31 Jul 06h01
Cleo Pires na Playboy. Com o genial Fernando Pessoa e tudo. E o Fábio Jr. ainda não queria a moça na revista…
O amado amigo da blogosfera colorida por acaso conhece este poema aqui?
Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Muitos conhecem, né?
Pois é: uma beleza.
E este aqui?
Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Outro espetáculo, não?
E ainda ainda este trecho?
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Duro mas belíssimo, não é verdade.
E, por último, este?
O que está escrito aqui nesta foto, a rena, no epicentro de tudo o que salta aos olhos, como já mostrou com didatismo este R7, é o seguinte:
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
É o belíssimo poema Tempo de Travessia.
De Fernando António Nogueira Pessoa.
O português Fernando Pessoa.
O gênio rigoroso e absoluto da raça que viveu apenas 47 anos mas fez desse escasso tempo o suficiente para se transformar em um dos maiores poetas e escritores da humanidade em todos os tempos.
Por sinal, tudo neste texto - ou quase tudo, como se percebe - é Fernando Pessoa.
Se o amado amigo ou a amada amiga ainda conhece pouco o trabalho do homem, sugiro a oportunidade para mergulhar nesta obra.
Cléo Pires tem bom gosto: os escritos de Fernando Pessoa são soberbos, carregados de linhas, traços e contornos invejáveis.
Meio assim como Cleo Pires.
E o Fábio Jr. ainda não queria deixar que a moça fosse para a Playboy...














