22 Out 19h48
Sou doutor. Sou mestre. Tenho um sonho: ser gari

Basta a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro), a instituição pública de coleta de lixo dos cariocas, abrir um concurso para gari e a história se repete: doutores, mestres, pós-graduados e graduados se misturam aos milhares de inscritos para concorrer a uma das vagas.
Desta vez não foi diferente.
Entre os cerca de 110 mil concorrentes reunidos até a noite de quarta-feira (21) para disputar as 1,4 mil vagas oferecidas, 45 afirmaram ter título de doutorado, 22 de mestrado e 80 de pós-graduação.
Além disso, 1.026 disseram ter curso superior completo e 3.180, graduação incompleta.
A oferta inicial: salário de R$ 486,10, plano de saúde, vale-transporte e ticket refeição de R$ 237,90.
Para 44 horas semanais de trabalho - trabalho muito duro, como se sabe.
Para fazer o concurso, o candidato precisa ter a quarta série do ensino fundamental.
A seleção não envolve exames escritos, apenas testes físicos.
Pode ser que parte dos candidatos tenha mentido na esperança de levar vantagem com a suposta escolaridade além da exigida.
Pode ser que outros tenham simplesmente errado no preenchimento do formulário.
Ou as duas coisas.
É. Pode ser.
Empregos públicos supostamente trazem segurança.
E os laranjinhas da Comlurb são um dos mais dignos e alegres ícones da carioquice e do próprio País.
Mesmo assim, e ainda com o desconto de todas as possibilidades listadas acima, sobra a certeza de que algo está errado.
Muito errado.
Ainda que consideremos todas as dificuldades do mercado de trabalho, o que obriga um doutor, um mestre ou um pós-graduado a tentar recolher lixo em vez de usar seu preparo para gerar conhecimento e riqueza em atividades mais complexas e com maior valor agregado?
Custa muito dinheiro formar um profissional deste quilate.
É muito caro para ele próprio, é caríssimo para o País.
Esse investimento só vale a pena se o conhecimento adquirido for, em algum momento, dividido com as novas gerações ou transformado em produção e riqueza.
Este é o caminho que o País deveria seguir.
Mas, se mesmo no século 21 isso não for possível, restam algumas informações adicionais.
Os organizadores do concurso da Comlurb esperam mais 90 mil novos concorrentes até o final das inscrições, na sexta-feira (23).
Elas podem ser feitas no site www.funrio.org.br .
A seleção terá validade de 24 meses e a primeira fase de testes físicos deverá ocorrer entre 14 a 20 de novembro.
Em tempo: a essa altura do campeonato (ou do concurso) talvez não seja necessário lembrar que doutores, mestres, pós-graduados e graduados poderão concorrer.












