17 Dez 04h16
Andrade ganhará entre R$ 150 mil e R$ 165 mil no Fla. Há quem ache muito. E pouco. E bom. É o samba do salário louco

O técnico Andrade renovou com o Flamengo.
Vai dirigir o hexacampeão brasileiro na temporada de 2010, o que inclui a disputa da Taça Libertadores da América.
Passa a receber, segundo se especula, algo entre R$ 150 mil e r$ 165 mil de salário mensal.
Até o primeiro semestre deste ano, Andrade era funcionário das divisões de base do Flamengo.
Ganhava R$ 10 mil.
Apenas cinco meses atrás, no final de julho deste ano, com a demissão do técnico Cuca, foi confirmado no comando do time principal rubro-negro.
Saltou para R$% 50 mil.
Campeão, decidiu, com toda razão, que este deveria ser o seu momento de valorização profissional.
Pediu R$ 25o mil mensais para renovar.
Até esta quarta-feira (16), garantia aos próximos que não toparia menos do que R$ 200 mil.
Na noite de terça-feira (15), após três horas de áspera discussão com o vice-presidente de futebol do clube, Marcos Braz, que a cada dia mostra uma disposição maior de ser um profissional duro na queda, recusou a primeira proposta do Flamengo, algo entre R$ 100 mil e R$ 110 mil.
Saiu visivelmente revoltado da negociação, feita num restaurante do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Não falou com os jornalistas.
Ao que tudo indica, o Flamengo subiu um pouco, ele desceu um pouco e as duas partes se encontraram.
Acabou por aceitar algo entre R$ 150 mil e R$ 165 mil.
A novela da renovação do contrato de Andrade é didática.
Mostra como o futebol profissional brasileiro vive um legítimo samba do salário doido.
Se considerarmos todos esses valores e a realidade brasileira, é fácil concluir que R$ 10 mil é bom, R$ 50 mil é demais, R$ 100 mil é uma fortuna e R$ 165 mil é um escândalo.
Mas se, por outro lado, levarmos em conta o salário de um monte de técnico meia boca espalhado por aí (e também o das estrelas professores doutores em baixa ou em plena irregularidade, nunca algo abaixo dos R$ 400 mil mensais), o técnico do Flamengo continua a receber uma miséria.
Miséria?
Pois é: dependendo do ângulo que se olhe e da régua usada para medir, Andrade tem motivos para se achar um iluminado por Deus ou ainda um subvalorizado pelo clube que ama e com o qual ganhou quatro títulos brasileiros como jogador e um como treinador.
A miséria e o escândalo.
A loucura do futebol brasileiro.
Neste samba do salário doido, acho o seguinte:
* Andrade ganha uma fortuna. Merece, é claro, mas é soberbamente bem pago. No Rio, no Brasil, em Nova York, em Copenhague, em Londres, em Paris, em Osaka ou em Tóquio. Em qualquer ponto deste planeta, enfim.
* Poderia - talvez deveria - ganhar menos. Ele e todos os outros técnicos do País.
* A régua e o compasso - ou seja, o mercado de salário do futebol brasileiro - é que estão distorcidos, corrompidos para beneficiar uns poucos, absolutamente fora do que os clubes aguentariam pagar hoje se se obrigassem (ou fossem obrigados) a honrar salários e, ao mesmo tempo, pagar dívidas. Dívidas atuais e acumuladas, como todo cidadão ou empresa.
* O futebol brasileiro, no modelo atual, simplesmente não aguenta pagar os salários que técnicos e a suprema maioria dos jogadores dos grandes clubes estão recebendo.
Por isso, os grandes clubes estão quebrados.
Acumulam dívidas fiscais, trabalhistas e judiciais absurdas.
Devem 50, 100, 150, 200, até 250 milhões de reais cada um.
Uns devem mais do que os outros, é fato.
Mas, no fundo, a dívida de todos é pornográfica.
A dirigentália paga esses absurdos por dois motivos: sabe que nenhum governo tem coragem política de fechar um grande clube por inadimplência e gasta um dinheiro que não é seu nem de seu grupo empresarial. Jamais pagariam essas fortunas assim, sem muita resistência, em seus negócios particulares, sem a certeza de que ela voltaria centavo por centavo no rendimento e nas produções do profissional honrado com o butim. Mas no futebol, não: o cara fecha e manda, sem qualquer garantia. O encaixe não sai do dele mesmo...
* Técnico deveria ganhar muito menos do que ganha de salário fixo. Se conquistasse algo, aí sim, receberia de bônus um gordo alegrete, um considerável faz-me rir. É o salário adicional - e condicional - por produtividade, como acontece em todas as outras atividades profissionais no mundo.
* Por tudo isso, a Fifa quer instituir o fair play financeiro no futebol. A começar pela Europa, onde os clubes também estão abrindo o bico. Dessa forma, ninguém poderia gastar, por exemplo, mais do que 6o% de sua arrecadação total com a folha de pagamento, a exemplo do que já é exigido dos govenos no Brasil.
Andrade ganha uma fortuna, mas não tem culpa por isso.
Na esculhambação em que se transformou a política salarial do futebol brasileiro, ele está certo. Talvez até merecesse mais. Foi um cracaço de bola, é ótimo profissional, figura educadíssima e amante do futebol bem jogado.
O monstro foi criado por gerações e gerações de presidentes e dirigentes amadores e incompetentes do esporte mais amado do País.
Tomara que isso acabe logo.
Antes que eles matem o próprio futebol.
Não se iludam quanto à capacidade da dirigentália de realizar a missão.
Políticos não têm coragem de fechar clubes populares e amados por eleitores, mas não falta criatividade à tigrada pseudodiretora quando a meta é achar um caminho para arrasar o próximo quarteirão.












