5 Nov 05h55
Um pouco mais sobre o caso Geisy, a moça do vestido rosa

Volto ao assunto dos comentários nefastos e dos atos de estupidez coletiva cometidos contra a estudante de turismo Geisy Vila Nova Arruda, a moça do vestido rosa curto, feitos por centenas de alunas e alunos (e provavelmente até por alguns professores e seguranças) no campus de São Bernardo do Campo (SP) da Universidade Bandeirante, porque amigos da blogosfera colorida pediram. Muitos entraram até em posts mais recentes, sobre outros temas, para pedir a retomada do debate.
Ajudado pelos colegas da produção do programa Geraldo Brasil, da Rede Record, entrevistei a moça.
O episódio é mesmo grave.
Mas cria oportunidade para que a gente possa discutir coisas importantes.
Vamos lá, pois:
Primeiro: sempre que for possível, é preciso afirmar, reafirmar, afirmar, reafirmar, afirmar e, quando parecer suficiente, afirmar uma vez mais, com toda a ênfase possível, o seguinte: nada, nenhum deslize estético, nenhum erro sobre escolha de roupa ou adequação do que se veste, nada disso justifica, ainda que em ralo pensamento, a ação primitiva ocorrida naquele campus.
Faço questão da ênfase e da repetição porque tenho visto, desde a divulgação do episódio, especialistas em bom comportamento, bom senso fashion, sei lá, gastarem 90% do tempo de seus comentários ou do espaço de seus textos o equívoco da moça ao escolher a roupa daquela noite para ir à aula.
Para só depois, no final, lembrar timidamente que "nada justifica" aquilo.
Não.
Essa história é muito maior do que isso.
A discussão sobre a propriedade estética ou simbólica de a moça ter ido à faculdade com aquele vestidão matador perde toda a relevância diante da brutalidade cometida e dos riscos corrido por Geisy e seus amigos.
São duas coisas absolutamente diferentes em dimensão e em relevância.
Não podem ser medidas pela mesma régua.
E, colocadas lado a lado, provocam mais confusão do que esclarecimento.
Há vários indícios de violência à lei no que se fez com a estudante.
Por isso, infelizmente e sem referências infames, o buraco é mais embaixo do que a malhazinha sanfonadinha rosinha de gosto duvidoso que a moça de Diadema usou com o coração leve de pardal solto.
O amigo da blogosfera colorida Armando P. da Silva Jr., um leitores mais atentos e participativos deste espaço, lembra que os estudantes da Uniban protestaram nesta semana dizendo que o curso de turismo e o campus de São Bernardo do Campo ficaram “mal vistos”.
E conclui: "Até agora não vi nem professores e nem a faculdade defender a estudante, como se fosse ela a culpada por tudo o que aconteceu".
Acrescento: depois do que se viu por lá, fica difícil mesmo - diria impossível - não se imaginar "mal visto".
Outro ponto: vários amigos leitores levantaram aqui, como justificativa para as reações animalescas das alunas e dos alunos da Uniban, a hipótese de a moça ser prostituta ou garota de programa.
Mais uma vez: francamente.
Consideremos por hipótese que tudo isso seja fato.
Deixe-me ver se entendi a lógica do raciocínio, da insinuação ou da tentativa de construção de uma ponte entre atitude e pena.
A gente forma um grupo e sai por aí, na ruas, nos flats de luxo de São Paulo, na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, nas estradas do País, e pergunta para toda a mulher que a gente encontrar se ela é prostituta ou garota de programa.
Sempre que uma delas responder sim, a gente ameaça fotografar suas partes íntimas, urra palavrões como bicho e, se for possível, dá uns tapas, umas porretadas, quem sabe mata.
É isso?
Ora, façam-me o favor...
Leiam mais sobre o caso Geisy no ótimo blog de André Forastieri.












