28 Jul 06h01
Um em cada quatro pacientes corre sérios riscos porque não entende o que o médico pede. Leia a receita com quem precisa. Isso salva
O amado amigo com certeza já teve dificuldade para entender o que o médico pediu nos garranchos que rabiscou na sua receita após uma consulta.
Tenho certeza que sim.
E mais: não conheço quem não tenha enfrentado esse problema ao menos uma vez na vida.
Dias atrás, minha competente confreira Camila Neumam assinou neste R7 uma reportagem mostrando que muitos desses médicos ainda resistem em abandonar esses rabiscos quase impossíveis de se ler.
Isso mesmo com as ameaças de punição registradas em leis federais e em códigos de conduta de medicina.
Quando o paciente consegue decifrar os garranchos e entender o que foi pedido, a situação, apesar do constrangimento desnecessário, ainda volta à normalidade.
O pior é quando a pessoa consegue ler o que está escrito na receita, identifica as palavras e frases mas não entende patavinas do que o médico receitou.
Isso mesmo: problemas não só de desenho de letra, mas também de texto impreciso, complicado para a compreensão média.
E, por tudo isso, incapaz de estabelecer uma comunicação clara e geral, uma condição indispensável para um documento que precisa ser decifrado por todos, do seu amigo sabe-tudo àquele porteiro ou pedreiro quase analfabeto que você conhece.
Pois bem: uma pesquisa com pacientes do Hospital das Clínicas, em São Paulo, um dos maiores do mundo, mostra o quanto esta situação é preocupante.
O trabalho mostrou que 25% dos pacientes entrevistados simplesmente vão para casa e iniciam o tratamento sem entender uma parte importante ou até tudo o que devem fazer no tratamento.
Isso é o mesmo do que um em cada quatro pacientes, ou seja, uma quantidade absurda de gente.
Esta parte espantosa não entende a receita porque não consegue ler o texto, por falta de instrução suficiente, ou, quando consegue, não compreende o que o médico quis dizer.
Um exemplo: o médico escreve “ingerir um comprimido uma hora antes das principais refeições”. O paciente consegue ler, mas não compreende que precisa tomar a dose uma hora antes do almoço e uma hora antes do jantar.
Outro exemplo: a receita determina “tomar o antibiótico três vezes ao dia”.
O paciente lê o que está escrito mas não sabe (e não foi orientado para saber) que precisa existir um intervalo regular de oito horas entre cada dose.
Aí o cidadão toma um de manhãzinha, quando acorda, e vai mandar outro, por exemplo, lá para as sete e meia, oito da noite, no jantar.
E o terceiro três horas depois, antes de dormir.
Cumpriu o que foi pedido.
Tomou três por dia.
Mas o dotô se esqueceu de esclarecer o detalhe básico de que os três deveriam ser divididos com precisão entre as 24 horas do dia.
Há muitos casos de ginecologistas que não explicam às mulheres simples que, se elas deixarem de tomar a pílula anticoncepcional por alguns dias para economizar, algo comum em regiões pobres do País, a gravidez virá ali na frente.
E por aí vai.
Como um em cada quatro pacientes tem esse tipo de dificuldade de compreensão, não é difícil concluir que muitos deles pioram e correm sérios riscos de morte por causa de um problema muito simples de resolver.
Muitos devem ter efetivamente morrido por causa do problema.
Médicos, mais do que nunca, devem ler o que escreve para seus pacientes, na frente deles, e perguntar se entenderam plenamente o recado.
E eu, você, amado amigo, e todos nós, mais do que nunca, devemos conferir se o pai, a mãe, aquele tio ou qualquer pessoa amada com um pouco menos de instrução e recurso efetivamente entendeu - de forma exata, precisa - o que foi rabiscado pelo médico para ser feito.
Leia a receita para ele.
Confira todos os procedimentos com a pessoa querida.
É rápido.
Não custa nada.
E salva uma infinidade de vidas.













