28 Mar 18h56
Adriano dois: quem rouba ética tem cem de perdão?
O Corinthians anunciou, na segunda-feira (28), a contratação do atacante Adriano, sem clube desde que deixou, dias atrás, a Roma, da Itália.
O contrato tem duração prevista até junho de 2012.
De acordo com o diretor de futebol do Timão, Roberto de Andrade, o Imperador não terá qualquer privilégio e será duramente punido por todas as eventuais falhas, atrasos e faltas a treino e a jogos:
- O Corinthians fez um contrato muito bem preparado e bom para o clube. Estamos cobertos. Não deixamos brecha para qualquer prejuízo. O Adriano concordou com tudo e, assim que assinar, será anunciado oficialmente. Ele não terá privilégio algum. Será tratado como qualquer outro atleta do grupo. Todos estão preparados para recebê-lo muito bem. O fato de a família dele morar longe não é problema. Muitos do atual grupo também têm família fora de São Paulo.
Enumerei no texto anterior (leia depois abaixo) os motivos pelos quais penso que Patrícia Amorim, Vanderlei Luxemburgo e o Flamengo erraram e vacilaram ao não contratar Adriano.
Acho que um contrato que desse condições de punir – aliado obviamente à coragem política de clube e técnico de não hesitar em punir – poderia resolver o problema do rubro –negro, que não consegue firmar um esquema justamente por não ter no momento um atacante de área que preste.
Penso ter faltado ao rubro-negro coragem, grandeza e inteligência neste episódio.
Embora tenha defendido a contratação do Adriano pelo Flamengo, estou certo, mas absolutamente certo, de que, se isso ocorreesse, a suprema maioria da imprensa esportiva paulista estaria a bradar, neste momento, que o rubro-negro aceitou o Imperador porque “o Rio é bagunçado mesmo”, “os times cariocas são uma bagunça e então o Adriano deveria ir para lá, “o Adriano é vagabundo mesmo; teria mesmo que jogar em time carioca, que não liga para isso”, “os times do Rio só treinam um período”, “só o Rio aceitaria o Adriano”... e coisas desse tipo.
Isso embora oito clubes brasileiros – entre eles os paulistas Palmeiras e Corinthians – tenham procurado o empresário Gilmar Rinaldi para sondar as possibilidades de contar com o futebol de Adriano depois que ele deixou a Roma.
Mas como Adriano foi para o Corinthians e, sobretudo, como a contratação foi intermediada por Ronaldo e sua empresa 9ine, nada disso aconteceu.
E o Curingão, claro, não foi chamado por ninguém, a não ser por uns poucos torcedores contrários à contratação de Adriano, de “ponto de fim de carreira de vagabundo”, “bagunça que aceita tudo” ou coisa do tipo.
Coisas do, digamos assim, elogiável poder convincente do Fenômeno e do Timão.
Em todo caso, o Corinthians tomou uma atitude de risco que eu, particularmente, acho positiva e elogiável.
Respeito e entendo os que apresentam o passado de Adriano para dizer que não fariam isso.
Mas, particularmente, achei bacana.
Só que, neste processo, faltou a mais básica conduta ética com Gilmar Rinaldi.
Depois de 11 anos tendo a vida e a carreira administrada por Gilmar Rinaldi (e olha que isso, em se tratando de Adriano, por tudo o que se sabe, definitivamente não deve ter sido fácil), o Imperador jogou sua imagem para ser cuidada pela 9ine do amigo Fenômeno.
E declarou que, a partir de agora, cuidaria ele sozinho dos contratos com os clubes, justamente a parte que cabia ao ex-empresário.
Tudo isso sem dar um telefonema para Gilmar Rinaldi, que soube dessas coisas como você e eu - ou seja, pelo noticiário – e, num respingo de carinho que sobrou da relação, ainda declarou nesta segunda (28), equivocadamente, que o Adriano seria “o menos culpado”.
Não é não, Gilmar. É tão culpado quanto. Tem 29 anos. Já houve tempo para aprender o que é educação e relação ética.
Ronaldo e a 9ine disseram que não atropelaram Gilmar porque não passaram a cuidar dos contratos do Tanque, mas apenas de seu potencial de imagem, do lado publicitário.
Pode até ser, embora a sensação geral, por tudo o que aparece, é a de que a 9ine tenha efetivamente intermediado ou ao menos opinado nas conversas entre Adriano e Corinthians.
Mas, de qualquer forma, ainda que as funções fossem divididas ou mesmo que a Gilmar não restasse outra saída a não ser abandonar o barco, isso mereceria ao menos um telefonema para Gilmar.
Adriano não é obrigado a ficar com Gilmar nem com qualquer outro empresário.
Mas mudar de ares após onze anos sem dar um telefona para o parceiro de trabalho de mais de uma década não é exatamente a forma mais digna de se terminar uma relação profissional.
É preciso fazer uma lembrança importante.
Há onze anos, no ano 2000, Gilmar Rinaldi deixou a diretoria de futebol do Flamengo.
Estava decidido a iniciar a carreira de empresário de jogadores.
Ao sair, Gilmar pegou de imediato a carreira de três jovens talentosos rubro-negros para cuidar.
Um era o atacante Reinaldo.
O segundo, o zagueiro Juan, que depois faria uma carreira brilhante na seleção e até hoje defende a Roma.
O terceiro era um atacante negro alto, forte, impetuoso, rápido e com um chute absurdo de canhota.
Um certo Adriano.
Até hoje, muitos acham que faltou ética a Gilmar na medida em que pegou os garotos do clube em que trabalhava como administrador imediatamente após deixar o cargo, sem qualquer quarentena ou intervalo.
Pode ser.
Ironia e cilada supremas do destino.
De qualquer forma, um erro não justifica – e nem deveria atrair - o outro.













