minas gerais

Somos a geração “burnout”

Mergulhado na violência nossa de cada dia, passei parte da semana matutando sobre o tamanho da repercussão da queda de um avião, na França, entre nós, mineiros. Não que ignore a dor dos que se foram, ou dos que sofrem com a saudade. O que me assombra sempre que há acidente como aquele é a diferença de repercussão; por que, todos os dias, se contarmos entre vítimas de homicídios e trânsito, perdemos mais de 150 vidas em Belo Horizonte e nem ligamos? Alguém vai argumentar que o avião é mais glamoroso, outros dirão que seus passageiros são mais importantes na escala social e mil ponderações virão... Continuo sem entender.

Na quarta, entrevistei o advogado Rodolfo Dantas, e ele falou sobre a síndrome de “burnout” . Explicou que a palavra em língua inglesa quer dizer “que queima por fora” e retrata o quadro em que o trabalhador está exaurido pelo estresse. Tão pressionado, fazendo tudo correndo e com medo de errar, fracassar, chega ao ponto de explodir... E aí, valha-me Deus! Dormi, na quarta, pensando nisso. Ontem, pela manhã, vi uma moça desesperada no caixa do banco. Disse que passara a noite chorando, que já não sabe que fazer porque a chefe não para de cobrar, exige produção (não que atenda bem aos clientes, mas, que venda seguro, plano de capitalização, qualquer coisa, que empurre no cliente e aumente o lucro) ameaçando transferi-la para outro lado da região metropolitana.

Mas, não tivera tempo o bastante para pensar na moça e nos nossos dias impossíveis e lá veio a notícia de que, possivelmente, o copiloto matou deliberadamente todos os que estavam no avião, na Europa, jogando o aparelho contra as pedras a 700 quilômetros por hora. E, dizem, ele podia estar sofrendo da síndrome de “burnout”. E passei o resto da quinta com fogo por dentro e por fora dos pensamentos: Depois dos atentados de Nova Iorque, arranjaram um jeito de ninguém entrar na cabine; agora, o piloto sai para um xixi e não consegue voltar, apesar de esmurrar a porta! Enquanto os humanos não forem tratados como gente, não haverá lugar seguro; enquanto bancos, grandes empresas, governos, poderosos acharem que podem impor o desassossego em troca do lucro, não haverá confiança mútua... Ou, como disse o Papa, enquanto não houve justiça social, não haverá paz!

Servidores públicos?

O grande Kafunga, que brilhou como comentarista esportivo, pela bagagem e pela capacidade inigualável de falar a língua do povo, adorava repetir que, “no Brasil, o errado é que é o certo”. Que saudade do mestre! Tive o privilégio de conhecê-lo, e não fico 10 dias sem lembrar-se de uma das suas pérolas. Há outro jeito de explicar, sem as frases do Kafunga, o tratamento que alguns servidores públicos dão às demandas?

Nos últimos dias, ouvi duas inacreditáveis na Itatiaia. Primeiro, uma senhora reclamou que, ao requerer o seguro-desemprego, foi orientada a se inscrever num curso do Pronatec e, ao ponderar que já tinha curso superior, não necessitava, a moça disse simplesmente “leia a lei”. Pior que a reação da atendente, foi a entrevista do chefe dela, confirmando que há, sim, a exigência e que ninguém – em princípio – está livre do curso. Ora, a pessoa trabalhou, fez jus ao seguro, não é contumaz nas retiradas do benefício, não carece de qualificação, e deve ser obrigada a fazer um curso... Tomando o lugar de outro trabalhador realmente necessitado? Tudo depende, segundo o chefe, “da análise da servidora”. E do humor desta. Tem base?

Pior ainda foi a reação do assessor de imprensa da Polícia Rodoviária Federal quando questionado sobre a interdição de parte da Fernão Dias por mais de 30 horas no fim de semana. Disse que acidentes aconteceram, estão acontecendo, que o Brasil é um país rodoviário, tragédias virão... Sobre a atitude desesperada dos motoristas, que arrancaram na unha e pela força das correntes as barras de ferro do canteiro central para fugir do abandono, ele condenou, afirmando que põe em risco a segurança de terceiros e deles mesmo. É brincadeira. O cidadão paga quase a metade do que consegue ganhar (com salário) de impostos, paga pedágio e, diante de qualquer imprevisto, fica na rua dois dias, no meio do nada, sem higiene pessoal, alimentação, segurança, conforto, respeito, atenção... Para as autoridades, não há o que fazer. Não é possível buscar um trator ou qualquer coisa grande e arrastar o empecilho, não é possível colocar um guarda quilômetros antes para avisar o desvio... Nada! E, provavelmente, quando lerem essas irritadas linhas, os “responsáveis”, da PRF, do DNIT, da Autopista, da Polícia Militar, dos governos federal e estadual ainda vão ficar bravos comigo... “O errado é que é o certo!”.

Humanização é mais que uma palavra

Dia desses fui procurado por dois agentes que estão fazendo pesquisa sobre humanização do sistema penitenciário em Minas Gerais. Gostei. Por muitos motivos, a começar porque existe gente interessada de verdade no assunto. Gente que não é político, não quer votos ou holofotes, mas, por na pauta assunto tão grave. Outra coisa: eles estão convictos de que a palavra deve envolver de fato o “sistema” isto é, dirigentes, trabalhadores, os presos, todos. Quem sabe se, desta vez, não sai algo realmente palpável e digno da palavra humanização?

Já ouvi falar do tema um milhão de vezes nos últimos 40 anos. Quando uma autoridade assume o “sistema” o primeiro bajulador que aparece fala ao pé do ouvido: “Diz aí que vai humanizar”. E recomeçam os discursos. Neste momento, os presídios estão superlotados, os presos estão desesperados e, a menos que eu esteja muito mal informado, assistiremos em breve a uma serie de rebeliões em Minas. Afinal - diz o advogado Adilson Rocha que conhece o assunto como ninguém - as mulheres presas estão usando miolo de pão no lugar de absorventes porque sequer material higiênico tem recebido. E falta tudo!

Sei que muitos consideram o assunto menor, na certeza de que preso tem é que sofrer, ou morrer, mas, são humanos, se revoltam, quebram tudo e, quando voltarem às ruas, estarão ainda mais ferozes. Sem o mínimo de respeito, sem respeito aos familiares, ninguém aguenta! E isto vale, muito mais ainda, para os agentes penitenciários, os diretores e todos os que tomam conta desses barris de pólvora. Imagina alguém trabalhando com feras furiosas em condições absolutamente adversas: reduzido número de trabalhadores, falta de condições de trabalho e de estímulo...

O governador Pimentel já começou com um grande equívoco em minha opinião colocando para comandar a Defesa Social alguém que não é do ramo e sequer tinha ficha de bom administrador. Apesar da crise, o governador está criando mais quatro secretarias e não pensou em uma pasta para o sistema penitenciário. Queira Deus que, no seu círculo de assessores mais próximos, Deus ilumine alguém para falar-lhe a verdade sobre os presídios e ajudar-lhe nas providências vigorosas e urgentes.

Ainda sobre suicídio

Para os que possam achar exagerada a minha preocupação com o tema, sugiro uma conversa com qualquer especialista sobre as causas do suicídio. Sempre ouvi que a motivação primeira é a depressão que, somada à falta de perspectiva e a indiferença por parte dos outros, levam a pessoa a um estado de alto risco. Elas não querem se matar, mas, acham que, com a morte poderão cessar o sofrimento. E eu pergunto: em algum momento a espécie humana sofreu mais pressão que agora para ser feliz? As redes sociais criaram um ambiente misto de publicidade de intimidades com ostentação desenfreada. Às vezes, fico de queixo caído porque a pessoa pede uma foto, concordo e, cinco minutos depois, alguém me liga e pergunta o que estou fazendo em tal lugar. Mas, como? A tal foto já está no “face”, no “instagram”. Negócio louco. E, nesta batalha por contar o que se passa as pessoas já não apreciam um museu ou um show e muito menos “almoçam juntas” no domingo; apenas vão ao mesmo restaurante, mas, passam horas, cada um olhando para o seu “phone”. Isso acrescido de crise, desemprego e desesperança, meu Deus!

O mundo tem hoje, segundo a OMS, 3 mil suicídios por dia, um a cada 30 segundos e, para cada morte consumida 20 outras são tentadas. No Brasil, a estimativa é de que 17 por cento das pessoas já pensaram em se matar pelo menos uma vez. É real. E a gente insiste em empurrar para baixo do tapete. A mãe de Elena – cuja morte, em Nova Iorque, resultou em documentário dirigido pela irmã Petra e muito elogiado – diz que, depois do baque, tentava falar sobre o assunto e nem o pai da menina topava.

Eu tenho um amigo que está fechando uma oficina mecânica de 30 anos que já teve 100 funcionários; outro acaba de demitir 140 colaboradores porque a fábrica está parada; o mercado imobiliário está absolutamente inerte, enfim, confirma-se o que já sabíamos: no Brasil, não existe capital de risco... Ao primeiro sinal de dificuldades, quem tem muito corre para a especulação e que se dane a produção, o emprego...

Quer ambiente mais propício para o desespero? É por isso que eu, apaixonado pela vida, defendo debates sobre a morte. Especialmente a prematura, a provocada, a evitável. O perigo pode estar dormindo conosco.

“Petrolão” e o suicídio

Sou da geração que só viu crise, mordaça, roubalheira, desonra e, em brevíssimos parênteses, um pouco de esperança. O período mais animador ocorreu poucos anos atrás, quando Lula, tendo a sabedoria de seguir a política econômica de FHC que tanto criticava, mas, com um olhar inegavelmente mais voltado para os pobres, levou o frango à mesa do miserável, possibilitou ao pobre conhecer avião e nos permitiu andar com os ombros erguidos diante dos povos ditos desenvolvidos. A safadeza e a falta de compromissos que nos rodeiam desde 1500 fizeram do nosso presidente operário um decrépito que nada via e não ouvia sobre a turma do Zé Dirceu e nosso castelo de sonhos desmoronou. No ano passado, quando já se sabia que dona Dilma estava com lama até o pescoço, mas dizia navegar em águas calmas, houve uma opção de mudança com Aécio; contudo, a maioria dos brasileiros concordou com Luciana Genro – na briga entre tucanos e petistas é o sujo falando do mal lavado – e o Brasil não mudou. Restou-nos um país dividido e o pior momento que já vivi (ou, pelo menos, percebi) em quase seis décadas de labuta. Estou impressionado. Não há um só lugar, uma só prosa ou um encontro com amigo que não ouço falar de dificuldades, falências e desemprego.

Não quero discutir política e economia. Quero falar de suicídio. Fosse eu capaz de pautar a imprensa brasileira, convocaria os colegas jornalistas para ignorar o “pacto” antigo de não se falar sobre o autoextermínio. Concordo que uma abordagem sensacionalista, gratuita, pode ter resultados catastróficos. É só voltar no tempo, final do século 18, quando “Os sofrimentos do Jovem Werther”, de Wolfgang Goethe, provocou uma onda de suicídios na Europa. Eu falo é de veiculação de mensagens positivas, esclarecedoras, no meio de nosso sangue ensandecido das ruas e as entrevistas descaradas dos engravatados. Eu falo é de apoio institucional a entidades como o Centro de Valorização da Vida. Eu peço é atenção ao comportamento dos que convivem conosco, mas, especialmente, os mais vulneráveis: adolescentes e idosos. Na era do celular, a gente só fica olhando prá ele, enquanto uma pessoa querida pede socorro bem ao lado. Com a desesperança, a avalanche das drogas e a volta do desemprego os casos, historicamente subnotificados, tendem a crescer. E, mais ainda, pela omissão nossa, dos jornalistas, a pretexto de bancar o politicamente correto. Na sexta, escrevo mais.

A crise é de caráter

Para os que amam Belo Horizonte ontem foi um dia histórico: a cidade estava na rua. Seja na tradicional feira da Afonso Pena, nos clubes da Pampulha, mas, especialmente, na Praça da Liberdade, colorida de verde e amarelo com milhares e milhares pedindo um governo decente. Também na sexta tivemos manifestações como devem ser: as pessoas dizendo o que pensam, gritando conforme o momento, sem agressão ou depredação. Só não estou em êxtase porque vejo muito ódio no coração dos vizinhos de um Brasil historicamente dividido e, desde as eleições de outubro, partido.

Quando, no final da manhã de ontem, o locutor de um carro de som propunha o deslocamento da Praça da Liberdade para a Savassi, houve imediata reação do público, sugerindo a Praça Sete, para evitar a “pecha” de “riquinhos”. Mas, não adianta. Pelo menos por ora, quem disser que é contra a Dilma será tachado de elitista, conservador, direitista e burguês com medo de perder a mordomia; do outro lado, quem defender o governo, será rotulado imediatamente de mais um corrupto, ignorante, nordestino, infeliz e responsável por toda nossa mazela.

Acho que quem consegue ver a discussão acima da paixão deve ter muita paciência com o falatório, da mesma forma que a gente administra discussão com adolescente e membro de torcida organizada. Ou, como Ele disse pregado na cruz, “perdoem-nos pai, eles não sabem o que dizem”.

O nosso problema está no DNA. Tenho de repetir a frase “a crise é de caráter” mesmo lamentando que o deputado estadual autor dela me deu mostras de que também para ele a prática era diferente da teoria.

Mas, esqueçamos as fraquezas humanas para lembrar que um país novo a gente cria ao economizar água, energia elétrica, não pegar um “jabá” por fora, não furtar TV a cabo, não explorar a empregada doméstica, não sonegar impostos, não majorar preços indecentemente, não dar dinheiro ao vereador para construir onde não pode; não parar na fila dupla, não arranjar emprego para a nora e os genros no fórum, não pedir mais auxilio moradia, livro, mudança e outros que só aumentam salários já incompatíveis com a fome de muitos... Enfim, como seria bom se a gente aproveitasse esse momento para tomar vergonha na cara!

O mundo nunca foi tão chato!

Viver está difícil. Como é duro ter que aguentar a sucessão de bobagens dos que privilegiam a penteadeira, a perfumaria, em detrimento da essência. Não é possível ver petistas que até outro dia patrulhavam todo mundo duvidando agora que o cara roubou 300 milhões de reais da Petrobras e – pasmem – já começou a devolver. Não dá para acreditar que o Ministério Público exige que a Prefeitura de Belo Horizonte devolva as capivaras à Pampulha, mesmo sabendo que elas estão com o carrapato que transmite a febre maculosa e pode matar.

Pior mesmo é a notícia que vem da Organização das Nações Unidas: “Durante a 59ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher, que ocorre na sede da ONU, representantes da sociedade civil estão divulgando uma petição online contra o assédio sexual em vias públicas”. É, meu caro, isso mesmo! O movimento “Chega de Fiu Fiu” representa o Brasil na união contra o assédio sexual em vias públicas e a coordenadora da campanha está em Nova York pedido ao mundo que assine uma petição. Veja o que disse a dona sobre diferença entre elogio e assédio: “Ás vezes, até um 'linda' ou só um 'fiu fiu' pode incomodar ou assustar."

É ou não é uma chata de galocha? Ou a senhora, que me honra com a leitura dessas mal traçadas linhas, também acha que o “fiu fiu” ofende? Pelo amor de Deus, onde é que vamos parar? Qual mocinha, no auge dos seus 15 anos, não fica visível e inegavelmente feliz quando passa diante de um grupo de rapazes e um deles assovia? Quantas vezes ouvi que travesti que é capaz de se matar se, um dia, passar em frente a uma obra da construção civil e não ouvir um “fiu fiu”? É claro que palavrões, grosserias e má educação deverão sempre ser rechaçados e, dependendo do caso, tratados de acordo com a lei. Mas, o inocente “fiu fiu” é uma das mais antigas, delicadas e humanas formas de interação. Diz a dona que é preciso ter o consentimento da mulher... Agora vê: a bonitona passa, rebolando, e eu pergunto algo do tipo “Vossa Excelência me permitiria um reconhecimento à sua saúde, um brinde à vossa elegância e votos de que nunca se apague essa luz que incendeia minha alma, dirigindo-lhe um fiu fiu?” . Ela vai pensar: “Que mala, hein!”.

Já pensaram se Inezita Barroso gravasse hoje a “marvada pinga”? Seria crucificada, por apologia às drogas. Que mundo chato! Fiu Fiu!

A obviedade é o caminho

O que a gente faz com quem rouba dinheiro público? Investiga, sentencia, prende e toma o dinheiro de volta. O que a gente faz quando o filho de oito anos não quer fazer dever de casa? Conversa, conversa e, se preciso, obriga-o a fazer. E quando um político é suspeito, ladrão, cara de cínico? Não apenas deixa de votar, mas, faz campanha contra. Tudo na vida é óbvio... É só morar na roça para ver que o caminho mais simples para ir do pasto ao poço beber água vacas e éguas descobrem logo. Aliás, os canteiros nas ruas da cidade deviam ser assim, seguindo o fluxo das pessoas, pois, se a gente insiste contra o bom senso, todo mundo pisa na grama, nas flores, atravessa no lugar errado e morre atropelado.

Por que essa falação toda? Para dizer que duas medidas anunciadas nas últimas horas comprovam a tese de que o simples é o que deve ser feito. O prefeito Márcio Lacerda diz que ganhou da Polícia Militar a garantia de que não haverá mais interdição total de tráfego em vias de Belo Horizonte quando das manifestações... Ora, já era tempo! As manifestações são salutares, bem vindas, mas, não podem parar 2,5 milhões de pessoas. Assim, se forem 50 manifestantes não fechamos nada; se forem 500, a gente fecha uma faixa e, se forem 5 mil, fecha a rua. Qual o problema? Qual a dificuldade? Exigir isso é ser contra a democracia? Ou não tomar atitude tão básica é fraqueza, falta de ordem e de lei?

Querem ver mais uma notícia óbvia, direta e simples: vinte custodiados do Presídio de Ubá, na Zona da Mata, estão trabalhando em obras na cidade, graças ao projeto ‘Defesa Social, Mudando a Realidade’, criado pela direção da unidade, com o aval da Vara de Execuções Penais da comarca. O objetivo é a ressocialização dos presos, que já participaram de construções e reformas de prédios públicos como escolas, igrejas e inclusive do presídio onde se encontram detidos. Tudo começou no ano passado, quando a Escola Estadual Professor Levindo Coelho solicitou ao presídio mão de obra para auxiliar numa reforma, o diretor Nelson Sales concordou, o juiz aprovou e mãos à obra.

Simples ou não é? A escola fica melhor, o preso para de pensar besteira, diminui o tamanho da pena e a gente não fica bancando a mamata de quem tem contas a ajustar conosco.

A obviedade é o caminho

O que a gente faz com quem rouba dinheiro público? Investiga, sentencia, prende e toma o dinheiro de volta. O que a gente faz quando o filho de oito anos não quer fazer dever de casa? Conversa, conversa e, se preciso, obriga-o a fazer. E quando um político é suspeito, ladrão, cara de cínico? Não apenas deixa de votar, mas, faz campanha contra. Tudo na vida é óbvio... É só morar na roça para ver que o caminho mais simples para ir do pasto ao poço beber água vacas e éguas descobrem logo. Aliás, os canteiros nas ruas da cidade deviam ser assim, seguindo o fluxo das pessoas, pois, se a gente insiste contra o bom senso, todo mundo pisa na grama, nas flores, atravessa no lugar errado e morre atropelado.

Por que essa falação toda? Para dizer que duas medidas anunciadas nas últimas horas comprovam a tese de que o simples é o que deve ser feito. O prefeito Márcio Lacerda diz que ganhou da Polícia Militar a garantia de que não haverá mais interdição total de tráfego em vias de Belo Horizonte quando das manifestações... Ora, já era tempo! As manifestações são salutares, bem vindas, mas, não podem parar 2,5 milhões de pessoas. Assim, se forem 50 manifestantes não fechamos nada; se forem 500, a gente fecha uma faixa e, se forem 5 mil, fecha a rua. Qual o problema? Qual a dificuldade? Exigir isso é ser contra a democracia? Ou não tomar atitude tão básica é fraqueza, falta de ordem e de lei?

Querem ver mais uma notícia óbvia, direta e simples: vinte custodiados do Presídio de Ubá, na Zona da Mata, estão trabalhando em obras na cidade, graças ao projeto ‘Defesa Social, Mudando a Realidade’, criado pela direção da unidade, com o aval da Vara de Execuções Penais da comarca. O objetivo é a ressocialização dos presos, que já participaram de construções e reformas de prédios públicos como escolas, igrejas e inclusive do presídio onde se encontram detidos. Tudo começou no ano passado, quando a Escola Estadual Professor Levindo Coelho solicitou ao presídio mão de obra para auxiliar numa reforma, o diretor Nelson Sales concordou, o juiz aprovou e mãos à obra.

Simples ou não é? A escola fica melhor, o preso para de pensar besteira, diminui o tamanho da pena e a gente não fica bancando a mamata de quem tem contas a ajustar conosco.

Piscina cheia de ratos

O que mais impressiona a quem conhece minimamente os bastidores do poder é a diferença entre discurso e prática. Anunciam cortes orçamentários, pregam o fim do mundo e negam verbas a hospitais e escolas, mas, no dia a dia, não apenas em grandes escândalos como o da Petrobras, mas, em detalhes, em licitações às quais ninguém dá importância, o nosso suado imposto vai pelo ralo. Eu acho a criação de dois sites um grande avanço na vida brasileira: o “Congresso em Foco” e o “Contas Abertas” que fazem, para os brasileiros sem tempo ou interesse, pesquisas extremamente importantes sobre como o governo funciona de fato.

Agora, por exemplo, o “Contas Abertas” está publicando que as duas visitas semanais dos responsáveis pela limpeza das duas piscinas do Palácio Jaburu, onde mora o vice-presidente da República, custam R$, 7,8 mil por ano. Ou seja, mais de 620 reais por mês... O Senado vai gastar 24 mil para ressarcir despesas odontológicas da ex-senadora Ana Júlia Carepa, do PT do Pará. Lá, na casa presidida por Renan Calheiros, o limite anual para despesas médicas, psicológicas, odontológicas e de fisioterapeutas para “ex” senadores é de 33 mil reais por ano. Já no caso de senadores em exercício de mandato, não há limite para despesas médicas. Os dispêndios do atendimento do parlamentar, do cônjuge e de seus dependentes com até 21 anos, ou até 24, se universitários, são pagos pelo governo. Neste caso, o limite anual de R$ 26 mil para despesas odontológicas e psicoterápicas. Outro gasto previsto, essa semana, pela Casa é o pagamento de R$ 22,5 mil à maestrina, Glicínia Mendes, pelos serviços de regência no coral do órgão. O valor refere-se ao trabalho realizado de janeiro ao meio de abril deste ano.

Mas, não é só o Senado. O Ministério das Relações Exteriores vai gastar 80 mil com dois eventos de entrega de medalhas. Por isso é que a gente não pode se esquecer dos grandes poetas, como Cazuza, que escreveu:

“...Transformam o país inteiro num puteiro, pois, assim se ganha mais dinheiro; a tua piscina tá cheia de ratos; tuas ideias não correspondem aos fatos; o tempo não pára”.