minas gerais

Eduardo Lima

Mesmo sem ter vossa veia poética e o talento de cronista, ouso meu caro xará, registrar aqui cenas de seu velório, animado por sua iniciativa de, sete anos atrás, antecipar cenas prováveis. “Um velório pomposo; havia flores e conversa; muita gente”. Lá estavam velhos amigos seus. “Uns circunspetos, outros alheios, sorridentes”. Pantera, Ronaldão, vereadores, o ex-Mauro Matias seu fã, lá tinha gente de todas as origens e regiões, fãs, colegas, até o pretinho desdentado lavador de carros da Rua Goiás, cujo nome sempre esqueço, mas, gente boa toda vida, doido contigo. Ana Cristina Novato chorava num canto. Juliana deixava a Câmara, feliz porque já não corria mais o risco de o amigo puxar o pé dela de noite. Alguns de seus grandes amores e seus meninos. Belos e educados meninos. De todos, tenho mais intimidade com a Serena, a quem abracei como tio que sofria junto. Não identifiquei, mas, seguramente, lá estavam seus colegas da mocidade, advogados, médicos, o servidor público, jogador de peteca... Ah, lá estava ela, a sua dona Hilda, do jeito que você vaticinou: com uma lágrima nos cílios. Meu xará, que capacidade é essa de imaginar que você iria primeiro? Tenho uma notícia boa: dona Hilda, embora chorasse a perda do terceiro filho, estava resignada, com ótima aparência, bonita mesmo. Resumindo a prosa: tinha de tudo um pouco no seu velório onde fiquei por poucos minutos porque, bem sabe o amigo, esse não é o meu forte. O mais legal, caro xará, é que noventa e sete por cento das pessoas que lamentaram a perda junto a mim falaram na sua capacidade de viver a vida, com intensidade e leveza ao mesmo tempo, seu dom de conciliar, sonhar, nunca ferir. Acho até que você honrou a frase de outro craque do jornalismo, Armando Nogueira, para quem o repórter tem de ter a capacidade de “criticar sem agredir e elogiar sem bajular”. Lembraram-me de que, enquanto eu e a Mônica Miranda fazíamos a cobertura que nos rendeu o maior prêmio do radiojornalismo nacional, você, do estúdio, insistia em nos acalmar e aconselhar, de que nos protegêssemos diante do tiroteio que podia ouvir. Na última crônica sua, publicada no Hoje em Dia, você falava do inconformismo de sermos tratados como número, de cpf, de senha bancária, enfim, esse é o melhor resumo de sua obra, xará mais ilustre: você é gente e, como tal, será eternamente lembrado.