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5 Fev 15h57

Paulistano muda rotina para enfrentar incompetência municipal e estadual no combate às enchentes. É triste

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- Está maluco? Você anda de carro ou de veículo anfíbio? Nestes tempos, não se vai para lugar nenhum da cidade entre cinco e oito da noite. Quem aprendeu a lição fica aonde está neste horário. É o rodízio da chuva e da fuga da incompetência, só que este vale para todo mundo. Aliás, vamos desligar porque, nesta hora, eu fico com medo de me afogar até no telefone...

A resposta acima foi dada a mim, no final da noite de ontem, por um competente e, como se percebe, bem humorado médico com quem eu precisava conversar pessoalmente por motivos profissionais.

Apesar da sua ironia fina, tive a sensação de que ele havia encarado minha dúvida como uma provocação.

E ela era singela: será que ele poderia se encontrar comigo hoje, quinta-feira (4), às 17h30, em um café próximo do seu consultório, em Santana, na zona norte de São Paulo?

Não, não poderia.

De jeito nenhum.

O paulistano entregou os pontos nesta questão das chuvas.

Passou a se virar por conta própria.

Não espera nada da prefeitura e nem do governo do Estado de São Paulo.

Sabe porque os engarrafamentos nos finais de tarde de chuva estão mais amenos do que os do início da temporada?

Simples: boa parte dos paulistanos percebeu que a cidade não tem condição e absorver seus movimentos neste período do dia e parou de se movimentar nos finais de tarde e inícios de noite.

Mudou sua vida para se adaptar à inoperância.

Sucumbiu à incompetência ofensiva, ao despreparo e à omissão mal disfarçada da administração municipal, de Gilberto Kassab (DEM), e da estadual, de José Serra (PSDB), para tomar medidas que ao menos amenizem os efeitos das chuvas que castigam os 11 milhões de habitantes da cidade há 44 dias seguidos.

Este cidadão não conta mais com nenhuma ação coletiva, nenhum plano responsável de curto prazo, mutirão técnico ou político, convênio com o governo federal para aplicação imediata...

Nada.

Percebeu que todo dia essa turma faz tudo sempre igual.

Primeiro, o cidadão tem seu encontro diário com o caos que estilhaça a sua rotina e o seu orgulho de paulistano.

chuva pompeia Paulistano muda rotina para enfrentar incompetência municipal e estadual no combate às enchentes. É triste

A metrópole rica, que deveria estar na vanguarda de tudo, assume ares medievais.

Impotência generalizada – e patética.

Depois (sempre muito depois) de se instaurar o caos, aparece um representante dessas administrações, às vezes os próprios eleitos, e entoa a mesmíssima cantilena da derrota, da conformação e do fracasso: está caindo muita água, a situação é excepcional, chega-se a um ponto em que nada parece reduzir os danos... E por aí vai.

Excepcional é sensação nítida de que essa ladainha serve de discurso protetor para troque mesquinho de fazer muito pouco, ou quase nada, com o ar blasé de quem tentou de tudo.

O balanço dos estragos provocados nesta quinta-feira (4) pela nossa visitante de cada dia foi o seguinte: Zoológio e Jardim Botânico alagados, queda de árvore em 108 pontos da cidade, dois córregos transbordados, Aeroporto de Congonhas fechado por mais de uma hora, 79 sinais em pane, 36 pontos de alagamento (16 deles intransitáveis), várias regiões sem energia e toda a cidade em estado de atenção.

Setenta e quatro pessoas já morreram desde o início deste inferno.

Mas nada, nada adianta.

O paulistano percebeu, claramente, que a desfaçatez foi, é e será adotada, até o final do verão, como armadura para a inoperância.

Até que a natureza decida que não merecemos mais tanta água na cabeça por aqui.

Mas estejam certos: enquanto isso não ocorrer, nada de relevante será feito pelos governos municipal e estadual para alterar essa situação.

Eis uma verdade clara para todo mundo, e esses administradores nem podem nos culpar ou cultivar melindres pela facilidade da constatação.

Por isso, faça como o médico que procurei: adote o rodízio da fuga da incompetência.

Meu entrevistado marcou nosso encontro para nove e meia da manhã da mesma quinta-feira (4).

Foi uma boa conversa.

E eu aprendi a lição. Está adotada até o final do verão.

Tudo tem limite.

Posso ser, muitas vezes, um crédulo otimista.

Mas, já que ele perguntou, não, não sou maluco.

Deve ser terrível viver numa cidade e num estado em que o cidadão já se sente um felizardo se conseguir passar ileso pela omissão dos governantes.

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