minas gerais

A esmola não ajuda

A Prefeitura de Belo Horizonte realiza hoje uma ação na Savassi pedindo às pessoas que frequentam bares e restaurantes para não remunerar o trabalho infantil, não dar esmolas ou comida para crianças ou adolescentes que estão nas ruas e na noite da capital. A campanha pretende conscientizar a sociedade sobre os malefícios desse tipo de exploração e informar que, além de representar uma contravenção, essa prática coloca crianças numa situação de risco social e pessoal.

Para os que, como eu, nasceram na roça, cresceram admirando os vicentinos e se acostumaram a uma resposta sempre positiva dos pais diante do pedido “dá uma esmolinha aí”, é difícil concordar com a postura defendida por assistentes sociais e outros profissionais que trabalham para evitar a exploração infantil. Mas sabemos que, por trás daquela criança que pede um trocado no sinal, há quase sempre um marmanjo escondido na esquina esperando o dinheiro.

Lamentavelmente, precisamos dizer que algumas mães se especializam no ato de levar os filhos para os sinais luminosos e o castigo é imediato, no meio da rua mesmo, para os que não faturam o esperado. Além disso, a criança na rua é alvo fácil para todos os tipos de exploração, sobretudo a sexual. Então, cumpre a cada um de nós apoiar as autoridades até porque elas serão sempre responsabilizadas pelo atendimento a crianças, adolescentes e adultos em situação de risco. Então, ficamos combinados: não comprar doces, balas ou qualquer outro produto nas mãos de criança e adolescentes; não permitir que a criança tome conta do seu carro estacionado nas ruas; não dar esmolas, seja em dinheiro ou pagando refeições e guloseimas para crianças e adolescentes nas ruas; não determinar que filhos mais velhos, ainda crianças, cuidem dos irmãos menores e defender, com todas as forças, que criança tem de estudar e brincar. E só.

É humano, dá futuro e é respeito ao artigo 7º da Constituição Federal que proíbe trabalho infantil em qualquer hora ou lugar. Se puder, passe lá, na Savassi, as 11h30m. Ou fale sobre o assunto em casa, no trabalho, no bar. Chega de barbaridades contra os inocentes.

Abandonados

Permitam-me contar uma pequena história. Fernando Pimentel era prefeito de Belo Horizonte e sofria com o grande número de camelôs na área central, depois que seu antecessor, Célio de Castro, tentou e não deu conta de resolver o problema – aumentado na gestão Patrus Ananias que foi o padrinho de Célio e Pimentel. O ambiente do comércio clandestino criava o clima favorável aos bandidos que, infiltrados, faziam a festa. Um dia, o meu patrão Emanuel Carneiro chegou ao trabalho indignado e me pediu que fizesse alguma coisa. Fui ao então presidente da Associação Comercial de Minas, Eduardo Bernis, e, juntos, procuramos o então procurador-geral do Município, Marco Antônio Teixeira. Disse a eles que eu sabia por onde começar.

Autorizaram. Então, procurei o deputado Célio Moreira e pedi a ele que retirasse uma ação que tinha na Justiça contra a aprovação do Código de Posturas (é que, quando da aprovação da matéria, na Câmara, ele se sentiu humilhado por representantes da PBH e não se conformava). Célio topou ceder. Fomos ao fórum, atendemos à burocracia, e o prefeito pôde então criar os shoppings populares. A cidade mudou, finalmente, e para melhor... Ou alguém não se lembra daqueles tempos daqueles infernais trombadinhas?

Para que serve a historinha? Para lembrar que, embora o prefeito Pimentel tenha faturado politicamente, foi necessário o repórter ir além da notícia, virar personagem, pra resolver. Acho que vou ter de fazer a mesma coisa em relação ao abandono de veículos e carcaças pelas ruas de Belo Horizonte. Cobra-se uma providência há décadas e ninguém faz nada.

Uma iniciativa que tentava autorizar a prefeitura a recolher foi tornada sem efeito por uma senhora desembargadora que, à luz da lei, não admite que o “Legislativo crie despesas para o Executivo”. E o problema? Já sei o que vou fazer: convencer um vereador a descobrir uma brecha no Código de Posturas da cidade e dizer que, se eu não posso por entulho no passeio, o vizinho também não pode parar um carro velho e deixar lá, abrigando bandidos, mosquitos da dengue e outros incômodos. Para que um juiz sem alma não diga que está criando despesas indevidas para o Executivo, vamos sugerir no projeto que a prefeitura pode leiloar o bem e fazer caixa.

Estamos numa cidade tão sem inspiração, tão indiferente às mazelas do dia a dia que o repórter vai ter de virar despachante. Ah vou... Não aguento tanto imobilismo, tanta incompetência!

Falta médico ou política séria?

Em meio ao tiroteio no qual se transformou a polêmica sobre a importação de médicos para trabalhar nas áreas mais remotas do país, não abro mão de também dar um palpite. Falo como quem acompanha a certa distância a administração pública há 35 anos, nunca se inteirando de forma pormenorizada, mas sempre entrevistando autoridades, ouvindo promessas e colhendo queixas, decepções da população e dos profissionais de saúde.

Amigos, qualquer um de nós que for a um posto de saúde de Neves ou Santa Luzia – reparem que não estou falando do Norte ou Jequitinhonha – tende a concordar de imediato que o governo precisa fazer algo. Quando se vê mães desesperadas com os filhos no colo, idosos gemendo em macas e funcionários aparentemente descompromissados (às vezes, são mesmo: em certas situações, estão exauridos), não há outro remédio senão pedir socorro, ainda que seja algo mais ousado. Vem o ministro da Saúde e fala com convicção que a solução é buscar profissionais no exterior. Nossa primeira reação é a de concordância, até porque nos nossos 513 anos nunca fechamos as portas para os irmãos de qualquer parte do mundo. Hoje, temos japoneses comandando siderúrgicas e produzindo flores, chineses na extração de minério e nos shoppings populares, libaneses, sírios, portugueses, alemães... Até argentinos brilhando no futebol.

O problema não é a proposta, mas a forma como o governo federal quer resolver o problema. Ignorando que brasileiro nunca teve vida fácil lá fora, nosso governo quer simplesmente convidar os profissionais, sem a exigência do “revalida”, o exame que os irmãos brasileiros fazem se quiserem trabalhar aqui, depois de se formarem no exterior. É ou não é demais? Assim, o governo federal repete a ação de prefeitos municipais que são irresponsáveis, não dão a menor condição para os médicos atuarem e fazem contratos que depois não cumprem. Na verdade, se está tão difícil encontrar um médico nas pequenas cidades, boa parte do problema se deve à desconfiança dos profissionais: se vão receber o combinado e terão pelo menos uma sala decente para trabalhar. Portanto, do prefeito ao ministro, passando pelo governador, o deputado e o senador, o que a gente precisa é levar a saúde a sério... Mas como, se temos eleições de dois em dois anos e eles, os políticos, que comandam, só pensam naquilo?

A cidade sem solução

Mais e mais Belo Horizonte vai se transformando em uma cidade sem solução para os problemas que afligem os moradores. Ou alguém pensa diferente quando o assunto é saúde ou segurança pública? Existe algum cidadão satisfeito com o atendimento que tem nos postos, sejam eles da prefeitura, do Estado ou de hospitais particulares mantidos por planos caros?

Outro assunto sem saída é a questão dos moradores de rua. Eles existem, em princípio são invisíveis – porque não queremos problema com gente que não pode nos ser útil –, depois viram incômodo, às vezes transtorno gigantesco e, aí, na hora de pedir socorro, o cidadão descobre que está só.

Na última sexta-feira, o Conselho do Hipercentro da Câmara de Dirigentes Lojistas da capital chamou comerciantes para uma conversa com representantes do poder público. De bom, mesmo, só o café com suco e pão de queijo. O resto foi previsível: o coordenador do conselho disse que os lojistas não aguentam mais. Fora o desconforto com eles ali, na frente da loja, o tempo todo, há um drama de todas as manhãs quando, antes de abrir as portas, têm que lavar passeios onde os ocupantes fizeram xixi e coco.

Para Jonísio Lustosa, a situação é de total desrespeito aos que pagam impostos e precisam trabalhar ou entrar em casa. Jefferson Rios, da Associação de Moradores de Lourdes, e Carlos Eduardo Queirós, representante dos síndicos, pediram providências urgentes.

O comandante do batalhão responsável pela área central, coronel Uelton Baião, disse que a situação é realmente grave e deu um exemplo: “Na operação que fizemos semana passada, na Praça Hugo Werneck, apreendemos sete menores e prendemos sete adultos, dois deles com facas, evidenciando-se que os meninos assaltam, tomam objetos das pessoas e, imediatamente, os trocam por droga, até porque pegamos um sujeito com mandado de prisão em aberto por tráfico”.

O coronel lembra também que a maioria dos 23 homicídios registrados na área central no ano passado foi cometida por moradores de rua e contra moradores de rua.

Mas, lembra, sozinha a PM não dá conta. No lugar da secretária, a prefeitura mandou uma assessora que repetiu o discurso de que não pode retirar à força os moradores, que o município tem políticas de qualificação profissional e elevação do nível de estudos, etc. Resultado? Nenhum.

Somos iguais perante a lei?

Todos os dias, pelos mais diversos motivos, lamento a nossa falta de compromisso no cumprimento das leis, mas principalmente sinto-me perturbado pelo artigo 5º da Constituição Federal de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”

Beira a indecência a gente ter essa afirmação entre os princípios fundamentais e tolerar as diferenças diariamente estampadas na nossa cara. Quem quiser um exemplo pode dar um pulo na nossa Assembleia Legislativa e comparar a diferença de sonhos e reivindicações entre pessoas que estão debaixo do mesmo guarda-chuva – o serviço público.

Vejamos o caso da profissão de jornalista. Dependendo de onde ele trabalha, é o tamanho do salário. Não faz muito tempo, foi divulgado  que uma assessora do Ministério Público ganha mais de R$ 34 mil por mês. Por outro lado, nos últimos dias, dez dos 37 jornalistas da Imprensa Oficial estão fazendo vigília na Assembleia para tentar emplacar uma emenda ao projeto que o governo mandou para ajustar carreiras. Sabe o que eles querem? Que os jornalistas encarregados de redigir o Diário Oficial do Estado possam trabalhar 40 horas por semana e não as 30 atuais. Se conseguirem, a partir do ano que vem, vão ganhar não apenas pouco mais de R$ 1 mil, mas poderão sonhar com o dobro...

É isso. No mesmo serviço público, pago com o mesmo imposto nosso, tem gente ganhando R$ 34 mil e outros sonhando com R$ 2 mil por mês. Fazendo o mesmo serviço. E se algum de nós for questionar a colega que ganha muito, ela dirá que está dentro da lei. E é verdade. O que me machuca é: quando vamos corrigir isso? Que governante terá coragem de enfrentar a desumana desigualdade?

No começo da carreira, fiz concurso para o Estado. Queria repetir alguns colegas mais espertos, acumular funções no público e no privado, aproveitar a proximidade com os poderosos e arranjar um salário de marajá para o resto da vida. Um dia, quando já era possível viver com apenas uma fonte, saí do Estado para ser profissional de um lado só. Que dia abençoado! Olhando de fora, as diferenças me bastam. E enojam.

Quem avalia a BHTrans?

Depois do que escrevi na sexta-feira, recebi do amigo Luís Borges um e-mail cuja íntegra é a seguinte: “O tempo passou na janela e só Carolina não viu”, diz Chico Buarque em sua obra imortal. Tenho a percepção de que a BHTrans é outra ‘Carolina’, que nos últimos 16 anos não percebeu o aumento da quantidade de veículos de maneira exponencial, enquanto as vias públicas permaneceram quase que intactas. Agora, praticamente chegamos ao juízo final, com 1,5 milhão de veículos só na capital, que é cercada por 34 municípios integrados à metrópole.

E o que foi feito concretamente? Qual é o resultado do planejar, que é pensar antes, e a visão de sistema, que é um conjunto de partes interligadas? Diante do autoritarismo do conhecimento técnico daqueles que têm a missão de gerenciar o sistema viário e que deveriam olhar para fora e para frente, buscando ter uma visão de futuro, e diante do imobilismo urbano de todos os dias úteis, só me resta comparar a BHTrans a um sapo. É clássica a história mostrando que ele morreu cozido numa água, aquecida lentamente até cozinhá-lo, mas que não percebeu nada. Seu mecanismo termorregulador não permitiu que ele percebesse a mudança da temperatura.

Com a BHTrans acontece a mesma coisa, pois ela não se posiciona, nem se reposiciona estrategicamente diante dos cenários que se modificam rapidamente. E o que é pior. Flagrada sem calças, como no caso dos veículos abandonados nas ruas, demonstra que não conhece suas atribuições e, na cara de pau, diz que vai pesquisar, sem nenhum senso de urgência. Quem avalia o desempenho da BHTrans?”.

Consultor de empresas, Luís é daqueles que têm a sensibilidade para perceber o sistema nervoso da cidade. O que ele diz, em outras palavras, é: por que, em outras cidades, como no Rio, algumas vias têm mão de direção trocada dependendo do horário ou do dia e isso aqui nunca acontece? Por que a nossa empresa de engenharia, tráfego e trânsito é tão ausente diante de um cenário tão grave?

Outra pergunta muito interessante que ele faz: quem avalia o desempenho da empresa? Ou, quem pode acordar a BHTrans? E eu, que nunca fiz campanha contra, não comemorei quando ela foi impedida de multar, sinto que a chapa vai esquentar se a empresa não mostrar que precisamos dela.

Tem solução, sim!

Num ponto, os movimentos sociais estão cheios de razão. Querer atribuir às manifestações os congestionamentos do trânsito na capital é, no mínimo, faltar com a verdade. Uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa mostrou não apenas que há providências que podem fazer a diferença como também o grau de comprometimento de cada instituição para com o problema.

O representante da BHTrans, empresa responsável pela administração do tráfego e trânsito de veículos na cidade, não soube responder se, com base no Código de Posturas, o fiscal não poderia rebocar veículos que são abandonados no meio da rua – em um dos casos há 10 anos. Mas, por outro lado, o comandante do Batalhão de Trânsito, coronel Roberto Lemos fez belíssima palestra, mostrando ter se preparado e elencando uma série de sugestões para melhoria do tráfego, algumas delas absolutamente possíveis.

Para não ficar só em palavras, o comandante mostrou dados ao ilustrar o aumento das manifestações que terminam em interrupção do tráfego de veículos, com danos consideráveis ao trânsito de toda a área central. Sugeriu entendimento das autoridades com os responsáveis pelos movimentos sociais para se compatibilizar a livre manifestação com o interesse da maioria. Mas, foi além: pediu que os governos estadual e municipal dessem o exemplo, criando turnos diferentes para os servidores, de forma que nem todos precisem se deslocar ao mesmo tempo, medida que pode também ser seguida na iniciativa privada; pediu que as obras do BRT e outras que causam impacto sejam realizadas também à noite, aos sábados, domingos e feriados para apressar a conclusão; pediu a carona solidária aos cidadãos, o táxi lotação nos bairros, enfim, o coronel sugeriu uma nova postura, em que a autoridade converse com o cidadão quando for fazer alguma coisa. E deu belo exemplo: quando o engenheiro for asfaltar uma praça, pergunte a quem more por perto como pode fazer o melhor, para evitar que as pessoas pisem na grama porque alteraram o seu caminho natural.

Resumindo, o coronel deu um show. E, como o deputado João Leite concorda que estamos a um passo do caos definitivo, deverá aproveitar as sugestões e criar novas discussões. É agora ou nunca. Solução tem. É só a gente tirar o traseiro do gabinete e ir para as ruas. Observar, parlamentar e ter coragem de agir.

Avanços espetaculares

Uma amiga, Beatriz Lima, perguntou se sou capaz de adivinhar o que vai acontecer com o jornalismo daqui há algum tempo. Respondi não crer que o mais inteligente ou experiente jornalista consiga prever o futuro da profissão para os próximos dez anos. No caso da mídia impressa, duvido que alguém tenha algo concreto para o ano das olimpíadas no Brasil – 2016. É que as mudanças são drásticas demais, a tecnologia da informação não se cansa de nos surpreender e as facilidades para se ter em mãos a informação do momento são impressionantes. Não sei, portanto, se uma bomba que explodir às dez da manhã em Boston ainda será notícia no matutino do dia seguinte. Se tivesse de dar um conselho à mídia eletrônica, diria para a TV se tornar cada vez mais instantânea, o rádio partir para a segmentação e o jornal diário migrar com competência e rapidez para o portal de internet.

As mudanças são tão fantásticas que um exemplo basta: em 1986, depois de uma série inacreditável de outras tentativas, o governo federal anunciou o Plano Cruzado, que prometia guerra total à inflação. Naquela ocasião, tive uma ideia, logo aprovada pela chefia, que consistia em visitar três supermercados (os mesmos) todos os mesmos e fazer pesquisa de preços (dos mesmos produtos) para, assim, anunciar a verdadeira majoração de preços, fruto das maquininhas de remarcar que funcionavam a noite inteira. Durante anos, foi um sucesso. Os ouvintes acompanhavam, comentavam e pediu a inclusão de outros produtos na lista, certos de que a inflação oficial jamais batia com a real.

Um dia, ouvi falar de um novo site, Mercado Mineiro, e procurei seu criador. Convencido de que Feliciano Abreu era muito mais confiável do que muita gente que se apresenta como defensor do consumidor, passei a divulgar o trabalho que, por sua credibilidade, ganhou outros veículos e hoje é uma unanimidade. Detalhe: agora, quem precisar de preços pode não apenas ser mais um dos 20 mil que acessam o site todo dia, mas, desde que cadastrados, alterar os próprios preços, de forma a torná-los competitivos. Já imaginaram o que isso significa para jornalistas, para prefeituras que precisam fazer licitações decentes, para todos, mas, sobretudo para quem precisa comprar? Existe alguma chance para o jornalista que não sintonizar numa frequência como essa?

Terra boa, mas complicada…

Belo Horizonte é o melhor lugar do mundo para se morar. Pelo menos essa é a minha sensação. O clima é ameno, oscila como tropical, mas nunca é de extremos; as pessoas conservam um jeitão interiorano de pouca pressa; ainda temos lugares públicos em que os desprovidos de mais recursos vão para se divertir, como os parques, e o nosso Mercado Central é qualquer coisa de fenomenal. Sem esquecer o Distrital do Cruzeiro, a Feira dos Produtores e essas feirinhas semanais que são o máximo, como a da Savassi, e as fixas, como a do bairro São Paulo.

O problema da capital de todos os mineiros é que ela insiste em ser caipira, não no sentido bom da palavra, mas atrasada, provinciana, que precisa se discutir para evoluir, ter vida, ser feliz, solidária, humana.

Em várias ocasiões, disse neste espaço que, se pudesse, pagaria do meu bolso viagens para nossos governantes, especialmente os vereadores. Não iria mandá-los para Cabo Frio, Maceió e Foz do Iguaçu, onde adoram fazer congressos de mentirinha torrando diárias pagas com nosso dinheiro. Queria que fossem para a China, passar pelo menos duas semanas em Xangai, observando o que é planejar, investir em infraestrutura e tornar viável, suportável a mobilidade urbana.

Se pudesse, faria um programa de dez horas seguidas, em cadeia de rádio e TV, para tentar convencer as pessoas de que toda mudança gera estresse, todo progresso é precedido de incômodo, enfim, como já diziam nossas bisavós, não se faz omelete sem quebrar ovos. Ora, vivemos entre dois extremos na cidade: quando um vizinho resolve infernizar a vida do outro, consegue por anos a fio porque não temos o cumprimento das leis com o rigor que gostaríamos. Por outro lado, toda vez que tentamos fazer algo diferente, novo, encontramos as barreiras mais contundentes.

Exemplo? Paul vem nos visitar, faz um show inesquecível, esbanja simpatia, profissionalismo, competência... No outro dia, no lugar de a gente comemorar, começa a reclamar de banheiro, de fila, de ingresso, de preço, de tudo... Se a gente não se cuidar, deixa-se levar pelo pessimismo e fica um chato de galocha.

Todo dia peço a papai do céu para não me deixar entrar na turma da tristeza, na turma do contra. Vamos pensar grande, torcer pelos empreendedores, sonhar com shows dos Beatles, acreditar em Deus e nas pessoas... Afinal, se a gente ficar só na dengue, corrupção e impunidade, nosso destino será uma depressão incurável.

Equivocados

Sempre me impressionou a distância entre os anseios mais urgentes do povo e os discursos dos candidatos. Durante a campanha fica pior mas, para não parecer alguém que quer tomar o lugar dos marqueteiros e ganhar as fortunas que recebem, evito ficar falando.

Só que as repercussões do 1º de maio foram demais. A Dilma foi para a TV destacar a preocupação com a inflação e seu principal oponente, o Aécio, escolheu o mesmo tema para cutucar os petistas. Ora, todos nós tememos a volta daqueles tempos de preços malucos, reajustes várias vezes ao dia, mas, é preciso dizer aos que querem nosso voto em 2014, os tempos são outros.

No mesmo Dia do Trabalhador, o Datafolha anunciou pesquisa que repetiu as perguntas de 30 anos antes e colocou as coisas nos seus devidos lugares: hoje, as preocupações dos brasileiros são mais urgentes. Queremos segurança, poder sair às ruas, estancar o avanço da praga mais destruidora – as drogas.

Se, em 1983, a maioria dos brasileiros temia a alta do custo de vida, hoje quase a metade de nós teme é que um filho se envolva com as drogas. É simples: em 1983, a inflação superou 200% no país, contra uma estimativa de 6% este ano.

E, atenção senhores governantes, depois das drogas, nossos maiores medos são ter a casa invadida por assaltantes e ser assaltado na rua. Outra coisa: o medo de perder o emprego ronda apenas 5% dos brasileiros... Podemos sim acreditar nos economistas de que estamos perto do que chamam de pleno emprego; nossa preocupação deve ser outra, destacada pelo sociólogo Luiz Flávio Sapori, que é a de aumento da criminalidade mesmo em tempos de crescimento da renda, mesmo para os mais pobres.

Alguém precisa dizer para os que ocupam os palácios que estamos morrendo de medo, na Savassi, no Palmital, no Belvedere, no Serra Verde, no campo, no shopping, na joalheria, na padaria, na farmácia, na festinha com amigos... Ah, e estamos apavorados com o avanço das drogas, seus estragos enquanto os que podem reagir discutem firulas para 2014. Ah, e não precisa ir longe para aprender, é só conversar com um dos seus, o deputado Duílio de Castro que traz no rosto das marcas dos ladrões. Fala com ele, gente!