13 Jan 17h42
Saiba porque a Zona da Mata de Minas Gerais e o Sul, o Centro-Sul e o Norte do Estado do Rio sofrem todo ano com as chuvas de verão
A reportagem abaixo foi publicada hoje pelo R7. Para quem ainda não leu, vale a pena entender o que acontece todos os anos nessas regiões com a chuva. Um abraço.
Entenda porque a Zona da Mata de Minas Gerais e o Sul, o Centro-Sul e o Norte do Estado do Rio sofrem todo ano com as chuvas de verão
Construção irregular nas encostas, solo “isolado”, ocupação
das várzeas dos grandes rios e galerias sujas causam as enchentes e deslizamentos que matam e desabrigam pessoas todos os anos
Por Eduardo Marini, do R7
Zona da Mata de Minas Gerais, Sul, Centro-Sul e Norte do Estado do Rio.
Todos os anos a história é a mesma: entre os últimos dias de dezembro e os primeiros de janeiro, os moradores de algumas dessas regiões – ou de todas elas – sofrem com os estragos produzidos pelas chuvas de verão.
São enchentes, alagamentos, quedas de barreira e desabamentos, que matam dezenas (às vezes centenas) de pessoas e deixam um rastro de prejuízos e de pessoas desabrigadas.
Mas por que as chuvas castigam tanto essas regiões?
O R7 tentará responder esta pergunta.
A repetição deste cenário cruel é fruto da combinação de fatores naturais, ou seja, aqueles construídos pela natureza ao longo dos anos, com atitudes humanas que trazem vantagens mas, muitas vezes, produzem efeitos colaterais negativos.
No caso da região, os fatores são os seguintes: características de solo, vegetação e clima; solo impermeabilizado (“isolado”, “selado”) por asfalto, cimento de calçada e outros produtos isolantes; ocupação irregular de encostas e construção de moradias nas várzeas de rios grandes e importantes, que cortam várias áreas urbanas e povoadas.
As explicações:
* O gigante Rio Paraíba, o “Príncipe do Sudeste” – A Zona da Mata mineira, o Sul, o Centro-Sul e o Norte do Estado do Rio são regiões interligadas por fronteiras. Entre elas corre parte do Rio Paraíba do Sul, o maior da Região Sudeste e um dos maiores do Brasil e do mundo, com seus 1.137 quilômetros de extensão, quase três vezes o tamanho da Via Dutra.
O “Príncipe do Sudeste” nasce na Serra da Bocaina, no Estado de São Paulo, ainda com o nome de Paraitinga.
Desce em direção ao Estado do Rio, em paralelo com a Rodovia Presidente Dutra, a Via Dutra, até a cidade fluminense de Volta Redonda, a Cidade do Aço.
Em Volta Redonda, ele faz uma grande curva à direita e corta a região Sul do Estado do Rio (Barra do Piraí, Vassouras, Paraíba do Sul), por cerca de 130 quilômetros, até a cidade de Três Rios, localizada a menos de 20 quilômetros da divisa com a Zona da Mata, em Minas Gerais.
Em Três Rios, o Paraíba, já com um volume respeitável de água, recebe a descarga de dois importantes (e grandes) rios afluentes: o Piabanha, que vem da Região Serrana do Estado do Rio, e o Paraibuna, que corta a maior parte da Zona da Mata Mineira, inclusive a cidade de Juiz de Fora, com seus quase 500 mil habitantes.
A propósito, a cidade se chama Três Rios exatamente pelo fato desses três grandes rios - Paraíba do Sul, Paraibuna e Piabanha - se encontrarem em seu território.
Após receber as águas do Piabanha e o Paraibuna em Três Rios, o Paraíba do Sul faz nova curva à direita e sobe, tendo em sua margem direita o Estado do Rio e na esquerda o de Minas Gerais, até a localidade de Atafona, em São João da Barra, próximo a Campos, no Estado do Rio, onde finalmente desemboca no Oceano Atlântico.
Entre Três Rios e Atafona, um trecho de cerca de 540 quilômetros, o cheio e fortalecido Paraíba ainda recebe água de vários rios e riachos pequenos no caminho.
E também de alguns muito volumosos, como o Pomba, a 140 quilômetros da foz, e o Muriaé, o maior de seus afluentes, 50 quilômetros antes de atingir o Oceano Atlântico.
A localidade de Jamapará, em Sapucaia, onde 13 pessoas morreram e pelo menos mais 12 foram soterradas por um deslizamento ocorrido às 3h da madrugada de segunda-feira (9), fica no início deste caminho, 34 quilômetros acima de Três Rios.
Com todos esses rios desaguando no Paraíba, a região norte do Estado do Rio, onde fica Atafona, e a parte próxima da Zona da Mata Mineira, que abriga o afluente Rio Muriaé, vivem como se abrigassem uma grande “ponta de funil”.
Essa “ponta de funil” é o bico por onde escoa para o Oceano Atlântico todo este imenso volume de água recolhido em várias cidades dos três principais estados do País: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Como esses locais são muito quentes e úmidos, sobretudo as cidades fluminenses e mineiras da região, chove muito no verão em todas essas regiões.
Essas águas caem nos pequenos rios e, a partir deles, atingem – e enchem – os afluentes Paraibuna, Piabanha, Pomba e Muriaé.
Cheios, esses rios produzem estragos por onde passam e depois se derramam no Paraíba, levando o “Príncipe”, em muitos caos, a provocar prejuízos ainda maiores.
É por isso que estes danos ocorrem todo ano mais ou menos na mesma região, entre a Zona da Mata Mineira, cortada pelo Rio Paraibuna, e o pedaço na fronteira formado pelo Sul, Centro-Sul e Norte do Estado do Rio, esta última região já próxima à divisa com o Espírito Santo, por onde serpenteia e enfim se entrega ao Atlântico o belo e poderoso “Príncipe do Sudeste”.
Este problema anual é agravado por falhas humanas e efeitos colaterais negativos de atitudes tomadas em nome do chamado progresso: impermeabilização do solo (“chão selado”), obras na várzea dos rios e construção de casas em morros impróprios para tal.
Solo impermeabilizado – Quem vive em regiões onde chove muito no Brasil tem a sensação de que hoje cai muito mais água do que há 25 ou 30 anos. Isso em parte é verdade, por causa dos efeitos de fenômenos como El Niño e La Niña.
Mas o que ainda contribui de forma mais decisiva para o transbordamento dos rios e as enchentes é o solo impermeabilizado por excesso de asfalto, cimento e outros produtos isolantes.
Há 40 anos atrás, todas as cidades do eixo fluminense e mineiro do Rio Paraíba do Sul, só para citar o caso em questão, tinham, no máximo, uma rua central asfaltada.
Hoje, praticamente todas as ruas do centro e do bairro principal de todas essas cidades estão cobertas por asfalto, um material que impede a absorção de água.
Resultado: quando cai uma chuva forte, praticamente toda a água é jogada nas galerias de escoamento e, a partir delas, chega ao Paraíba em poucos minutos, elevando o seu nível e provocando enchente, desabamento e morte.
Em muitos casos a água dos temporais chega com tamanha rapidez ao leito dos rios que acaba por voltar às ruas pelas próprias galerias de escoamento.
Em São Paulo, por exemplo, isso ocorre com frequência. Nesta virada de ano, Três Rios, Além Paraíba, Juiz de Fora, Matias Barbosa e outras cidades mineiras e fluminenses sofreram com o mesmo problema.
Ocupação da várzea dos rios – A natureza é sábia: a várzea de um rio, aquele espaço nos dois lados do curso de água que fica vazio no período da seca, faz parte do leito do rio.
A várzea existe exatamente para abrigar a água adicional trazida pelas chuvas no período das cheias.
No Brasil, a várzea dos principais rios foi ocupada, muitas vezes de forma irresponsável, por casas, ruas, avenidas e outras construções.
As avenidas marginais do Tietê e de Pinheiros, em São Paulo, foram construídas nas várzeas desses rios. Por isso, elas inundam de forma vergonhosa quando bate um temporal pesado na cidade, atormentando os paulistanos. Quando chove, a água levada ao Tietê e ao Pinheiros pelas galerias de escoamento ocupa o espaço da várzea, que deveria estar lá mas foi substituída pelo concreto, a pedra e o asfalto das marginais.
Com o Piabanha, o Paraíba e a suprema maioria dos rios do Brasil ocorre, em maior ou menor escala, a mesma coisa.
Bons pedaços da Avenida Brasil, em Juiz de Fora, ocupam a várzea do Rio Paraibuna.
Em Três Rios, parte da estação rodoviária e da principal avenida da cidade, a Alberto Lavinas, conhecida como Beira-Rio, está sobre o traçado da várzea do Rio Paraíba do Sul, que corta o centro e alguns bairros da cidade.
Nos outros municípios da região, a realidade é semelhante.
Nos períodos de chuva, este aperto das várzeas ajuda a encher as regiões habitadas das cidades. A realidade é elementar: se a água não pode escapulir para a várzea, procura outro lugar para se acomodar.
Construção em morros com pouca profundidade de solo – O deslizamento que matou moradores de Jamapará, em Sapucaia (RJ), na segunda-feira (9), foi produzido por um fenômeno semelhante ao que castigou Angra dos Reis, também no Estado do Rio, no verão passado.
As casas arrastadas em Jamapará foram construídas em um ponto do morro com pouca profundidade de terra, tendo ao fundo uma grande pedra.
A grande quantidade de água, por vários dias seguidos, encharcou a terra e a fez deslizar sobre a barreira de pedra. Ao rigor técnico, aquelas casas não poderiam estar onde estavam.
A combinação desses fatores naturais, falhas humanas, acasos e descasos do poder públicos produz anualmente este filme.
Um filme de horror que ninguém quer, mas é forçado a ver.













