ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 19/09/2011 às 16h23
A reportagem que tenta responder uma pergunta intrigante: porque pais matam os filhos?
POSTAGEM ORIGINAL:
Não sei como os médicos aguentam. Examinar, clinicar e cuidar de alguém sem se envolver não é exercício de frieza: é necessidade. Nas reportagens que fazemos não é diferente. Recentemente, em São Paulo, fui fazer uma matéria daquelas que reviram o estômago de qualquer mortal.
Era o caso de um pai que em 2010, teve uma reação inesperada e fora do juízo. Inconformado com o término do casamento com a jovem Maria do Carmo, resolveu se vingar da ex-mulher com um ato bárbaro: Alexandre Silva, de 38 anos, é acusado de ter jogado o filho, o pequeno Nícolas, de apenas 6 anos de idade, de uma ponte, dentro de um rio na grande São Paulo. O caso repercutiu e chocou a opinião pública em 2010.
Esse não é o único caso. Numa reportagem intrigante, resolvemos tentar descobrir com especialistas o que faz pais matarem filhos. Talvez impulsionados pelo caso mais recente, de uma adolescente de 13 anos espancada pela mãe e pela suposta amante dela, uma boxeadora, resolvemos apostar nesse questionamento ainda sem resposta. A menina morreu agredida a socos e pontapés porque, de acordo com a polícia, teria perdido uma grande quantidade de drogas que era da mãe. A menina seria usada para distribuir drogas no litoral de São Paulo.

Nícolas, de 6 anos. Como um pai pode matar o próprio filho? / Foto: arquivo familiar.
Mas no caso em questão, o do pequeno Nícolas, o que me chocou não foi apenas ter que relembrar a morte da criança. Apesar de sempre revoltante visitar a casa, o quarto, ver os brinquedinhos de um menino cheio de vida assassinado por quem era considerado um herói; durante nossa gravação tomamos um susto.
Na humilde casa da família, no subúrbio de Guarulhos, interrompemos a gravação por causa de uma gritaria na rua. A vizinha, uma adolescente de 19 anos - já com um filho nos braços - que estava junto, acompanhava nosso trabalho, quando deixou o filho com a gente mesmo e saiu desesperada ao avisarem da rua: “a polícia acabou de entrar na sua casa”. Quando se está fazendo uma reportagem sobre morte, em um clima triste e tenso, o que se pensa nessa hora?

Bastidores: reportagem sobre Nícolas é interrompida por desespero de vizinhos. / Foto: arquivo pessoal.
A ocorrência era outra. O irmão da vizinha, com apenas de 16 anos, já estava na casa bem ao lado, levado por policias militares chorando. Eles procuravam os responsáveis pelo rapaz franzino. Motivo: ele acabara de ser encontrado com grande quantidade de maconha, cocaína e crack em outro comunidade próxima. O garoto era mais um soldado do tráfico que, vendo a aproximação da polícia, não conseguiu correr como os mais velhos.
Já vi muita coisa de perto, admito. Mas cada vez que vemos lágrimas descendo dos olhos de uma mãe, impossível não se comover. Ela se desesperou a ponto de perder os sentidos. Aquela mãe, já desacordada e caída na porta de casa, era abanada e sacudida pela filha que estava com a gente e por tantos outros vizinhos e parentes. Acordar foi apenas mais um passo sombrio para encarar a realidade nua e crua: o menino estava sendo levado pela polícia pela primeira vez. O policial, muito educado, explicava que precisava da mãe na delegacia, para que a ocorrência fosse registrada. E lá foi ela dentro de uma viatura com o menino.
Voltamos a gravar nossa matéria, agora com um integrante a mais na casa da nossa personagem. Maria do Carmo, mãe do menino atirado da ponte pelo pai, agora estava com mais uma criança no colo, o Vitor, filho da vizinha que se desesperava tentando dar apoio ao irmão retido e à própria mãe. Ambos já seguiam para a delegacia. Ironia do destino, além da criança da vizinha no colo, Maria do Carmo ainda tinha outra no ventre. Não para compensar a perda do pequeno Nícolas, mas ela estava nos últimos dias de gestação de Benjamim, filho do segundo casamento, quando tentava reconstruir a vida depois de uma tragédia causada pelo desequilíbrio do primeiro marido.
Enquanto você está lento esta postagem, o pequeno Benjamim já deve estar fora daquela barriga bonita e protuberante: o parto estava previsto para o começa da tarde desta terça-feira, justamente no dia em que a matéria deve ir ao ar no “Programa da Tarde”.

Depois do susto, um registro: nossa equipe com a mãe de Nicolas, com Benjamim na barriga e o vizinho no colo.