minas gerais

Viaduto da verdade

O viaduto da Avenida João Samaha sobre a Avenida D. Pedro I, no Bairro São João Batista, em Belo Horizonte, deveria ser alvo das atenções dos sociólogos e antropólogos brasileiros porque ele explica o país melhor que qualquer livro de história. Naquele viaduto, uma placa recém-colocada dá a medida exata de como somos divididos enquanto gente no país: há uma parte composta pelos que compõem a elite desde 1.500, acrescida dos novos ricos, e o resto do país.

De repente, quem passa por lá, vê a homenagem: “Viaduto Walduck Wanderley” . É claro que a maioria das pessoas deve pensar: quem é ele? Ou, quem foi esse senhor para merecer o nome ali? Explico: ele foi um homem que enricou trabalhando na área da construção, que tem seus méritos, mas, em entrevista à Revista Exame em 1997, confirmou que sua rotina incluía financiar campanhas políticas e emprestar avião para aos amigos poderosos. Quem vive assim não é o rico que muitos (incluindo esse escriba) tratam como grandes homens. Mas, como a Cowan conseguiu escapar de crises e continuou amiga dos palácios, ele ganhou muito dinheiro. E se gabava de gastar 200 mil reais por mês dizendo que tinha prazer, entre outras coisas, de descer a Afonso Pena a 20 quilômetros por hora para mostrar a todos a bela Mercedes.

Dariam o nome de Walduck a um viaduto que seria construído na Antônio Carlos, entrada do Mineirão. Mas, entre a aprovação da lei e a colocação da placa, morreu o ex-vice-presidente José Alencar e, como convém ao mundo dos poderosos, empurraram o Waldcuck lá para a Avenida Pedro I. Só que, entre o empurrão e a nova placa, tivemos aquela vergonhosa queda do outro viaduto... Bem ao lado deste que, agora, ostenta o nome do dono da construtora que fez o tal Batalha dos Guararapes.

Fico imaginando as famílias de Hanna Cristina dos Santos e Charles Moreira do Nascimento. Ela tinha 24 anos, dirigia um micro-ônibus; ele tinha 25 e estava dentro de um automóvel. Foram esmagados. Até hoje, nem indenização, nem explicação, nem visita de vereador ou qualquer representante dos Direitos Humanos. Nem o inquérito policial sobre a queda do viaduto ficou pronto.

Essa doeu até na sepultura do falecido.

Jacinto pergunta e ninguém responde

Ele é taxista, tem 73 anos, carro novo e jeitão mineiro. Esteve com o médico recentemente e, depois dos exames, ouviu que vai passar dos 100. Diz que topa, apesar de não conseguir compreender mais nada do que ouve, vê e lê nos dias de hoje. Quando reconheceu o passageiro como repórter deixou a serenidade e danou a falar. Era a chance do desabafo. Ou melhor, a oportunidade única de passar a alguém que poderia dividir com milhares de pessoas algumas perguntas que passeiam por seus pensamentos.

Pergunta número 1 do Jacinto: se agora falam sobre a falta de água e pedem a ajuda da população, ameaçando multar, por que, simultaneamente, não anunciam medidas concretas para estancar as perdas e impedir a destruição incessante das nascentes em todo o Estado?

Ninguém vai responder, disse eu ao Jacinto. Afinal, vivemos de sustos, não temos compromisso com planejamento ou seriedade com o futuro... Se tiver eleição de dois em dois anos, a gente empurra as verdades para debaixo do tapete (lembra-se do ministro Ricúpero falando disso na TV?). Quem disse que há espaço na nossa Assembleia para estudos e debates decentes sobre a preservação dos mananciais? Ao contrário, o que há naquela casa, permanentemente, é uma tentativa de arrancar um terço da mata do mutuca para fazer mais prédios.

Segunda pergunta do taxista: como podemos aceitar que a Guarda Municipal encontre um cidadão fazendo transporte clandestino de pessoas e, abordado, ele chame os amigos da Polícia Militar que, fardados e armados param o centro da cidade, atirem no rosto de uma moça da Guarda e ainda cantem de galo?

Ninguém vai responder, reiterei ao Jacinto. O que vale é o corporativismo e as eternas picuinhas entre corporações que deveriam ser obrigadas a trabalhar unidas, com punição rigorosa para engraçadinhos. Se há alguém fazendo transporte irregular, ilegal, deve ser preso e fim de papo. A alegação de que a Guarda não é polícia é ridícula porque qualquer um de nós pode deter o infrator.

Tem muita coisa sem resposta. Quem entende uma tentativa de assalto em supermercado, o PM à paisana atuando como segurança privada reage, há tiroteio, matam uma trabalhadora do caixa e a Corregedoria

instaura mais um inquérito cujos resultados a gente desconhece. Por estas e outras é que o Jacinto pergunta de novo: como vão exigir dos outros respeito à lei?

A gente devia discutir a seca

Períodos de estiagem sempre existiram, porém, as pessoas não estavam tão juntas como hoje. Então, me pergunto porque não estamos discutindo mais a iminente falta de água na maioria das capitais brasileiras. Assim como a violência (que, enquanto afligia só os pobres, não era problema nacional) a escassez do líquido essencial à vida estará batendo às portas de todos, indistintamente, e a gente continua fazendo de conta que o problema é lá do Oriente Médio.

Vale uma revisão histórica para lembrar os períodos mais críticos. Entre 1723 e 1727, a falta de chuvas no Nordeste associada a uma peste causou enorme mortandade nas populações mais frágeis. Cinquenta anos depois, nova estiagem, agora combinada com varíola, causou taxa de mortalidade altíssima, não só de pessoas, mas também de animais, especialmente o gado. A coroa portuguesa teve de distribuir terra aos flagelados. Um século depois, portanto em 1877, todo o Nordeste, mas, principalmente o Ceará, sofreu grandes perdas, a morte de 500 mil pessoas e a migração de quase 200 mil para a Amazônia e outros estados. A sina do Nordeste voltou a assombrar ao final da segunda década do século passado, o governo federal fez mais promessas e a vida seguiu seu curso. Pouco mais tarde, na década de 30, finalmente entenderam a seca do Nordeste como problema nacional, provavelmente porque também estados poderosos, como Minas e São Paulo foram afetados. Mais três décadas e nova estiagem gravíssima, afetando várias regiões e novas promessas... Em 1981, lavouras perdidas, animais mortos, saques à feiras e armazéns por uma população faminta e milhões de mortos... De novo, no Nordeste os maiores estragos, sempre retratados por artistas do porte de Luiz Gonzaga e Catulo da Paixão Cearense. Recentemente, novos períodos de sufoco no finalzinho do século XX e, neste milênio, o quadro só piora, com o Rio São Francisco sofrendo horrores, ameaças seguidas de racionamento de energia, incêndios como nunca se viu e populações urbanas desesperadas.

Na minha cabeça, estaríamos hoje todos nós envolvidos numa grande discussão, buscando alternativas, promovendo campanhas educativas, nos preparando para situações emergenciais. Estamos todos ainda em Cancun, Cabo Frio... Quem sabe se em fevereiro... Ou, depois do Carnaval.

A praia é a cara do Brasil

Se a viagem de trem passou a sensação de bem estar e segurança e as paisagens vistas através dos vagões permitiram as felizes divagações, o fim da linha, na Estação Pedro Nolasco é uma sacudida violenta para avisar que a realidade está de volta. Quando se desce do trem, noite já escura, não há placa ou alguém sinalizando para a esquerda ou direita... O jeito é seguir o fluxo. Cem metros depois um beco dos aflitos: dezenas de taxistas gritam a plenos pulmões, brigam entre eles, disputam um possível cliente no tapa.

Quando o carro começa a deslizar pelas ruas de Cariacica - com o devido perdão da palavra e o respeito aos que lá habitam - que visão do inferno! Não há falta de recursos ou incompetência que justifique área tão degradada... O táxi desliza por Vitória, que expõe a realidade brasileira: prédios suntuosos de frente para o mar e as mazelas de cidade grande no interior. Em Vila Velha, a primeira decepção é o hotel: a diária é 290, pode ser 270 ou até 210... é só ficar um pouco na recepção para ver que os preços combinam com a voz de quem ligou. No meu caso, mineiro, bobo e atrasado (reservei em cima da hora), 490 reais por quarto... A desculpa é o “pacote de réveillon”... Se pelo menos tivesse um elevador...

Na manhã seguinte, Vila Velha 30 anos depois. A ponte que liga os dois municípios tem agora uma praça de pedágio na chegada a Vitória e o taxista diz que paga 80 centavos com prazer porque antes estava uma bagunça.. É provável, pois, debaixo dela, os usuários de droga tomaram conta. Pior mesmo é na praia. O prefeito não apenas negligencia o reparo nas duchas (a maioria está estragada lá e em outros municípios) como, simplesmente, não construiu, até hoje, um único banheiro na praia. É como se dissesse: façam xixi no mar. Ele deve ser amigo do prefeito de Guarapari: querem bons turistas, mas não são bons anfitriões.

Mas, tudo bem... Comi um camarão inesquecível, relembrei os tempos do peroá frito e, claro, me esbaldei na moqueca. Sem falar em encontros com gente boa e aquele marzão da Praia da Costa... Trem bão, sô!

As (muitas) viagens no trem

Se do lado de dentro o ritmo constante, suave e antiestresse faz bem ao coração, as visões que se tem a partir do interior de um trem produzem incontáveis devaneios, infinitas viagens e filosofias. A começar pela própria janela que, para saudosistas, seguramente combinava mais quando aberta. Ora, o conforto do ar condicionado tem um preço... Sem falar na segurança, considerando os arroubos da adolescência, com inevitáveis tentações de se colocar parte do corpo para fora, mais o risco concreto de apedrejamento dependendo de onde os vagões estão passando.

Mas, lá fora, tem matas com aspecto de virgens, casinhas enfiadas no meio da imensidão verde, eventualmente a fumaça de um fogão a lenha, o gado, de leite e de corte, muitos cavalos “pangarés” e alguns de raça... Tem tudo que a roça tem. Aí, a pergunta que não quer calar: pode faltar terra para alguns milhares de irmãos com tanta área inexplorada? Junto com o trem serpenteia o Doce, ou, o que sobrou do rio... Dá dó! Na maioria dos trechos apenas filetes d´água, pedras à mostra e indicativos seguros de que o futuro é assustador. A duplicação da rodovia 381 segue o ritmo do trem – que lentidão! Mas, se como o trem, a nova estrada chegar aleluia!

Queria muito voltar ao trem para comparar as comunidades de hoje com as de 40 anos atrás quando fui a um casamento em Tumiritinga ,a convite do amigo Iberê. Não digo cidades e sim comunidades porque é uma visão simplista, a partir do trem e apenas no raio de visão disponível. Que tristeza! Tudo do mesmo jeito em Barra do Cuieté... Olarias, casebres, abandono... O tempo parou por ali. Passando por Conselheiro Pena folheava a autobiografia de Nelson Mandela e cheguei ao ponto em que um chefe tribal procurou a mãe dele e disse que, em retribuição à ajuda do ex-marido, queria agora ajudar um dos filhos... Pois foi exatamente em Conselheiro que o político José Laviola apadrinhou um dos filhos pobres de uma eleitora e deu o empurrão necessário para que tivéssemos hoje, em Minas, o ótimo doutor Lauri Jorge Pereira. E veio Aimorés, a divisa, terras capixabas... Chegamos! Depois, falo sobre o que encontramos na praia.

Êta trem bão!

Desde a revitalização, na metade do ano, queria muito viajar de trem para o Espirito Santo. Seria uma volta a emoções do passado, proporcionar a minha caçula uma emoção definitiva, antes que bata asas e ganhe o mundo, como é da natureza humana. Viagem lúdica. E como foi prazeroso! Tanta estória que tentarei resumir em três textos: hoje, o trem; na quarta, o mundo visto do trem e, na sexta, outro sonho mineiro: praia.

O trem saiu na hora certa, com funcionários educados, uniformizados e que informam o que interessa sem masturbação da gramática; o nível de ruído é mínimo, o conforto das poltronas surpreende e, para 13 horas de viagem em classe executiva, 91 reais são justos. A propósito de tempo, é preciso lembrar que as pessoas que optam pelo carro estão gastando entre 10 e 11 horas, sem falar na raiva dos congestionamentos e no perigo das curvas.

Logo na saída, três saquinhos plásticos são distribuídos, com dicas do que colocar neles e, durante a viagem, funcionários recolhem o lixo, além de passar um pano com produto químico pelos corredores. Enfim, há um constrangimento natural para os porcalhões, os vagões ficam limpos; boa estrutura de alimentação, tanto no carro restaurante como na oferta de produtos junto à poltrona do passageiro. Poltrona que tem razoável espaço para as pernas, não chega a ser cama, mas, também, não aperta tanto quanto nos aviões que passeiam nos céus do Brasil. Outra boa notícia diz respeito à bagagem: definitivamente, não há guerra por espaço... O Guido, um americano, boa praça, que tem casa na praia e levou seis malas e não teve problemas para acomodá-las.

Resumindo: viagem sem sobressaltos, sem irritações e, felizmente, também sem aqueles chatos que gostam de aparentar poder e fama que não têm. A venda de passagem pode – e deve - ser mais rápida, pois, quando a mineirada que tem casa nas praias capixabas descobrir o trem, a fila vai aumentar.

Naqueles vagões, só lembrava que estava em 2014 porque havia tabletes e celulares para todos os lados... Não consegui fazer minha filha olhar mais que dez minutos para as fantásticas paisagens. Tudo bem... Tomamos café no vagão restaurante, olhando um para o outro e para as montanhas de Minas. Isso não tem preço.

Por que a gente num tá na rua?

Quase uma semana depois, as imagens daquela multidão nas ruas de Paris não saem da minha cabeça. Instado pelo amigo Luis Borges esqueço os cuidados que repórter deve ter, para dividir com os leitores uma pergunta: se todo mundo, quando se sente angustiado, reprimido, limitado nos mais seus sagrados direitos de ir, vir e se expressar vai para as ruas e pede socorro, por que é que a gente ainda não foi?

Não estou falando de “Black blocs” ou qualquer grupo de pessoas que se esconde atrás das máscaras para cometer violência. Nem penso em reforma política ou aumento de salário como bandeiras. Sem ignorar nossas deficiências na educação, na saúde, na habitação e em outras necessidades básicas, eu acho que o mais grave e urgente é a segurança pública. Estou falando do direito de sair de casa, tomar um ônibus, ir à padaria, comprar uma joia, chegar a cara na janela... Ou, mais importante que isso, fazer planos para os nossos filhos acreditando que vão viver para realizá-los. Por força da profissão, sou bombardeado com informações de violência o dia inteiro, onde quer que esteja e algumas são sintomáticas de um tempo sem lei. Estou certo de que os bandidos, verdadeiramente perigosos, não passam de duas mil pessoas em Minas Gerais. No mais, são delinquentes que têm terreno fértil com a desordem generalizada que assola nosso país, onde se pode tudo, na bordoada, no grito ou “na tora” como dizem alguns amigos.

Vejamos a Savassi, que hospeda o quinto melhor colégio do país e é uma das regiões mais tradicionais da cidade, com imóveis de metro quadrado mais alto que o de cidades festejadas, como Miami. Apesar de todo o seu charme, sua importância econômica e política, é uma terra de ninguém. Os comerciantes amarram vasos de flores com correntes, fecham lojas desesperados e não conseguem relaxar nem para o lanche. Não há assaltante perigoso; são apenas farrapos humanos, usuários de drogas, que precisam de um tratamento, mas, paralelamente, devem ser retirados das ruas porque oferecem riscos – a eles próprios e a terceiros. Não temos um plano de assistência social para cuidá-los, policial não pode tomar providência e o quadro vai piorando, piorando...

Está assim, por todo lado... E a gente só se escondendo...

Sem Chapolim, quem poderá nos salvar?

A morte de Roberto Gòmez Bolãnos deixou bilhões de órfãos mundos a fora e sou um deles. Sem apelar para nudez e palavrão, fazia a gente rir prá valer e, o mais impressionante, repetindo as mesmas palavras, os mesmos trejeitos, o mesmo enredo. De tudo, o que mais adorava era a pergunta “E agora, quem poderá nos salvar?”, seguindo-se o surgimento de Chapolim Colorado gritando “eu!”.

Reflitam comigo, meus prezados! Embora seja essa a única função de relevância que tenha como vice-prefeito e secretário de Meio Ambiente, Délio Malheiros não consegue resolver a questão das capivaras: nem tira os animais de lá nem fecha todo o entorno da lagoa para evitar mortes.

Há mais de um ano, a Defesa Civil de Belo Horizonte, uma das poucas coisas que funciona nesse Estado, pede, desesperadamente, à Polícia Militar para retirar 45 famílias que podem morrer a qualquer momento na Rua Serenido e a PM, uma das poucas instituições que funcionavam nesse Estado, não cria coragem para cumprir o dever.

Há mais de uma década, taxista de Confins não pode pegar passageiro em Belo Horizonte, o da capital só pode levar passageiro ao nosso aeroporto internacional e não aparece um homem capaz de resolver essa parada, acabar com essa bobagem de limites de municípios em tempos de conurbação e evitar o vexame de a gente ver os visitantes sendo expulsos dos carros, no meio da rodovia, sem entender por quê.

O Atlético tem a torcida mais sensacional do mundo que não pode encher o Mineirão por um capricho de cartola; o América tem 9 presidentes e nenhum deles evitou que o time escalasse jogador sem condições.

O Pimentel não deixou votar o aumento de 4 por cento para os que ralam na saúde e na educação, mas quer aumento para os secretários.

A Dilma deu aumento de 6,23 para os aposentados que ganham 800 reais e 14,6 para os ministros do Supremo que ganham 30 mil por mês.

O helicóptero que os tucanos compraram para salvar vidas na Copa está até hoje no hangar, sem gente para tripular e outro que a Polícia Rodoviária Federal apresentou nunca mais foi visto.

Ah, quem são mesmo os três senadores por Minas?

Que saudades do Chapolim!

Palavras…

Sou fascinado com o exercício das palavras. Sobretudo da oralidade. Já ouvi alguns discursos de arrepiar. E olha que apreciar discurso é gosto muito duvidoso; mas, num júri em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, tive o privilégio de ver um debate entre Heleno Fragoso (advogado carioca que atuava na defesa) e o grande Ariosvaldo de Campos Pires (como assistente de acusação) que jamais esquecerei.

Trabalhar com as palavras, sobretudo falar – e mais ainda de improviso – requer talento, treinamento e muito cuidado. Vejam que nestes textos sem maior elaboração ou preocupação de defender bandeiras, tenho sido premiado com reações as mais contraditórias. É só verificar os sites e suas respectivas seções de comentários: numa semana, acusam-me de ignorar críticas ao Aécio e, na outra, perguntam por que faço campanha contra ele... Faz parte do ofício. É aceitar com humildade, corrigir os erros e caprichar cada vez mais. Sempre atento ao que dizem os outros.

Recentemente, li um texto de Roberta Faria sensacional sobre o verbo cuidar. Ela faz um passeio em torno da expressão “você tem que se cuidar” com a qual nos premiam cada vez mais para, com rara felicidade, dizer que estamos entendendo mal o vocábulo (palavra considerada apenas quanto à forma, independentemente da significação que nela se encerra) na sua aplicação como verbo (palavra que exprime ações, estado, mudança de estado...). Ela explica que quando um amigo considera que estamos mal vestidos, sem fazer as unhas ou despenteados e se apressam a nos avisar da necessidade de ter mais cuidado, estão desconsiderando quais são nossos valores, qual a importância que damos para cada uma das coisas, sobretudo as aparências. De repente, diz ela, apenas lavar e cortar as unha basta a uma pessoa que está efetivamente comprometida é em ajudar outras... Não tive a felicidade de conhecer a Madre Tereza de Calcutá, mas, seguramente, nas mãos dela, o cuidar tinha outro significado. “Cuidar”, lembra Roberta, é sinônimo de “tratar de”, “assistir a”. Outro exemplo? O verbo “esperar”. Mário Sérgio Cortela avisa que, se entendido como “esperançar”, significa sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que deseja; confiança em coisa boa. Já no sentido de esperar é “ficar em algum lugar, aguardar, esperar”. E, quem espera nem sempre alcança.

Miriam, símbolo do descaso!

O governo – nos seus diversos níveis, por suas mais variadas formas de intervir na nossa vida – dá mostras, todo dia e toda hora do descaso para com seu patrão – nós, o povo brasileiro. Em toda esquina, há um exemplo e o último deles é o taxista Joaquim que, assaltado num posto de gasolina do Anel Rodoviário, ficou sem dinheiro, outros pertences e até a carteira de motorista. Ao procurar o Detran, pedindo ajuda, sugeriram-lhe pagar 85 reais e esperar nova autorização para dirigir por uma semana. Como o táxi é o ganha- pão, voltou ao posto no dia seguinte, na esperança de encontrar a carteira e acabou assaltado de novo.

Mas, sem dúvidas, o símbolo da indiferença do poder público atende pelo nome de Miriam Oppenheimer Leão Brandão e já está num mundo melhor desde 28 de dezembro de 1992. Em uma das maiores brutalidades que o país assistiu, Miriam, então com 5 anos, foi sequestrada, morta por asfixia e teve o corpo queimado e enterrado na casa dos sequestradores, no quintal de uma casa no Bairro Santa Cruz, em Belo Horizonte. No primeiro dia de cativeiro a menina foi morta por asfixia, seu corpo foi queimado junto a pneus, os restos enterrados na casa dos irmãos bandidos e mesmo assim os sequestradores ainda tentaram por 22 dias extorquir dinheiro da família como se a menina estivesse viva.

A mãe de Miriam tornou-se referência de coragem, bom senso, defesa do direito à vida e de como sobreviver a uma tragédia inimaginável. Pois, acreditem senhoras e senhores, apenas nesta semana, 22 anos depois, Jocélia conseguiu a certidão de óbito da filha. Desnecessário dizer que durante tanto tempo ela teve de reconstruir a vida, em todos os sentidos, cuidar dos outros filhos, garantir boa formação, etc. e que, como em toda família, precisa atender à burocracia, ter papéis que serão exigidos pela justiça hoje, amanhã e sempre. Apesar da repercussão mundial do caso, da condenação dos réus e de não existir qualquer dúvida sobre o a partida precoce da menininha, sua mãe lutou até agora para garantir a prova legal de que ela é uma doce lembrança. Ainda assim graças à intervenção do desembargador Hebert Carneiro que fez os processos andarem dentro do fórum.

Que a mãe nos desculpe a o espírito de Miriam vele por nós!