25 Jan 16h23
Altos e baixos da SP 456
Uma parte da mais rica, poderosa e multifacetada metrópole da América Latina completa seu 456º aniversário.
Digo uma parte da cidade porque essa legião – milhares, milhões de pessoas, de todos os cantos – vai trazer de volta à memória a São Paulo bela e resistente de sempre.
O Mercado Municipal com seus sanduíches e quitutes.
A imponência do Parque do Ibirapuera.
A tradição centenária da Avenida Paulista.
A decisão vigorosa de uma megalópole que insiste em viver, 24 horas, com o pé no acelerador, na busca do sonho da felicidade, com tudo de bom e de ruim que isso possa produzir.
A metrópole vitoriosa sempre volta à nossa cabeça – plena, colorida – neste dia 25 de janeiro.
Senti necessidade, no entanto, de pensar na cidade derrotada que, nas últimas duas décadas, fincou pé na nossa rotina e no nosso pensamento.
Aquela vítima de um erro histórico de seus cidadãos e, sobretudo, de seus governantes.
O equívoco de achar que ela deve pensar unicamente nos temas e problemas nacionais.
E se esquecer de que os paulistanos, antes de tudo, precisam ter o mínimo de qualidade de vida em sua rotina, em seu trabalho, em seu lazer, no seu bairro, na sua rua.

Talvez seja oportuno lembrar: São Paulo ainda é o que se convencionou chamar de município.
E, para que exista município, é indispensável também que exista gestão séria em busca de qualidade de vida.
É um lugar onde 11,1 milhões de pessoas vivem, levam crianças para a escola, se divertem, tentam dar carinho uns aos outros e perseguem, legitimamente, o sonho de uma vida digna.
Mas a cidade impede isso, por exemplo, com uma engenharia de trânsito caótica, que transformou, sobretudo por omissão, seus milhões de motoristas em cumpridores de jornadas insanas dentro de seus carros.
Nossos engarrafamentos insanos criaram uma democracia diabólica: todos nós sofremos e somos vítimas de uma rotina neurótica, do “piloto” do carrão de rodas imensas e ar condicionado glacial, mas que ainda não voa, ao trabalhador de pé, amassado como sardinha na lata, no trem, no metrô ou ao lado da catraca do “busão”.
Uma cidade com 235 mil estabelecimentos comerciais.
E também com cerca de 70 shoppings centers.
Mas que se tornou incapaz de oferecer uma vaga para estacionamento em tempo decente nestes mesmos shoppings centers.
Uma cidade cercada por cerca de 3 mil córregos e riachos.
Caminhos de água que hoje nos dão mais medo do que orgulho - seja pela chance de transbordarem nos temporais ou pelo mero de estarem infectados como os piores esgotos.
Uma cidade que, por falta de planejamento, humildade e ação cotidiana dos últimos governos estaduais e municipais, viu o pouco de segurança e de conforto urbano que ainda mantinha ser totalmente aniquilado.
A cidade grita, mas o governador e o prefeito parecem não entender que ela precisa de uma grande mobilização de técnicos, especialistas e de forças políticas para que um planejamento realmente sério de recuperação da qualidade de vida e de autoestima seja, enfim, realizado e posto em prática.
Onde está a sabedoria de nossas potentes universidades (que ajudaram a forjar, por exemplo, o inquestionável currículo acadêmico do nosso governador) para nos ajudar nisso?
Governador e prefeito nos enganam com o isolamento em suas fortalezas.
E com o discurso de que tudo o que era possível ser feito foi feito.
E ainda com a justificativa mentirosa de que as mazelas de São Paulo nada mais são do que os efeitos colaterais inevitáveis de uma cidade grande.
A gente sabe muito bem que não é assim.
Nova York foi, até bem pouco tempo, um pouco São Paulo. Às vezes, muito. Hoje não é mais.
Londres teve problemas semelhantes ao de São Paulo. Hoje, não os tem mais.
Buenos Aires, na vizinha Argentina, sofreu com períodos dolorosos de degradação. Hoje, é uma cidade recuperada e agradável.
Paulistanos nascidos e adotados por São Paulo: se a intenção deles é continuar nos enrolando com essa esparrela, vamos cobrar.
Cobrar como nunca.
Se eles não tomam qualquer atitude para devolver nossa São Paulo de volta, vamos exigir isso.
Com força e vontade. E, se for o caso, com a ferramenta poderosa do voto.
Neste 2010, antes do verão – e do período das chuvas, só para citar um exemplo – haverá eleições.
São Paulo deve ser cosmopolita, metrópole mundial, palco de temas nacionais e internacionais.
Tudo isso.
Ela responde por 12% da produção da riqueza nacional.
É o décimo aglomerado humano mais rico do mundo.
Conta com 38% das cem maiores empresas privadas de capital nacional.
Abriga 63% das sedes de empresas internacionais e 17 dos 20 maiores bancos mundiais instalados no País.
Tem 11,1 milhões de habitantes.
Tudo isso.
Mas precisa voltar a ser, com urgência, um município digno, com um padrão mínimo de qualidade de vida.
Espero que, em 25 de janeiro de 2011, a quantidade de temas ruins a lutar nas nossas mentes com as lembranças do Mercadão, do Ibirapuera, da Paulista e de orgulhos afins seja bem menor.
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