4 Dez 16h40
Darei longas voltas de carro em São Paulo se a chuva cair neste final de semana. O prefeito viria comigo?

Cinco mortos - todos soterrados.
Três desaparecidos.
Casas inundadas.
Carros e móveis inutilizados.
Pessoas contraindo doenças em meio à água infecta e ao lamaçal.
Milhares de compromissos importantes perdidos.
Uma cidade completamente mergulhada no caos.
Tudo isso é só uma parte do saldo dos 40 minutos de chuva pesada que caiu sobre São Paulo nesta quinta-feira (3).
Todo final de ano é sempre igual: ela chega, mata, destrói, paralisa e, diante da incompetência generalizada das autoridades paulistanas e paulistas na missão de amenizar seus efeitos, marca outros encontros macabros para a próxima temporada.
E todos nós sabemos: ela, a chuva, irá cumprir sua promessa.
Vai deixar seu rastro.
De frente para a eterna e absoluta falta de capacidade para enfrentá-la, será mole.
Ela chegará poderosa, arrasando tudo sem qualquer resistência.
Diante da comovente incapacidade de quem deveria encará-la, ela, a chuva, tira até sarro.
Diz onde, quando e como voltará.
Sabe que pode revelar tudo.
Afinal de contas, cantou a tempestade todos os anos - nas últimas décadas - e, mesmo assim, "venceu".
São encontros anunciados e, por incrível que pareça, facilitados.
Querem ver?
Nesta sexta (04), o jornal Folha de S. Paulo informa que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), aliado dos tucanos que controlam o governo estadual, gastou em 2009 menos de 8% do dinheiro previsto no orçamento para a construção de piscinões e de reservatórios no município.
Dos 18,5 milhões calculados para essas obras, apenas R$ 1,4 milhão foram empenhados.
A partir de hoje, vão alegar que chuva foi forte, que caiu blá blá blá por cento de tudo o que deveria ter despencado no mês em apenas 40 minutos, enfim, aquela baboseira, aquela pataquada, aquela rastaquerada toda.
Aí a gente responde assim: então tá, se o sistema não pode se preparar para as exceções, todos devem achar natural as pessoas morrerem quando elas, as exceções da chuva, ocorrerem, não é mesmo?
E aproveita para perguntar o seguinte: de que serve toda a tralha e o pessoal mantidos pelo poder público para enfrentar as chuvas se, quando cai um temporal digno de ser enfrentado, essa coisa toda não funciona?
Sim, porque, para as chuvinhas que só lavam nossos carros e os vidros das nossas casas, a gente não precisa de tralha nem de ninguém do poder público.
Né não?
A meteorologia prevê mais chuvas para este final de semana.
Paulistanos e paulistas precisam voltar para casa.
Nós sabemos que estamos entregues ao próprio medo, à própria sorte.
Todos os anos, cada um de nós espera a sua vez.
Quando o mel cai, a gente respira fundo e diz: "é hoje".
Resolvi me antecipar.
Vou dar longas voltas de carro, por toda a cidade de São Paulo, em meio aos engarrafamentos e torós deste final de semana.
Será que o sr. prefeito de São Paulo ou alguma autoridade do governo estadual me faz companhia?
Assim, na boa, no meu carro... A chuva pesada caindo lá fora, os boeiros entupidos, a água batendo na roda, depois na porta, em seguida no friso...
Tudo muito emocionante.
Meu dia vai chegar mesmo...
Será que eles iriam comigo?
A ironia, dizia minha mãe, pode ser o melhor rosto da revolta.
Este post é uma homenagem aos oito que, ontem, aos primeiros pingos, pensaram como nós todos: "é hoje".
E, infelizmente, acertaram.












