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21 Mai 06h00

Fla eliminado da Libertadores. Patricia Amorim não é mais refém de nada. Seu mandato para acabar com o vale-tudo na Gávea precisa começar hoje. Boa posse, presidenta

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Flamengo eliminado da Libertadores 2010.

Jogou com dignidade a segunda partida das quartas de final e venceu a Universidade de Chile U por 2 a 1.

Mas já tinha perdido a vaga na patética derrota por 3 a 2 no Maracanã, no jogo de ida, com um primeiro tempo ridículo e um gol de pelada e de churrascada (o terceiro) tomado o início da segunda etapa, quando o rubro-negro tinha um jogador a mais.

A presidente Patricia Amorim foi eleita no final de 2009.

Assumiu o cargo no primeiro dia útil deste ano, a segunda-feira 4 de janeiro.

Mas seu mandato começa hoje.

Não o oficial, mas o prometido por ela e esperado por todos os que apostaram em sua capacidade de renovação.

Um mandato com ação e peso político para equacionar o poder entre os grupos que a apoiaram.

Um mandato para colocar os profissionais certos nos lugares certos.

Um mandato para partir em busca de algo ao menos próximo do choque de gestão prometido na campanha.

Patricia venceu as eleições no Flamengo no final do ano passado.

Naquele momento, o time contrariava todas as expectativas, até mesmo as dos rubro-negros mais famosos, e partia rumo ao hexacampeonato brasileiro numa arrancada impressionante.

Na 28ª rodada do campeonato, estava doze pontos atrás do líder Palmeiras.

Dez rodadas – e dezessete anos - depois, a maior torcida do País ganhava de presente mais um título de campeão brasileiro.

Talvez o mais inesperado dos seis.

Resultado: Patricia Amorim sonhava implantar logo um choque de ordem para profissionalizar o futebol e reduzir as históricas mordomias, tapinhas nas costas, pulso fraco e vista grossa para irresponsabilidades de jogadores e dirigentes.

Mas, empossada no embalo do título, virou refém de um grupo vencedor que colocou a torcida nas nuvens e passou a ser irritantemente paparicado.

O Flamengo de 2009 era um grupo de jogadores humildes e trabalhadores com um técnico humilde e trabalhador, o querido Andrade.

Tinham qualidade mas, acima de tudo, conheciam suas limitações e procuravam superá-las.

Por isso venceram.

O Flamengo de 2010 foi até agora, com raríssimas exceções, o Flamengo da falta de rigor no trabalho por parte de muitos, da marra exagerada e irritante.

E também do sucesso que sobe à cabeça de todos, criando um atalho rápido para volta à mediocridade e o fracasso.

Patricia Amorim virou refém das irresponsabilidades, da depressão doentia e dos desequilíbrios de Adriano.

Virou refém do descontrole verbal e do pavio curto do então vice-presidente de futebol Marcos Braz.

Virou refém da incapacidade do ótimo Andrade para gerir um grupo também nos momentos que um comia o outro por causa de infantilidades estúpidas e vaidades imbecis. Ahh, esses boleiros...

Virou refém das recaídas infantis de Petkovic.

Virou refém do ímpeto do goleiro Bruno, que, definitivamente, não tem perfil para ser capitão de time nenhum.

Virou refém das pressões e chantagens dos jogadores sempre que o clube tenta impor uma carga maior de trabalho e de treinamento, sobretudo matutina, uma maldição que nenhum grupo político consegue (ou tem peito) para derrubar no clube.

Patricia Amorim virou refém, enfim, de mais uma versão, um pouco mais branda mas ainda assim muito destrutiva, do histórico tudo pode no clube da Gávea.

Refém do revoltante e aparentemente eterno laissez faire, laissez aller, laissez passer (deixai fazer, deixai ir, deixai passar) que marca e não abandona o Flamengo.

Uma desgraça que ninguém que se mete a gerir o clube consegue anular.

Sempre que esse tá tudo liberado se estabelece na Gávea, torcedores, jornalistas, adversários e opinião pública identificam logo a coisa.

E, também sempre, apenas um único setor do universo do futebol insiste em dizer que não rola qualquer corre frouxo na Gávea: o grupo que está no poder no Flamengo naquele momento, lógico.

Sempre foi assim.

Sempre.

Patrícia Amorim sabe que as coisas estão muito abaixo do desejável em seu início de mandato.

Ela não merece isso.

E nem tampouco está disposta a queimar todas as boas expectativas geradas em torno de seu nome e, em seguida, claro, o seu próprio nome.

Queria dar uma espanada geral desde o início.

Mas, refém de tudo o que foi dito, não teve condição de sacudir enquanto o time decidia, ao mesmo tempo, o Campeonato Carioca e a Libertadores, o caminho para o sonho do bi mundial.

Ela sabia que, se implantasse antes dessas decisões a sua versão particular de Tolerância Zero, exigindo responsabilidade e compromisso, poderia ficar sem time e técnico no meio das competições.

Mas agora não.

Não há mais nada muito forte para ser devolvido a ela como chantagem.

Não há desculpa.

O Carioca já era.

A Libertadores também.

E o Brasileirão ainda reserva um bom tempo para mudanças drásticas em busca de um rumo certo (mesmo porque, a continuar nessa toada, o Brasileirão e a classificação para a Libertadores também irão para o espaço).

Vem aí a parada da Copa.

A hora é essa.

Hora de ter craques sem o custo da humilhação de um clube diante de caprichos como os de Adriano.

Hora de um técnico competente, à altura do Flamengo, mas sem os arroubos de vaidades e as bombas na mão dos três ou quatro tops do mercado (A hora do sério de dedicado Rogério chegará, mas, pelo menos para um Boeing do tamanho do rubro-negro, ainda não é essa).

Hora de contratar gestores e profissionais de futebol equilibrados, do ramo e sem impulsos boquirrotos amadores.

Hora de montar uma administração mais eficiente e menos dependente dos grupos políticos amadores de apoio no clube.

Hora de exterminar a praga do pode tudo, a ideia cada dia mais disseminada, e quase sempre comprovada, de que nada acontece no Flamengo em termos de trabalho, nem aquilo que o presidente quer, se a boleirada não quiser.

Patrícia Amorim é inteligente, equilibrada.

Tem condição, apoio e bom senso para, ao menos, iniciar o processo que um dia mudará tudo isso.

Mas tem que começar agora.

Chegou o dia.

A hora.

O minuto.

Tenha uma bela posse, presidente Patricia Amorim.

Leia mais sobre futebol no R7.

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