira nos dá a mão, nos anima e insiste que seguir em frente é o melhor caminho. Luciana Duarte, professora de Engenharia de Produção, teve uma ideia simplesmente sensacional. Amanhã, entre 8 e 18 horas, vai montar uma loja em plena Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal para que os moradores de rua possam escolher a roupa e o calçado de sua preferencia. E levar, claro. E, de graça.

Luciana estudou design, fez pós-graduação em moda e decidiu propor um olhar sustentável para o hábito de vestir e calçar. Ela pretende mudar a lógica de doação de roupas e calçados para a camada mais invisível de uma cidade excludente como Belo Horizonte – exatamente os que moram na rua e, portanto, estão o tempo todo na frente dos nossos olhos. Aos 28 anos, essa mineira que já rodou o mundo quer experimentar aqui um projeto que viu na África do Sul e resume-se na montagem, na rua, de mostruários, a exemplo dos que existem em estabelecimentos comerciais, para que o interessado possa escolher a peça que deseja. Luciana sabe – eu sei, tu sabes, ele sabe e nós todos sabemos – que até hoje um morador de rua só tem o direito de usar o que lhe damos, assim mesmo quando resolvemos dar, e, na maioria das vezes, objetos que já não se prestam mais para o uso. Ela quer colocar tudo na prateleira, o usado e o novo, o mais humilde e a etiqueta chique, e convidar o necessitado a escolher, de acordo com o gosto e as medidas.

Para receber doações foram montados seis postos de recolhimento nos bairros Sion, Savassi, Santo Antônio e Cruzeiro, na região Centro-Sul, Rio Branco em Venda Nova e no campus da UFMG. Ela conta com a ajuda de 200 voluntários, entre os quais seus 40 alunos do curso de Engenharia de Produção da Faculdade Kenedy. As peças são separadas por cor e numeração e colocados em cabides. Os destinatários foram avisados do evento em dez albergues da capital, por onde passam perto de 1000 homens e mulheres de idades variadas. Se você quer saber mais acesse www.modaeteica.com.br . Ou, simplesmente passe lá, em frente ao parque, amanhã, para ver de perto que a gente pode até reclamar de governantes, mas, o povo brasileiro é bacana demais.

Inimigo íntimo

Embora jovem, Shirley Barroso tem experiência para não se assustar com qualquer coisa. E ela estava de olhos arregalados ao propor que eu também entrasse no caso. Que história! Dois jovens se uniram 14 anos atrás. Três anos depois nascia a filha que, seguramente, está acima da média na capacidade de articulação e expressão.

Alguns anos mais tarde, e após alguns serviços rápidos, como trocar bucha de torneira ou apertar um varal, um vizinho tornou-se amigo da casa o suficiente para transitar com desenvoltura e independentemente da presença de marido e mulher. Chamava a atenção do pai o fato de que o homem mudava sempre de aparência, ora deixando a barba crescer, ou pintando os cabelos. Depois de muita convivência, e por conta de outra ocorrência, policiais militares passaram a frequentar a casa. O tal vizinho amigo sumiu. Perplexidade no seio da família com o desaparecimento.

Um ano depois, a mãe foi chamada à escola porque a filha dócil e inteligente estava com comportamento agressivo e atitudes indevidas como dar pontapés nos órgãos genitais de coleguinhas. Uma conversa mais demorada e a criança contou que anos e anos fora abusada pelo tal vizinho... Até desenhou como se davam os abusos.

O pai, agora estudante de Direito e estagiário de uma Defensoria Pública com obrigação de defender acusados, ficou furioso. Decidiu contratar um detetive particular, obteve informações valiosas como a de que familiares do pedófilo moravam por perto. Mas, faltava ele. Pois, no último sábado, ao entrar em um shopping, deu de cara com o tarado. Chamou a polícia, conteve os nervos e os músculos, e entregou o bandido... Que ficou preso na hora porque já tinha dois mandados, sendo um deles por prática de pedofilia.

Recado do pai: “O perigo está sempre por perto”. Recado da mãe: “Não se descuidem nem por um minuto, ainda que a criança esteja dentro de casa”. Recado da menina, de frieza impressionante, absoluta liberdade para falar sobre o assunto e vivacidade espantosa: “Só espero que ele fique preso para não estragar a infância de outras meninas”.

Queda de viaduto pode render júri popular

O inquérito criminal sobre a vergonhosa tragédia de 3 de julho do ano passado, quando o viaduto “Batalha dos Guararapes” caiu na Avenida Pedro I e matou duas pessoas, deve ser concluído nesta semana. Portanto, até lá, além do delegado que o preside, ninguém pode adiantar detalhes. Mas, se a função do delegado é investigar, a do repórter é fustigar e, acreditem, dois dos indiciados podem ir parar no Tribunal do Júri.

Como já antecipado neste espaço, depois de ouvir mais de 80 pessoas e reunir informações em cerca de 1.200 páginas, o delegado Hugo e Silva deve pedir o indiciamento de cerca de 10 pessoas. Agora, consegui uma informação de que dois engenheiros podem ser enquadrados por crime com dolo eventual – aquele em que o agente age em busca de um resultado, mas, admite, aceita, sabe que poderá resultar em outra consequência. Seriam um profissional da “Consol”, que assinou o projeto de cálculo, e outro da “Cowan” que admitiu correr os riscos realizando a obra em condições não ideais – possivelmente por quantidade insuficiente de ferragem nas vigas de sustentação. São apenas especulações, que me permito fazer a partir de informações de pessoas que estiveram perto das investigações e também de alguns dados que vazaram nesses últimos nove meses. E é exatamente pelo transcurso de tanto tempo que ouso especular; afinal, ninguém tolera mais tanta demora na definição de responsáveis até porque dois outros viadutos, na mesma avenida, erguidos na mesma época, com projeto e execução das mesmas empresas, apresentaram problemas em sua estrutura. Claro que poderemos ter surpresas como, por exemplo, a responsabilização de alguém da Sudecap, ou até da Prefeitura considerando que, quando do acidente, não havia profissional responsável pela fiscalização do que estava sendo feito – algo obviamente necessário até quando a gente vai fazer um puxadinho em casa.

Aconteceram duas mortes, não foi acidente. Assim, alguém terá de responder pelos homicídios. E o melhor lugar para tratar de crimes contra a vida é o Tribunal do Júri. Ali, a gente vai saber se foi omissão irresponsável ou economia criminosa.

Vergonha

Sempre que alguém fala mal de Belo Horizonte, especialmente se longe das montanhas de Minas, saio em defesa da terrinha na hora. Mas, como morador, cidadão honorário e apaixonado por Beagá, tenho direito de externar meu sentimento de que é uma roça grande, digna de risos por parte do mundo inteiro. Ou algum outro lugar do planeta conseguiu a façanha de desmoralizar a engenharia, a lógica, a matemática e princípios mais elementares que devem permear a obra pública? Como a gente faz três viadutos pequenos e simples, um cai; outro ficou sem uso por meses por medo de desabar e o terceiro está agora escorado para não descer um mundo de concreto sobre a cabeça de quem paga imposto.

Impressionante como o Estado que ficou famoso com a construção de grandes obras no exterior quatro décadas atrás assiste agora esse espetáculo do inacreditável, sem reação à altura por parte de nosso prefeito, nossos vereadores, nossa sociedade. Que vexame! Que vergonha! Pior é que, nove meses depois, não temos o inquérito policial para apontar os responsáveis pela queda do “Batalha dos Guararapes” e a nossa Câmara Municipal adota postura de subserviência tão grande a ponto de o vereador Juninho Paim ter dito ontem, a Wellington Magalhães na frente de Márcio Lacerda: “Deixe de ser assessor do prefeito e aja como presidente do poder legislativo!”.

Um passarinho me contou que dentro de dez dias o delegado Hugo vai enviar o inquérito de 1.200 páginas à Justiça e deverá indiciar 10 das 80 pessoas que ouviu ao longo dos longos 9 meses. Queira Deus que seja verdade e que a gente tenha pelo menos a esperança de que a morte de duas pessoas, as feridas – no corpo e na alma – de tantas outras e o maior vexame da Copa do Mundo no Brasil não fiquem sem resposta. Tomara que a Sociedade Mineira dos Engenheiros, o CREA, todos os que creem na engenharia se unam para responder a uma pergunta básica: erraram por que tinham de economizar na ferragem e no concreto para lubrificar alguma campanha política ou erraram por que a empreiteira queria ganhar mais? Erro humano de cálculo, sem intenções suspeitas, não pode ter sido. Nos três projetos? Não é plausível, em 2015, com o computador na mesa... Não! Só pode ser primeiro de abril!

Vesti a carapuça

Em seu blog “Observação e análise”, Luís Borges diz ele estar difícil conviver com pessoas que se acham proprietárias da verdade e agem assim o tempo todo. Pior, “tudo fica mais “osso duro de roer” porque essas pessoas só sabem falar, mas nunca conseguem ouvir. Elas se sentem tão donas da verdade que quando alguém consegue interromper as falações, elas mudam de assunto ou saem de perto de quem as contesta. Outro problema é a altura da voz e o tom bravo que adotam, muitas vezes para intimidar e acentuar a prevalência do que elas querem impor. Democracia participativa para elas tem mão única – só elas falam, sempre”.

O autor adverte que ninguém deve vestir a carapuça, ao perceber na sua reflexão características inegáveis. No meu caso, não adiantou. Vesti a carapuça na hora. É quando ele fala na dificuldade de ouvir e na altura da voz que mexe comigo. Afinal, não é raro que pessoas próximas me apertem o braço e dizem: “Mais baixo...”. O Geraldo Magela, o ceguinho mais famoso do Brasil, velho amigo, estava comigo numa casa de churrasco alguns anos atrás e, naquele ambiente de som alto, muita gente, as nossas mulheres conversando entre elas e nós em outra prosa, na mesma mesa, me empolguei e só descobriu quando ele, afastando o ouvido da minha boca, lembrou: “Sou cego, viu Eduardo? Surdo não!”. Quando a gente leva um beliscão, dá um jeito e conserta. Então, repetindo apelo que já fiz neste espaço, se precisar, mande e-mail pondo reparo, como alguns têm feito. Eu posso até não escrever para os leitores, mas, asseguro, leio os comentários.

E, preciso dizer sempre, morro de medo de parecer alguém que, pela graça de Deus de ocupar espaços na mídia, se sente o dono da situação. Tenho colecionado alguns desafetos porque vivemos um tempo de hipocrisia e falar a verdade sempre machuca. Por exemplo: ontem li que a Assembleia vai votar reposição salarial de 6 por cento para os servidores do Ministério Público, referentes ao período maio 2013 a abril 2014. Vão receber agora, retroativo a um ano atrás. Não seria esquisito... Se os outros, da saúde, da educação, que ganham muito menos, tivessem o mesmo tratamento... Mas,...


Somos a geração “burnout”

Mergulhado na violência nossa de cada dia, passei parte da semana matutando sobre o tamanho da repercussão da queda de um avião, na França, entre nós, mineiros. Não que ignore a dor dos que se foram, ou dos que sofrem com a saudade. O que me assombra sempre que há acidente como aquele é a diferença de repercussão; por que, todos os dias, se contarmos entre vítimas de homicídios e trânsito, perdemos mais de 150 vidas em Belo Horizonte e nem ligamos? Alguém vai argumentar que o avião é mais glamoroso, outros dirão que seus passageiros são mais importantes na escala social e mil ponderações virão... Continuo sem entender.

Na quarta, entrevistei o advogado Rodolfo Dantas, e ele falou sobre a síndrome de “burnout” . Explicou que a palavra em língua inglesa quer dizer “que queima por fora” e retrata o quadro em que o trabalhador está exaurido pelo estresse. Tão pressionado, fazendo tudo correndo e com medo de errar, fracassar, chega ao ponto de explodir... E aí, valha-me Deus! Dormi, na quarta, pensando nisso. Ontem, pela manhã, vi uma moça desesperada no caixa do banco. Disse que passara a noite chorando, que já não sabe que fazer porque a chefe não para de cobrar, exige produção (não que atenda bem aos clientes, mas, que venda seguro, plano de capitalização, qualquer coisa, que empurre no cliente e aumente o lucro) ameaçando transferi-la para outro lado da região metropolitana.

Mas, não tivera tempo o bastante para pensar na moça e nos nossos dias impossíveis e lá veio a notícia de que, possivelmente, o copiloto matou deliberadamente todos os que estavam no avião, na Europa, jogando o aparelho contra as pedras a 700 quilômetros por hora. E, dizem, ele podia estar sofrendo da síndrome de “burnout”. E passei o resto da quinta com fogo por dentro e por fora dos pensamentos: Depois dos atentados de Nova Iorque, arranjaram um jeito de ninguém entrar na cabine; agora, o piloto sai para um xixi e não consegue voltar, apesar de esmurrar a porta! Enquanto os humanos não forem tratados como gente, não haverá lugar seguro; enquanto bancos, grandes empresas, governos, poderosos acharem que podem impor o desassossego em troca do lucro, não haverá confiança mútua... Ou, como disse o Papa, enquanto não houve justiça social, não haverá paz!

Servidores públicos?

O grande Kafunga, que brilhou como comentarista esportivo, pela bagagem e pela capacidade inigualável de falar a língua do povo, adorava repetir que, “no Brasil, o errado é que é o certo”. Que saudade do mestre! Tive o privilégio de conhecê-lo, e não fico 10 dias sem lembrar-se de uma das suas pérolas. Há outro jeito de explicar, sem as frases do Kafunga, o tratamento que alguns servidores públicos dão às demandas?

Nos últimos dias, ouvi duas inacreditáveis na Itatiaia. Primeiro, uma senhora reclamou que, ao requerer o seguro-desemprego, foi orientada a se inscrever num curso do Pronatec e, ao ponderar que já tinha curso superior, não necessitava, a moça disse simplesmente “leia a lei”. Pior que a reação da atendente, foi a entrevista do chefe dela, confirmando que há, sim, a exigência e que ninguém – em princípio – está livre do curso. Ora, a pessoa trabalhou, fez jus ao seguro, não é contumaz nas retiradas do benefício, não carece de qualificação, e deve ser obrigada a fazer um curso... Tomando o lugar de outro trabalhador realmente necessitado? Tudo depende, segundo o chefe, “da análise da servidora”. E do humor desta. Tem base?

Pior ainda foi a reação do assessor de imprensa da Polícia Rodoviária Federal quando questionado sobre a interdição de parte da Fernão Dias por mais de 30 horas no fim de semana. Disse que acidentes aconteceram, estão acontecendo, que o Brasil é um país rodoviário, tragédias virão... Sobre a atitude desesperada dos motoristas, que arrancaram na unha e pela força das correntes as barras de ferro do canteiro central para fugir do abandono, ele condenou, afirmando que põe em risco a segurança de terceiros e deles mesmo. É brincadeira. O cidadão paga quase a metade do que consegue ganhar (com salário) de impostos, paga pedágio e, diante de qualquer imprevisto, fica na rua dois dias, no meio do nada, sem higiene pessoal, alimentação, segurança, conforto, respeito, atenção... Para as autoridades, não há o que fazer. Não é possível buscar um trator ou qualquer coisa grande e arrastar o empecilho, não é possível colocar um guarda quilômetros antes para avisar o desvio... Nada! E, provavelmente, quando lerem essas irritadas linhas, os “responsáveis”, da PRF, do DNIT, da Autopista, da Polícia Militar, dos governos federal e estadual ainda vão ficar bravos comigo... “O errado é que é o certo!”.

Humanização é mais que uma palavra

Dia desses fui procurado por dois agentes que estão fazendo pesquisa sobre humanização do sistema penitenciário em Minas Gerais. Gostei. Por muitos motivos, a começar porque existe gente interessada de verdade no assunto. Gente que não é político, não quer votos ou holofotes, mas, por na pauta assunto tão grave. Outra coisa: eles estão convictos de que a palavra deve envolver de fato o “sistema” isto é, dirigentes, trabalhadores, os presos, todos. Quem sabe se, desta vez, não sai algo realmente palpável e digno da palavra humanização?

Já ouvi falar do tema um milhão de vezes nos últimos 40 anos. Quando uma autoridade assume o “sistema” o primeiro bajulador que aparece fala ao pé do ouvido: “Diz aí que vai humanizar”. E recomeçam os discursos. Neste momento, os presídios estão superlotados, os presos estão desesperados e, a menos que eu esteja muito mal informado, assistiremos em breve a uma serie de rebeliões em Minas. Afinal - diz o advogado Adilson Rocha que conhece o assunto como ninguém - as mulheres presas estão usando miolo de pão no lugar de absorventes porque sequer material higiênico tem recebido. E falta tudo!

Sei que muitos consideram o assunto menor, na certeza de que preso tem é que sofrer, ou morrer, mas, são humanos, se revoltam, quebram tudo e, quando voltarem às ruas, estarão ainda mais ferozes. Sem o mínimo de respeito, sem respeito aos familiares, ninguém aguenta! E isto vale, muito mais ainda, para os agentes penitenciários, os diretores e todos os que tomam conta desses barris de pólvora. Imagina alguém trabalhando com feras furiosas em condições absolutamente adversas: reduzido número de trabalhadores, falta de condições de trabalho e de estímulo...

O governador Pimentel já começou com um grande equívoco em minha opinião colocando para comandar a Defesa Social alguém que não é do ramo e sequer tinha ficha de bom administrador. Apesar da crise, o governador está criando mais quatro secretarias e não pensou em uma pasta para o sistema penitenciário. Queira Deus que, no seu círculo de assessores mais próximos, Deus ilumine alguém para falar-lhe a verdade sobre os presídios e ajudar-lhe nas providências vigorosas e urgentes.