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Posts de 29/11/2010

29 Nov 05h59

Entrega não existe. Faz parte do modelo. O problema é que não contaram para você…

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flu photocamera Entrega não existe. Faz parte do modelo. O problema é que não contaram para você... Photocamera

Demorei mas, enfim, trucidei um arremedo de pensamento sobre essa polêmica do entrega-entrega que invadiu discussões de comentaristas e rodadas de cerveja de torcedores de maneira intensa ao final deste Brasileirão.

Vamos lá:

* Ao contrário de meu vigilante confrade Cosme Rímoli, não acredito em entrega-entrega. Acho isso uma tolice, uma análise moldada por um moralismo da década de 1910.

* Acho que os caras perdem, mas perdem porque não estão mobilizados para ganhar e, no modelo deste campeonato, é preciso entender porque eles não estão mobilizados para se matar como guerreiros espartanos até ganhar, ainda que isso violente o ambiente do clube e da torcida que eles defendem. Quem acredita nisso é inocente – o que, absolutamente, não significa que esses profissionais entreguem qualquer parada.

* Isso é uma tolice esculpida em suor, diria o tricolor prestes a ser campeão (estivesse ele entre nós) Nelson Rodrigues.

* Vejamos, pois:

* O Vasco não perdeu para o Corinthians para ferrar o Fluminense. Paulistas, aliás, não conseguem dimensionar que, no Rio, a rivalidade, quando não envolve Flamengo contra Vasco ou Flamengo contra Botafogo, é bem mais elegante, cosmopolita, domada. Fora essas duas rivalidades realmente encarniçadas, ninguém morre assim para efe-três-pontinhos um ao outro. Não é automático assim – e isso, devo dizer, acho isso uma maravilha, uma ventura, uma elegância. O texto sublime do João Máximo saudando a primeiro rasante de Robinho no Maraca. O Solo Universal.

* O Vasco simplesmente perdeu do Timão. Perdeu porque é ruim mesmo, muito pior do que o Corinthians, o Cruzeiro, o Fluminense, o Grêmio, o Botafogo, o Atletico-PR... E sobretudo, muito, mas muito pior do que qualquer um desses clubes desde que qualquer um desses esteja devidamente motivado para ganhar algo. Mesmo porque, na pasta amorfa em que se esconde o futebol brasileiro atual, qualquer esforço extra vira fatalmente determinante para uma vitória.

* O Flamengo não perdeu do Cruzeiro porque pretendeu efe-três-pontinhos o Fluminense. Ou, ainda menos, o Timão. Longe disso. Muito longe disso. Perdeu porque é um time vergonhoso, horroroso, indigno de vestir a camisa do atual campeão. Sobre isso nem preciso gastar teclas aqui. Falo sobre essa baba no post anterior.

* No final de 2009, fui ver Fla e Corinthians no Brinco de Ouro da Princesa (acho esse nome sensacional, lindo e poético, a despeito da macheza futebolística primitiva que o acha coisa de vê-três-pontinhos).

* E o que eu vi em Campinas? Pois tá, o Ronaldão Tonelada não queria mesmo metê gol no Fla naquele jogo. Mas ele saiu logo. Uma cacetada de interesse com o Coringão àquela altura. Uma cacetada de dilema pessoal àquela altura.  Mas... de resto, os camaradas que ficaram lá, os caras jogaram para frente. Aí o cidadão vai me perguntar: mas jogaram assim assim, né? Não tinham, assim, um graaande objetivo. Claro. Evidente. Notório. Óbeveo. Ou você acha que motivação é uma coisa prestidigitalizada, programável, contrária aos princípios humanos? Craro que não. Esse limite, essa pulsão subjetiva, isso não se programa em atividade alguma. Futebol é sangue, é vida, é motivação intrínseca, é briga com a patroa (mesmo porque eu já tive um monte destas últimas por causa deste cidadão, o fut).

* O Palmeiras até começou jogando bem contra o Fluminense. O pobrema é que um time aos cacos, desestabilizado e sem rumo como o Verdão vai jogar no máximo 30, 40, 50 minutos de boa performance. Do outro lado, ao contrário, há um time querendo ser campeão. Com o fio da faca no dente. E aí acontece o seguinte: como todos os times brasileiros hoje são umas babas que praticamente se equivalem, qualquer motivação decisiva como essa gera uma decisão favorável a quem está querendo. Elementar assim.

* Um monte de são-paulino amigo pediu, nos últimos dias, a segunda cerva para me perguntar: “pô, você que escreve praquelescaralá, fala sério: o Tricolor não entregou geral não?”

* Respondo: “não, tolinho. Isso é pressuposto do campeonato que o meu mestre Juca Kfouri considera sensacional, embora emoção seja outra coisa. Quanta rodada final de campeonato de ponto corrido europeu você viu só pelos gols, os caras sendo campeões, os outros perdendo por falta de estímulo e você aqui, sem nem sequer saber, achando que aquela suposta isonomia nos salvará, com a justiça destilada e nunca mais passível de ser alcançada de uma Revolução Francesa? Um monte.”

* A rigor, quase todos. Essa frouxidão que estamos vendo agora é parte intrínseca deste tipo de campeonato.

* O que, absolutamente, não significa que ele até não seja um modelo apropriado para esse major que é Brasileirão.

* Cá para mim, nas minhas vísceras suspeitas de bactérias, tenho em mente que tá legal, eu aceito o argumento, Deus Paulinho da Viola continua Deus mas... emoção é outra coisa.

* Em todo caso, todos nós, neófitos desta disputa, precisamos aceitar como parte dela o fato de que os times possam desistir de escalar suas forças de acordo com a conveniência.

* E também que tudo tem limite: atletas não se matam em um jogo quando sua torcida não quer, quando isso não é interessante e sobretudo, quando ao apito final restar, como diria Carlos Eduardo Samico, o comunista mais elegante que conheci, como única opção ficar sentado, olhando para alto com aquela cara de cachorro...

* cê-três-pontinhos no céu...

As melhores reportagens (e os melhores textos) da imprensa brasileira sofre Esporte você encontra aqui. No R7.

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