29 Jan 13h18
Seja gentil com idoso e gente com limitação física. Parece inacreditável, mas o tempo será cruel também com você
No último dia 14 de janeiro, internei-me no Hospital Nove de Julho, em São Paulo, para trocar uma hérnia umbilical que crescia perigosamente por nove pontos externos, alguns outros internos e uns bons períodos de dores na barriga.
Graças ao Divino e ao talento do cirurgião e amigo querido Carlos Eduardo Pizani, chefe do Departamento de Cirurgias Gástricas do hospital, a cirurgia foi um sucesso absoluto.
Cheguei às dez da matina de uma sexta-feira, com uma hora de atraso, é preciso confessar.
O bisturi cantou no início da tarde do mesmo dia.
Recebi alta no dia seguinte, sábado (15) e, horas depois, no mesmo dia, batucava um texto para este nosso canto da blogosfera colorida.
Infelizmente, um texto sobre a tragédia que arrasou boa parte da Serra Fluminense e tirou a vida de amigos numa região bem próxima a minha Três Rios natal.
Como mexeram um pouco lá dentro da barriga, para retirar tecidos que atrapalhavam a contenção da hérnia, a coisa doía.
Às vezes, doía bastante.
Estou liberado para escrever e trabalhar, mas ainda preciso usar uma cinta abdominal.
Nas próximas duas semanas, ainda não poderei andar muito a pé, pegar peso, correr ou fazer coisas que produzam impacto na região do abdomen.
Conto tudo isso para confessar que abusei da sorte nos primeiros dias de recuperação.
Fiz um pouco de tudo o que listei acima - e outras coisas inconfessáveis.
Inconfessáveis sobretudo para o Dr. Pizani e sua turma, que me dariam um puxão de orelhas e me deixariam de castigo justificado por desafio à irresponsabilidade.
Uma delas foi cometer a pachorra de pegar o carro e dirigir até um hipermercado para fazer compras – sem pegar os pesos, naturalmente, porque até o maluco aqui identifica alguns limites e tem amor pela integridade física.
Disfarcei bem o curativo e os pontos com a faixa e uma camisa larga, afrouxei o cinto, coloquei um sapato leve e confortável de pelica... E fui.
Evidentemente, eu servia para nada ou quase isso.
Não esticava o braço, não empurrava o carrinho cheio, não escorava os produtos mais pesados, não abaixava e nem esticava o corpo para nada.
Estava eu ali, em público, na rotina insensível e sem muito papinho de um hipermercado, um homem de 44 anos e 1,90 metro, que sempre se reconheceu saudável, mas agora enfrentava limitações próprias de um senhor de 75, 80 ou 85 anos sem o melhor de sua saúde.
E pior: enfrentando limitações sem contar para ninguém – ou para quase ninguém.
Às vezes por não vir ao caso. Outras – a maior parte delas – por orgulho besta mesmo.
E qual foi o saldo dessa jornada irresponsável?
Olhem, como nada é só bom ou só ruim, como nada é só bônus ou só ônus, foi o dia em que levei as mais profundas e eficientes lições pessoais de solidariedade e de convivência humana em toda a minha desimportante vidinha.
Para não ficar muito tempo de pé, procurei um daqueles caixas para idosos, gestantes e pessoas com necessidades especiais.
Hummm... Os olhares, vindo de todos os lados, me fuzilaram.
O que esse girafão faz na fila de senhores e grávidas?
Saia justa no auge, tratei de explicar ao caixa o motivo da visita ao ambiente.
Contra a vontade, confesso, levantei uma pequena parte da camisa para mostrar um pedaço da faixa abdominal, como prova de que falava a verdade.
Não creio que alguém pensaria que eu colocaria uma faixa abdominal exclusivamente para descolar um lugar na fila menos crowdeada dos idosos.
Felizmente, o funcionário, simpático, deu-me apoio.
Algumas pessoas atrás de mim pareceram relaxar os ombros em sinal de entendimento.
Mas isso não diminuiu meu desconforto.
Paga a conta, era a hora de colocar toda aquela tralha no porta-malas do carro.
Caixas de leite, sacos de arroz e feijão, carnes pesadas?
Eu?
Impossível.
Procurei um dos rapazes na saída lotada de gente e pedi ajuda. Alertei que não poderia pegar peso sem dar maiores explicações.
Hummm....
Fui novamente fuzilado com olhares e sorrisinhos amarelos.
Por que essa besta aí, de camisa larga e cara e bolacha, não pode levantar uma caixinha de leite por alguns segundos?
Bom, o rapaz ajudou-me e fez o serviço no porta-malas.
Para chegar em casa, preciso pegar uma das rodovias estaduais que partem de São Paulo.
Naquele dia eu, obviamente, dirigia bem devagar.
Meu lado Ayrton Senna estava limitado.
Se eu não deveria sequer estar ali ao volante, imagine uma pilotagem arrojada, lotada de freadas e acelerações?
Resultado: o que tomei de farol alto, buzinada e gritos não está neste nem em qualquer outro gibi.
Exatamente como uma parte inacreditável de pessoas faz com motoristas mais velhos ou idosos que enfrentam o trânsito com a cautela que a idade e a limitação de reflexos pedem.
Cheguei inteiro com Isadora, minha filhota de oito anos.
Para meu alívio, ela e Luan, seu irmão, trataram de descarregar o carro.
Sobrou-me, naquela noite, uma dor acima da média na região da cirurgia.
Mas não o arrependimento.
Porque junto a ela veio a seguinte reflexão: respeite a qualquer custo as limitações das pessoas doentes ou mais velhas.
E, sempre que possível, ajude-as a resolver seus problemas em ambiente público, ainda que isso custe a você um pequeno tempo ou esforço.
Você pode realmente não acreditar (como eu, em certo momento da vida e do meu vigor de jovem, não acreditei), mas o tempo, a exemplo do que ocorre com todo mundo, vencerá a batalha e será cruel também com você.
Anote aí.
Dr. Pizani e sua turma modificaram o corpo.
A experiência no hipermercado modificou a cabeça.
Sinceramente, não sei qual foi o ganho maior.
A melhor cobertura sobre os principais assuntos você encontra aqui. No R7.













