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2 Fev 16h41

Gilberto Braga de Vale Tudo vem fazendo mal ao Gilberto Braga de Insensato Coração

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 vale tudo 1 odete Gilberto Braga de Vale Tudo vem fazendo mal ao Gilberto Braga de Insensato Coração

                                               Divulgação/Rede Globo

A Globo apresenta atualmente o início da trama Insensato Coração, sua nova novela das nove, de autoria de Gilberto Braga e Ricardo Linhares.

O Viva, canal de assinatura dedicado a reprises da produção global, exibe no início das madrugadas, às 00h45h, com repetição do capítulo horas depois, ao meio-dia, Vale Tudo, a obra-prima de Gilberto Braga em parceria com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, exibida pelo canal do Jardim Botânico entre maio de 1988 e janeiro de 1989.

Qual insensato coração mandou para a insensata mente correspondente a ideia de colocar esses dois Bragas no ar ao mesmo tempo?

Especulo a respeito disso porque a comparação inevitável vem fazendo um mal danado ao Braga atual.

De um lado, o do canal fechado, os shows absolutos de bola de Gloria Pires como a malvada Maria de Fátima, de Regina Duarte como a digna Raquel e Renata Sorrah, excelente e marcante na pele da dependente de álcool Heleninha.

E, sobretudo, da dama de ouro Beatriz Segall, elegância em estado puro, num dos mais deslumbrantes papéis encenados na teledramaturgia brasileira, o da impagável vilã Odete Roitman, a mais adorável racista, preconceituosa, xenófoba e inimiga de pobre que a televisão brasileira encenou.

A afirmação parece contraditória, mas quem a acompanhou – e agora a acompanha – sabe bem o que digo.

Esse quarteto de ouro liderava um elenco admirável, com peças do quilate de Antônio Fagundes, Carlos Alberto Riccelli, Daniel Filho, Marcos Palmeira, Lídia Brondi, Cássia Kiss, Cássio Gabus Mendes, Lília Cabral, Nathália Timberg, Pedro Paulo Rangel, Cláudio Corrêa e Castro, Sérgio  Mamberti...

Um legítimo dream team, uma Seleção Brasileira de 1958, 1970 ou 1982, devidamente liderada pela direção segura dos técnicos Dênis Carvalho e Ricardo Waddington.

Todos eles executando à quase perfeição as deliciosas sequências de diálogos criadas pelo excelente Braga e por seus igualmente ótimos parceiros de texto.

Um vale-tudo de falas repletas de ironia, modernas, desafiadoras e provocadoras para o período. Textos que criavam no público um misto de revolta e vontade de ver os vilões da novela no chão, ainda que para isso fosse necessário esperar toda a novela passar com parte do ar sufocado pelo coração na boca.

 

 

A ponto de a pergunta Quem matou Odete Roitman? ter se tornado um dos ícones da cultura de massa brasileira no século XX.

Quando Vale Tudo acabou, cheguei a garantir para alguns amigos que não iria mais ver novelas que não fossem de Gilberto Braga.

E, mesmo assim, apenas nos momentos em que ricos sentavam a borduna em pobres.

Claro que era uma brincadeira, uma frase de efeito, uma tentativa de criar um factóide que jamais seria levado a cabo para movimentar nossas conversas.

Mas era, antes de tudo, o efeito Odete Roitman.

A explosão de sentimentos contraditórios que a divina Beatriz Segall despertou em mim naqueles meses em que eu e todo o Brasil ficamos com os olhos siderados na telinha em busca de cada detalhe de suas atuações.

O mesmo efeito Odete Roitman que agora bate recordes de audiência, leva o canal Viva a prolongados momentos de liderança na tevê fechada, firma-se definitivamente como ícone cult e vira viral geral na internet.   

Pois bem...

E eis que, hoje, quem tem Viva e Vale Tudo ao alcance do controle remoto chega do trampo na tarde/noite de verão ainda com Odete Roitman e Maria de Fátima explodindo na memória, liga a tevê e dá de cara com...

Bem...

... com a infeliz carga de canastrice que o ótimo Lázaro Ramos tem derramado, por erro de mão, em seu designer André em Insensato Coração (será que Braga, Linhares ou alguém do estafe ainda não percebeu que um cidadão com o comportamento hiper-uber-matador-não-garavo-caricato desse André não comeria nem amendoim de amostra na Zona Sul do Rio de Janeiro?).

... com a gritaria e os hiper-uber-barracos marcas da novela ao exagero neste início.

... com um tom meio juvenilóide majoritário em grande parte das personagens, inclusive em muitos momentos da também ótima Camila Pitanga, adotado ou no mínimo aceito por uma direção que, neste início, passa a sensação de várias coisas, mas não exatamente de segurança. Um tom que, exagerado como está, descaracteriza o horário, o próprio estilo de Gilberto Braga e, por fim, parece mesmo justificar o fato de Insensato Coração levar couro em pontos no Ibope, em alguns momentos, até para o folhetim das sete da casa.

... e, por fim, à própria estranheza gerada pelo texto atual de Braga & Cia, um tanto vazio, sem o tutano, o refinamento e a elegância históricos e habituais.

Pode estar no cálculo dos autores e diretores a ideia de que o início deveria mesmo ser assim, meio ralinho, para que sobre ele seja construída a base da grande virada que está para vir.

Tomara.

De qualquer forma, não me lembro de ter visto na vida um exemplar Gilberto Braga tão aguado e desanimador em seus primeiros respiros.

Sei não, mas às vezes tenho a sensação de que novelistas donos de textos refinados como o de Gilberto Braga, capazes de produzir maravilhas como Vale Tudo nos momentos em que a tevê aberta ainda abrigava as classes A e B e uma larga base da pirâmide social que reproduzia os seus valores, encontra hoje certa dificuldade em acertar o alvo no discurso em um veículo dominado pelo sujeito-verbo-predicado muitas vezes desidratado da tevezona tomada e dominada pela robusta e nova CDE.

Será?

Tomara que não.

De qualquer forma, quem tem Viva e por acaso sente falta de corpo mínimo no vinho oferecido em Insensato Coração, que procure mais tarde o Vale Tudo que efetivamente vale tudo.

Se não for o caso, a ordem é correr canal. Feliz ou infelizmente, não será tarefa difícil, ao menos por enquanto, encontrar coisa mais animadora.

O melhor dos Famosos e da TV você encontra aqui. No R7.

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