16 Set 12h33
Medo de perder Neymar não pode fazer Santos ficar menor
Está na cara de todos: os problemas criados pelo deslumbramento de Neymar bateu no limite do inaceitável e do insustentável.
Sem Robinho e Ganso na temporada, ele, aos 18 anos, está, como bem explicou meu confrade de R7 Cosme Rímoli em seu ótimo texto sobre o assunto, se achando o dono da cocada preta e da branca.
A última foi ficar magoadinho quando o técnico Dorival Jr., pago para isso, escolheu outro jogador para bater um pênalti depois de fracassos sucessivos da revelação em cobranças recentes.
Virou de costas enquanto o colega faz gol, não comemorou e ainda cospiu um monte de palavrão em direção ao comandante do time.
Talvez pense que sua vontade de fazer qualquer coisa basta para que qualquer coisa seja feita.
Como se fosse o dono da bola e do quintal careca da pelada, e não um atleta submetido a uma hierarquia profissional em um dos clubes mais vencedores e respeitados da história do futebol.
E, depois de tudo, em vez de procurar pessoalmente e olhar olho no olho o técnico que foi companheiro em outras pisadas na bola, vai para o canto protegido e artificial do Twitter para dizer tudo bem, professor, na paz, professor.
Prima-donnismo periférico.
Neymar se comporta como se acreditasse ter feito um favor, uma concessão, uma deferência suprema ao Santos por ter ficado no clube por mais um, dois, três anos no máximo (não creio nos cinco anos do contrato) e recusado uma proposta do clube inglês Chelsea.
Se comporta assim embora receba salário mensal de pelo menos R$ 500 mil e mais bônus assegurados no contrato.
Isso aos 18 anos – e no Brasil.
É sempre bom lembrar que o clube em questão é o Santos.
O Santos do espetacular Ataque dos Cem Gols, da década de 1920, com Araken Patusca, Feitiço, Camarão e Evangelista.
O Santos de Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Mengalvio, Coutinho, Pepe e um certo Edson.
O Santos de mais de 10 mil gols no lombo dos adversários em toda a sua história.
O Santos bicampeão da Copa Libertadores da América.
O Santos bicampeão do Mundo.
A operação de engenharia financeira para segurar Neymar no Santos e no Brasil foi bonita, corajosa e merece todos os elogios.
Neymar, sabemos todos, é um patrimônio valioso nestes tempos de pacas amarradas para que os clubes arrecadem dinheiro.
Mas nada disso deve congelar a disposição do presidente do Santos, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, o Laor, e do restante do comando do Santos no trabalho de preservar a dignidade do Peixe.
Sim, porque a questão maior, neste caso, é impedir que o Santos desabe de joelhos diante dos caprichos de Neymar, esse menino.
E que essa rendição jogue por terra todo um projeto promissor.
Mais uma dessas sem punição ou com reação disfarçada e os dirigentes do Peixe perdem autoridade até para espantar quero-quero no gramado da Vila Belmiro.
Não me parece que o técnico Dorival Jr. tenha sido negligente até aqui.
Ao contrário: tentou colaborar com a diretoria, engolindo um sapinho aqui, outro ali.
Em nome do equilíbrio do clube, Dorival ajudou o Peixe a encontrar saídas sem traumas irreversíveis.
Na maioria dos casos, falou pouco e levou a indisciplina de Neymar, de Madson e de outros jogadores para a tal “discussão interna”, às custa do desgaste de sua própria imagem.
Agora não dá mais.
Esta saída está desgastada.
Depois do que foi testemunhado e declarado, com muita propriedade, pelo técnico do Atlético-GO, René Simões, não dá mais para a diretoria do Santos deixar de dar aval ao técnico para que todos tentem, de uma vez por todas, colocar esse menino nos eixos.
O “estamos todos criando um monstro” de Simões não poderia ter sido dito em momento mais oportuno.
Fala-se em pedir ao técnico da Seleção, Mano Menezes, para ter uma conversa com Neymar.
Se a intenção de trazer uma “autoridade externa” para ajudar for verdadeira, ela revela a dimensão do problema.
Dorival um dia irá embora.
Outros técnicos chegarão e depois irão.
É do jogo.
Não se trata do maniqueísmo de ficar ao lado de um ou de outro.
Nem da posição inocente de que clube jamais vai apoiar um técnico contra um jogador que é seu patrimônio.
Uma coisa não impede necessariamente a outra.
Mesmo porque a questão do Santos é outra.
É a seguinte: o limite para dar um basta e não deixar esse deslumbramento acabar com um projeto raro de craque chegou.
Laor e seus parceiros devem ter coragem para apertar o cinto.
Ou então Dorival Jr. cai daqui a pouco e Neymar vira suco logo depois.
O medo de perder Neymar não pode fazer o Santos ficar menor.













