2 Ago 06h01
Brasileiro adora “bicha divertida”, como Roni de Insensato, na novela. Mas repudia gay sério, aquele que pode ser o filho ou o irmão. Opine
Leio que o promoter Roni (Leonardo Miggiorin), melhor amigo da alpinista social Natalie Lamour (Deborah Secco) na novela global Insensato Coração, vai socorrer a moça depois da humilhação a que ela será submetida pelo ex-marido, o salafrário Horácio Cortez (Herson Capri).
Roni descolará outra capa da revista Fogo Alto para Natalie posar nua com o título "A Musa do Banqueiro Bandido".
Roni roubou a cena em Insensato Coração. É uma das personagens mais simpáticas e queridas da trama.
Tem sido assim nos últimos 20 0u 30 anos, em praticamente todas as novelas, com personagens que reproduzem o perfil bicha-alegre-divertida-e-amiga.
Por outro lado, os autores do folhetim, Ricardo Linhares e Gilberto Braga, foram, digamos, orientados pela direção global a praticamente retirar da trama o casal gay Eduardo (Rodrigo Andrade) e Hugo (Marcos Damigo), junto com todo o discurso libertário-moderno-tolerante-GLTB-quiosque-arco-íris que acampanhava a dupla e a turma que orbitava em torno dela.
O beijo na boca levantado como hipótese foi solenemente vetado pelos caciques da emissora.
Há grandes chances, inclusive, de o casal ser assassinado por Vinícius (Thiago Martins).
O motivo é claro: dos grupos de pesquisas organizados pela Globo à sala do telespectador, o brasileiro médio rejeitou os dilemas e brados com ares de militância do casal de Insensato e de seus amigos com a mesma intensidade com que aderiu à leveza afetada e divertida de Roni.
Apesar de Roni ser assumidamente gay, o público o entende e o assimila como um palhaço, um clown, uma usina de divertimento.
E não como um ser dilemado, em conflito existencial e luta diária, eterna, para reafirmar o direito de ser diferente.
Roni, enfim, é gay mas praticamente dá a certeza de ser assexuado, de não ter opção sexual.
Como tantos outros que o antecederam nas novelas, Roni sugere que sua homossexualidade é só cena e nem nada de sexo tem.
Assim, ele não sofre e, consequentemente, não faz ninguém sofrer com "a coisa".
Já Eduardo e Hugo, esses não.
São gays-gays, zagueiros-zagueiros.
Com toda a demanda de restrições e de dificuldade que os gays encaram, junto com suas famílias, amigos e amados, para serem respeitados e vencerem em um mundo que já é difícil uma quantidade para quem é "igual".
A propósito, esse gay-gay, homem ou mulher, sempre foi rejeitado nas novelas.
Se o outro é a alegria tão sem grilos de ninguém que pode ser tomada até como assexuada, estes aqui são os dilemas existencialistas com o peso do mundo e o grilo de todos.
E, mais importante, eles poderiam ser o filho ou a filha, o irmão ou a irmã, o cunhado ou a cunhada, o afilhado ou a afilhada, o sobrinho ou a sobrinha.
E isso, para o bem ou para o mal, nos faz pensar e respensar muita coisa, se não das convicções filosóficas e religiosas, ao menos do comportamento e das atitudes no dia-a-dia, para lidar com as pessoas com a dignidade que todos merecem.
E isso tudo, muitas vezes, dói. E dá trabalho.
A diferença de tratamento nas duas situações é parte do rosto de um país que avança, é verdade.
Mas que ainda seis em cada dez pessoas não querem beijo gay em novela e 55 em cada cem não aprovam a união civil de homossexuais já permitida pela corte máxima do País, o Supremo Tribunal Federal, o STF.
Constatações.
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