O corpo que nunca existiu…

29
jun
15h09

“O processo de apuração de uma notícia é um caminho longo. Um caminho que esbarra em falácias, pistas falsas e informações desencontradas”.

Se esse te parece um raciocínio de um jornalista... uma surpresa: essa é a constatação de um policial civil, de Minas Gerais, após perceber a tremenda confusão que foi criada quando a Polícia Civil mineira deu como oficial uma informação delicada: a de que o corpo da ex-namorada do goleiro Bruno - Flamengo - havia sido encontrada dentro de uma cisterna, no sítio do jogador, no município de Esmeraldas, região metropolitana de Belo Horizonte.

Logo que a confirmação foi passada aos repórteres que estavam no local, a informação “criou pernas”. A notícia foi direto para redações de televisões, rádios, jornais, agência de internet. De acordo com jornalistas de Minas Gerais, a notícia já estava até na página da Polícia Civil do estado. Você teria alguma dúvida da veracidade assim? Era a deixa que faltava para que imprensa disparasse a informação de que o caso estava resolvido.

bruno O corpo que nunca existiu...

Lembro-me de ter visto o José Luiz Datena dando a informação no ar. Agências de notícias repercutiram na hora a informação. Os sites de informações - com maior credibilidade do país - também embarcaram na novidade sobre o caso.  Cerca de 40 minutos depois tudo era retirado do ar. O site da Polícia Civil mineira não tem mais nada sobre isso - se é que teve em algum momento. Apertem os cintos, a notícia sumiu...

O caso me lembra uma situação - que nem sei se é verdadeira - que aprendi ainda nas aulas de jornalismo, no primeiro semestre. A da repórter iniciante que foi gravar uma entrevista no Fórum, com um desembargador, mas acabou voltando para a redação, alguns minutos depois, sem nada gravado. Questionada pelo chefe porquê já estava de volta, a repórter respondeu: “Não dava para entrar no Fórum. Começou um incêndio no prédio e todos os desembargadores saíram.”

De volta ao nosso caso do “corpo que não existiu” - não dentro daquela cisterna - me pergunto: a notícia errada sumiu, mas uma nova notícia não estava nascendo? Porque a polícia de MG estava tão ávida a encontrar um corpo a ponto de soltar um “alarme falso” desse tamanho sob a chancela de informação oficial? Tudo,  à partir daí,  passou a ser colocado como se a polícia apenas precisasse de “tempo” para verificar se era mesmo um corpo. Aí já era tarde e o estrago estava feito.

Acredito piamente que, em casos assim, o erro policial também é notícia. A polícia é feita por homens, como eu, que também erram. Como a polícia pode “achar” que “achou” um corpo e divulgar isso sob a chancela de que é “oficial”?

Quando entramos no ar, já havia o “vamos esperar” da polícia de Minas Gerais sobre o “terrível engano”. Mas eu preferi não esperar. Ficaria mudo esperando a Polícia reafirmar o que já havia dito? Preferi fazer como fazemos sempre em nosso jornalismo: assumir, sem medo de errar, que as informações são desencontradas, que ainda não são precisas e são os dados que a polícia está passando naquele momento. Esse é o formato de jornalismo que deixa o telespectador à par do que a polícia diz, do que o policial pensa, do que ele acha que pode acontecer dali para frente. Sempre foi assim e no caso do goleiro Bruno não poderia ser diferente.

Portanto, resumindo, o corpo até agora não apareceu. O telespectador decide onde depositar sua confiança, mesmo sabendo que somos falíveis quando a polícia também o é. Somos o reflexo de um trabalho investigativo. O que eles falam a gente também fala, atribuindo a eles a fonte.

Aos colegas mais conservadores, meu lamento. Aqui nada vai ser apagado, nada vai ser mudado como outros sites fizeram. Não é vergonha dizer o que a polícia preferia que nem ela tivesse dito. Não há porque temer o erro. A questão é estar preparado para lidar com ele.

O corpo não apareceu, mas a polêmica veio boiando...

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