3 Dez 17h31
Cantada de Lupi não entoa. Dilma manda um recado claro: sou mulher comprometida… com padrão ético. Sei não, mas acho que o ministro vai deixar de rondar o portão nas próximas horas…
Marcelo Casal Jr. - Agência Brasil
A Comissão de Ética Pública da Presidência da República recomendou a exoneração do ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), por “suposto desvio ético”.
O pedetista é alvo de denúncias de várias irregularidades no ministério e também de ter mantido emprego público de forma irregular.
O órgão recomendou ainda a aplicação de uma advertência ao ministro. A presidente da República tem liberdade para aceitar ou recusar as sugestões do órgão.
A crise em torno de Lupi foi detonada no início de novembro, quando a revista Veja denunciou um suposto esquema de cobrança de propina a ONGs ligadas ao Ministério do Trabalho que cometeram irregularidades.
Na edição seguinte, a revista contou que Lupi teria viajado no avião King Air de Adair Meira, dirigente da ONG Pró-Cerrado, investigada pela Controladoria Geral da União, a CGU, por suspeita de desvio de recursos.
Lupi foi ao Congresso tentar se explicar.
Inábil, disse que só sairia do Ministério “abatido a bala. E essas tinham de ser fortes e em grande volume, porque ele era “grande e forte”.
O contra-ataque descalibrado e fora da realidade de Lupi irritou Dilma, que chamou sua atenção.
Dias depois, em 10 de novembro, Lupi tentou consertar o aparentemente destruído:
- Presidente Dilma, desculpe se fui agressivo. Eu te amo, presidente Dilma. Eu não desafiaria a presidente. Por isso, peço desculpas publicamente. Nunca quis desafiar a presidente. Não sou deseducado, deselegante ou despreparado. Por isso, peço desculpas.
Apesar da animação despropositada e desprovida de sensibilidade do pedido de desculpas, Lupi ganhou alguma sobrevida no cargo.
Conseguiu oxigênio extra muito mais pela intenção da presidente de substituí-lo em meio à reforma ministerial, prometida para o início de 2012, do que propriamente por sua retratação com toques de cantada fora de tom.
Ejetando Lupi duas ou três semanas atrás, Dilma, diante do modelo de divisão de poder entre aliados de governo, teria dificuldade de não nomear para o cargo alguém do PDT, o partido do atual ministro.
Mas um pouco próximo ou mesmo em meio à reforma ministerial, ela terá mais liberdade para escolher dentro do PDT o substituto de Lupi ou mesmo destinar ao partido um outro ministério, eventualmente menos pesado e importante.
Um dos mais recentes torpedos a explodir no peito de Lupi foi a denúncia do jornal Folha de S. Paulo de que ele teria sido funcionário fantasma da Câmara dos Deputados por quase seis anos, entre dezembro de 2000 e junho de 2006, enquanto trabalhava, fora da Casa, para o seu partido.
No embalo, Veja publicou que assessores do ministro teriam pedido propina para registrar sindicatos. O governo teria sido informado sobre este caso há nove meses por líderes sindicais petistas. Lupi nega as acusações.
Nesta sexta-feira (2), a presidente Dilma Rousseff afirmou, em Caracas, na Venezuela, que vai tomar uma decisão sobre Lupi a partir de segunda-feira (5), quando volta ao Brasil.
Questionada sobre o “eu te amo” da “declaração de amor” do ministro do Trabalho, Dilma mandou um recado claríssimo de que, como berram as torcidas organizadas nas arquibancadas dos jogos de futebol do País, a hora do ministro está muito, mas muito próxima de chegar.
- Tenho 63 anos de idade, uma filha com 34 e um neto de um ano e dois meses. Não sou propriamente uma adolescente e, diria também, uma romântica. Acho que a vida ensina a gente a respeitar as pessoas. Mas eu faço análises muito objetivas.
Lupi deu sua “cantada”.
Tudo parece indicar que, na segunda (5), ou algumas horas depois, Dilma vai informá-lo que essa “cantada” não entoou.
E pedir o cargo.
A presidente é uma mulher comprometida.
Com a imagem, o bom andamento e os padrões éticos aceitáveis para o Brasil.
Mas acho que Lupi não sabia. Pelo menos antes da cantada pública.
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