14 Jan 01h49
O blogueiro esteve no Haiti. Conheceu um povo miserável que ama o Brasil e o Ronaldô. Mas não consegue se livrar da síndrome da desgraça eterna

Estive no Haiti em meados de agosto de 2004.
Fiz uma reportagem sobre o Jogo da Paz, entre as seleções do Haiti e do Brasil, vencido pelos brasileiros por 6 a 0, para a revista Istoé.
Eu e outros jornalistas estávamos no primeiro caminhão militar de um comboio que incluía sete blindados urutus das Forças de Paz da ONU, coordenadas no Haiti pelo exército brasileiro.
Nos 15 quilômetros que separam o aeroporto da capital, Porto Príncipe, ao Estádio Sylvio Cator, onde foi realizada a partida, o comboio foi cercado por mais de 150 mil haitianos em transe emocional absoluto.
O trajeto de ida foi feito em longos 90 minutos.
As imagens ficaram famosas no Brasil. E correram o mundo.
A explosão de sentimentos daquele povo miserável - parte em trapos, parte sem muda de roupa completa - diante da Seleção Brasileira, de brasileiros e de Ronaldô (assim eles gritavam, numa mistura de francês e créole, pelo craque Ronaldo Fenômeno) foi uma das maiores experiências de vida que tive.
Num calor de 40 graus, os haitianos pulavam sem camisa sobre as placas de ferro quentes dos urutus.
Não adiantava dizer que Ronaldô não estava neste ou naquele carro.
Com canetas e papéis amassados, a multidão se aglomerava sobre qualquer coisa que cheirasse a Brasil.
De acordo com uma pesquisa publicada dias antes do jogo pela revista inglesa The Economist, Ronaldô era, entre os haitianos, mais popular do que Jesus Cristo.
De joelhos, muitos apertavam os braços no peito e mandavam beijos.
E a trilha sonora não mudava: Ronaldô, Ronaldô, Ronaldô...
Durante o jogo, os haitianos torceram para as duas seleções.
Isso mesmo.
Quando o Haiti atacava, eles gritavam e aplaudiam.
O Brasil rumava para o gol do Haiti e eles faziam o mesmo.
A partir do terceiro gol, os brasileiros presentes no estádio, a começar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passaram a torcer por um gol do Haiti.
O governo local tinha oferecido US$ 1 mil para quem marcasse o primeiro e US$ 500 para o titular do eventual milagre do segundo.
Em vão.
Pierre Andre Rigaud, jornalista esportivo nascido no país e radicado em Miami, contou-me na ocasião que, ao final da partida em que o Brasil perdeu para a Argentina por 1 a 0, na Copa de 1990, na Itália, com um gol de Caniggia após passe de Maradona, um haitiano se matou com um tiro na cabeça e outro foi para o hospital após ter pulado embaixo de um carro.
O tenente-coronel brasileiro Carlos Aversa lembrou que, nas vitórias importantes da Seleção Brasileira, eles se aglomeram em frente ao portão do quartel das tropas de paz da ONU e pedem para que a bandeira brasileira seja hasteada.
Uma declaração de Aversa e outra do então técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, resumem com precisão o ocorrido naquela tarde.
Primeiro, Aversa:
- Recebo treinamento para controlar minhas emoções, mas tudo isso que estamos vendo não está sendo fácil. Fico com um nó na garganta.
Agora, Parreira:
- Na próxima vez que um jornalista virar para mim e perguntar qual a emoção mais forte que vivi em minha vida profissional, vou dizer que foi essa aqui no Haiti. E todos sabem que eu já vivi muitas delas.
Meses antes do Jogo da Paz, o ótimo jornalista Cláudio Camargo visitou o Haiti, também para Istoé, na companhia do repórter fotográfico Leopoldo Silva.
Sua descrição do que viu em Porto Príncipe é dolorosa:
- Nem a pior favela brasileira, nem mesmo Alagados, na periferia de Salvador, chega aos pés de Porto Príncipe em matéria de degradação e miséria. A capital haitiana é uma verdadeira sucursal do inferno: em meio a um calor de quase 40ºC e a um odor de lixo insuportável, os haitianos movimentam-se como espectros maltrapilhos e sujos. Não há água encanada nem esgoto para cerca de 90% da população, o que faz de Porto Príncipe uma verdadeira cloaca a céu aberto. Por inúmeras ruelas esburacadas e poeirentas, avistam-se centenas de jovens e velhos desocupados (a taxa de desemprego é de nada menos que 80% da força de trabalho). Mulheres esqueléticas carregam crianças no colo e levam na cabeça latas d’água captada nos infectos riachos que cortam a cidade. Velhas picapes transformadas em coletivos (conhecidos como “tap-tap”) cruzam as ruas da cidade transportando dez pessoas, em média, galinhas e perus.
E acrescenta:
- O choque de realidade atinge seu ápice numa feira no bairro de Bel Air, nas proximidades do porto, onde as pessoas vendem e compram frutas, legumes, verduras, roupas e quinquilharias em meio a toneladas de detritos acumulados, num clima de aparente normalidade que deixa perplexo o estrangeiro incauto.

Pois é relamente impressionante: nada parece anular ou, ao menos, aliviar os efeitos de uma espécie de "Síndrome da Desgraça Eterna" que se estabeleceu sobre o Haiti.
Se for levada em conta a realidade histórica das Américas, pouca coisa indicava, até meados do século 19, que essa desgraça seria tão longa e profunda.
Em meados do século 18, o país tinha 450 mil negros escravos.
E pouco mais de cinco mil (1% da população) brancos livres.
Ex-colônia francesa, o Haiti foi o primeiro país das Américas a declarar independência e a abolir a escravatura.
Livrou os escravos em 1794 (quase cem anos antes do Brasil, que o fez em 1888) e do colonizador, a França, em 1804.
Para conquistar a independência, o exército haitiano, organizado por Jacques Dessalines, um ex-escravo, expulsou do país as tropas francesas, um império àquela altura já controlado por um certo Napoleão Bonaparte.
A reação foi também uma vingança pelo assassinato do ex-governador-geral do Haiti colônia, Toussaint Loverture, deposto e preso pelos franceses em 1801 e morto três anos depois, na cadeia, na França.
Entre o final do século 18 e a independência, em 1804, no início do século 19, o Haiti era o país mais próspero das Américas e uma das mais produtivas ciolônias francesas no mundo.
Incorporava, em seu território, o que é hoje a República Dominicana.
A produção e a exportação de açúcar, cacau e café eram fortes.
O primeiro grande impacto começou a ser sentido a partir da declaração de independência.
Dessalines, o novo imperador, em vez de construir uma solução para a perda de mão de obra escrava no campo, trocou o modelo de agricultura de exportação de cana, cacau e café pelo sistema familiar, de subsistência das famílias.
Com isso, o Haiti começou a empobrecer.
Em 1806, o país foi dividido em dois. A parte oriental foi reocupada pela Espanha.
Em 1822, o presidente Jean-Pierre Boyer retomou novamente este pedaço da ilha caribenha, mas a reunificação só durou até 1844, quando, em mais uma revolta, Boyer foi derrubado e a parte oriental, declarada independente.
Hoje, esta parte da ilha caribenha é a República Dominicana.
O século 20 foi especialmente cruel para o Haiti - e determinou seu mergulho, aparentemente definitivo, na "Síndrome da Desgraça Eterna".
De meados do século 19 até 1915, o Haiti teve 20 governantes.
Destes, 16 foram retirados do poder ou assassinados em pleno mandato.
Entre 1915 e 1934, os Estados Unidos ocuparam o país para "proteger os interesses americanos" na ilha caribenha.
De 1957 a 1986, os haitianos foram moídos por uma das ditaduras mais insanas, tribais e sangrentas da história da Humanidade, liderada até 1971 por François Duvalier, o Papa Doc, e a partir daí por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc.
Baby Doc e Papa Doc, apresentados a muitos brasileiros com menos de 40 anos pela música Nome aos Bois, dos Titãs - aniquilaram a oposição, perseguiram católicos e protestantes, fortaleceram o vodu na rotina do governo e do país.

Fotos do Jogo da Paz: Ricardo Stuckert/PR
O poder era assegurado na bala e no fio da lâmina pelos tontons macoutes, ou bichos-papões, a guarda pessoal dos Duvalier.
Ela assaltava, constrangia e matava qualquer haitiano que ousasse discordar de algo no regime.
Após 14 anos de instabilidade e de troca de generais no poder, um padre de esquerda, Jean-Bertrand Aristide, eleito democraticamente, assume o poder em dezembro de 1990.
Aristide foi derrubado por um golpe de estado em 1991.
Exilou-se nos Estados Unidos.
Apoiado pelo governo americano e pelas Nações Unidas, ele retomou o poder em 1994, sob a guarda de tropas internacionais.
Mas, em fevereiro de 2004, ameaçado pela oposição armada que tomou parte do país, Aristide abandonou o poder.
E o Haiti. Foi viver na África do Sul.

O presidente da Suprema Corte, Bonifácio Alexandre, assumiu a presidência de forma interina e convocou as Nações Unidas para ajudar a estabilizar o país.
René Préval, o atual presidente, ocupou a presidência entre 1996 e 2001.
Nos últimos 200 anos, foi o único chefe de Estado eleito democraticamente no país a completar o seu mandato e a passar o bastão para outro no final, como mandam as democracias.
Muito respeitado dentro e fora do país, Préval foi novamente eleito em 2006.
Com o apoio da ONU e de uma coalizão política, militar e humanitária de 16 países, liderada pelo Brasil, Préval vinha fazendo o possível para coordenar o longo processo para, um dia, apresentar aos haitianos amantes do Ronaldô uma vida um pouco mais distante do medievalismo.
Pois é: vinha fazendo o possível...
Até que, na tarde da última terça-feira (12), o relógio bateu nas 16h53 min em Porto Príncipe.
Virou pó o pouco que tinha sido construído num país em que metade de seus 10 milhões de habitantes é analfabeta e oito em cada dez habitantes em idade produtiva não tem um emprego formal.
Hospital, centros sociais, escolas, representações internacionais... tudo virou pó.
Corpos apodrecem em meio aos escombros.
Falta água, falta luz, falta comida, falta roupa, apoio, médico, carinho, tudo.
O cenário para a fome, as epidemias e a explosão de novas revoltas populares está pronto.
Há quem fale em pelo menos 100 mil mortos. Se o número for confirmado, trata-se de 1% da população atual do Haiti.
Pode ser mais. Muito mais.
O Haiti, mais uma vez, volta à estaca zero.
O ciclo da Síndrome da Desgraça Eterna - mais um deles - se refaz.













