minas gerais

Gestão Estratégica

Não consegui identificar as fontes, mas, divido as cinco aulas que a vida nos ensina e a internet propaga:

1ª) Um corvo está sentado numa árvore o dia inteiro sem fazer nada. Um pequeno coelho vê o corvo e pergunta:

- Eu posso sentar como você e não fazer nada o dia inteiro?

O corvo responde:

- Claro, por que não?

O coelho senta no chão embaixo da árvore e relaxa. De repente uma raposa aparece e come o coelho.

Conclusão: Para ficar sentado sem fazer nada, você deve estar no topo.

2ª) Na África todas as manhãs o veadinho acorda sabendo que deverá conseguir correr mais do que o leão se quiser se manter vivo.

Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deverá correr mais que o veadinho se não quiser morrer de fome.

Conclusão: Não faz diferença se você é veadinho ou leão, quando o sol nascer você tem que começar a correr.

3ª) Dois funcionários e o gerente de uma empresa saem para almoçar e, na rua, encontram uma antiga lâmpada mágica.

Eles esfregam a lâmpada e de dentro dela sai um gênio.

O gênio diz:

- Eu só posso conceder três desejos, então, concederei um a cada um de vocês!

- Eu primeiro, eu primeiro, grita um dos funcionários! Eu quero estar nas Bahamas dirigindo um barco, sem ter nenhuma preocupação na vida... Puff e ele foi.

O outro funcionário se apressa a fazer o seu pedido:

- Eu quero estar no Havaí, com o amor da minha vida e um provimento interminável de pina coladas! Puff, e ele se foi.

Agora você, diz o gênio para o gerente.

- Eu quero aqueles dois folgados de volta ao escritório logo depois do almoço para uma reunião!

Conclusão: Deixe sempre o seu chefe falar primeiro.

4ª) Um padre está dirigindo por uma estrada quando vê uma freira em pé no acostamento. Ele para e oferece uma carona que a freira aceita. Ela entra no carro, cruza as pernas revelando suas lindas formas. O padre se descontrola e quase bate com o carro. Depois de conseguir controlar o carro e evitar acidente ele não resiste e coloca a mão na perna da freira. A freira olha para ele e diz:

- Padre, lembre-se do Salmo 129!

O padre sem graça se desculpa:

- Desculpe Irmã, a carne é fraca... E tira a mão da perna da freira.

Mais uma vez a freira diz:

- Padre, lembre-se do Salmo 129!

Chegando ao seu destino a freira agradece e, com um sorriso enigmático, desce do carro e entra no convento. Assim que chega à igreja o padre corre para as Escrituras para ler o Salmo 129, que diz:

“Vá em frente, persista, mais acima encontrarás a glória do paraíso”.

Conclusão: Se você não está bem informado sobre o seu trabalho,você pode perder excelentes oportunidades.

5ª) Um fazendeiro resolve colher algumas frutas em sua propriedade, pega um balde vazio e segue rumo às árvores frutíferas. No caminho, ao passar por uma lagoa, ouve vozes femininas e acha que provavelmente algumas mulheres invadiram suas terras. Ao se aproximar lentamente,observa várias belas garotas nuas se banhando na lagoa. Quando elas percebem a sua presença, nadam até a parte mais profunda da lagoa e gritam:

- Nós não vamos sair daqui enquanto você não deixar de nos espiar e for embora.

O fazendeiro responde:

- Eu não vim aqui para espiar vocês, eu só vim alimentar os jacarés!

Conclusão: A criatividade é o que faz a diferença na hora de atingirmos nossos objetivos mais rapidamente.

Portanto,

Antes de falar, escute...

Antes de escrever, pense...

Antes de gastar, ganhe...

Antes de julgar, espere...

Antes de desistir, tente...

“No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é, e outras, que vão te odiar pelo mesmo motivo.”

Aglomerado de equívocos

A pior crise no Brasil do século XXI não é política ou econômica. Nos falta disposição para a conversa, para a seriedade. Eu tenho mil exemplos e um deles o país inteiro viu, anteontem, quando o procurador-geral da República Rodrigo Janot ignorou solenemente o presidente da Câmara Eduardo Cunha durante solenidade de abertura dos trabalhos no Judiciário. Era de se esperar, pelo protocolo, pela boa educação, um aperto de mãos embora saibamos que ambos estão em vias absolutamente opostas na vida. Outro exemplo de nossa preguiça ao diálogo é a proliferação dos mosquitos que matam porque o prefeito de Belo Horizonte não conversa com o governador, a prefeita de Pedro Leopoldo não se reúne com o de São José da Lapa e a vida segue...

No entanto, quero mesmo falar é sobre os últimos acontecimentos no aglomerado da Serra. Primeiro, é preciso lamentar o retrocesso, pois, essa história de poder paralelo foi uma ameaça 15 anos atrás, assim como cadeias cheias de presos e falta de gasolina para viaturas e os pactos de morte nos presídios, fantasmas que pareciam extintos. Agora, um rapaz de 18 anos resolve fazer uma guerra, ninguém reage, a imprensa cobra, a viatura da Polícia Militar é recebida a tiros, cria-se o medo generalizado e as nossas “autoridades” tomam a pior das decisões: a de indicar aos criminosos que eles estão no comando. Ou não é essa a mensagem que a Prefeitura mandou, admitindo fechamento de posto de saúde e redução nos horários de circulação dos coletivos?

É impressionante como não aparece alguém com coragem e autoridade o bastante para subir o morro, armar uma barraca e dizer: a vida segue normal nas cinco vilas da Serra e ponto final. O prefeito se omite, o secretario de Defesa Social silencia, o governador não entra e a nossa Câmara Municipal segue fazendo promessas de economia nas quais não acredito. À exceção do deputado sargento Rodrigues, que marcou uma reunião da Comissão de Segurança Pública da Assembleia para amanhã, no aglomerado, todos os representantes da cidade estão se acovardando. Onde já se viu deixar de atender a 60 mil pessoas com médico e ônibus porque há ameaças de meia dúzia de traficantes de média e baixa periculosidade?

Aliás, as “autoridades” deveriam estar por lá rotineiramente, com convivência o bastante para desestimular as chamadas guerras entre gangues. Diante da ausência, teriam de ter pelo menos a decência de rechaçar, com todo vigor, qualquer ameaça contra a paz da esmagadora maioria. A PM, que é sempre a primeira a “ocupar” o morro, deveria ser a última, já para resolver qualquer parada com o uso da força, esgotadas todas as possibilidades de negociação.

Poderia apontar mais uma centena de esquisitices, mas, fico por aqui, repetindo: o país não aguenta essa história de eleição de dois em

dois anos porque os que governam só pensam nas urnas, não decidem, não agem, não resolvem, e o poder paralelo se assanha, passa a mandar e, não demora muito, vai dizer quando e como podemos sair de casa.

O bom cabrito não berra!

Não creio que descansar seja enfrentar aeroporto lotado, praia cheia de filas ou hotéis repletos de empolgados. Adoro as montanhas de Minas e os seus ensinamentos. Na semana passada, fui à Fazenda dos Macacos, nos limites dos municípios de Fortuna de Minas e Cachoeira da Prata, com o amigo Antônio de Pádua. Quanto aprendizado!

De início, uma lição de carinho para com os que nos deram a bússola: empresário com os desafios que a crise impõe, Marquinhos foi chamado a ultima hora, mas, sem pestanejar, delegou fazeres e se prontificou a ser o motorista. O pai é mais importante! Outro membro da delegação, o colega João Vitor, foi de bermudas, mas, levou uma calça, pois, nunca se sabe o que vai encontrar... Preocupação, respeito para com os outros, especialmente com a casa dos outros!

Lá chegando, não encontramos Marcílio. Ele sabe que Antônio, velho amigo, não dá importância a bobagens; Antônio sabe que a vida na fazenda é de luta. Mas, a ausência do anfitrião não diminuiu o carinho da acolhida na sede, pela gentil esposa e a filha Bárbara, médica em Belo Horizonte que comemorava aniversário junto a suas raízes. Na cozinha, uma mesa enorme de madeira, crianças brincando, fogão a lenha a pleno vapor, o ambiente de integração que os celulares e outros tabletes querem nos roubar. Aquilo sim é vida em família!

Mas, depois de uma rápida passagem por aquela casa espetacular de 300 anos e muita história era hora de procurar Marcílio. E lá estava ele em um dos três currais, ignorando as dores de coluna e separando os cabritos que deveriam embarcar para Brasília. Afinal, graças ao produtor rural, temos nosso cardápio de todo dia. Ali, era só espiar que exemplos de vida pululavam como a esperteza do comprador – até a multa que levou no caminho queria dividir – a maleabilidade do fazendeiro na escolha das cabeças e a interação com seus vaqueiros que, ao menor sinal, percebiam orientações.

É uma aula de sociologia. Os cabritos vivem soltos, mas, rotineiramente, são conduzidos ao curral, para conferência, tratamento e, quando necessário, embarque; as búfalas se esbaldam no pasto e na lagoa exigindo menores cuidados alimentares que as vacas, os porcos que não tiveram bom comércio no Natal seguem soltos, para diminuir o custo, e as

porcas sofrem com o assédio dos javalis; as galinhas engordam com as sobras, entre pássaros, frutas e fartura; enfim, são 40 hectares de terra fértil onde cada um cumpre seu destino, tudo sob o controle do Marcílio porque, afinal, “o olho do dono engorda o boi”. O legal é o ritmo: trabalho de sol a sol, mas, sem estresse, desespero ou correria, como recomenda o ditado latino - Festina Lente - que quer dizer: Apressa-te devagar. Marcílio não queima energia queixando dificuldades, segue sua rotina de trabalho. Aliás, de volta aos cabritos, quando faltavam apenas dois para encher o caminhão um miúdo que estava atrás do fazendeiro se assanhou e chamou a atenção. Foi para o abate na hora. Afinal, “o bom cabrito não berra”.

Depende, uai! (último)

Divertimos-nos nas duas últimas colunas com o velho e bom provérbio mineiro, seguramente uma das marcas de nossa cultura. Hoje, quero falar sobre o uso dessa expressão por algumas pessoas importantes que passaram por minha vida. Primeiro, quero falar de um chefe, de décadas, que, com maestria, usa essa expressão seguida de outra, ímpar. Quando procurado por qualquer colaborador da empresa, seja mais ou menos importante, está sempre com a porta aberta e acolhida afetuosa. A pessoa diz então que precisa falar-lhe algo e conta com sua atenção, no que ele consente; que precisa de ajuda, então ele vem com o “depende, uai!” e, na sequência, como quase sempre é pedido de aumento salarial, ele completa o ritual de forma definitiva: “Vou conversar lá no Pessoal, você passa lá, vamos ver o que fazer... Mas, veja bem, não é tudo que você merece, mas, com certeza, é mais que eu posso dar”. A pessoa vai embora feliz e, mesmo não tendo todos os seus sonhos realizados no próximo pagamento, guarda gratidão pela acolhida que é retrato falado de “depende, uai”.

Meu pai era assim, quando diante de uma dificuldade imposta pela pressão familiar. “Pai, posso fazer uma festa aqui para os amigos?” era sempre seguido por um “depende, uai, se tiver horário para começar e acabar, vier só gente que se comporta e você puder fazer coisa direito, para não me dar vergonha, tudo bem”. Minha irmã, já moça feita, na noite de Natal, rua em festa pedia para ir à casa de dona Maria, vizinha, e a resposta vinha na lata: “Depende, uai, se sua mãe ficar lá com você e me garantir que vai se comportar diante dos rapazes que tem lá, tudo bem”.

Saudades também das prosas com meu padrinho Ari, que foi para outro plano depois dos 110 anos. E que arrependimento por não ter gravado nossos últimos encontros! Trago-os na memória até porque as estórias eram quase todas repetidas (peso dos anos) e, ainda assim, deliciosas. Se indagado sobre a correção na vida, vinha com um discurso que começava com “depende, uai!” seguindo-se a explicação de que, por vontade própria não, mas, sem querer, às vezes dera prejuízo aos outros, como quando vendeu uns palmitos no mercado, deu o troco errado e nunca mais encontrou o comprador para se redimir. Se a gente queria saber sobre mudanças no comportamento da juventude, depois do “depende, uai!” vinha a citação de que famílias mais estruturadas continuavam seguindo o caminhoconsiderado correto por ele, mas, “meu filho, tem umas moças aí que são da pá virada... A propósito, sabia que fulana, filha de beltrano, tá grávida?” Interessante é que passou as últimas décadas de sua vida com a audição muito prejudicada, mas, sabia em detalhes de como conterrâneos se comportavam na alcova. Afinal, estar bem ou mal informado, “depende, uai!”.

Quer uma versão universal de nosso provérbio? É só lembrar as cinco frases mais importantes dos cinco judeus mais importantes: Moisés, “a lei é tudo”; Jesus Cristo, “o amor é tudo”; Freud, “sexo é tudo”, Marx, “o capital é tudo” e Einstein, “tudo é relativo”.

Depende, uai! (2)

Conforme prometido, estou falando nesta semana de um ditado bem mineiro, o famoso condicionante diante de qualquer indagação mais complicada. Primeiro, faz-se necessário lembrar que existem infinitas explicações para a origem do nosso “uai”. A que mais repetem remonta o período da colonização, quando os ingleses aqui chegaram para a mineração – especialmente em Nova Lima – e, diante dos desafios do idioma, muitas vezes teriam tentado comunicação através do “why” que é a indagação na língua deles, ou “por quê?” no nosso português. Há também relatos de que seria expressão usada pelos inconfidentes em suas reuniões secretas na antiga Vila Rica; enfim... O que ninguém discorda é que o “uai” quase sempre mistura uma reação de surpresa com necessidade de explicação da resposta e pedido de tempo para rápida reflexão. Resumindo: é a sabedoria mineira, matutando antes de responder, diminuindo assim a margem de erro nas avaliações.

A vida me ensinou que as pessoas públicas - aquelas que têm na fala sua principal matéria prima, especialmente os políticos – criam mecanismos de sobrevivência, diante de situações complicadas. Como entrevistei muito nos últimos 40 anos, fui observando comportamentos. Há aqueles que não titubeiam e são capazes de desmontar o inquiridor com velocidade espantosa... Lembro-me de uma coletiva concedida pelo então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, que, ainda no aeroporto da Pampulha e abordado de pronto pelos jornalistas, não se apertou diante de uma questão fulminante: “Como é que o senhor se sente virando verbo, já que, agora, “malufar” é sinônimo de roubar?”. Sem pestanejar, o político de folha corrida capaz de inibir qualquer mortal nem pestanejou e atacou: “Meu filho, dizem tudo, vejam, dizem que você é bastardo e, como, eu, que sequer lhe conheço, vou acreditar?” E seguiu adiante, sorridente, como se desfilasse na Avenida Paulista. Há também os que não nasceram para a arte de controvérsia, como o já falecido Itamar Franco que, diante de uma pergunta minha sobre corrupção de um assessor, em sua passagem pelo governo de Minas, ameaçou com um soco, sendo contido pelo chefe de seu Gabinete Militar. Mas, de uma forma geral, os políticos, melhor, as pessoas públicas não têm a coragem de Maluf nem a irritação de Itamar: são educadas, mas, só respondem o que querem. Lembro-me perfeitamente de Júnia Marise, que ganhou várias eleições em Minas e, para todas asquestões, inevitavelmente começava assim a resposta: “Olha, em primeiro lugar...” Ela estava buscando na memória a melhor resposta e, enquanto não formulava, enrolava com uma ou duas mensagens menores, sem qualquer importância. Em outras palavras, para todo e qualquer problema, Júnia, assim como Tancredo, Alkmin, Francelino, Milton Campos, Anastasia e outros, muitos outros, haverá sempre um “depende, uai!” que é resposta mineira afirmativa sem fechar questão... Uma espécie de em cima do muro profissional. E respeitável porque quase tudo depende de alguns senões, uai!

O tempo passa

Perceber a dinâmica da história é um dos exercícios mais fascinantes, sobretudo em dias de incertezas como os que vivemos. Um dia, quando ainda estava em começo de carreira, final dos anos 70, estava em solenidade de posse no hoje extinto Banco de Crédito Real e meus colegas repórteres estavam no maior frisson para entrevistar um ministro poderoso que controlava as finanças do país. Como nunca tive dúvidas sobre pedir ou não – sempre considerando que, no máximo, pode vir um não – perguntei ao governador de então se ele não poderia trazer aquele senhor até nós. Com a cordialidade de sempre, Francelino Pereira disse “Delfin Neto, os rapazes querem conversar com você...”. Ele imediatamente se levantou, veio até a área em que estávamos e rolou a entrevista.

Fui embora me perguntando por que meus amigos, colegas de faculdade, os da redação, ninguém gostava daquele Delfin. Também já não estava tão certo se Francelino merecia a saraivada de balas que levava no meu círculo. Mas, como questionar se havia unanimidade de que Delfin era a síntese da ditadura, culpado de todos os nossos males, e Francelino, um piauiense biônico, indigno das promessas dos de boas intenções.

O tempo passou, passou, descobri muitas coisas. Em relação a Francelino, que sempre esteve por perto, aprendi que – embora carregue a pecha de ter servido ao regime autoritário – é um dos políticos mais honestos que conheci em minha vida profissional, foi um dos governadores que mais fizeram por Minas Gerais, indicou para Belo Horizonte um dos melhores prefeitos de sua história – Maurício Campos – e é, enfim, cidadão digno de todo o meu respeito. Sobre Delfin, tenho ouvido muita gente falar dele com o respeito que seus conhecimentos merecem e a maior surpresa é que exatamente os petistas mais convictos, esquerdistas mais ferrenhos, os que vomitavam ao ouvir o nome do poderoso ministro da ditadura, agora o respeitam cada vez mais.

Li essa semana entrevista que Alex Solnik fez com Delfin, hoje com 88 anos, e fiquei impressionado com tudo. Com o encontro de homens que já estiveram em campos tão opostos, com o respeito mútuo, a lucidez de Delfin e a repercussão positiva entre petistas com os quais convivo. De pronto, o ex-ministro assinalou que “direita e esquerda, hoje, no Brasil, é sinal de trânsito” e que não haverá afastamento de Dilma porque, para ele, ela não cometeu desvio de conduta e o Brasil não é mais uma pastelaria. Para Delfin, tudo degringolou a partir de 2014, ano eleitoral, quando Dilma seguiu a filosofia de Maquiavel, segundo a qual “o maior dever do poder é

continuar no poder”. Deu o devido recado ao PT, “que não sabe a regra de três”, assegura que Lula – que considera grande inteligência – iria piorar muito se tivesse feito faculdade e afirmou algo surpreendente para quem tem a sua biografia: “No fundo, essa inclusão social, que foi um acidente construído pelo vento externo, fabuloso, foi absolutamente fundamental. Mudou a concepção da sociedade brasileira. Eu acho que é preciso reconhecer essas coisas”. Elogiou também o diário de Fernando Henrique Cardoso – “melhor que o governo dele” – salientou a inteligência dos generais e tranquilizou os que temem as vozes pedindo a volta dos militares. Não há essa possibilidade, pois, “o regime autoritário matou o regime autoritário”.

Resumo da ópera: quanto mais conheço Delfin, mais me pergunto como estaria o Brasil se esse senhor não tivesse ficado quase 50 anos no governo federal.

O século 19 manda lembranças

Experimente fechar os olhos, deixar-se relaxar por uns cinco minutos e, em seguida, ainda com a cabeça na famosa “caixa do vazio” que – dizem – só os homens têm, peça a alguém para ler duas ou três notícias do jornal de hoje. Se você tiver mais de 50 anos ou for jovem muito interessado pela história da humanidade terá nítida impressão de que está vivendo no século 19.

Um amigo meu está com tuberculose, vários tiveram dengue recentemente e minhas colegas grávidas levam citronela, repelentes industriais e outros apetrechos para se protegerem contra os mosquitos que podem afetar seus futuros bebês. Algumas trabalham sempre com roupas compridas, cobrindo todo o corpo, independentemente da temperatura e do ar-condicionado... O medo está no ar. Passei a dar mais importância a esses detalhes anteontem, quando ouvi entrevista do secretário de saúde de Belo Horizonte, Fabiano Pimenta, confirmando a falta de várias vacinas. A explicação dele convence porque verdadeira: para ganhar no preço, o governo federal compra para todo o país e, nesta economia de escala, impregnada pela burocracia estatal e os senões das concorrências, com recursos, impugnações e outras encrencas, costuma atrasar. Em consequência, Estados e Municípios correm o risco, sempre, de ter falta desta ou daquela vacina para imediato atendimento da população.

Como resultado, é comum as autoridades darem conselhos do tipo “vá a um posto da prefeitura e, se não encontrar, procure então no Estado”, ou, “antes de ir ao posto, ligue e pergunte se tem”. É doido ou não é? Nas últimas décadas, o Brasil fez bonito no seu calendário de vacinas e no atendimento às vítimas do HIV. Agora, essa! Então, os mesmos governantes que já estão na história por trazer de volta o pavor dos cérebros pequenos, ameaçam nosso futuro com doenças que a maioria da população só conhece por conta da caderneta de vacinas: BCG,hepatite, difteria, sarampo... Só pegando no terço e pedindo a papai do céu que nos poupe da volta da talidomida!

E, não bastasse, a gente tem as tragédias paralelas. Em Mariana, furtaram as máquinas que trabalhavam contra a lama da Samarco; em Montes Claros, vestido de agente de saúde o assaltante pediu licença para combater o “aedes” e roubou o dono da casa com arma na cabeça; no Sul de Minas, uma empregada, chamada Dagmar, começou a escrever cartas para a patroa como se fosse um espírito... Nas primeiras, falou de paz, em seguida, elogiou a idosa, dias depois começou a mandar recados do tipo “Ajude a Dagmar, ela precisa de uma casa como a sua”... Ou seja, até os recados que além merecem cuidado especial nos nossos tempos.

De uma forma geral, falta educação. Nos últimos dias – e em ação que deveria ser rotina – a Prefeitura da capital tem efetuado mutirões. Nos córregos que deságuam na Pampulha encontraram geladeira, fogões, caixotes e muito mais. No aglomerado São Lucas havia de tudo um pouco em cima das lajes dos barracões... Lixo, que junta bicho, traz doença, ameaça a vida. E as pessoas não desapegam. Vivemos a era do esquisito. De novo, onde a gente vai tem alguém pedindo emprego, seja pedreiro, motorista ou jornalista.

E é melhor não ir para a política por que, aí, o retrocesso é de séculos, talvez chegue a Vespasiano, diante da proximidade da morte, avisando ao filho Tito que deveria fazer uma obra suntuosa, para a diversão para garantir dinheiro aos amigos e alegria do povo... “Pão e circo”!.

As muitas vidas de Bruno

A entrevista de Tiago Reis com o preso mais famoso de Minas, na semana passada, foi, nos meus critérios, a melhor de todas desde o anúncio de que o poderoso goleiro do Flamengo estava envolvido no assassinato da modelo Elisa Samúdio. Reveladora – pela primeira vez Bruno disse “eu cometi um crime” – instigante, humana, construtiva e definitiva, no sentido de consolidar a mais estarrecedora das verdades sobre o rumoroso caso: o ex- jogador de futebol profissional é pessoa que já viveu muitas vidas, saiu do nada para o pódio, despencou do estrelato para a sarjeta, está renascendo das cinzas e promete lutar muito ainda. Pela vida.

Não conheço Bruno pessoalmente. Mas, sempre pude compreendê-lo de maneira diferente: quando apareceu no Atlético e deu as primeiras entrevistas, pensei em mais um moço despreparado para a fama. Depois, já no Flamengo, cada vez que ele abria a boca era um desastre. Com a notícia do crime, não tive dúvidas: é o típico caso do jovem que saiu da periferia (aqui entendido como lugar de se morar, mais humilde, sem recursos e infraestrutura, mais longe do centro), mas a periferia (o pensar pequeno, a arrogância, amigos falsos e aproveitadores) não saiu dele.

E, logo nos primeiros lances do rumoroso processo legal, constatei, junto com milhões de brasileiros, o massacre: emissoras de TV pagando (não a ele) por entrevistas, repórteres pouco qualificados invadindo a privacidade da mãe do rapaz de fora truculenta, policiais em campanha política, “especialistas” querendo a fama a qualquer preço e os advogados... Bem, com todo respeito à categoria e à maioria, sabemos que advogados, como quaisquer outros trabalhadores, são humanos... Alguns, desumanos. Disse várias vezes, no rádio, na TV, aqui neste espaço que com os advogados que contratava Bruno não precisava de inimigos. Hoje, ele afirma isso. Passou 90 dias sem ver a família, decidiu errado, só não morreu de desespero porque é forte.

Bruno já teve alguns milhões de reais (talvez 8, quem sabe 10) hoje é um homem “quebrado”. Conseguiu a bênção de ir para uma APAC (método mais decente de se recuperar criminosos) está no caminho da cura e, acredito, voltará a jogar futebol. Aliás, estou torcendo por isso. Afinal, ele já está há mais de cinco anos atrás das grades e, como não consigo me imaginar cinco dias, espero sua progressão para que possa exercer seu ofício e voltar para dormir no presídio. Dirão: você se esquece da Elisa, etc. Eu olho é para frente, diferencio bandido (que tem de ficar na cadeia) de criminoso, que merece nosso apoio para se arrepender, voltar ao convívio da sociedade e deixar o xadrez para os bárbaros. Para Bruno, só a traição dos amigos de periferia, a indiferença dos amigos de Flamengo e a força negativa que atraiu já são uma sentença de dor perpétua. 

BH nota zero

A capacidade dos administradores públicos de nos decepcionar é ilimitada e revestida de crueldade e planejamento, além de contar com a boa fé do contribuinte que, cansado de tanto trabalhar para pagar impostos, muitas vezes é lesado com atitudes cercadas de tecnicidade. A Prefeitura de Belo Horizonte fez um carnaval daqueles seis anos atrás para lançar o programa “Bhnota10”, através do qual os proprietários de imóveis receberiam descontos no IPTU, bastando para tal pedir a nota fiscal sempre que fossem tomadores de serviços no município. Achei legal, embora não fosse original a ideia, mas, de toda sorte, sempre que se estimula o combate à sonegação é positivo e, se isso resultar em desconto para quem já não aguenta mais pagar tanto imposto, ótimo.

Agora, recebi minha guia de IPTU e achei estranho que não houvesse citação do desconto. Pensei que não estava procurando direito, até que o deputado estadual Fred Costa veio a público para denunciar que a PBH mudou a regra do jogo sem dar a devida informação aos munícipes e que a maioria dos contribuintes ficará sem o desconto. Marquei entrevista com ele e pedi nota explicativa da Prefeitura, já esperando que houvesse negação de tal lambança. Mas, eis a nota:

“A Prefeitura de Belo Horizonte esclarece que, conforme disposições do Decreto nº 16.105/2015, que alterou o Decreto nº 14.053/2010, o contribuinte deve indicar o imóvel que terá o abatimento do IPTU por meio do programa BH Nota 10. A apropriação dos créditos do programa para o exercício 2016 esteve disponível no site www.pbh.gov.br/bhnota10, no período de 1º a 30 de novembro de 2015. A PBH salienta que o contribuinte que possua créditos no programa, não tenha débitos com o Município e não fez a apropriação dos créditos a que tem direito, pode requerer o desconto entre os dias 4 de janeiro e 3 de fevereiro de 2016 no BH Resolve (Rua dos Caetés, 342, Centro), das 8h às 18h, ou nas sedes das regionais Barreiro (Rua Flávio Marques Lisboa, 345, Barreiro) e Venda Nova (Rua Padre Pedro Pinto, 1.055, Venda Nova), das 8h às 17h”.

Às vezes, é difícil para o repórter se conter, não escrever o que pensa diante de tantas estórias esquisitas que a vida se lhe apresenta. Ora, se eu que vou ao computador dez vezes ao dia, acompanho site e releases da Prefeitura, vejo edições dos principais jornais toda hora, nunca ouvi falar

do tal decreto, imaginem o grosso da população. Fred Costa diz que vai ao Ministério Público, entendendo que feriram no mínimo uma das práticas mais elementares do serviço público que é dar publicidade aos atos. Eu não sei a palavra é forte demais, mas, penso em sacanagem... Se alguém tem explicação melhor que vá, no meu lugar, segunda-feira próxima, para fila, com as notas fiscais eletrônicas de 2015 debaixo do braço, exigir o tal desconto. A gente não pode nem dormir mais que roubam nossa paz.

O país do grito

Por muito tempo acreditei que o nosso sentimento de Nação havia nascido num 7 de setembro, às margens do rio, com um grito decidido, definitivo... Convenhamos, a imagem de d. Pedro I desembainhando a espada no alto do Ipiranga é uma das representações mais populares da história do Brasil. Há muitas décadas ela figura em livros didáticos e ilustra páginas de revistas e jornais por ocasião das comemorações da Independência. Diante dela temos a impressão de sermos testemunhas do evento histórico, aceito naturalmente como o “marco zero” da fundação da nação. No entanto, essa imagem é fruto da imaginação de um artista que nem mesmo tinha nascido no momento em que o episódio ocorreu. Historiadores têm demonstrado que só depois o hoje famoso episódio do “Grito do Ipiranga” adquiriu o status que ele possui no contexto das narrativas sobre a Independência. Como demonstra a pesquisadora Cecília Helena Salles de Oliveira em seu estudo sobre o tema, a data de 7 de setembro não foi considerada, de início, particularmente relevante como marco simbólico da formação da nação, nem pela imprensa, nem pelo próprio d. Pedro. Sem falar em relatos mais polêmicos, alguns provavelmente fruto do bom humor tupiniquim que versam até sobre uma “dor de barriga” que teria obrigado d. Pedro a movimentar-se perto da água.

Não quero hoje discutir as verdades sobre a Independência, mas, no entanto, estou cada vez mais convencido de que no Brasil, sobretudo nos tempos atuais, ganha quem grita mais alto. Recentemente, o governo federal anunciou cortes no orçamento da Justiça Eleitoral, provocando imediata declaração do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Dias Tófoli, de que a votação voltaria a ser manual. Imediatamente, o dinheiro apareceu. Mais recentemente, diminuiram o dinheiro da Polícia Federal e um video de dirigente classista da PF inundou o What Zap advertindo sobre o risco que corriam operações importantes como a “Lava Jato” que é a maior esperança do povo brasileiro de diminuir a roubalheira. Claro que já estão arrumando o dinheiro para a Federal. Aqui em Minas, o governo anunciou que só vai pagar o salário no dia 13, daqui há uma semana. Imediatamente, a Associação dos Promotores protestou, seguida de policiais militares que anunciam até diminuição no ritmo de trabalho. Você acha que vão deixar de pagar PMs e promotores ou é o tão sonhado sonho de um piso salarial dos professores que corre risco?

O repórter não quer desqualificar a luta das lideranças por respeito aos seus servidores, mas, o que chateia é que ninguém – NINGUÉM – reagiu a altura contra a demissão de 58 mil pobres servidores. Até a combativa representante dos professores e president estadual da CUT, Beatriz Cerqueira, ficou apenas no “lamentável”. Vítimas de governantes irresponsáveis no passado e insensíveis no presente, foram todos para o olho da rua, sem FGTS, seguro-desemprego ou qualquer compensação… No âmbito da Policia Militar, ninguém se dá conta de que aposentadoria aos 30 anos para homens e 25 para mulheres não combina com os novos tempos. Vale lembrar a letra da música que o grande Bezerra da Silva gravou: Farinha pouca, Meu pirão primeiro, Este é um velho ditado,Do tempo do cativeiro...