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5 Out 06h27

A ironia que une a letrinha de Tiririca ao duro e eleito delegado Protógenes Queiroz

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tiririca 300 230 A ironia que une a letrinha de Tiririca ao duro e eleito delegado Protógenes Queiroz

Foto: Eduardo Marini

A realidade muitas vezes prega peças de ironia tão refinadas e supremas que não seriam capazes de surgir na imaginação dos melhores criadores de ficção.

Vejam só.

Como sabemos, o cearense de Itapipoca Francisco Everardo da Silva, o palhaço Tiririca, 45 anos, auto-proclamado e nominado Abestado, criador do slogan Pior Do Que Tá Não Fica e responsável intelectual por criações estéticas da estirpe de Florentina e de Eu Sou Chifrudo, foi eleito deputado federal no Estado de São Paulo, pelo Partido da República, o PR, com 1 milhão, 353 mil e 820 votos.

Um feito, definitivamente.

Como também sabemos, o sistema eleitoral de deputados é proporcional, por coeficiente eleitoral.

Por este sistema, cada vez que um partido ou coligação (caso de Tiririca) atinge um coeficiente eleitoral, ele ganha o direito de mandar um deputado federal para Brasília ou um estadual para a assembleia legislativa de seu estado.

O coeficiente eleitoral é um número, um índice que a gente consegue dividindo o total de votos válidos para deputado (aqueles dados a um candidato ou a uma legenda de partido) pelo número de vagas para deputado federal que cada estado possui.

No caso dos deputados estaduais, o coeficiente é conseguido pela divisão do total de votos válidos nesta categoria pelo número de vagas existentes na assembleia legislativa daquele estado.

No caso da eleição para deputado federal em 2010 no Estado de São Paulo, a que Tiririca participou como candidato, o coeficiente eleitoral para eleger um deputado ficou em 300 mil votos.

Como o Abestado teve um contêiner de mais de 1,35 milhão de votos, ele “se” elegeu e ainda “deu” mais 900 mil dos seus votos “que sobraram” para ajudar a eleger outros três candidatos da coligação que abriga o seu partido e outros maiores, como PT e PC do B.

Mais precisamente, Tiririca, o Abestado, ajudou a levar para Brasília Otoniel Lima, do PRB, Vanderlei Siraque, do PT, e Protógenes Queiroz, do PCdoB.

Aqui entra a ironia fina e suprema desta história.

Vanderlei Siraque é professor e doutorando em Direito.

Homem rigoroso com as leis e o correto, portanto.

E Protógenes Queiroz é delegado da Polícia Federal.

 A ironia que une a letrinha de Tiririca ao duro e eleito delegado Protógenes Queiroz                        Foto: Divulgação - Blog do Protógenes

Homem incorruptível, duro, responsável pelas mais rigorosas operações da PF, entre elas as que prenderam contrabandistas e o colocaram na cadeia, por alguns dias e vezes, o poderoso banqueiro Daniel Dantas, acusado de falcatruas e atos de corrupção.

Queiroz, como testemunhei em entrevistas, é duro na queda, verdadeiramente cheio de princípios, o homem da Operação Satiagraha.

Um cidadão que, enfim, não negocia com o erro e a ilegalidade.

Só que Tiririca, agora, é investigado pela possibilidade de ter entregue à Justiça Federal um falso atestado de que sabe ler e escrever.

A perícia e o Ministério Público viram sinais de fraude no atestado que Tiririca levou já pronto para a inscrição na Justiça Eleitoral.

Há, por exemplo, três tipos diferentes de letra S.

Peritos que analisaram o documento acreditam que ele tenha sido escrito por alguém mais letrado que tentou piorar a letra para sugerir que ela era de alguém alfabetizado, mas com pouca instrução.

Tiririca terá dez dias para provar à Justiça Eleitoral que saber ler e escrever.

Se este certificado for falso, o Abestado tem chances grandes e concretas de ter seus votos anulados, de não ser mais considerado eleito e de receber, como o partido, um processo e uma multa pesada por falsificação ideológica.

E, se os votos forem anulados, adeus eleição e mandato de Tiririca – e de Otoniel Lima, de Vanderlei Siraque e do duro e ético delegado Protógenes Queiroz.

Torcer para que o atestado seja verdadeiro todos podem fazer, é claro.

Agora, imaginando a possibilidade de ser falso, o que farão Lima e, sobretudo, Siraque e Queiroz?

Pedirão aos céus para isso não seja descoberto?

Ou aos homens da Terra para que ignorem a lei e mantenham Tiririca, dando um jeitinho que, literalmente a rigor, eles jamais deram?

Não é uma tremenda sinuca, uma suprema ironia do destino?

Este poderá ser o dilema maior da vida do correto e competente Protógenes Queiroz.

 

Acompanhe as eleições no R7.

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