minas gerais

Falta de respeito!

Quando menino, ouvia com atenção a uma advertência costumeira de meu pai: “Respeito é bom e conserva os dentes”. Estivesse ele no plano em que vivemos e dissesse isso em lugar público e seria repreendido, talvez até ameaçado de processo por estar pondo a integridade física dos filhos. Esse exagero do politicamente correto, misturado com um vale tudo na vida nacional estão nos afastando de um dos pilares indispensáveis à boa convivência: o respeito aos outros.

 
Não vou discorrer sobre o que escrevem nas mídias sociais, mesmo aqui nos comentários de determinados leitores... Vamos a fatos. Comecemos pelo desabamento de um Viaduto na Avenida Pedro I que faz aniversário neste domingo. Meus amigos, está escrito lá no Ministério Público que começaram a obra sem o projeto pronto, pagaram o projeto antes que fosse concluído, fizeram a obra sem fiscalização qualificada, puseram um engenheiro agrônomo para “acompanhar”, usaram menos ferragem que deveriam, colocaram concreto vencido e retiraram todo o escoramento antes da hora, contra o palpite de operários... E caiu aquele monte de entulho, matou duas pessoas, feriu dezenas, envergonhou a cidade, manchou a Copa, e, dois anos depois, apesar dos esforços de alguns não há sequer alguém responsabilizado pela tragédia. Há de se ressaltar o trabalho do delegado Hugo, que indiciou várias pessoas por homicídio, o que foi desclassificado pelo MP; há, na área cível, um esforço do promotor Eduardo Nepomuceno, para que o Município receba pelo menos o dinheiro de volta, mas, diante de tantos recursos, tantos pormenores, tudo continua no plano da conversa.

 
Vejamos o caso Samarco, que completa sete meses nesta terça. O Ibama diz que ela não pagou uma multa sequer, relacionada com o meio ambiente; os promotores dizem que não cumpriu nada até hoje, o prefeito da cidade reclama falta de atenção e não há força que consiga fazer andar o processo de reparação dos danos. A empresa trata o desastre, a cidade, seus trabalhadores e a opinião pública em geral de forma distante, seus principais líderes não aparecem, não mostram a cara para dizer que há um esforço de recuperação, não conversam, não assumem... Fica a sensação de que esse é mais um caso dentro da nova técnica do Direito brasileiro: não é provar a inocência, mas, protelar, enrolar, deixar o tempo passar... Ou não é isso que os irmãos lá de Unaí, que mandaram matar os quatro servidores federais conseguiram? Ou não é o que está acontecendo com os principais líderes do mensalão mineiro, completando 70 anos e saindo à francesa?

 
A indecência está disseminada. Tem sujeito ganhando eleição para vereador com o prestígio de funções que exerce e que não vai trabalhar, tem artista famoso metendo a mão no dinheiro que deveria incentivar a cultura, a gente não respeita o hino nacional, não respeita autoridade, não respeita pai, mãe, irmão, colega de trabalho, vizinho... Vivemos um vale tudo assustador! Repare!

O anonimato é uma bênção!

Dia desses, estava com o humorista Geraldo Magela em uma festa junina e, após apresenta-lo a um cidadão, este pediu imediatamente que o “ceguinho” mais famoso do Brasil contasse uma piada. Não é a primeira vez. Como nos encontramos pelo menos uma vez por mês, já o vi passar por outros momentos de constrangimento. Na mesma semana, liguei para o deputado João Vitor, estranhando que ele não estivesse nas imagens de uma reportagem sobre audiência pública na Assembleia quando trataram da duplicação da BR 381. Este é um dos temas preferidos do parlamentar, filho de Caeté, mas, naquela tarde, ele não bateu ponto no plenarinho por motivo justo: discutia, no plenário, como oposição, minucias da reforma administrativa proposta pelo governo de Minas. E, quando liguei, João aproveitou para desabafar: “Passei o dia inteiro no assunto, agora, fui a um canto do café para trocar ideias com o deputado Ulysses e eis que aparecem dois repórteres do jornal O Tempo me fotografando e perguntando por que estava assistindo o jogo pela TV em vez de estar no plenário”.

 
Quando fui ao computador para escrever essas linhas, vi notícia de que Antônio Fagundes desistiu de almoçar com a namorada no Rio por causa da tietagem exagerada dentro do restaurante. E, vi, também, o vídeo em que um brasileiro esculhamba com o senador Humberto Costa e o deputado Jean Wyllys, em um restaurante de Montevidéu, acusando-os de serem pró Dilma e contra o Brasil.

 
Até dois, três anos atrás eu dizia que Deus é tão bom para mim que até fama ele me deu na medida certa, ou seja, era um cara reconhecido em alguns ambientes, sempre bem tratado o que, claro, não deixa de ser bom para a autoestima. Só que a aparição diária na TV está mudando os tempos e, de vez em quando, já me sinto incomodado. Não por minha causa. Quando só, estou sempre disposto a fotos, abraços, pedidos de reportagem e um sem número de outras manifestações, considerando todas como privilégio de quem é conhecido, querido e respeitado. Quando um ou outro é mais chato logo lembro que tolerá-lo é o preço por tantas coisas boas que a profissão me dá. O diacho é quando estou com familiares. As vezes quero comer um peixe com minhas filhas e o cara que nunca vi quer conversar comigo, num domingo, uma da tarde, me falar de um estupro da prima da tia dele no interior; em outras ocasiões, a telespectadora quer uma foto, mas, enquanto pede, se aproxima, abraça e, sem cuidado com a empolgação, empurra a minha mulher. De outra feita, no estádio, o cidadão sacou o celular da calça e o entregou a minha esposa ordenando: “Faça uma foto com o Eduardo, não posso perder a chance”. Diante da informação de que ela não sabia manusear o aparelho, reclamou: “Como assim? Você, mulher do Eduardo, não sabe tirar uma foto?”

 
Voltemos aos famosos de verdade. Pior que o incomodo sofrido no restaurante, foi a repercussão para o Fagundes lá no Rio. Mesmo tendo saído sem reclamar, sem má educação, foi alvo das maiores grosserias nos comentários da noticia dada, na internet, por um destes repórteres que cobrem celebridades. No caso dos parlamentares, eles exerceram o direito ao voto, estavam no Uruguai a trabalho, foram agredidos verbalmente e até ameaçados, sem direito de reação. No caso do João Vitor, o deputado de Minas, muito provavelmente dirão os que lerem essas notas “ah, ele trabalha com futebol no rádio, estava mesmo vendo jogo em vez de trabalhar”. É assim. Com as tais redes sociais, todo mundo diz o que pensa (ou sem pensar) e os que são pessoas públicas sofrem mais. Se o deputado vai mal, é só trabalhar para derrota-lo porque de 4 em 4 anos ele precisa de recondução; se quer ouvir uma boa piada do Ceguinho, é só ir a um show dele... E ele não é afetado, ao contrário, já me disse que quando uma pessoa trabalha para ficar conhecida, depois não pode reclamar do assédio. Mas, cuide-se, pois, certa vez, após fazer um show no Teatro Dom Silvério e ir jantar, já de madrugada, na Avenida Uruguai, o saudoso Rogério Cardoso foi importunado por um inconveniente que queria – porque queria – ouvir uma piada as 2 da madrugada. Rogério perguntou qual a profissão dele e, ouvindo ginecologista, propôs: “Você faz um exame ginecológico aqui, em cima da mesa, na sua mulher, e, em seguida, conto”.

 
Então, encerrando a prosa, repito: sou muito agradecido a Deus por tudo, até pela fama... Que me deu em escala menor... Mas, quando mais vejo a proliferação da agressividade, o apreço à má educação e a facilidade com que as pessoas julgam, condenam e execram as outras, mais concordo com o João que, sem entender o “flagrante” de nossos colegas jornalistas, comentou: “O anonimato é uma benção.

 

A era do faz de conta

Este é um daqueles textos cuja publicação irá contrariar muita gente, pode provocar reações iradas e até causar nos leitores mais apressados a sensação de que repórter é insensível ao sofrimento dos mais humildes. Mas, se o profissional quer respeitar a própria história, ele precisa dizer o que sente e acordar as autoridades para providencias indispensáveis à ordem pública, da qual estamos tão carentes neste começo de século.
Nesta segunda-feira, 20, três exemplos me levaram à reflexão que faço agora, na esperança de que você, leitor, possa também discutir, em casa, na escola, no trabalho, questões que estão aí, latentes, a exigir uma atitude nossa.
Exemplo 1 – Mais de 300 policiais militares, oficiais de justiça, agentes da Defesa Civil, técnicos da Prefeitura e dezenas de outros servidores públicos colocaram-se em posição de ataque para desocupar uma área pública no Bairro Copacabana, região Norte de Belo Horizonte. E eu, vendo a imagem pela TV, disse aos colegas: “Não haverá desocupação”. É que, antes de os tratores avançarem, haveria a tradicional parlamentação e, claro, chegariam a um consenso de adiar. Não sei se é certo ou errado, não estou discutindo... Conheço a tristeza dos que não têm um teto para os filhos, a indignação dos que se vêm cercados por ocupações desordenadas que pioram a qualidade de vida em bairros consolidados e, principalmente, conheço a indiferença de nossas autoridades. Elas não têm planos de habitação, não impedem as invasões e não aparecem na hora de resolver... Não têm coragem, não querem resolver. Mandam a polícia. Se der certo, tudo bem; se der algo errado, a culpa é do tenente que está lá, na ponta.
Exemplo 2 – A Rede Record mostrou mais uma interdição de rodovia em Minas. Desta vez, foi no trevo do Bairro Água Branca, perto do Bairro Pindorama. Pelas imagens aéreas contamos 27 pessoas. Vinte e sete pessoas fecharam uma rodovia que liga Belo Horizonte à região Central, aí incluídas cidades como Pedro Leopoldo, Esmeraldas, Sete Lagoas, Curvelo, Corinto, mais o Norte, o Jequitinhonha, o Noroeste, a capital Brasília... A indignação dos manifestantes é compreensível – uma senhora foi atropelada e morta no local; a revolta deles é humana, afinal, se não gritarem não serão ouvidos... Ou alguém acha que o DNIT, responsável pela rodovia, está preocupado? Mas, insisto, 27 pessoas não podem fechar uma rodovia, impedindo a chegada de alimentos à Ceasa, levando pessoas a perderem voos, trabalho, escola, gente doente que perde exame, consulta, não é aceitável que algumas dezenas parem centenas de milhares... Afinal, a democracia não é do povo, para o povo e com o povo? E a nossa liberdade não termina onde começa a dos outros?
Exemplo 3 – A Rádio Itatiaia fez matéria com denúncia de moradores em situação de rua de que a Prefeitura está tomando seus cobertores. Eu não sou insensível para ignorar o quão desumano é alguém ficar na rua nestas noites de inverno. Mas, no lugar da simplicidade de exigir respeito ao pobre, por que não discutimos seriamente o assunto? E isso inclui levar essas pessoas para os abrigos... É isso! A prefeitura tem abrigos, tem restaurante popular, então, não devemos dar cesta básica, cobertor ou qualquer coisa que estimule a vida na rua. Ah, mas todo mundo tem direito de ir e vir... É verdade; dormir não! Se instalar, com fogão, barraca, colchão; fazer sexo, xixi e coco não! Há de se respeitar o direito deles e o de todos os outros cidadãos, especialmente os que querem usar as praças, as calçadas e só encontram dissabores... Um amigo, recém-chegado de São Paulo, foi comer um sanduíche na lanchonete mais famosa da Savassi e, lá dentro, na boca do caixa, se sentiu intimidado por um marmanjo que queria forçá-lo a pagar um lanche. Diante da insistência, perguntou ao segurança da loja se não tomaria providência. E o guarda respondeu: “Não posso fazer nada”. Se o cliente fosse reclamar na rua, com polícia, encontraria a mesma resposta.
Quem aguenta? Por que há tanta omissão? Por que nossas autoridades só pensam nos efeitos de suas ações e o que elas podem repercutir nas eleições, ano sim ano não? Estou politicamente incorreto, sou um filhote da ditadura ou vivemos um vale tudo na cidade? É terra sem lei? Ou não?
Por que ninguém quer perder voto, ainda que o imobilismo destrua todas as nossas noções de ordem publica?

Que venha o Museu do Sexo!

Que me perdoem os de diferentes opiniões, mas, saúdo a chegada do Museu do Sexo, por uma série de razões. A primeira delas é que sexo é vida, dizem todos os médicos, espiritualistas e curandeiros do mundo inteiro. Como, no caso, há intima ligação entre o ato e a prostituição, a primeira profissão, segundo todos os historiadores populares que já ouvi, então, o museu há de ajudar na desmistificação do tema, no inexplicável preconceito para com os profissionais e aproximar a tradicional família mineira da Rua Guaicurus. Na verdade, uma série de eventos já ajuda nessa aproximação e basta lembrar o recente sucesso do bloco de carnaval “Então Brilha” cujo charme está exatamente no local de concentração.

Outras ações têm feito o papel de aproximar as pessoas que não vivem naquela rua, conhecida historicamente por abrigar atacadistas e pelo “baixo meretrício”. Claro que o papel maior está com gente como a Cida Vieira, que preside a Associação dos Profissionais do Sexo, mas, cada um de nós, a seu feitio, tem ajudado. E me orgulho e contar minha parcela: certa noite escrevia minhas matérias na redação do Diário da Tarde quando chegou o Roberto Drumond perguntando se era eu que estava fazendo uma serie sobre crimes praticados por um assassino na zona boêmia da cidade. Respondi afirmativamente, ele quis saber se poderia levá-lo lá, combinamos para o dia seguinte e fomos. Ele ficou fascinado com a rua, os hotéis, as estórias, e escreveu um texto, transformado em videopeça por Breno Milagres, denominado “O Estripador da Rua G”, do qual participei. Mas, o melhor é que a partir daquele dia Roberto ficou meu amigo.

Há outros fatos que me ligam ao reduto do sexo. Por exemplo: fiquei intrigado quando, em entrevista, anos atrás, ouvi do psicólogo e criminalista Emerson Tardieu Júnior, que aqueles hotéis de alta rotatividade são importantes na estabilidade de muitos lares. A justificativa é simples: boa parte do público daquelas casas de cama quente é composta por homens de baixa instrução, trabalhadores braçais, sem muita paciência para TPM e outras peculiaridades femininas, ou seja, querem sexo com mais frequência que a parceira pode oferecer e, não existindo aquela válvula de escape, as agressões poderiam ser mais frequentes. Alguém vai dizer que é conversa fiada, que não se justifica ir para a zona ou querer sexo todo dia, mas, enfim, ele é profissional, estudou o tema e eu o respeito.

Outra coisa: há alguns anos, fui convidado a lecionar em curso de pós-graduação em Rádio e TV no Uni-BH e minha missão seria uma oficina... Fiquei pensando no que ensinar, considerando que a teoria, as regras básicas e o que há de essencial na graduação os alunos já haviam apreendido. Foi então que tive a ideia de levá-los para as ruas, cadeias, praças, rodoviária, shopping popular, mostrando-lhes como a notícia está em toda parte, como desenvolvê-la e como ter compromisso com a cidade. Acabei com eles no Hotel Brilhante onde, graças à boa relação com o gerente, fizemos uma visita e eles conversaram com duas das profissionais. Sucesso. Nos semestres seguintes, vinha a cobrança de novas turmas para visitar a zona boêmia e eu sempre me impressionava com a distância entre os profissionais da comunicação – aqueles que têm de produzir notícias, comerciais, enfim, ajudar a opinião pública a interpretar os fatos – e uma das atividades mais antigas da cidade.

Poderia continuar enumerando aqui uma relação infindável de razões, mas, penso que o leitor concordará quando lembrar que o mundo anda tão desumanizado e há tanta notícia ruim que falar de sexo pode ser terapia. Como? O massacre de Orlando, os estupros, o ex-marido que falsificou um atestado médico acusando a mãe de seus filhos de doente mental e fugiu com as crianças, os golpes que estão por toda parte...

Quer mais um exemplo de como a Zona da Guaicurus merece ser tratada com respeito em relação a outras praças desse país? O meu colega Eustáquio Ramos consultou junto à secretária-geral da Câmara Municipal a relação de vereadores faltosos durante as 40 reuniões entre os meses de fevereiro e maio. Só as sem justificativa. Daniel Nepomuceno faltou 16 vezes, Alexandre Gomes 12, Tarcisio Caixeta 11, Leo Burguês 10 e tem mais uma sequência que inclui Valdivino (9), Junhinho Los Hermanos (8), Pablito (8), Elaine Matozinhos (7), Preto do Sacolão (6)... Se não pode, não quer ser vereador, por que não renunciar- abrir espaço para um suplente, que quer trabalhar?

Contra a chateação, que venha o Museu do Sexo, temporariamente instalado debaixo do Viaduto de Santa Tereza e onde ontem houve um troca-troca, isto é, quem tinha determinado objeto ligado ao sexo podia trocá-lo por outro…

Discutindo a relação

Se existe uma pessoa sem autoridade para anunciar ruptura com os estádios de futebol sou eu. Já o fiz mais de uma vez. Então, agora, quero dividir contigo é a decisão de dar um tempo – ou, como se diz entre os apaixonados, uma DR, a sigla que significa discussão em torno da relação, quando as partes colocam suas queixas, ouvem argumentos e tentam reconstruir alianças.

Não há a menor chance de torcer para outro time, pois, quem é atleticano nasce; não se torna nem desiste. Aliás, minhas tristezas não estão diretamente ligadas ao clube, mas, ao esporte, aos que o fazem, ao jeito de se lidar com o dito profissionalismo. Sempre achei que os jogadores ganham demais, os técnicos têm prestígio indevido, os cartolas são tratados como se fossem empresários vitoriosos e o torcedor (eu, também, claro) o bobo da corte. De uns tempos para cá aumentou minha sensação de estupidez por ainda me interessar, às vezes sofrer, sabendo tratar-se de um grande circo. Vivo a incomodar os colegas que trabalham com futebol, “cornetando” no ouvido deles, tocando no assunto no rádio e na TV sem que seja essa a minha área de atuação, enfim, tenho dedicado tempo demais para falar do mesmo – dificuldade de aceitar fatos envolvendo o mundo da bola.

Pior é que, quando converso com gente de minhas relações, pessoas das quais gosto e que considero de bom senso, elas estão do outro lado... Assim, preciso rever conceitos, e, como não tenho disposição para esforços no sentido de reciclar, vou me ater ao jornalismo no qual atuo, já repleto de injustiças e barbaridades, e priorizar os livros nos quais estão viagens mais interessantes. Tenho comigo que os ímpetos da juventude autorizam bravatas, exageros, equívocos e até deslizes... A gente acha que sabe tudo, que tem a menina mais bonita, o partido político mais honesto, o time imbatível... Depois dos 50, quando se descobre a verdade socrática de que nada sabemos é hora de por a bola no chão e priorizar o que de fato importa.

Recentemente, vivi momentos dos mais felizes como atleticano, com a chegada de Marcelo Oliveira. Fui para o estádio, animado, desci do táxi na Silviano Brandão, tomei cerveja no meio do samba, subi como adolescente as ladeiras do Independência e experimentei as delícias da Rua Pitangui. Hora do jogo. E não é que ele, Marcelo, meu Telê Santana moderno, manteve Patric no time, exercendo funções de armador e goleador? O time estava perfilado para o Hino Nacional e, antes que me recuperasse do susto de saber que Marcelo, assim como Levir e Aguirre, insistiam no que considero ofensa ao futebol-arte, eis que outra tristeza profunda invadiu minha alma: a torcida atleticana, uma das maravilhas brasileiras, cantou o hino do galo o tempo todo, em cima do hino do Brasil... Mas, como? Me disseram depois que é uma forma de a massa protestar contra aquela frase “... A imagem do Cruzeiro resplandece...” Meu Deus! Quanta bobagem! Como pode se misturar uma coisa com outra? Então, comecei a mobilizar colegas para que iniciassem uma campanha, falassem da importância de gostar do hino, disseminar a ideia de pátria! E não vi qualquer empolgação em meus pares. Alguns disseram que concordam com o protesto, outros não querem o hino nacional no campo de futebol... Que desolação! No auge de minha desilusão assistia pela TV um clássico e, diante da queda de um jogador do América, o técnico do Cruzeiro mandou o jogo continuar... Como? O tal Paulo Bento vem do outro lado do oceano para dizer que fair play não existe mais em gramados mineiros e não reagimos? Alguns disseram que ele tem razão, que tem muita cera em nome dos “machucados”... Mas, então, lutemos para punir os estelionatários! Mas, não, a gente, para evitar que um espertalhão ganhe tempo, decreta que os atletas devem seguir o jogo, ainda que um colega esteja com a perna quebrada...

Definitivamente, eu preciso ouvir mais música, ler mais, prosear sempre e deixar o futebol para quem entende...

O maluco é só mais um

Os lamentáveis fatos da tarde de sábado em hotel de Belo Horizonte exigem reflexões e providências que fogem do ambiente policial. O fã que premeditou em detalhes o assassinato de Ana Hickmann é só mais um no meio da multidão. Digo isso com a experiência de repórter policial nos últimos 40 anos, cronista da cidade, observador das ocorrências e ouvinte de rádio que confere atenção especial aos malucos. E essa é a palavra. Afinal, existem chatos – especialmente no âmbito do Conselho Regional de Psicologia – que querem dourar a pílula, criar eufemismos e nos obrigar a chamar o psicopata de “pessoa com sofrimento mental” , nos impor a “verdade” de que ninguém mais precisa ser internado e que centros ambulatoriais como os tais “Cersan’s” de Belo Horizonte funcionam.

Acordo todo dia 4 da manhã e começo a ouvir rádio, atento à violência, de 7 e meia as 9 da manhã mostro só barbaridades na televisão e, quando saio, continuo com a cabeça voltada para o tema, agora com vistas ao programa de rádio que, embora não seja essencialmente policial, também tem de abordar assuntos dessa natureza simplesmente porque são eles que retratam a nossa realidade. E o arsenal de atitudes sem nexo, de comportamentos sem parâmetros é cada vez mais espantoso. Não tenho e nunca tive contatos com ferramentas de internet, exatamente por falta de paciência com estorvados que entendem alhos por bugalhos e, ainda assim, tomo conhecimento diariamente de postagens que revelam pessoas muito doentes – ora por necessidade de ostentação, ora por traumas de infância e, com muita frequência, antipatia gratuita e definitiva contra determinada pessoa. Especialmente determinada pessoa bem sucedida.

Recentemente, disse a meu presidente na Rádio Itatiaia que a gente tinha de tomar algumas medidas. Simples, mas, necessárias. Dei como exemplo a atitude do meu presidente da Record Minas, que determinou a entrada dos apresentadores por uma porta nos fundos do prédio, com acesso imediato à garagem. Não que me considere bonito ou poderoso como a Ana Hickmann; porém, ela é uma espécie de senadora, comparando o status político com o da mídia eletrônica e eu, mais alguns colegas, somos vereadores... Ou seja, estamos mais próximos do público, permanentemente, por isso mesmo mais sujeitos a surpresas desagradáveis. Para quem pensa que só acontece com a modelo internacional ou John Lenon, lembro meu amigo Abraão Sadi, que iniciava a carreira de repórter na CBN, estava dentro do carro da emissora na Rua Tamoios, foi ferido por um desconhecido, ficou com sequelas e morreu afogado numa piscina pouco tempo depois.

Vejamos um exemplo recente, no rádio. O amigo João Vitor Xavier noticiou, com exclusividade, que o Atlético estava se preparando para demitir Diego Aguirre logo após o embate com o São Paulo pela Copa Libertadores. Malucos travestidos de membros de uma torcida “organizada” ameaçaram invadir a rádio para impedir o que chamavam de “mentiras para criar crise no Atlético”. Quando o uruguaio foi demitido disse, em coletiva, que havia acertado sua saída semanas antes. Quero dizer que, atualmente, cada um tem sua verdade, está convencido de que deve defende-la com unhas e dentes e não tem tolerância para o contraditório. O problema é que, com o doido, você não consegue razoabilidade como, por exemplo, se ele não gosta de você que vá ouvir outro, se você é irresponsável que te processe ou se o veículo no qual você trabalha tem comportamento indevido que seja denunciado. Além disso, há algo mais grave: chegamos a um momento tão dramático que, se alguém quer se ver livre de uma pessoa conhecida não precisa investir milhões, basta dizer a um usuário que lhe garante pedras de crack por uma semana e mostrar quem é o alvo.

Sou humano, logo, tenho medo. Mas, como aprendi desde cedo a ter de lutar para sobreviver, não costumo fugir às obrigações ou evitar ambientes perigosos, se necessário for. Entretanto, cada vez mais me recolho ao sofá, cada vez menos vou a lugares públicos como estádios de futebol e manifestações políticas e toda hora peço a Deus proteção. Os malucos estão soltos. Todo cuidado é pouco. Alguns são famosos, é só você pensar... Vai encontrar técnico que escala Patrick de ponta esquerda, senador que já foi caçador de marajás, candidato a Presidência dos Estados Unidos, presidente da Câmara dos Deputados...

A República surtou

Toda madrugada, ao acordar, rezo o Credo (sugestão de um padrinho que muito amei, para afastar coisas ruins) e peço a Deus para me poupar, principalmente, de ser arrogante e de caluniar. No caso da difamação, trata-se de perigo permanente, pois, quem, como eu, atua na mídia eletrônica e fala horas diariamente, de improviso, trabalha sobre a linha tênue que separa a crítica necessária do estrago na reputação alheia. Nunca me esqueço da lição de Santo Agostinho que, procurado por um pecador pedindo conselhos de como se redimir ante a uma calúnia proferida, sugeriu: “Vá para a Praça São Pedro, ao cair da tarde, em dia de fortes ventos, com uma galinha gorda debaixo do braço e caminhe, retirando pena por pena até que a última caia; então, volte e recolha uma a uma; se conseguir recuperar todas estará perdoado”.

Hoje, quero ocupar esse espaço é com o outro risco, o da arrogância, da presunção... Medo de agir como alguém que, por conhecer detalhes de determinado tema, se julga dono da verdade, superior. Os que trabalham no que agora chamam de âncora, no rádio e na TV, são instados a comentar tudo, o tempo todo. Aí mora o perigo. Neste momento, por aonde vá há sempre alguém querendo saber o que vai acontecer, quando a Dilma sai, o que deu na cabeça do Renan, por que o Pimentel está encrencado... Ah, se eu soubesse! Estou tão desorientado como a maioria esmagadora dos brasileiros – considerando que haverá sempre alguém se sentindo confortável neste mar de surpresas e nessa casa de mãe Joana que se tornou a nossa pátria, pelo menos na parte dela onde habitam os poderosos.

A única coisa que arriscaria dizer é que a Dilma e o Aguirre têm destinos semelhantes: ela cai possivelmente numa quarta, ele muito possivelmente na outra.

Vejamos um caso menos comentado em outras regiões do país. O prefeito de uma das mais importantes cidades de Minas está preso, preventivamente, pela Polícia Federal, acusado do gravíssimo crime de prejudicar hospitais públicos para favorecer casa de saúde da família e, de lá, do xadrez, dá as cartas: a mulher Raquel, aquela deputada que votou impeachment da presidente pedindo um país que tenha exemplos como “o prefeito de Montes Claros”, foi a uma reunião do PSB e impediu sua expulsão, no grito; ele, Rui Muniz, depois de despachar de dentro da cela, ordenou que os vereadores aprovassem uma licença de 60 dias, sem deixar ir adiante processo de cassação. Os vereadores disseram sim senhor. Em outra cidade importante de Minas, dos 21 vereadores só 8 estão na Câmara; todos os outros foram afastados por roubalheira. Dos 9 vereadores de São Joaquim de Bicas, 6 continuam presos, por extorsão.

Vejamos no plano estadual. A calamidade financeira a que chegaram estados importantes como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Aqui em Minas, Aécio fez o estrago com o tal “choque de gestão” e Pimentel, sem dinheiro para pagar salário de servidor, ainda tem de se preocupar com firulas como aumentar o número de guardas e ampliar a área de afastamento do povo do Palácio: medo da polícia e do oficial de Justiça. Quem aguenta isso?

Vamos para Brasília... Não, aí, é melhor parar. Depois do Maranhão, é melhor parar. E rezar! 

 

Que tal ouvir quem entende?

Quando disse, no último texto publicado neste espaço, que o sistema prisional exige prioridade e a reforma administrativa do Governo do Estado era boa hora para criarmos uma pasta exclusiva para administrar os quase 70 mil presos e perto de 20 mil agentes, faltou esclarecer que não imagino mais uma secretaria. Ninguém aguenta mais cargos, cafezinho, carros oficiais, gastos públicos. Sugeria o desaparecimento da “Defesa Social” com a volta de uma Secretaria de Segurança integrando as policias Civil e Militar, mais os Bombeiros e outra pasta exclusivamente para tratar desse assunto gravíssimo, que se torna barril de pólvora nos presídios e não nos deixa vislumbrar dias melhores nas ruas – exatamente por falta de novas vagas e, em consequência, prisões. No entanto, não passo de aprendiz de feiticeiro, cronista da cidade e, se o governador quer mesmo mudanças deve ouvir conhecedores profundos do tema. Como Amauri Meireles, que passou por todos os escalões da PM, chegou ao posto de comandante do policiamento da capital, sempre estudando, se reciclando. É dele o artigo “Equívocos na Segurança” que divido com os senhores, pedindo reflexão:

Uma das grandes aflições atuais da sociedade brasileira, certamente, é a “segurança”. Quando pesquisada, analisada, identificam-se vários equívocos em seu equacionamento e, também, na busca de procedimentos que, se não acabem, pelo menos reduzam e/ou restrinjam suas origens, suas causas, seus fatores geradores.

Assim, é o caso de se começar enquadrando corretamente essa necessidade, pois a população clama por efetivos instrumentos e mecanismos de proteção que baixem o nível de insegurança no ambiente em que se vive. Em miúdos, o povo (que não é especialista, mas, sim, demandante) clama por “segurança”, quando, na verdade, ele quer é proteção, pois o ambiente de segurança é uma utopia, vez que é totalmente impossível eliminar vulnerabilidades no tecido social e/ou acabar com as ameaças ao corpo social.

Portanto, uma necessidade fundamental é a delimitação conceitual, destacando-se aqueles conceitos mais heterogêneos, para que “se fale a mesma língua”. De início, ratifica-se que segurança não é um produto, não é sinônimo de proteção, mas, sim, é consequência.

Outro fato diz respeito à interpretação de certas informações estatísticas.

Comparando-se as relativas a janeiro e fevereiro de 2015 e 2016, fica visível que a criminalidade violenta volta a aumentar em nosso Estado. Os números mostram que o roubo teve alta de 32,19%, o furto de 8,63% e a extorsão mediante sequestro cresceu 43,4%. Considerada a incidência apenas na Capital, os percentuais de aumento foram, respectivamente, de 40,64%, 14,94% e 166,6%.

Esses dados são suficientes para uma abordagem preliminar, visando a identificar-se por que isso está ocorrendo e que correções devem ser feitas.

A mídia tem divulgado manifestações (sob minha óptica, equivocadas) de integrantes de certos segmentos, nas quais afirmam que esse crescimento é decorrente do aumento do desemprego, da pobreza e da desigualdade social. Absolutamente discutível essa posição, para não se dizer, de pronto, equivocada!

Comparem-se as taxas de desemprego em alguns países, aleatoriamente, com suas respectivas taxas de homicídios: Argentina 6,6% e 6,1; Austrália 6% e 1,1; Brasil 9% e 25,0; Chile 6,56% e 4,6; Espanha 20% e 0,8; Itália 10% e 0,9; Portugal 12% e 1,4; Rússia 6% e 13,1; Venezuela 6,0% e 57,6.

Quanto à pobreza, lembra-se que a Índia é o segundo país mais populoso do mundo (1,2 bilhões de habitantes), com um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,61 e uma taxa de criminalidade de 1,63 crimes por 1.000 habitantes. Comparando-a com os números do Brasil, temos 204 milhões/hab, IDH de 0,74 e a taxa de homicídios (divulgada) é de 25,0 (a ONU acredita que beira os 32,0).

Já, em relação à desigualdade social, ao comparar-se o Índice Gini (IG), que mede a desigualdade de renda, e o nível de segurança – NS – (englobando número de homicídios, de crimes violentos, percepção da criminalidade, terrorismo e mortes no trânsito), que é dos aspectos analisados para obtenção do Índice de Progresso Social, encontramos os IG e NS nos seguintes países: Argentina: 44,5 e 62º lugar; Austrália: 36,2 e 118º; Brasil: 54,7 e 11º; Chile: 52,1 e 94º; Espanha: 34,7 e 109º; Itália: 36,0 e 84º; Portugal: 38,5 e 114º; Rússia: 40,1 e 23º; Venezuela: 44,8 e 3º lugar.

Fica evidente que desemprego, pobreza e desigualdade social não são causas de aumento da criminalidade, ao contrário do propagado por aqueles que confundem marginal com marginalizado. Afinal, nem todo marginalizado é bandido e nem todo bandido é marginalizado. Pode ser discutida a hipótese de a cobiça, a inveja, o egoísmo serem, dentre outros, fatores residuais que estimulem o crime, em razão de fragilidade de caráter de seus autores”.

 

Prioridade na reforma

O governador Fernando Pimentel anuncia nesta segunda, dia 2, a tão prometida reforma administrativa. Tomara que não se esqueça da questão prisional, que está se tornando mais grave a cada dia e ameaça reviver aqueles tempos de “ciranda da morte” quando presos se matam para ganhar mais espaço nas celas. Sabemos que no país são mais de 600 mil presos, empilhados porque as vagas não chegam a 400 mil. Como Minas Gerais tem dez por cento de todos os números nacionais, bons ou ruins, aqui somos 64 mil presos e um déficit superior a 24 mil.

Para se ter uma ideia de como a necessidade é desproporcional à realização, vale refletir sobre números. No intervalo de 12 anos entre 2003 e 2014, ou seja, nos governos Aécio Neves, Antonio Anastasia e Alberto Pinto Coelho, a população carcerária de Minas Gerais saltou de 23.298 para63.557 pessoas. No entanto, no mesmo período, o governo do Estado criou apenas 15.768 vagas para presos, gerando um déficit acumulado de 24.511 vagas. No último governo, de 2011 a 2014, o número de presos em Minas aumentou em 16.863, de 46.694 para 63.557, mas foram criadas apenas 2.710 vagas, produzindo em quatro anos um déficit acumulado de 14.153 vagas.

O governo Fernando Pimentel abriu 1.277 vagas para presos num intervalo de um ano e quatro meses. Estão em obras quatro presídios, com 1.128 vagas, e quatro centros de reintegração social do Método Apac, com 492 vagas, totalizando 1.620 vagas adicionais. A população carcerária do Estado, seguindo a tendência nacional, continua a crescer. No fim de 2015, subiu para 66.799 presos, 3.242 a mais do que no fim de 2014. O sistema prisional absorve atualmente mais de 80% do orçamento da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds): R$  1,76 bilhão de R$ 2,16 bilhão. As principais despesas da Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi) sãopessoal (R$ 1,45 bilhão), alimentação (R$ 274 milhões), e água (R$ 67 milhões). Vale ressaltar que o orçamento da Seds previsto na LOA de 2016 embute um déficit aproximado de R$ 150 milhões, o que explica o fato de pessoal, alimentação e água, somados superarem a orçamento total da Suapi.

Minas Gerais tem hoje um quadro de 18.294 agentes penitenciários, o que resulta numa relação de um agente para 3,2 presos, bem superior à proporção recomendada pelo Ministério da Justiça, que é de um agente para cada 5 presos. O número considera apenas a população carcerária existente em abril de 2016 – 58.879 presos - nas unidades da Suapi, excluídas a Parceria Público Privada Prisional (PPP) de Ribeirão das Neves, as Apac’s e as carceragens da Polícia Civil, que não possuem agentes penitenciários empenhados na segurança interna. No atual governo, o quadro de agentes penitenciários teve um aumento de 1.451 servidores em relação a dezembro de 2014, ou seja, houve um crescimento de 8,6%. Essa evolução foi garantida com a nomeação de pessoas aprovadas em concurso público e a dispensa de parte dos servidores sob contrato, o que fez o número de efetivos subir de 5.896, em 2014, para 8.995 em 2016 (+52%).

A solução? Não sou capaz de oferecer, mas, a sugestão é destinar mais atenção ao sistema prisional, urgentemente, quem sabe criando uma pasta para cuidar exclusivamente do tema e reservando outra (de Segurança Pública) para fazer a interlocucão entre as polícias.

 

 

Entropia e anomia

Por meu pai, minha mãe, minha mulher, as duas filhas e pelos (poucos) amigos que me desanimaram de entrar para a política – nas raras vezes que seriamente cogitei – eu digo obrigado! E aproveito para agradecer a Deus os talentos que me deu e que procuro multiplicar, estudando, refletindo, me redimindo de forma a não precisar sair dos trilhos para sobreviver com conforto. O que todos nós vimos ontem, ao vivo e direto do Congresso Nacional, é espetáculo que dispensa quaisquer adjetivos ou discursos acerca da tragédia que é a nossa democracia representativa.

E estar dentro dela só é possível para três tipos de pessoa: os jovens sonhadores (sonhar é bom, mas tem de ter prazo de validade), os espertalhões sem limites que procuram o guarda-chuva da imunidade e os meninos bobos cujos papais e vovôs fazem da política a profissão deles até por que na maioria esmagadora dos casos, falta-lhes cociente de inteligência para outra profissão de destaque, como fazem questão os amantes do faz de conta. A política de pai prá filho no nosso país é asquerosa porque não exige do herdeiro qualquer aptidão, respeito ou gosto pela coisa pública.

Quando vejo aquelas figuras caricatas no papel de crianças carentes, que vão ao parque pela primeira vez, me pergunto se não deveria ouvir Martin Luther King e sua frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Como posso ficar aqui, falando mal, ao invés de disputar eleição, buscar um mandato e contribuir, tratar o mandato com o mínimo de seriedade? Por que não aproveitar a exposição que o jornalismo me dá, me deixar seduzir pelas sugestões de candidatura de todo dia e dos convites para filiação que sempre aparecem? Quando me vejo no auge da dúvida, levo um beliscão da consciência advertindo que no rádio, na TV, no jornal ou em outro meio, sem cor partidária, posso ser mais útil. E logo retomo a convicção de que o meu caminho é outro. Até por que já não sou mais menino e fatalmente teria a saúde afetada pelo convívio diário com algumas figuras que frequentam o Congresso Nacional. Não gostaria de toma café toda tarde com Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Paulinho da Força e adjacências.

Sempre é bom lembrar que os deputados não caíram do céu; nós os colocamos lá, com nosso voto. E, para o bem da democracia representativa que temos, é bom respeitá-los (quem acha que a outra forma, direta, pode ser melhor deve ver imediatamente uma assembleia de condomínio). Os senhores deputados e as senhoras deputadas são o retrato do nosso país, da nossa sociedade. Temos de aguentar a frieza do Cunha, que não reage ao ser chamado de gangster; tolerar idiotice, hipocrisia e má fé de tantos porque assim é a vida... Como ela é!

Pense comigo o que é pior: gente como o Jair Bolsonaro que defende torturadores, odeia gays e outras minorias ou o Jean Willys, que defende as liberdades e cospe em Bolsonaro? Pior é a turma da direita, o reacionário que agora vai lutar por mais 100 anos sem qualquer chance de ascensão para os pobres ou o militante de esquerda, petista aborrecido que encheu nossa paciência durante décadas, patrulhou todo mundo 30 anos e, tendo chance de poder, meteu a mão com força, com sede de roubar e errar, a ponto de se misturar com Renan, Sarney, Collor e todos os outros coronéis?

Quem deixa mais intrigada a nossa cabeça: o Newton Cardoso Júnior votando contra a corrupção ou a Jô Morais pedindo respeito depois de 13 anos de indecência na cozinha de seus companheiros? E os religiosos, hein? Falando de Deus... Sei que vou passar pelo umbral e estou me preparando; caso contrário, não desejaria vê-los lá. Não consigo ser bom o bastante para chamar essa elite política de irmã.

Nietzsche falou que, quando a gente acorda, de noite, sobressaltado, os fantasmas que já vencemos voltam para nos assombrar. Como não conseguia pegar no sono de domingo pra segunda, lembrei-me do amigo e conselheiro Luís Borges que tem falado muito sobre duas palavras. Diz ele que nos sentimos na “anomia”- estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, ou, não nos sentimos representados por aqueles senhores; e que, no mundo de nossos governantes o tempo é de “entropia” - em termodinâmica, é a medida de desordem das partículas em um sistema físico - no contexto das partículas, como sabemos, ao sofrerem mudança de temperatura, os corpos alteram o estado de agitação de suas moléculas. Então considerarmos esta agitação a desordem do sistema.