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Posts de 30/09/2011

30 Set 06h00

Com medo de suas polícias, cariocas e fluminenses não têm a menor ideia do tamanho da podridão na segurança. E o pior: parece que o poder público do estado também não

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- Não durmo desde domingo (25).

Se alguém ainda questiona se a mais nova crise da segurança na cidade e no Estado do Rio de Janeiro é de fato uma crise, e das graves, enterre a dúvida diante da frase acima.

Ela foi disparada numa entrevista coletiva, nesta quinta-feira (29), pelo Secretário de Segurança Pública do estado, José Mariano Beltrame.

Aparentemente firme no cargo (e aparentemente convicto disso), Beltrame acusou o golpe das noites em claro ao anunciar o coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, 54 anos, 31 de carreira, até então coordenador do Serviço de Atendimento de Emergência 190, como novo comandante-geral da Polícia Militar do Estado do Rio.

Costa Filho é o quarto a ocupar este cargo no governo de Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Junto com ele, foram nomeados também os coronéis Alberto Pinheiro Neto, 47, para a chefia de Estado Maior Operacional, e Kátia Neri Nunes Boaventura, 47, para a chefia de gabinete do Comando Geral da PM.

O coronel Costa Filho substitui Mário Sérgio Duarte, 54, que pediu demissão a Beltrame por carta enviada de seu celular do hospital onde se recupera de uma cirurgia na próstata.

Duarte sentiu-se na obrigação de pedir pra sair, como se diz no Bope, a badalada tropa de elite fluminense comandada anos atrás por ele, depois que o tenente-coronel Claudio Luiz Oliveira, denunciado por um PM, foi preso em Bangu 1 sob a acusação de ser o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli, com 21 tiros, no último dia 11 de agosto, na rua onde morava, em Niterói.

Como Duarte nomeou Oliveira para comandar o 7º Batalhão da PM fluminense, em São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro vizinha a Niterói, ele decidiu assumir para si o que chamou de “equívoco” e pediu pra sair.

Beltrame e seu chefe, o governador Cabral Filho, tentam sair inteiros de mais uma crise do outro lado do túnel.

Mas o fato é que, depois de vitórias claras com a ocupação, pacificação e instalação de Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs) nos principais territórios do tráfico na cidade, entre eles a favela Dona Marta e o Complexo do Alemão, a segurança pública estadual colocou na rotina de Cabral Filho e de Beltrame motivos suficientes para a dupla perder o sono.

Além dos fatos da crise atual enumerados acima, que não são poucos nem pequenos, listo outros ocorridos nos últimos meses:

* O assassinato do menino Juan, de 11 anos, supostamente por policiais, durante uma operação do 20º BPM, de Mesquita, na favela Danon, em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense;

* A queda constrangedora, em fevereiro de 2011, do delegado chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, flagrado supostamente informando o inspetor Christiano Gaspar Fernandes sobre uma investigação da Polícia Federal. A PF indiciou Turnowski, substituído no comando da polícia civil pela delegada Martha Rocha;

* A infeliz reação do governo estadual e da Secretaria de Segurança Pública, que decidiram prender, sem maiores negociações, os bombeiros militares em greve que invadiram o quartel central da corporação no último dia 3 de junho. Diante da postura agressiva do governo estadual no episódio, os grevistas ganharam a simpatia da população e de grande parte dos órgãos de imprensa e de formadores de opinião do Estado do Rio e do país.

* Semanas atrás, 11 policiais da UPP das favelas do Fogueteiro, Coroa e Fallet, em Santa Teresa, bairro na divisa do centro com a zona sul do Rio de Janeiro, foram acusados de receber propina de traficantes. O comandante e o sub da UPP perderam seus cargos;

* O protesto de policiais civis no centro do Rio de Janeiro, nesta quinta-feira (28), acompanhado de operação padrão nas delegacias, por melhores salários e condições de trabalho;

* Uma nova manifestação dos bombeiros, marcada para esta sexta-feira (30).

Tudo isso para não ir longe e incluir o vergonhoso episódio ocorrido no centro do Rio em 2009, quando policiais do 13º BPM, da Praça Tiradentes, foram flagrados por câmeras prendendo e em seguida soltando os ladrões que tinham acabado de assassinar o coordenador de projetos sociais do AfroReggae, Evandro João da Silva, em um caixa eletrônico. Na ocasião, o próprio Mário Sérgio Duarte, que agora pede demissão, veio a público admitir: “Estamos envergonhados. A PM errou”.

O governo estadual errou flagrantemente em vários desses episódios.

Isso é inegável.

Mas o problema da segurança no Estado do Rio de Janeiro é muito maior até mesmo do que a soma destes equívocos oficiais.

A chamada banda podre da segurança na cidade e no Estado do Rio de Janeiro foi construída em pelo menos meio século de trabalho profundo (e praticamente não combatido) de policiais corruptos, ladrões de todas as patentes e graduações infiltrados na máquina pública e assassinos fardados.

Gente de todas as patentes, de soldado a coronel, aliada de forma cada vez mais forte, cotidiana e definitiva com os criminosos, traficantes, assassinos e corruptos não oficiais, aqueles que, à primeira e óbvia vista, deveriam meramente combater.

Este crescimento longo, intenso e contínuo gerou uma estrutura de segurança de tal forma contaminada que, hoje, nenhum setor da sociedade, nem o mais informado e especializado, tem condição de dimensionar o tamanho da podridão, mapear a banda podre, e apontar: essa parte presta, essa não presta.

Hoje, infelizmente, todo cidadão carioca parado por um policial ou blitz em qualquer ponto do Rio, a pé, de ônibus ou em seu carro ou moto, respira fundo e se prepara para tudo.

Ele poderá ser revistado por gente séria e tudo terminar numa troca de boa noite.

Ou ser roubado numa falsa blitz.

Ou ainda apanhar muito, ou mesmo morrer com uns tiros, se reagir ou contrariar um desses roubos ou extorsões de bandidos com carteira de polícia.

Infelizmente, assim se sentem 99,9% dos cariocas e fluminenses quando um policial faz sinal para o carro, a moto ou a caminhada darem um tempo.

Quando parado, o cidadão não sabe se é para ser ferido, morrer ou se salvar.

Por isso, o carioca é, segundo as pesquisas, o brasileiro que, na média, tem mais medo de sua própria polícia.

Procura fugir dela.

Torce para não precisar dela.

Apesar de um certo alívio com as UPPs, enxerga nela, historicamente, com razão, uma estrutura contaminada do teto ao chão.

A um índice de contaminação que a população não consegue identificar.

E o pior: tudo indica que a própria Secretaria de Segurança Pública - ou seja, o poder - também não consegue medir o tamanho dessa banda podre.

E, muito menos, saber quem é joio e quem é trigo nessa história.

Ou, se sabe, por algum motivo não encara o problema com medidas realmente de combate, como as que deram jeito, por exemplo, em Nova York.

Tomar morros e instalar UPPs foram atitudes elogiáveis, mas estão longe de representar o mais difícil do processo.

São atitudes isoladas.

Você pega os probos que conhece, recebe ajuda federal, vai lá, toma o morro e coloca a UPP.

Ótimo. Lindo. Mas pontual, localizado, longe, muito longe do ideal.

E aí vem a tropa da UPP.

E a polícia da banda podre dentro da UPP.

E o comandante suspeito da UPP...

Óbvio: puxa a água com o rodo, mas não fecha a torneira.

Aí sai e...

A questão é a seguinte: a faxina na segurança fluminense só poderá ser feita por meio de um processo longo, doloroso, corajoso, técnico, que envolva autoridades estaduais e federais.

E crie situações profissionais, de investigação e até legais específicas para que o combate tire realmente todo o podre e só termine quando o serviço estiver realmente pronto.

Ah, mas nenhuma autoridade política, de qualquer posição ideológica, estadual ou federal, terá coragem de mexer nisso tão cedo, liderar um processo dessa estatura para mexer com gente tão perigosa...

Nós não veremos isso rolar nem no Rio e nem no país...

O amado amigo pensa assim?

Pois é: então pensa exata e rigorosamente como eu penso.

Por todo o exposto, penso que o Rio ainda viverá muitos anos de happenings que até trarão alívios importantes para parte do problema da segurança.

Caso típico, por exemplo, da sequência ocupação-pacificação-UPPs.

Mas um processo amplo, geral, que realmente depure as instituições de segurança a um nível mínimo de confiabilidade e de tranquilidade que altere efetivamente a rotina e a relação de confiança de cariocas e fluminenses com a segurança pública da cidade e do Estado?

Ah, isso esqueça, camarada, esqueça...

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