minas gerais

Quem aguenta?

Um professor da rede estadual me procurou nesta terça-feira (19) para contar uma história. Vou tentar ser fiel ao relato dele, repassando-a a vocês. Em maio, um sargento da Polícia Militar foi procurado por uma mãe aflita, contando que o filho, de 16 anos, estuda no Instituto de Educação. Por mais incrível que possa parecer, o filho teve o celular roubado dentro do colégio e por um ex-aluno da instituição. E mais: o assaltante ameaçou:

“Se você me denunciar, volto e te pego porque, você sabe, continuarei na área”. A mãe também contou ao policial que conhecia o ladrão, que sempre o via na porta da escola, aterrorizando alunos, professores e funcionários. O PM procurou o diretor e este confirmou tudo. Então, mesmo tendo obrigações de policiamento ostensivo, o sargento decidiu dedicar atenção especial ao caso, pois, afinal, o Centro é sua área de atuação e aquele fato era demais para ele e para qualquer um de nós.

O PM fez pesquisas e descobriu diversas ocorrências de roubo, furtos e drogas envolvendo sempre o mesmo rapaz. Entrou no site do Tribunal de Justiça e lá estava uma condenação contra o mesmo bandido, mas, nesta havia a ressalva de ele poder responder em liberdade. O policial pediu uma ocorrência à mãe, para formalizar a queixa, e começou o monitorar o ladrão, conseguindo prendê-lo rapidamente, até porque o rapaz confirmou ter tomado o celular, prontamente revendido para um receptador, na Praça 7, que, como era de se esperar, negou tudo. Não restava alternativa ao sargento senão liberar o bandido. Mas, profissional, decidiu fazer nova ocorrência e orientou a mãe para procurar a delegacia. Ela fez isso, falou com o delegado; este – outro bom servidor da segurança – repetiu as pesquisas, constatou a reincidência, não apenas de furtos como também roubo, ameaças e importunação. O delegado foi além, conseguiu mandado e mandou prender o rapaz. Na última segunda-feira, dia 18, um juiz mandou liberar o acusado, por meio de um habeas corpus.

O professor me pergunta por meio de e-mail: “Onde vamos parar?” E eu respondo com outra pergunta: Quem poderá nos salvar se “Chapolim Colorado” só existe na TV?

É o fim do mundo. O cidadão é preso por uma serie de crimes, ganha o direito de continuar em liberdade, vai para a porta de um tradicional colégio assaltar todo mundo durante o dia e, de novo, a Justiça diz que ele deve continuar por aí, ameaçando quem quiser. Quem protege o garoto roubado, quem sossega a mãe dele, quem garante a integridade do mestre e quem devolve o ânimo ao sargento? Que hora da escuridão é essa que estamos vivendo?

Apertem o cinto, o piloto sumiu! Ou melhor, os que deviam nos pilotar estão em campanha, estão sempre em campanha, e nós, merecedores dos governantes que temos, tratemos de rezar para que os ladrões escolham outra escola e outros jovens que não os nossos, porque, na era do egoísmo, se a casa do vizinho está pegando fogo, a gente prepara água para permitir que as chamas cheguem até a nossa!

A hora do espanto!

Prepare o seu coração. Eles estão chegando. Melhor, voltando. A partir de amanhã, nos horários mais nobres do rádio e da TV, estarão no seu ouvido ou nos seus olhos, pedindo votos. É o preço da democracia. Os que fazem as leis são os interessados, nossos impostos bancam a festa... O jeito é aguentar. Ou desligar.

Famosos, com seus respectivos estados, que vão pedir voto: o cirurgião Doutor Hollywood (SP), o ator pornô Kid Bengala (SP), Washington coração valente do Fluminense (RJ), ex-jogador Marcelinho Carioca (SP), ex-BBB Diego Alemão (RJ), ex-BBB Kleber Bambam (SP), ex-BBB Cida (RJ), ex-BBB Fael Cordeiro (MS), o sertanejo José Rico (GO), o funkeiro Mc Doca (RJ), a cantora Sula Miranda (SP), o cantor Sérgio Reis (SP), o cantor Elymar Santos (RJ), o humorista Marquito (RJ), e o ceguinho Geraldo Magela (MG).

Tem também a galeria dos (quase) inacreditáveis, como Elvis Presley, Tiché Michael Jackson, o homem da jumenta teimosa, Pinto Louco, Batman Capixaba, Barack Obama do Bairro, Gretchen Cover, Sósia Presidente Figueiredo, Iraci Sabóia mulher do Iogurte, Neymar Cover, Mulher Bambu, Zuleica Guerreira, Professor Moisés Homem Aranha, Lair mulher de Luta, Mulher Maravilha, Hilda da maçã do amor, Roxinho da Teló, Doutora Pilchulinha, Ana Claudia Madrinheira, Terapeuta do Jaleco Rosa, Tetéo da PPL, Clara Transparente, Teu, Élcio Toloba, Zói, Homem Pimenta, Delegata, Hércules Cristo Cigano, Hot Hot do Amendoim, João Rasgado, Tatacar, Evaristo Cobrinha, Lélio Palanque, Barrãozinho, Marcos Vinícius Favelado, Big Mix e Piu Piu.

Tem até um Eduardo Costa. O site dele é eduardo.lobão, mas, na cédula, pediu “Costa”.

Que Papai do céu nos proteja. E que tenhamos a responsabilidade de ouvir, refletir e votar bem em outubro. Estou convencido – e já disse inúmeras vezes neste minifúndio – que só uma Assembleia Constituinte Exclusiva pode realmente mudar o Brasil. Pessoas que se comprometam a não disputar as eleições em seguida, ou seja, desprovidas de interesses pessoais e partidários, seriam eleitas para fazer as reformas, começando, claro, pela mais urgente e importante que é a política. Acabar com essa farra de eleições ano sim ano não; eleições gerais de cinco em cinco anos; mecanismos mais eficientes de cassar mandatos dos safados, acabar com os partidos de aluguel, que só existem para vender seu tempo de propaganda aos poderosos; acabar com as verbas fisiológicas chamadas de emendas individuais e mais, muito mais.

Enquanto isto não acontecer, a gente já pode prever o resultado: no máximo 30 por cento das Assembleias e do Congresso Nacional serão renovados. Os espertalhões ficam, ficam, passam para filho, genro, neto... E a gente lá, ouvido no rádio, olho na TV, diante dos esquisitos sonhadores. Eles não sabem que são apenas figurantes; só os profissionais vencem.

Tristes horizontes

Sou daqueles que amam verdadeiramente a cidade onde vivem. Os que amam correm o risco de se tornarem ciumentos, exigentes demais, possessivos. Tudo bem. Podem me chamar também de chato. Mas, não me conformo como estamos levando a vida na capital dos mineiros: Belo Horizonte está abandonada. Não é culpa só do prefeito. É de nós todos. Não podemos fingir que não estamos vendo. Esqueçamos a violência, a saúde e a educação, temas sofridos de todo dia. Vamos espiar em volta, ver a depredação incessante, os ladrões furtando agora até flores plantadas em raras jardineiras de prédios na Savassi... Ladrões?

Ou usuários de drogas, moradores de rua, gente tipo zumbi, que atravessa nosso caminho e a gente não vê, não cuida, quer longe, mas, não aparece quem acode? E esses mortos-vivos, dentro da lei natural de causa e efeito, viram nosso tormento, fazendo sexo, xixi e cocô na nossa porta, eventualmente nos atacando, infernizando, sem que alguém faça algo?

E o trânsito? O cidadão Eliú Neres enviou-me a foto ao lado, clicada na Bernardo Guimarães entre Alagoas e Brasil – demonstração clara de cidadão que não vê problemas em parar na fila dupla:

O mesmo cidadão mandou outra foto, esta da Francisco Sales com Alfredo Balena, onde as árvores invadem a rua, ameaçam cair, atrapalham uma melhor visão do semáforo e gente fica esperando o pior quando ventar mais forte. Vejamos:

Tem mais, muito mais. A Serra Rola Moça se queimando todo ano, os relógios digitais longe da cidade, a proibição de se passear na Serra do Curral, as calçadas... A gente precisa iniciar uma grande campanha de amor por Belô. Alguma coisa tem de acontecer. A cidade é nossa.

O martírio dos inocentes

Dois fatos fizeram o Brasil estremecer recentemente, em razão da maldade (ou seria loucura?) de uma mãe e da irresponsabilidade (ou seria distração?) de um pai. Ela, em Minas, se irritou com o fato de o filho mexer no celular e o jogou contra a parede, matando-o e, em seguida, escondeu o corpo dentro de um sofá. Ele permitiu que o filho brincasse com um tigre até perder o braço. São, de fato, ocorrências chocantes, mas, convenhamos apenas duas a mais no rol de absurdos que a polícia registra todos os dias. Alguns casos são comoventes, como o daquele menininho que, após a capotagem do carro do pai, perambulava pela rodovia, até ser resgatado.

O que aconteceu com outro menino, de 4 anos, entre a noite de segunda-feira e a manhã dessa terça-feira (12), é retrato de uma realidade que mistura miséria e abandono, pobreza e falta de juízo. A criança estava sentada em um ponto de ônibus, às margens de rodovia de alta velocidade, a Linha Verde, descalço, faminto, vestindo apenas uma camisa do Atlético e todo sujo de fezes. Também não conseguia explicar o que estava fazendo em lugar tão ermo, às 3h30 da madrugada. Um taxista o levou para um posto policial, onde lhe deram banho, acolhimento e já se preparavam para enviá-lo a um Conselho Tutelar quando apareceu o pai, de 27 anos, dizendo mora numa casa sem porta e, provavelmente por conta disso, o menino saiu altas horas, sem que pudesse fazer nada porque estava dormindo. O genitor também acha que o inocente queria ir para a casa da mãe, pois, hoje, o pai mora com outra mulher com a qual tem outros sete filhos... E, mais, que esta mulher tem outros seis filhos de um relacionamento anterior...

Considerando as informações iniciais, sinceramente me pergunto o que é pior para uma criança de quatro anos: a rodovia feroz e fria na madrugada ou um ambiente familiar dessa natureza. E pergunto aos que defendem mais armas, mais repressão e pena de morte para quem comete crimes se esse menininho não é mais um brasileiro que empurramos suavemente, por ação e omissão, para o mundo dos infortunados que, em consequência, dentro das leis de ação e reação, mais e mais tiram a nossa paz.

Na mesma folha de jornal que li a história do menino fujão da rodovia, nessa terça-feira, havia mais quatro notícias envolvendo inocentes: uma mulher presa em Uberlândia depois de abandonar filhos de sete e de dois anos sozinhos em casa; bebê morreu queimado na casa em que morava com a mãe em Esmeraldas; mãe abandona filha doente para beber e criança é atacada por formigas, e, recém-nascido é abandonado em Búzios.

Meu Deus, qual é o nosso futuro, com as famílias destroçadas, os serviços públicos de assistência social fingindo atendimento e o tecido social esgarçado, perto da ruptura por total falta de convivência humana entre os que o compõem? Anjo da Guarda, proteja nossas criancinhas!

O mundo é bola

O exemplo perfeito da insensatez humana é um vírus chamado Ebola e que já matou, só na mais recente epidemia, 887 pessoas no oeste da África. Os sintomas iniciais lembram outras moléstias como a dengue, incluindo febre, fraqueza extrema, dores musculares, dor de garganta, e, na medida em que a doença avança, vômitos, diarreias e hemorragias interna e externa. Humanos contraem a doença no contato com animais, como chimpanzés e morcegos e, entre nós, por meio de sangue contaminado ou simples contato com ambiente contaminado... Até nos funerais de vítimas do Ebola há riscos, se outras pessoas tiverem contato com o corpo do defunto. O período de incubação é de dois a vinte dias, o diagnóstico difícil e, para curar, pode-se levar até dois meses. Especialistas dizem que o surto de agora é sem precedentes e alertam que, embora os casos tenham sido concentrados na África, já houve um registro nas Filipinas.

O que me pergunto é: quando o planeta vai se mobilizar para evitar que tenhamos uma tragédia daquelas que só conhecemos pelos livros, como a Gripe Espanhola, que matou tanta gente que nunca tivemos um número real, mas, estima-se, algo entre 40 e 50 milhões de pessoas? Você já ouviu aquela sentença de que só aprendemos as coisas através de dois sentimentos – o amor ou a dor? Será que vamos ter de esperar o caos no mundo para dar uma resposta à altura?

Penso que sim. Infelizmente. Na última sexta-feira, ouvia o rádio quando três comentaristas opinaram a respeito do Ebola e deixaram claro como o nosso mundo é complicado. O produtor cultural comparou o surto a um filme de ficção científica, tamanho o absurdo de sua ocorrência, especialmente no século XXI; a filósofa lembrou que ele é resultado de um mundo desigual, onde muitos não têm as mínimas condições de saúde pública, saneamento básico e que os países desenvolvidos deveriam ajudar a tornar o planeta um lugar mais compatível com a civilização. Por fim, o escritor opinou, com o discurso próprio de quem, provavelmente, foi criado na riqueza, locupletou-se a vida inteira das benesses do conforto e acha uma solução mais simples para tudo. Para o Ebola, elaborou um discurso comprido, complicado com a frase mais importante no final: “Se não fizerem uma barreira em portos e aeroportos, a situação vai ficar muito ruim”. Ou seja, na cabeça dele – e da maioria esmagadora dos que habitam o mundo dos ricos – urgente é segregar a doença no continente dos negros e pobres e tocar a rotina.

Impressionante como nos grandes e nos mais banais temas de nosso dia a dia a gente ainda encontra a tal elite branca, só preocupada com o próprio umbigo. Se a violência aumenta no Brasil, vão jogar tênis em Miami; se o Ebola mata na África, esquecem o safári e vão curtir o frio do Canadá... Na falta do espírito de solidariedade, é bom lembrar aos poderosos que um pouco de ação, agora, pode evitar o pior, depois. Quando da Gripe Espanhola, até presidente do Brasil morreu.

Lições de Leon e família

Minhas atenções continuam voltadas para o Jardim Zoológico de Belo Horizonte. Não tenho pressa de conhecer o sexo do primeiro filho de Leon e Lou Lou. Mexe comigo a calma com que a família administra um momento de extremas mudanças. A direção do Zoo já admite liberar a visitação pública brevemente. Entre nós, os humanos, a chegada do primogênito envolve uma parafernália que começa com festas, continua com enjoos, desejos, vira viagem a Miami para compra de enxoval, chega à maternidade e muda a rotina de todos. A família gorila só mudou no essencial: agora, mamãe Lou Lou tem companhia obrigatória enquanto papai Leon faz a guarda e Imbi espera sua vez. Nos obrigam a lembrar de pessoas como Francisco Stheling, para quem um assessor de imprensa “deve estender pontes; nunca levantar muros”. De uma forma geral, como complicamos o simples...

Fiquei sabendo, pelo Luiz Marins, que a revista inglesa “The Economist” publicou recentemente artigo sobre como a complexidade, a burocracia excessiva e a perda de tempo com reuniões, e-mails etc. estão prejudicando pessoas e empresas. Como perdemos tempo com reuniões que não resolvem nada, e-mails que não acrescentam, enfim, entulhos que só roubam tempo e paciência preciosos. Fosse eu o executivo de uma grande empresa e encerraria 90% das reuniões com cinco minutos. Como não sou poderoso, já coloquei meu celular no devido lugar – o da urgência –, resisto a formas de ficar anunciando que extrai um dente, comprei carro novo ou fiz xixi. Aprecio a família gorila e guardo com carinho texto de Rubem Alves, recém-falecido:

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas. Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa... Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!

Para Lou Lou e seu neném

Imagine um daqueles dias em que a gente precisa escrever. Mas, olha para todos os lados e só vê notícia ruim. Quer falar de algo animador, dotado de esperança, amor, fé... De repente, a notícia: “Nasceu no zoo de Belo Horizonte o primeiro filhote de gorila em cativeiro da América do Sul”. E seguem-se outras informações, além de um filme onde se vê o amor de mãe, sem medidas, sem limites... O agarramento é tão grande que só daqui a alguns dias saberemos o sexo. O pai, Leon, por perto, observando, como que garantindo a paz no lar e, orgulhoso, claro. Melhorou meu astral, salvou meu dia. Então, fui à internet achar uma mensagem bonita sobre o amor intangível. Encontrei o texto de Martha Medeiros – cujo título é “Perguntas” – com o qual gostaria de agradecer a Lou Lou por ter tornado meu dia melhor. Afinal, só o carinho de uma boa mamãe em seu bebê e boa dose de filosofia pode nos livrar da depressão pós-moderna:

“Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito? Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém...Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali? Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado? Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV... E você gelou porque o bom daquele momento já passou... E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue? Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso? E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo? Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa? Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou? Para essas perguntas existem muitas respostas...

Mas o importante sobre elas não é a resposta em si...Mas, sim, o sentimento...

Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal...Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra... Então, qual a moral disso tudo? Nem tudo sai como planejamos, portanto, uma coisa é certa... Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje! Não deite com mágoas no coração. Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz! E comece com você mesmo!!!”

Mistura explosiva

Um trabalho da pesquisadora Elisângela Jaqueline Magalhães, realizado no Departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com o Instituto de Criminalística do Estado, resultou em artigo para revista científica de circulação internacional e em tese de doutorado, mas, infelizmente, não teve a repercussão que deveria ter entre nós.

Para quem teme o caráter destrutivo do crack, por ser uma droga resultante de misturas explosivas, o estudo revela algo igualmente grave: a cocaína vendida em Minas Gerais tem até 40% de cafeína - substância de ação estimulante, e elevado teor de lidocaína, com função anestésica. A droga fica ainda mais agradável para os usuários, que correm mais riscos com diluentes, como sulfato e carbonato de cálcio e cloreto e bicarbonato de sódio, para aumentar o lucro dos traficantes.

Aqueles que não acompanham o noticiário policial com frequência talvez não saibam de reações absolutamente inumanas que são registradas pela polícia no dia-a-dia. É o usuário que ameaça matar toda a família, o casal drogado que assalta o taxista, toma o dinheiro e o agride com golpes de machadinha ou o rapaz usuário que, de repente, saltou de uma cadeira de rodas e passou a agredir os funcionários de um hospital no Sul de Minas, em quadro de fúria incontrolável. São situações de descontrole altamente perigosas para terceiros e para a própria pessoa. A pergunta é: por que a polícia não fala mais com a universidade, e os professores e pesquisadores não conversam mais com agentes e patrulheiros para que todos tenham melhor compreensão do momento. Depois do trabalho na Química da UFMG a coordenadora da pesquisa, professora Clésia Nascentes, disse que agora é possível conhecer melhor a droga de rua. Então, por que ela não é levada aos batalhões da PM para falar aos policiais que só enfrentam as consequências e, na maioria das vezes, não sabem avaliar o tamanho da encrenca em que estão se metendo exatamente por não conhecer o teor da substância usada pelo cidadão a ser abordado.

O trabalho parece sensacional, até porque as amostras, colocadas à disposição pelo Instituto de Criminalística, foram coletadas em Minas e no Amazonas, resultando em uma constatação aparentemente óbvia, mas, sem dúvida, interessantíssima: a droga oferecida aos mineiros tem um grau de pureza que varia de 6 a 75%, ou seja, pode ser de boa qualidade ou mistura fatal, enquanto a do Norte do país é mais pura – por um motivo simples: lá, estão mais perto dos países produtores, enquanto a cocaína vendida em Minas pode ter passado por vários traficantes intermediários. E repare na gravidade de uma afirmação lógica da professora Clésia ao ver aumentado o risco do usuário: “Como a composição é extremamente variada, a pessoa, caso compre de fornecedores diferentes, às vezes é surpreendida por uma cocaína mais pura, o que pode ocasionar um quadro de overdose, pois ela não estava acostumada com aquela alta concentração”.

Só uma pergunta: já pensaram o que vão encontrar quando pesquisarem a qualidade do crack?

Bakunin, a bola da vez!

É de assustar o quanto tergiversamos no Brasil. De repente, do nada a gente deixa o que é essencial de lado para tratar da perfumaria. Dos líderes políticos aos técnicos de futebol, o que importa é se safar e, se for preciso, que se mude o rumo da prosa para, no mínimo, ganhar tempo e arranjar uma boa explicação. Nesta semana, vi dois exemplos de arrepiar. O primeiro, no interior de Minas: um policial matou o amante de sua mulher e, quando o apresentou na delegacia, o advogado disse estar tranquilo porque o cliente tem atenuantes no Código Penal, como “legítima defesa”. Ora, essa só não é pior que o projeto de lei que quer criar uma nova profissão para formados em direito que não conseguirem passar na prova da OAB.

Mas, repercussão nacional quem ganhou foi a professora Camila Jourdan que, ao responder à acusação de promover protestos violentos no Rio, disse que a polícia era tão incompetente que estava atrás de um russo que já morreu há mais de 100 anos. É que o nome de Mikahil Bakunin foi citado por líderes das manifestações em conversa gravada pela polícia e estaria no inquérito, como suspeito.

A polícia já negou, mas o assunto rendeu tanto que fui reler algumas coisas sobre Bakunin. Quero dividir com os amigos, pois, afinal, ele era um anarquista e isto, hoje, no mundo, suscita reflexões. Ele nasceu em 1814 e, ainda jovem, desertou do exército russo, perambulou por Moscou e Berlim, aprofundou-se na filosofia alemã e no pensamento hegeliano, começou a escrever material revolucionário e, então, na metade do século XIX, foi preso. Daí em diante, dedicou-se a atividades revolucionárias e por elas lutou até o fim da vida, em 1876, na Suíça. E morreu convencido de que o homem privilegiado tem o intelecto e o coração corrompidos, tende a liderar instituições estatais, as torna corruptas e as massas se tornam escravizadas; assim, para sermos livres e plenos, toda autoridade deve ser rejeitada. Até a divina. Dizia ele: “A ideia de Deus implica abrirmos mão da razão e da justiça humana”.

Talvez por ser um dos teóricos do anarquismo, Bakunin esteja na moda no Brasil, embora alguns estudiosos lembrem que a ideologia não é sinônimo de baderna, desorganização e destruição, mas, sim, uma doutrina de esquerda, socialista, essencial na história das lutas sociais dos últimos 150 anos. Uma coisa ninguém pode negar: o homem previa o que poderia acontecer em países latinos no começo do século XXI. Veja só uma de suas reflexões:

“Assim, para qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Essa minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, os antigos operários, mas que, com certeza, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmo e a suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.

A próxima tragédia de BH

Ainda estamos cabisbaixos pela queda do viaduto e outra ocorrência grave está prestes a ser escrita, com prejuízos para os mais pobres. A Santa Casa examina a possibilidade de fechar sua maternidade, a Hilda Brandão, já no mês de setembro, por falta de recursos. Pode ser o fim de uma casa de 98 anos que atende, na esmagadora maioria de seus 350 partos mensais, os casos mais complicados, que exigem profissionais qualificados para preservar bebês e mamães. Guilherme Riccio, superintendente de assistência à saúde da Santa Casa, admite a possibilidade de fechamento sob o argumento de que as dívidas já superam R$ 500 milhões e a instituição não pode continuar acumulando prejuízos. No caso da Hilda Brandão, há um déficit mensal da ordem de R$ 900 mil, sendo que a própria Prefeitura da capital já admitiu que o custeio mensal devesse sofrer uma injeção de R$ 1,3 milhão ao mês, para adequação de recursos humanos e cumprir determinações da Vigilância Sanitária. Aliás, é a vigilância que exige investimentos imediatos de R$ 3 milhões e procedimentos que acrescentariam R$ 400 mil aos gastos mensais com a maternidade.

Ainda impactado pelas recentes notícias de fechamento do Pronto Atendimento da Santa Casa de São Paulo, fiquei embasbacado quando soube da possibilidade de fechamento da Hilda Brandão. Então, pensando nos campos da Copa, em centros administrativos e outros luxos, lembrei-me da carta de despedida que o Imperador Vespasiano deixou para seu filho Tito, aconselhando-o a construir o Coliseu de Roma e indagando onde o povo prefere pousar o “seu clunis (sua bunda): numa privada, num banco escolar ou num estádio”. A carta:

“Tito, meu filho, estou morrendo. Logo eu serei pó e tu, imperador. Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa, afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas. De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis : numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro. Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por omnia saecula saeculorum (por todos os séculos) e sempre que o olharem dirão: ‘Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’. Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão. Moralistas e loucos dirão que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas. Vel caeco appareat (Até um cego vê isso). Portanto, deves construir esse estádio em Roma. Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase: Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo). Esperarei por ti ao lado de Júpiter”.