3 Out 12h49
A tensão dos candidatos vips no final de semana da eleição
Fiz esta reportagem no sábado (2) para o portal R7.
Quem leu gostou e se divertiu bastante com o lado humano dessas pessoas públicas.
Os amados amigos da blogosfera colorida que ainda não leram podem me dar, agora, a honra.
Aqui está ela. Abraço.
Celebridades candidatas vivem expectativa horas antes da eleição
Elas contam como estão enfrentando a tensão e o frio na barriga neste fim de semana em que podem se tornar parlamentares
Eduardo Marini, do R7
Reginaldo Rossi (foto acima), o Rei do Brega, Reiginaldo para os fãs, o autor de algumas das mais perfeitas peças do cancioneiro popular nativo, entre elas a antológica Garçom, interrompe a soneca na varanda de seu apartamento de frente para o mar da pernambucana Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife, para atender a reportagem do R7.
Gentil e sincero como sempre, abre o jogo.
- Bicho, bicho, vou te confessar uma coisa: tô com medo. Mas é aquele medo que assusta e ao mesmo tempo empurra para frente.
De uma hora para a outra você tem uma caneta na mão, podendo fazer leis para mudar a vida das pessoas. Isso é muito poder.
Esses doidões aí que são candidatos a qualquer custo deveriam pensar nisso...
Mas você, Reiginaldo, tem medo do quê mesmo, bicho?
- Olhe, eu não temo perder o senso ético nem virar corrupto. Isso nunca. Não aceitaria bola ou corrupção. O que me assusta é a possibilidade de me enrolarem naquele jogo malicioso que rola nas assembleias. De repente, eu, marreco novo, sem entender direito o regimento e as regras da coisa, colaborar para projetos e interesses que não são os melhores. Esse é meu único - e grande - medo, entende, bicho?
Claro, bicho.
O R7 perguntou para personalidades candidatas a algum cargo na eleição deste domingo (3) como elas se sentem e se comportam nestes últimos momentos de campanha.
O que elas fazem e como aliviam a pressão nessas horas decisivas e tensas que antecedem a votação que poderá transformá-las em representantes dos interesses de um povo?
Reiginaldo, candidato a deputado estadual pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista) em Pernambuco, é dos mais calmos.
O ronco forte na soneca, testemunhado pelo amigo que atendeu o telefone, comprova seu estado de espírito.
- Olhe, bicho, sinceramente: não deixo de dormir por essas coisas não. Depois de tanto movimento de campanha, chegou a hora de descansar, de voltar à rotina. Neste sábado eu vou comer uma calabresa com arroz e feijão aqui em casa mesmo, com a Celeide, minha mulher. No domingão, vou votar antes do almoço, comer um caranguejo e depois tirar um ronco. Se tudo der certo e Deus me permitir ser eleito, talvez eu tome umas quatro ou cinco doses de uísque com alguns amigos próximos para comemorar. Nem o Rei do Brega é de ferro...
Ex-professor particular de matemática e de física para alunos do primeiro grau, ensino fundamental completo, Reiginaldo, o criador de O Pão e de A Raposa e as Uvas, deseja trabalhar para a melhoria da educação pública em seu Estado caso seja eleito.
- O PDT tem uma tradição de ser o partido da educação. E isso é o que eu quero. Vou legislar para criar projetos de educação com arte e esporte nas escolas públicas pernambucanas. Nós temos uma molecada muito criativa e carente. E eu acho que essa turma só se livra dessas tentações marginais todas com esse trio: educação, esporte e arte.
O intérprete impagável das não menos impagáveis Tô Doidão e Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme faz de oito a dez shows por mês (“o Chitãozinho, o Zezé e esses amigos deles falam em 20, 30 shows mensais, mas isso é meio cascata, meio marketing”).
Acha que, na Assembleia Legislativa, poderá segurar oito mensais, “dois por semana”.
Reiginaldo começou a campanha, olhem só, mandando uma carta para avisar (“mandou uma carta pra me avisar/deixou em pedaços o meu coraçãão”) boa parte do eleitorado que era candidato a deputado estadual.
E que desta vez, ao contrário das ocasiões em que tentou ser vereador, iria fazer uma campanha mais séria e com reais intenções de resultar em uma vaga.
Mas o que apontam, afinal, os cálculos de sua equipe? Eleição?
- Olha bicho, é o seguinte: apesar do trabalho muito dedicado e profissional da equipe, nós não tivemos os recursos necessários para divulgar a candidatura para o mínimo de pessoas que pretendíamos. Se isso tivesse sido possível, posso te afirmar que poderia ter 300 mil votos. Como não foi, não consigo antecipar com precisão. O partido calcula que posso ser eleito com 30 mil. Se forem 150 mil, ficarei feliz. Se forem 50 mil, também. Se forem 30 mil, também. Se for menos e não der, também. Vou agradecer a Deus e continuar na luta do mesmo jeito.
Nada como a experiência. Na ala mais jovem, pop e funkeira do partido das celê reina a ansiedade movida e regada a muito barulho.
A dançarina e (vá lá...) cantora Suellen Aline Mendes Silva, a Mulher Pera, massa compacta e curvilínea de 23 anos, candidata a deputada federal no Estado de São Paulo pelo nanoscópico PTN (Partido Trabalhista Nacional), é a própria ansiedade com dois braços, duas pernas e uma cabeleira de responsa domada a chapinha.
Na noite de sexta-feira (1º), Suellen Pera se preparava para levantar, tremer e balangar o popozinho em um baile funk em Santo Amaro, região radical sul da cidade de São Paulo considerada “a maior cidade nordestina do Brasil”, com cerca de quatro milhões de habitantes vindos do Nordeste.
Minutos antes de sair de casa, ela aperta o laço cruzado do espartilho verde cítrico, espreme um pouco mais a cintura já sem qualquer liberdade e solta o ar dos pulmões para dar mais força à voz fina de talkie de boneca.
- Ai, querido, não vejo a hora de chegar logo esse domingo da eleição. É tanta responsabilidade, tanta... Eu dancei desde menina, mas essa coisa de política é diferente...
Suellen Pera é uma moça simpática e de atitudes educadas.
Uma vitória para uma menina pobre, nascida em um bairro pobre de Guaratinguetá, no vale paulista do rio Paraíba, que, assim como a mãe, levou muita pancada do pai manguaceiro até o elemento tomar outro rumo na vida.
Criada pelos avós maternos, só completou o ensino fundamental (“não era só ler e escrever como a Justiça Eleitoral colocou no meu registro. Eu sei mais um pouco do que isso”, defende-se”).
Começou a trabalhar ainda adolescente, “dimenor”. Foi babá, empregada, atendente. E um pouco mais tarde, em São Paulo, dançarina de forró e axé em “bicos” em programas de TV.
Nessas idas e vindas conheceu o companheiro com quem vive até hoje. Quando o partido a convidou a ser candidata, partiu dele o maior incentivo para que ela aceitasse o desafio.
Criadas por ela ou não, Suellen Pera tem propostas curiosas.
Como apanhou muito do pai e, sobretudo, o viu agredir sua mãe, ela deseja, por exemplo, esquentar ainda mais a chapa da Lei da Maria da Penha, que pune essa covardália que bate em mulher.
- Quero alterar essa lei para que o cabra fique preso direto, sem fiança ou habeas corpus, se for provado, por exame de corpo delito ou qualquer outra coisa, que ele correu mão na mulher dele. Acho o cara bater, pagar e sair muito leve.
Quer também baixar de 18 para 16 anos a idade mínima para o jovem tirar carteira de motorista e frequentar motel.
- Se eles votam com 16 anos, porque também não podem conduzir um carro e namorar em paz?
Com essas cartas na manga, Suellen Pera acredita que terá apoio dos jovens.
E não é modesta quando é incentivada a chutar quantos votos terá.
- Uns 200 mil. Ou maaaiisss (diz prolongando o aaaa...).
E, em seguida, pergunta ao repórter:
- Fala sério: você não achou minhas propostas legais?
O repórter responde que, sinceramente, achou. Sobretudo a relacionada à Maria da Penha.
Mas legislar não é fácil. Ainda mais no Congresso Nacional...
- Mas olhe: eu tenho uma equipe boa, que vai me ajudar muito. Se eu for eleita, vou largar a fruta de lado por um tempo e estudar muito, começando por esses meses antes da posse, para não fazer feio.
Largar a fruta?
- É, a Pera.
Ah, bom.
No Rio de Janeiro a candidata a deputada estadual pelo PSH (Partido Humanista da Solidariedade) Renata Frisson, a Mulher Melão, apelido inspirado numa abundância muito mais hiper-dimensionada do que propriamente doce, não garante que irá largar a fruta.
Em seu último dia de campanha, fez corpo-a-corpo (até aonde essa expressão pode sugerir um ato político, claro) em Mesquita e em Nova Iguaçu, duas cidades da Baixada Fluminense com população majoritariamente de baixa renda.
Renata Melão acordou cedo para percorrer ruas e conquistar eleitores indecisos.
Optou por visitar comunidades carentes.
Diz pretender criar projetos relacionados a saneamento básico, saúde e educação. E, sobretudo, para tirar crianças do tráfico de drogas.
Ao que parece, o discurso empolado do campanhês, essas coisas bonitas para essas ocasiões nobres, foi bem afiadinho:
- Eu não aguentava mais chegar ver aquelas crianças de dez anos usando drogas, envolvidas com o crime organizado, andando armadas, viciadas em crack. Tem que dar um basta nisso ou seremos reféns da nossa própria sociedade.
Outro com o discurso bem alinhavado é o estilista Ronaldo Ésper, 66 anos, paulista de Jacareí, estilista, R$ 347,5 mil de patrimônio declarado à Justiça Eleitoral, ensino médio completo, candidato a deputado federal pelo PTC (Partido Trabalhista Cristão).
Em boa entrevista feita pela repórter do R7 Marina Novaes, Esper disse querer os votos das senhorinhas que são donas de casa. É uma clara cantada de quem espera herdar ao menos parte dos votos do também estilista Clodovil Hernandes, um dos recordistas de votos da última eleição, morto em março de 2009.
Disse também ter propostas de projetos para reduzir o máximo da participação parlamentar a dois mandatos, beneficiar empregadas domésticas e incentivar a moda brasileira no mundo.
Ésper disse que não irá acompanhar a apuração.
- Vou votar tarde para não pegar fila. No restante do tempo, ficarei trancado em casa. Ouvindo Beethoven e lendo a biografia do escravo Antínuo, um dos amantes do imperador romano Adriano (76-138).
Faz sentido, Ésper, faz sentido.
Em janeiro de 2007, Ronaldo Ésper foi detido em flagrante no Cemitério do Araçá, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, acusado de tentar roubar um par de vasos do lugar.
No horário eleitoral gratuito, ele chegou a ironizar o episódio quebrando um vaso.
O que ele faria se alguém tentasse, por exemplo, dar-lhe uma peça dessas de presente quando fosse votar?
- Depende. Se fosse um daqueles vagabundos e horrorosos eu quebraria na hora. Mas se for um bonito, tipo Medici, eu levaria correndo para a minha coleção.
Faz sentido, Ésper, faz sentido.
Colaborou Evelyn Moraes, do R7, no Rio de Janeiro.















