7 Jul 06h00
Justiça decreta prisão de Bruno. Saiba como diminuir a decepção das crianças com ídolos e heróis que destroem a própria imagem
Foto: Carlos Moraes/Agência O Dia
O blog abandona por instantes o mundo maravilhoso da Copa do Mundo para tratar de um assunto impossível de ser evitado: Bruno.
O goleiro do Flamengo é acusado de envolvimento no espantoso caso do desaparecimento de Eliza Samudio, com quem teve um relacionamento e um filho, hoje com quatro meses.
No final da noite de terça-feira (6), após um longo e pouco confiável depoimento de um menor de 17 anos no Rio de Janeiro, o Ministério Público pediu prisão temporária de cinco dias para o atleta.
Horas depois, a Justiça concedeu a prisão preventiva de cinco pessoas, entre elas Bruno, sua mulher Dayanne e um amigo da família conhecido como Macarrão, que teria levado Eliza do Rio para Belo Horizonte num carro do goleiro.
Assim que a prisão foi decretada, Bruno e Macarrão foram avisados por telefone e deixaram uma das casas do goleiro.
A prisão temporária pedida pelo MP foi aceita pela Justiça porque Bruno e sua turma, segundo a polícia, estavam tentando mudar depoimento e destruir provas das pessoas convocadas para depor.
Deviam estar todos com os telefones fixos e celulares grampeados por ordem judicial.
A polícia mineira reclamou porque a fluminense anunciou a prisão com antecedência, o que facilitou a fuga de Bruno.
O advogado de Bruno, Michel Assef Filho, pedirá o habeas corpus para liberar o goleiro.
Se não conseguir, vai aconselhar seu cliente a se entregar.
Macarrão negocia, através do seu advogado, a situação para se entregar.
No depoimento do menor, cheio de detalhes exagerados e aparentemente fictícios, o menor admitiu ter dado uma coronhada na cabeça de Eliza.
Disse “saber que ela estava morta”.
Afirmou que Bruno teria dado R$ 3 mil a um traficante para sumir com o corpo da ex-amante.
Apesar de tudo parecer cada vez mais evidente, ainda é cedo para formar opinião definitiva, condenar ou inocentar Bruno.
Antes, é necessário que a Polícia confirme a morte de Eliza, que parece cada vez mais certa.
Atestada a morte por assassinato, a investigação precisa estabelecer provas de que o assassinato foi mesmo ordenado pelo goleiro.
Se a ordem ocorreu, ela partiu de Bruno?
Ou foi dada por sua mulher, algum parente ou amigo, sem que o goleiro soubesse ou aprovasse?
É possível que Bruno tenha mandado o crime? Sim e não.
É possível que o goleiro, mesmo irritado com a situação, sentindo-se vítima de um suposto “golpe da barriga” de Eliza, não tenha ordenado esse assassinato, que acabou sendo encomendado por parentes e amigos preocupados em agradá-lo e em perder espaço e mordomia proporcionados por ele?
Sim e não.
Todas essas hipóteses são possíveis.
E só as investigações poderão nos dizer, com precisão, qual delas é a verdadeira.
Por enquanto, há apenas indícios descobertos pela polícia e o depoimento de um menor que, pressionado ou não, inocenta Bruno.
Tudo o que o menor disse pode ser verdade.
Tudo o que o menor disse pode ser mentira.
Parte do que o menor disse pode ser verdade.
Por isso, até que apareçam provas convincentes, trato Bruno e todos os outros envolvidos no crime como suspeitos.
Aprendi a ter muita cautela nesses casos.
Acompanhei os donos de uma escola de São Paulo serem massacrados, humilhados e destruídos injustamente por causa de um delegado que falou demais, o que existia e o que não existia, sobre uma falsa acusação de assédio sexual de menores.
Os veículos de comunicação e nós, jornalistas, mergulhamos de cabeça, de forma absolutamente irresponsável, naquele bate-boca pavoneado como se cada detalhe daquele falatório fosse verdade absoluta.
Acabamos com a vida e a reputação daqueles professores.
E logo depois ficou provado que toda aquela acusação era um delírio supremo e irresponsável dos acusadores ecoado pelas autoridades que acompanhavam o caso.
Hoje, estamos todos aqui, firmes e fortes, vivendo do nosso trabalho e da nossa imagem, e os donos da escola lá, destruídos financeira, social e psicologicamente.
Quem vai pagar por isso? Quando? Quanto?
Por isso, mesmo que as coisas pareçam óbvias, é preciso ter cautela – e sobretudo provas - antes de acusar ou mesmo de formar opinião sobre qualquer um.
Por isso, precisamos esperar a apuração de todas as provas antes de culpar ou inocentar Bruno.
Por isso, até que a polícia a Justiça apresentem provas irrefutáveis, eu vou esperar.
Mas o motivo principal deste texto nem é especular se Bruno tem ou não culpa.
Foto: VipComm
Antes e até mesmo independentemente disso, interessa-me discutir um ponto interessante: a dificuldade dos pais para fazer as crianças entenderem, nessas ocasiões, que ídolos podem cometer erros graves na vida como qualquer um.
Acabo de ver relatos de pais de meninos goleiros que treinam na escolinha de base do Flamengo.
Eles têm Bruno como ídolo absoluto.
Não é para menos: a maior parte das conquistas rubro-negras dos últimos anos teve participação decisiva do goleiro.
Os mais novos não conseguem entender como aquele jovem de sucesso, forte, famoso, herói, passa de uma hora para a outra a frequentar as paginas policiais como um marginal.
Dá nó nas cabecinhas ainda livres dos dilemas fundamentais da vida.
Ouvidos por este blog, um educador e um psicólogo deram dicas importantes para enfrentar situações como esta:
* Não faça terrorismo emocional e psicológico para que o filho esqueça imediatamente todas as qualidades do ídolo que sempre o encantaram. Isso não é possível.
* Também não minta. Diga a verdade. Com as informações necessárias mas sem detalhes hiper-escandalosos que apenas chocam e não trazem qualquer contribuição.
* Aproveite a oportunidade para explicar às crianças, da forma mais simples possível, que aquele ídolo, apesar de todo o reconhecimento, é ser humano como todo mundo e que, por isso, teve seu momento de erro e passou do ponto. Como Justiça é para todos, merece ser punido.
* Explique ainda que não existe nada demais se a criança continuar a querer ser boa como o ídolo na sua qualidade artística ou esportiva, mas bem diferente nas atitudes de homem, mulher, namorado, pai, filho, irmão, cidadão, enfim. No caso dos meninos da escolinha do Flamengo, nada impede que eles continuem a querer pegar pênaltis bem como Bruno. O que não pode é querer também, a exemplo do goleiro, tratar mulher como lixo.
* Por fim, procure destacar as qualidades de cidadão dos outros ídolos da criança. Ressalte, sempre com naturalidade, que o ideal é ser correto “dentro e fora de campo”, e não apenas na atividade profissional, a exemplo do ídolo que acaba de ter a reputação abalada.
Esses cuidados e o tempo se encarregarão de fazer a criança substituir naturalmente, no tempo período adequado, o ídolo que, digamos assim, deixou de ser saudável e recomendado.
Por último, aprenda também, adulto, o quanto é importante manter o equilíbrio e dar aos menores que nos amam os melhores exemplos de atitude, justiça, carinho e conduta sempre que isso for possível.
Os pequenos nos amam.
E nos idolatram – o que é delicioso sob os pontos de vista paterno e materno mas, muitas vezes, pode ser também perigoso.
Eles até esquecem o Bruno, o Kaká e o Robinho na Copa, o atleta D, o cantor E e a atriz F.
O que quase nunca conseguem substituir é a idolatria e a imagem heroica nutridas pelos pais.
Quando eles percebem que a gente vacila na preservação da nossa imagem, eles sofrem muito.
Sou um pote volumoso e multifacetado de falhas e defeitos.
Mas aperto até as vísceras para poupar disso tudo a Isadora, minha filhota de sete anos e meu encantamento supremo na vida.
Claro, nem sempre consigo – e quero morrer sempre que percebo o vazamento de algo com potencial para interferir negativamente na imagem que ela nutre pelo papa aqui.
Vá que ela goste de mim com dez por cento da intensidade de que gosto dela.
Não tenho direito de causar tanto sofrimento a um bichinho tão indefeso.
Você também não.
Precisamos ter muito cuidado com isso.
Muito mesmo.
Bem mais do que eu e você imaginamos.
Preocupem-se de verdade com essa questão.
Esportes? O amado amido da blogosfera colorida sabe: é com o R7.












