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31 Out 20h07

Dilma Rousseff vence campanha medíocre e oposição sem discurso

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A pior, a mais despolitizada, a mais inócua, a mais sem graça, a mais irrelevante campanha política da história recente do país chegou, felizmente, ao fim.

Do jeito que foi feita, o horário eleitoral gratuito pode ser enterrado e acabar.

Do jeito que ela ficou, o noticiário tradicional cumpre, de longe, este papel com maior dignidade, seriedade e estatura.

Não sou a favor do final do horário eleitoral gratuito.

Sou a favor do final deste horário eleitoral gratuito, um lixo, uma coisa tétrica, por culpa exclusiva da despolitização promovida pelos principais partidos e políticos deste país.

Mas, enfim, temos (ufa!) um presidente.

No caso, uma mulher presidente: Dilma Rousseff.

dilma marini Dilma Rousseff vence campanha medíocre e oposição sem discurso

Foto: Agência Brasil

É hora e momento de, sinceramente, a sociedade se sentir aliviada.

E este alívio não corresponde ao olhar supostamente indiferente dos incautos.

Corresponde à presunção dos burros, à implosão das ideias dos naftalinados, do olhar antigo, atrasado e saudoso, de grosserias de uma gente que quer ver este país atolado como aquele sapato castigado que esgarçou ao tamanho do calo.

Essa gente que é – e sempre foi – menor do que o calo que tem.

O país tem 98 milhões de caras na tal da classe C.

Feitas as contas, é metade da tigrada pátria.

Confesso que mesmo eu, filho de uma professora estadual com um cara que não completou a sexta série, também não estava acostumado com isso.

Mas o país mudou – e, graças ao Divino, para muito melhor.

E eis que eu abro o MSN e lá vejo uma jornalista, destas que representariam tipicamente a classe média branca paulista e paulistana, urrar da seguinte forma:

- Eu odeio a classe C brasileira.

Como assim?

Chamaram-me, na deliciosa blogosfera colorida deste R7, de cristão, de ateu, de agnóstico, de corintiano, de rubro-negro, de nazista, de carioca, de fluminense (o time e o Estado), de esquerdista, de direitista, de serrista, de lulista, de palmeirense, de vegetariano, de pansexual, de homossexual, de tarado, de defensor do bispo Edir Macedo, de zen-budista, de branco, de preto, de mulato, de asiático, de espião americano, de europeu elitista de sobrenome Marini, do escambau a quatro.

Acertaram os que me rotularam de rubro-negro.

E os que me taxaram de pai da Isadora, minha filhota de sete anos, o meu encantamento.

O resto eu não discuto, não coloco a pipocar em praça pública, não estabeleço em discussão.

Mesmo porque quero refletir agora sobre alguns pontos que considero equívocos da campanha derrotada sem que vocês me considerem um cretino a cada vírgula.

Vamos, pois:

* A oposição não tinha discurso para combater o feel good factor, o fator de se sentir bem O brasileiro médio deu uma aula de recado e de reivindicação. Tripudiou sobre os ólogos que o analisavam nos canais de assinatura dos riscos e, no final, disse claramente: eu voto com o limite do meu bolso (ou com a falta dele). O que, diga-se, era a análise mais óbvia a ser feita. Quem decide a eleição, não esqueçamos, é quem canta É o Amor, do Zezé di Camargo e do Luciano, e a tal da Meteoro da Paixão, daquele bonito de quem esqueci o nome, no Largo do Arouche, aquele centro infecto da cachaça e do picadinho na cidade de São Paulo. Seu voto vale um. O dele também.

* A oposição ignorou que, neste Brasil diferente, há 100 milhões de pessoas interessadas no fator de se sentir bem – Olhe, são exatamente 98,3 milhões de pessoas. Vamos arredondar para 100 milhões. Entre mortos e feridos, é mais do que a metade do que somos. Uma galerinha, não? Pois bem: quem esteve à direita ou à esquerda do tal dito populismo de resultados, nesta eleição, simplesmente não tinha e nem formulou discurso para essa gente.

* A situação falava: meu time é esse, meu técnico é Lula. E a oposição? – Queiram bem ou queiram mal, a Dilma cabia defender José Dirceu, Antônio Palocci e, em última instância, Lula. A José Serra coube dizer que Lula foi bom e ele seria o pós-bom, que Lula foi legal e ele seria o pós-legal, que Lula foi bacana e ele seria o pós-bacana... Bom... E..., perguntar jamais ofendeu: cadê o FHC?

* Questão de ótica do povo – Por que vale a classe AB escolher com o bolso os interesses e os planos para o futuro, como sempre foi, e não vale para a CDEFGHIJKLMN...?

* Aborto, religiosidade, falta de discurso e esquizofrenia – Não sei - e jamais quero saber - quantos abortos Serra e seus envolvidos um dia fizeram – isso se fizeram. Mas essa elite branca uspiana, toda assim lindinha, naquelas camisas com aqueles escudões no peito, sabe como? Toda ela clamando por esse monte de “engole criancinha” e esse “vai com Deus” de água benta inconfiável fez efeito, como era de se imaginar, até a página oito. O Brasil é cristão, majoritariamente refratário ao aborto por motivos individuais, filosóficos e religiosos mas... não é a Mooca.

* Privatização, falta de discurso e esquizofrenia – Foi um erro absurdo tentar competir com Dilma, Lula e sua turma no quesito “quem privatiza mais”. Era óbvio que a gasolina de quem fez, recentemente, a maior capitalização do planeta, transformando a Petrobrás numa empresa ainda mais estatal, era maior. Vista nos debates, a situação ficou esquizofrênica.

* O velho e inócuo papo do currículo – Dizer que Serra tem melhor currículo do que Dilma não ganha um voto decisivo sequer. Quem sabe disso e considera isso fundamental vota em Serra desde quarenta minutos antes do nada, o marco definitivo do surgimento do Fla-Flu na definição do gênio Nelson Rodrigues. Agora, quem sabe disso e não considera isso fundamental e decisivo para o seu voto... bom, esse não considera isso fundamental... Tinha, sei lá, três ou quatro prioridades a falar mais alto em sua mente do que esta. E votou em Dilma. Mais uma vez, a solução seria... ter proposta. Proposta que cale o bolso, a vida, a perspectiva do eleitor.

Resumo da ópera: Dona Márcia, misto de santa e trabalhadora que cuida da minha vida há quatro, talvez cinco anos, fez-me, no final de tarde desta sexta-feira (29), poucas horas antes da eleição, a seguinte pergunta:

- Seu Eduardo, que garantia me deu esse moço, o Serra, durante toda a sua campanha, para eu trocar com segurança o pombo que o Lula já colocou na minha mão pelo que ele me oferece voando?

E eu ainda achando que quem pensa sou eu...

Pois é isso, José Serra, é isso...

Pois é isso, PSDB, é isso...

Pois é isso, oposição, é isso...

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