Soninha e o metrô
Hoje vou tentar escrever pouco. Escrever pouco porque, na nossa rotina jornalística, isso significa menos chance de errar. É verdade. Era sempre assim quando trabalhava na TV Nacional - emissora do governo - e era necessário dar alguma notícia polêmica que fosse "no rim" dos interesses do presidente da república.
Apesar de pertencer a um sistema de comunicação governamental, éramos cobrados também pela oposição, o que fazia com que a emissora fosse até exagerada em ser correta e imparcial. Era um preciosismo que parecia beirar o desnecessário. Mas não era. Posso garantir que, em uma situação como essa, o editor de texto que pegava a tarefa de montar o material o fazia quase que "pisando em ovos". Uma vírgula fora do lugar poderia dexar o que já era polêmico se desprendendo para o insustentável. A chamada do apresentador - que chamamos de "cabeça" - tinha que ser direta, sem floreios: sem chance de errar.
Na maior polêmica do dia nos cento e poucos caracteres do Twitter, a apresentadora e política Soninha preferiu não escrever menos. Escreveu o de sempre: o cotidiano, o trivial, mas sem se tocar que estava na linha tênue que separava, naquele momento, um comentário informal de um comentário que daria margem a interpretação de um bairrismo esnobe e de alienação. A pré-canditada à prefeitura de São Paulo não teve essa intenção. Primeiro porque quem conhece a Soninha de perto - o que não é o meu caso - jura que esses não são traços da personalidade dela. Então porque tanta polêmica? É simples: no mundo virtual não se perdoa nada.
Lembro-me quando a Sasha, ela mesma, a filha da Xuxa, escreveu alguma palavra com a grafia errada no Twitter. Lembra disso? Como diz minha mãe, "a emenda ficou pior que o soneto" quando a mãe, Xuxa, entrou na briga dizendo que tinha que ouvir muita "m"... no microblog. Eu poderia citar aqui pelo menos uma dúzia de situações em que o que estava escrito não era exatamente o que se passava pela cabeça de quem o escreveu, seja por um simples erro ortográfico ou interpretativo. É fato: todos esquecemos que, apesar da informalidade, estamos sempre sendo analisados e julgados pelo que colocamos nessas redes sociais. Uns menos outros mais. Mas ninguém escapa, desde uma olhadela rápida por parte de um(a) pretendente; até uma olhada mais "lenta" por parte de um gestor de recursos humanos onde pleiteamos uma vaga de trabalho. Hoje escutei até que Soninha estava no olho do furacão por haverem opositores infiltrados no Twitter incomodados com sua pré-candidatura a prefeitura da maior cidade do país.
Não acredito em "teoria conspiratória". Acredito mesmo é que o fato de ser figura pública e política - numa situação política crucial - fez o que ela escreveu ser julgado como crime hediondo. Não consigo imaginar uma pessoa politizada e culta sendo tão burra a ponto de escrever isso de forma apológica ao bairrismo social e ao desconhecimento de algo tão marcante como o primeiro grande acidente ocorrido no metrô de São Paulo. Ninguém em sã consciência acharia "sussa" mais de 100 pessoas se ferirem em um acidente como o desta quarta-feira. E todo mundo que leu o comentário dela percebeu isso. Acho que fica claro: Soninha não teve a intenção, embora tenha dado o combustível, sem perceber, para virar motivo de piada.
Como em tudo na vida há uma lição, acho que Soninha vai ficar mais atenta antes de escrever qualquer coisa no Twitter agora . Mais atenta do que já ficou quando disse que tinha fumado maconha. Acabou sendo demitida da TV Cultura. Acho que eu também vou pensar duas vezes antes de escrever. Só vou ficar "sussa" agora quando acabar meus textos, revisando cada um deles por pelo menos 3 vezes. A gente nunca sabe quando vão explorar mal uma frase perdida no meio de tantas idéias jogadas no teclado. Mesmo me negando a partir para o famoso clichê "que atire a primeira pedra quem nunca fez isso", não consigo encontrar frase melhor para me colocar no lugar da Soninha numa hora dessas.





























