minas gerais

Escárnio

Recebi ontem telefonema de um funcionário do Tribunal de Justiça de Minas, ansioso por dizer três coisas: que não podia ser identificado, que estava revoltado com o feriadão de hoje até terça-feira da semana que vem no órgão e que não é contra ficar à toa, mas, como está cheio de serviço, chegou a pedir para trabalhar pelo menos hoje e amanhã e ouviu um não. Fui à página do tribunal na internet e lá está escrito: “Nos dias 16, 17, 18 e 21 de abril, o expediente forense, nos órgãos de 1ª e de 2ª instância, será suspenso devido ao feriado da Semana “Santa” e “Tiradentes”, respectivamente, conforme a Resolução 458/2004. Nesses dias, serão realizados plantões, para apreciação e processamento das medidas urgentes. Ficam prorrogados, para o dia 22 de abril, os prazos que iniciarem ou vencerem nesses dias”.

 

No caso do Tribunal de Contas do Estado, a presidente assinou portaria em 8 de janeiro já determinando todas as folgas desse ano, incluindo até seis dias de 2015 que complementarão o recesso de Ano Novo. Claro que hoje já não se atende ninguém. Quanto ao Tribunal Regional Eleitoral há uma exceção para o funcionamento nesta quarta do Disque Eleitor, mas, o aviso de que algumas atividades serão suspensas, como as relativas aos trâmites processuais e a secretaria do tribunal. Você, caríssimo leitor, pode me acusar de estar com inveja porque, no labor jornalístico, folga tão longa é impensável. Compreendo. Pode também achar que não gosto de servidor público. Injustiça. O que me incomoda é o jeitão que a gente leva a vida. Quando vai cobrar mais justiça, dizem que os fóruns estão abarrotados, mas, neles não se consegue trabalhar sequer dois meses sem que haja uma semana de folga geral. Vejam bem: o serviço parou ontem e será retomado na terça que vem. Então, imagine as audiências para mães que esperam o pagamento de pensões, presos no aguardo de libertação, outros que escaparão por conta do tal excesso de prazo...

 

Mas, sejamos justos, os tribunais pelo menos assumem. Vá falar hoje com um figurão do Executivo ou Legislativo... Já viajou há muito tempo. E não é só feriadão que coloca pulga atrás de nossa orelha. Tem, por exemplo, algo que me perturba há mais de três décadas – período no qual frequento o TRE – e não aparece quem possa resolver. Todo ano de eleição tem três presidentes no Tribunal Regional Eleitoral. Em 2014, o desembargador Antônio Carlos Cruvinel ficou até fevereiro, quando assumiu Wander Marotta. Em junho, três meses antes da eleição, ele transfere o cargo para Geraldo Augusto Almeida. Sempre que pergunto por que isto acontece me dizem que alguém precisa desistir de assumir, abrir mão do posto para que a gente tenha o óbvio: um presidente assume o Tribunal logo após uma eleição e fica lá, dois anos, preparando o próximo pleito. Tô doido ou tão querendo desdenhar deu? Oh, paixão de Cristo, assim meu coração num vai aguentar!

E a legalização da maconha?

Por iniciativa de Alan de Freitas Passos, que preside uma associação acadêmica de psiquiatria, foi realizado no último sábado um debate sobre a legalização da maconha no país. Encontro dos mais interessantes reunindo pessoas realmente especialistas no assunto e uma certeza: há rejeição da classe médica à tese da aceitação, em termos oficiais, da produção, distribuição e uso da erva. Um dos presentes, o coordenador do Centro de Referência de Drogas da UFMG, Frederico Duarte Garcia, apresentou palestra com o título “Da guerra do ópio à legalização da maconha: dois séculos de experiências e argumentos para fomentar o debate”.

É claro que uma polêmica de 200 anos não acaba em uma conversa de duas horas, mas alguns argumentos foram contundentes. Valdir Ribeiro Campos, por exemplo, com sua experiência de membro da comissão que trata do tema na Associação Médica, atribuiu as atuais discussões ao momento em que uma “pequena minoria subsidiada por interesses econômicos tenta a legalização”. E foi além:

“Querem nos fazer crer que fumando maconha estamos tratando algumas doenças. Tais argumentos já foram usados em outros tempos. E, atualmente, poderíamos relembrá-los dizendo também que consumir álcool é bom para a saúde, já que relaxa, dilata as coronárias e nos faz dormir. Fumar tabaco é bom para a saúde porque é um estimulante, nos deixa mais animados, alivia a tensão, melhora a memória. Apesar disso ser uma verdade sobre aspectos de ação de uma substância em algumas áreas cerebrais, vivemos dezenas de anos com campanhas no mundo inteiro voltadas ao combate aos danos incomensuráveis causadas pelo consumo dessas substâncias no organismo, ambiente e saúde pública. É fato histórico que o consumo de tabaco matou mais pessoas no planeta do que qualquer guerra ou epidemia no século passado. O alcoolismo é responsável por inúmeras doenças e elevados custos para os sistemas de atendimento em saúde e previdência social. Valeu a pena legalizá-la? Quem ganha com isto? Fumar maconha relaxa e dá prazer. Mas, as 400 substâncias tóxicas são saudáveis para a saúde? Talvez seja pior fumar tabaco, que tem 4.700 substâncias tóxicas”.

Os psiquiatras – especialmente Frederico Garcia – falaram de algo esclarecedor sobre a internação de usuário. Há sempre uma divisão clássica entre internações compulsórias e voluntárias. Muitos não toleram a tal história de que o cidadão tem de querer se tratar, pois, quem está no fundo do poço com as drogas normalmente não tem força de vontade o bastante. Mas, os médicos explicam que se pode fazer a internação involuntária, aquela solicitada pela família e autorizada por médico. Discordam é da compulsória, ordenada por juiz. Enfim, o mais importante é discutir. Buscar uma saída. O momento é grave e o amanhã de arrepiar.

O que você pensa a respeito?

A valorização da Defensoria Pública

Agora ex-governador, o professor Antonio Augusto Anastasia deve sofrer com o fato de que não conseguiu grandes realizações em determinados setores. No caso da segurança pública, admitiu, ao sair, que a Polícia Militar está enxugando gelo. Mas, se tem um servidor que será eternamente grato a ele é o defensor público. O governador promoveu uma verdadeira revolução na carreira, com reflexos que vão repercutir, em médio e longo prazo, no atendimento aos pobres que precisam de advogado e não podem pagar.
Quando Anastasia assumiu, o salário de um defensor era pouco mais de R$ 4 mil por mês. E havia a ameaça de extinção da classe, por conta dos pedidos de exoneração. Tanto que dois concursos foram feitos e, ainda assim, o número de defensores não passa da metade do previsto em lei, isto é, o já autorizado, o mínimo para cumprir a missão. O quadro era tão grave que Eduardo Cavaliere – o presidente da Associação dos Defensores Públicos de Minas – lembra que, em 2009, havia uma exoneração a pedido de 12 em 12 dias.
Ou seja, o cidadão já fazia o concurso pensando em outro emprego e, assim que obtinha aprovação na prova de promotor ou juiz, deixava a Defensoria Pública. Agora, com nova lei já aprovada na Assembleia Legislativa e que só carece da assinatura de Alberto Pinto Coelho, sucessor de Anastasia, o inicial de um defensor passará, em junho, para R$ 16.022, e, em janeiro do ano que vem, para R$ 23.940,00.
Não é nenhuma fortuna, tanto que os promotores e juízes já recebem perto de R$ 23 mil no começo da carreira e continuarão com salário 20 pelo menos por cento maior em 2015. Outra informação importante: com o reajuste, os defensores de Minas passam do 11º para o décimo lugar na ordem de melhores salários da categoria em todo o país. Ainda à frente de nosso Estado, profissionais de Alagoas (R$ 18 mil), Ceará, Distrito Federal, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia e Tocantins (salário superior a R$ 22 mil).
Claro que outros servidores vão reclamar. Os delegados de polícia já fizeram um calendário de paralisações para exigir isonomia. É da democracia. Mas, quando vejo um defensor bem pago, fico animado com nosso futuro porque não há dor maior que conversar com alguém que se sente lesado e não tem como lutar por seus direitos. Com a melhoria na carreira, os que têm vocação poderão se dedicar inteiramente à profissão, em tempo integral e com atenção, carinho redobrado para os humildes.
Agora, a luta deve ser por mais concurso, ampliação do quadro, de sorte que haja pelo menos um defensor em cada cidade mineira. Ou será que é pedir muito?
Precisamos de gente bem informada, temos sede de Justiça. Então, como aceitar que para 853 municípios são pouco mais de 500 defensores?

O Ministério Público está em perigo

Como todo brasileiro medianamente informado, dou graças a Deus por termos procuradores em ação. Tenho repetido que são - junto com os policiais federais, nossa grande esperança de mudar de fato o país, diminuir a roubalheira e quebrar a tradição de sangrar os cofres públicos. Mas, quero alertar os verdadeiramente comprometidos com a instituição para a necessidade de controlar as ações dos afoitos.

Quem acompanha mais cuidadosamente o noticiário sabe que um promotor, depois de aprovado no concurso, não tem mais superior se precisar de punição. Ninguém o demite, só transfere se for por promoção, enfim, não há Corregedoria, procurador-geral ou qualquer chefia capaz de baixar a bola de um promotor sem limites. Quando a falta é gravíssima e vai parar em instâncias maiores, como o Conselho Nacional do Ministério Público, vem gorda aposentadoria para o acusado. Quem discordar que me diga o que aconteceu com um deles que chegou ao posto mais alto da instituição e foi acusado de pedir R$ 6 milhões para acobertar jogatina ilegal.

O que me traz ao assunto é o imbróglio do fim de semana, quando a cidade ficou sem saber qual era o preço da passagem de ônibus. Ora, em reunião no dia 26 de março, vários procuradores combinaram com a Prefeitura de Belo Horizonte que haveria o reajuste e o assunto seria discutido ampla e internamente. Um dos presentes, José Antônio Baeta, deu entrevista na quinta-feira. Na sexta, outro promotor pediu e a Justiça barrou o aumento, causando a maior confusão. Não estou entrando no mérito da questão, mas apenas pedindo que haja bom senso na atuação de suas excelências.

Este é só um exemplo. Anos atrás, outro ameaçou a Cemig de processá-la caso houvesse algum foco de incêndio no Parque das Mangabeiras durante o tradicional Festival de Papagaios. A empresa simplesmente acabou com a festa, pedagógica, educativa e rara numa cidade sem atrativos, sem lazer. Moradores e comerciantes da Savassi já não sabem mais o que fazer com moradores de rua que se lavam, transam, fumam maconha, se masturbam, intimidam, mas, são intocáveis porque uma promotora já avisou a PM: se mexer com eles, vai ter processo na hora. A culpa é do soldado.

Só pra lembrar: há uns dois ou três anos, tramitou na Câmara dos Deputados um projeto de lei que tentava disciplinar um pouco o trabalho dos procuradores. Dizia que se a denúncia inicial se revelar inconsistente ao final, o autor tem que ser punido de alguma forma. Houve uma gritaria danada (“É censura, querem calar o MP”) e o projeto morreu.

O fato é que hoje eles abrem ‘procedimentos investigatórios’ a todo o momento, a imprensa embarca na onda e quando a investigação não apura nada o investigado, com ou sem culpa, já está publicamente condenado, ninguém mais toca no assunto e o procurador já está em outra “missão”. Repito: quem escreve essas mal traçadas linhas não é alguém com rabo preso e com medo do MP; ao contrário, um admirador de promotores como Fábio Reis de Nazaré, que ontem colocou sonegadores chiques na cadeia.

BR-040, melhorias à vista, mas insuficientes!

Do engenheiro João Marcio Lignani Siqueira recebi este e-mail: “Há um mês foi assinado o contrato de privatização da BR-040, rodovia inaugurada em 1957 e que possui basicamente o mesmo traçado, com vários trevos em nível e curvas com raios pequenos, convidativas a acidentes. Atualmente, possui 21 quebra-molas no trecho entre Correia de Almeida (próximo a Barbacena) e o trevo para São João Del-Rei/Tiradentes. Assim, para evitar acidentes, mutilam a estrada, mas a engenharia permite outras soluções como vias marginais, passarelas, passagens subterrâneas, viadutos e mudança de traçado. Os usuários esperam que as melhorias anunciadas se traduzam em retificações de trechos perigosos, ampliação de raios de curvas, terceiras faixas de imediato nas proximidades do antigo Viaduto das Almas, dimensionamento do pavimento que permita durabilidade de sua regularidade e instalação de balanças, principalmente, onde circulam os caminhões de minério. Espera-se uma duplicação melhor do que a da Fernão Dias, onde curvas perigosas foram mantidas e são hoje causa de muitos acidentes. No curso de Engenharia, aprende-se que, ao projetar uma estrada, devem-se definir como premissa os pontos obrigatórios de passagem, proximidade de cidades, acessos etc, mas quando se vai melhorar e duplicar uma estrada, deve-se levar em conta o traçado já existente, atentando para pontos obrigatórios de não passagem, ou pontos de intervenção especial. No contrato firmado está previsto relevante melhoria, com a construção de novos contornos em Conselheiro Lafaiete e Santos Dumont, o que não era considerado no edital de concessão anterior. Além dos quebra-molas, existem inúmeros radares de baixa velocidade, chegando até a 30km/h. Ora, para uma rodovia federal de primeira classe, a maioria dos radares deveria ser de 110 ou 100km/h e todos esses pontos de quebra-molas e radares de baixa velocidade devem ser considerados como de intervenção especial.

O ideal seria termos uma nova BR-040, como foi feito entre o Rio de Janeiro e Juiz de Fora, e caso isso venha a acontecer, certamente seriam feitos novos traçados nas proximidades de Congonhas, Ressaquinha e Ewbank da Câmara – essa última, com radar de 30km/h. Entretanto, o contrato prevê a execução de melhorias não previstas inicialmente, mediante negociações para recomposição do equilíbrio econômico-financeiro. É uma esperança, se bem utilizada, de corrigir eventuais omissões no contrato recentemente firmado com a concessionária Invepar. Uma reivindicação importante é que os primeiros 55 quilômetros a serem duplicados sejam o trecho, reconhecidamente o pior da estrada, entre o trevo de Ouro Preto e Conselheiro Lafaiete, principalmente nos arredores de Congonhas. No momento, o Dnit está realizando um recapeamento simples, sem reforço estrutural, entre Ressaquinha e o trevo de Ouro Preto. Esperamos, se possível, que um dia tenhamos uma nova BR-040, ajustada ao século 21 e que venha a honrar o empreendedorismo e a ousadia do saudoso mineiro JK, que a ela empresta seu nome”.

Os torturados do pós-ditadura

Ainda sob o efeito das comemorações dos 50 anos do Golpe Militar, o país chora junto às vítimas da violência do Estado naqueles anos medonhos. Com indenizações e pensões, o governo federal já gastou mais de R$ 5 bilhões para reparar os erros dos fora da lei naquelas duas décadas de escuridão. O problema é que há outro tipo de tortura que é permanente e não chama a nossa atenção. Não mobiliza comissões de direitos humanos e grandes defensores dos animais. Um exemplo concreto é a recente decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou lei de 2007 do governo mineiro e deixou na lama perto de 100 mil famílias. Por enquanto, porque há outra leva de 30 mil servidores em ação que o STF ainda vai julgar. De repente, gente simples, de salário baixo, que dedicou a vida inteira ao serviço público, perdeu o chão. E seguimos como se não fosse conosco.

Tenho recebido inúmeras cartas, e-mails, telefonemas de gente desesperada. O mínimo que posso fazer é transmitir aqui o desabafo de Daniella Passos Benati, que, aqui, fala em nome dessas vítimas de uma tortura não física, mas, seguramente, mais violenta por liquidar com sonhos: “... Hoje, vivemos uma situação de total desamparo e incertezas. Perdemos a condição de efetivados, bem como nossos direitos de INSS e FGTS. Não pedimos para sermos efetivados por uma lei, sem concurso. Queríamos que o governo resolvesse nossa situação, muitos de nós ocupávamos cargos públicos há pelo menos dois anos. Fomos e somos alvos de brincadeiras e deboches, por parte de todos aqueles que não conhecem a verdadeira história. Pensam que nos apropriamos de um benefício pura e simplesmente por conveniência. Não é bem assim.

Em 2007, o governo não nos deu a opção de fazermos um concurso público. Anunciaram o que seria feito e pronto. Gostamos? Me digam, quem não gostaria de ser efetivado. Na mesma época, muitos foram os questionamentos, sobre a Lei 100, mas a resposta sempre era a mesma: estamos adequando nosso quadro de funcionários. Segundo Marco Aurélio Mello, que fez duros ataques à lei mineira e afirmou que: ‘ela fere escancaradamente a Constituição. Ou a Constituição Federal é observada ou não é. Aqui foi desrespeitada de forma abusiva, apostando na morosidade da Justiça, desrespeitou flagrantemente’, afirmou segundo publicação no dia 26 de março, às 17h21. Venho através desta, não pedir que todos sejam a favor da efetivação, mas que o governo brasileiro veja a situação a que fomos colocados. Que nossos direitos também sejam assegurados pelo STF, para que o Governo de Minas pague os nossos INSS e FGTS, sem que seja necessário mover uma ação contra o Estado. Que se cumpra o referido pagamento, a que nós servidores temos direito e já foi julgado pelo STJ. São 14 anos que dedico a minha vida ao magistério. Assim como eu, colegas de trabalho, com até mais tempo: 15, 20, 24 anos... Trabalhamos não só pelo nosso sustento, mas também por amor à nossa profissão”.

O dia da mentira não foi ontem?

Está aberta a temporada de promessas estapafúrdias e indignações falsas. O que importa é por o bloco na rua, ou, como disse um governador mineiro, amante indisfarçável do álcool, “feio, em eleição, é perder”. Algumas pérolas já machucam os nossos sentidos, como o senador Aécio Neves dizer que, eleito presidente, vai acabar com a farra dos menores infratores. Ou, para mostrar o outro lado, o ex-prefeito Pimentel prometer “prioridade absoluta para o combate à violência”, se eleito governador. De agora até outubro, vamos duplicar a BR-381, revitalizar o Anel Rodoviário, inaugurar linhas de metrô, inclusive o de verdade, debaixo da terra. Vamos acabar com a violência, melhorar a educação e garantir saúde para todos. O pior é que eles acham que nos enganam e nós fingimos que está tudo certo.

De todas as que chegaram aos meus ouvidos, pior é a manifestação que a Associação dos Municípios Mineradores faz, hoje, em Ouro Preto, exigindo a votação do marco regulatório da mineração. Como virou moda no Brasil colocar a culpa nos outros e transformar a vítima em algoz, querem por no colo da Dilma a culpa por não terem aprovado o projeto em 2013, o que resultou em prejuízo de R$ 4 bilhões aos cofres de Minas neste ano. É verdade que a presidenta retirou a urgência na votação do projeto, mas, alguém pode me garantir que foi uma decisão unilateral e de foro íntimo? É bom lembrar que dois mineiros ficaram com os principais postos da comissão criada para discutir o marco. O relator, Leonardo Quintão, repetiu várias vezes que a presidenta queria criminalizar as mineradoras e assim não era possível. Já o presidente, Gabriel Guimarães, declarou, ao jornal “Diário de Pernambuco”, no ano passado: “’Existe uma demanda dos municípios e estados para que o tema seja definido com rapidez, mas um projeto como esse não dá para ser votado com tantas brigas entre as partes interessadas”. Grande declaração! E, afinal, a solução?

Qualquer pessoa com mais de cinco anos de idade e o mínimo de informação sabe que a segunda bancada da Câmara Federal votaria, sim, o marco, se quisesse... De fato! Ou o governo não funciona com pressão? Todos nós sabemos que não há unidade entre nossos representantes; lá, em Brasília, funciona a “Lei do Murici – cada um por si” e, se necessário, vale tudo “para eu continuar aqui”. E todos nós sabemos que os nossos prefeitos, tão zelosos na hora de se indignar com a Dilma, são os mesmos que não se apegam a princípios republicanos na hora de “fechar” com um deputado. Ou seja, olham os interesses pessoais na hora de apoiar e depois cobram interesse do povo na ação do parlamentar... A propósito, convém dar uma espiada na declaração dos eleitos em outubro próximo para ver a relação de doadores... Fico doido pra saber se só as mineradoras lucram com mais um ano de menor imposto do mundo... Ah, e a manifestação devia ter sido ontem!

31 de março

Em 31 de março de 1964 eu tinha pouco mais de sete anos e, embora morasse há cerca de 30 quilômetros de Belo Horizonte, minha Inácia de Carvalho – então distrito de Vespasiano – era tão pequena, tão roceira que estudava numa escola rural. E, claro, não fazia a menor ideia do que acontecia na vida política do país. Aos nove, minha família veio para Belo Horizonte, aos 19 entrei na faculdade e continuava sem saber de nada, embora tenha sido office-boy e ascensorista de hotel e percorrido vários cargos em banco. Só depois de iniciar-me no jornalismo – em 1977, aos 21anos e ainda na universidade – é que comecei a perceber que havia algo errado, que muita gente estava sofrendo e que algumas palavras eram proibidas no rádio, como greve, Partido Comunista e Leonel Brizola.

Nos primeiros anos de repórter entrevistei ícones do poder da época, como Andreazza, Eliseu Resende, e cobri visitas de presidentes da República em Minas quando a gente não chegava a menos de 100 metros do general. Veio a redemocratização e lá estava eu, cobrindo greves, apanhando, tomando pedrada, pulsando, gostando do que via, tolerando alguns patrulheiros e conhecendo a verdadeira face de gente que se passava por santo, mas, na verdade, quando no poder, revelou-se muito pior dos que criticava a vida inteira. O melhor exemplo de decepção é o Partido dos Trabalhadores, que embalou sonhos durante décadas, mas, na prática, na hora de mostrar a cara, revelou-se igual a PMDB, DEM e tantos outros. As debandadas de Apolo Heringer, Sandra Starling, Heloísa Helena, Marina Silva e tantos outros são minha certidão de isenção partidária.

Infelizmente, embora esteja convencido de que nem todos os políticos são iguais e seja verdadeiramente fã de gente das mais diversas origens, como Patrus Ananias, Francelino Pereira, Darcy Ribeiro e Totó Teixeira, quando penso nas agremiações que os reúnem sinto a mesma sensação – de que querem é o poder. E fazem qualquer coisa por ele. Qualquer coisa mesmo.

Mas, na verdade, dei essa volta toda para dizer por que não endosso o coro dos que pedem a volta dos anos 60. E não é porque foi período da ditadura... Não entro no mérito nem se foi uma revolução ou um golpe militar, como sustentam os dois lados.

Não tenho saudades daqueles tempos porque eu estava vivo e não sabia de nada. Então, mesmo sofrendo com a violência, a corrupção, a desfaçatez e tantas outras tristezas dos dias de hoje, ainda considero melhor que o passado. É essencial o direito de saber. Então, vamos cobrar postura decente hoje, planejamento do amanhã, sem lamentar uma época em que mães eram separadas dos seus filhos, amigos não podiam se ver e gente verdadeiramente apaixonada pelo país era aniquilada. As histórias impressionantes de gente que conheci nos últimos 50 anos me fazem olhar para a frente.

Sabe com quem tá falando?

Se tivesse de escolher um escritor brasileiro, provavelmente seria o antropólogo Roberto DaMatta. E por apenas um de seus textos – o que tem o título acima. Em minha opinião, não há nenhuma outra frase que resuma tão bem a cultura brasileira quando se discute a falsa cordialidade e a diferença entre a nossa pose e o que realmente praticamos. Já o ouvi várias vezes descendo a detalhes de seu pensamento, assegurando tratar-se de um “rito de autoridade” e algo tão brasileiro como as confraternizações sociais. Uma verdade, que fica debaixo do tapete, para esconder preconceitos, mas, quando necessário, revela as hierarquias mascaradas pelo Carnaval, pelo futebol, pela praia.

É a negação da simpatia... Ou seja, na hora da verdade, um dos interlocutores trata de colocar o outro no seu “devido lugar”. Na é a hipótese do autor. O conflito é evitado porque os lugares sociais estão claros entre nós; há uma profunda hierarquia, na qual cada um sabe seu lugar... É clara, mas implícita, daí o constrangimento da frase. Melhor explicando ainda: a gente vive num ambiente de faz de contas, onde tudo é cordialidade, desde que cada um fique no seu quadrado. Se quiser reagir, reclamar, contestar, é logo avisado de que deve “baixar a bola”.

Passei o fim de semana pensando no texto, que integra a obra “Carnavais, malandros e heróis” porque algo registrado em Belo Horizonte na manhã de quinta-feira não teve a devida repercussão na mídia, embora da maior gravidade. Por volta de 8h30m, em meio a intenso movimento da rua Rio Grande do Sul, perto da Praça Raul Soares, um advogado, de 37 anos, bateu o carro em um táxi. A taxista desceu para discutir o acidente e levou um tapa no rosto. Apavorada, entrou no próprio veículo, trancou as portas e chamou a polícia.

A equipe encarregada da ocorrência teve muita dificuldade para conduzir o “doutor” ao Detran e, além de muitas agressões verbais, ele deu um chute nas pernas de um tenente da PM, diante das câmaras da TV Record. Não satisfeito, jogou beijos para o cinegrafista e gritou para quem quisesse ouvir que não iria acontecer nada, que era um “promotor” e tudo se resolveria. Um vexame no qual a gente só acredita porque vê a toda hora: são pessoas que cresceram protegidas pelos pais, tiveram tudo à mão, não conheceram insucessos e desejos proibidos e, de repente, adultas, com um diploma, um carro e cartão de visitas, se sentem vazias, como de fato são. Aí, bebem a noite inteira e, pela manhã, vão para as ruas, com suas máquinas mortíferas, equipadas com “airbag”, porque se tiver de morrer alguém que seja o outro.

Quando vejo exibições de má educação e arrogância assim fico imaginando os europeus chegando, estuprando as índias, matando seus maridos, trazendo os negros como galinhas nas gaiolas dos navios, escravizando-os, abusando de suas filhas... Só pode ser fruto de nossa história, só pode ser resultado de um começo errado de civilização!

Calçadas cheias dão maior sensação de segurança

Na semana passada, me assustei em três ocasiões com o que está acontecendo ao meu redor. Na tevê, vi um comerciante reclamar que, não satisfeito por assaltá-lo, o bandido avisou que voltará e, desde então, toda vez que ouve barulho de moto, entra em pânico; na academia, a fisioterapeuta contou de um assalto, no começo da noite, quando estava se dirigindo ao carro após o trabalho e da tristeza de saber que, doravante, jamais terá tranquilidade para andar numa rua movimentada da Savassi; na avenida do Contorno, em Lourdes, eu esperava no congestionamento com a janela do carro aberta e a simples passagem de um cidadão por entre os veículos me deu um baita susto. A conclusão é óbvia: estamos com medo do outro, do diferente. Qualquer pessoa, especialmente se for jovem, cabelos coloridos, de bermuda, boné e chinelo de dedo, tornou-se uma ameaça em potencial. Que situação! Aonde vamos parar?

Lembrei-me de um clássico, “Um mundo de estranhos”, texto de Jane Jacobs, americana que não era jornalista ou engenheira, mas, escritora e ativista política e fez história ao defender usos mais humanos nas cidades. Dizia, entre outras coisas, que “ uma calçada e uma rua interessantes formam uma cidade interessante e, se elas parecerem monótonas, a cidade parecerá monótona.

gregados às calçadas, estão os edifícios, os espaços públicos, que dão significado a ela e além destes, são as situações que se criam sobre ela que trazem suas referências e características. As calçadas se transformam em balés de pessoas, situações e atividades. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar, está sempre repleto de novas improvisações”. Em outro livro, “Morte e Vida de Grandes Cidades”, ela defende a dinâmica das ruas das metrópoles, sempre cheias de desconhecidos, ou seja, defende a alta densidade e ressalta que os urbanistas tinham que tê-la à vista, estudando o objetivo de fazer as pessoas se sentirem seguras diante dos desconhecidos, pois, quanto mais olhares uma rua recebe, mais segurança ela terá. Mesmo os bairros considerados tranquilos podem se tornar perigosos e não é um guarda municipal que muda as ocorrências na rua.”

É incrível como esta senhora, já falecida, falou e escreveu, em 1950, e a partir de estudos em cidades americanas, o que estamos vivendo hoje. Melhor, sofrendo na carne. Ela insistia que, se as calçadas estão cheias, a gente tem mais sensação subjetiva de segurança, pelo simples fato de saber que outros também estão na mesma situação. Claro que é isso. Ou não é assim, por exemplo, no interior do Mercado Central? Mas, para nossa tristeza, graças à indiferença dos governos, a crescente impressão da impunidade e a impotência das forças de segurança, estamos nos sentindo abandonados e, mais que isso, com medo da multidão. Com medo de gente. Como nós.