O drogado e a culpa…

19
jul
14h52

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 20/07/2010 às 14h32

Essa postagem facilmente poderia ser re-batizada de efeito "Pó-Royal". Argumentos - que tem sua verdade embutida - que acabam ganhando uma dose de "fermento" por parte das nossas autoridades, para que pareçam maiores do que realmente são. É o caso, repito, de se atribuir ao usuário de drogas a única e total responsabilidade do tráfico existir.

É claro, óbvio e evidente que todos nós sabemos que comprar drogas - seja ela qual for - alimenta um mercado clandestino e abominável. Quanto a isso não resta dúvida. Até mesmo o comércio de remédios para emagrecer - assunto que mereceria uma postagem à parte - envolve um "tráfico" de colarinho branco. O mesmo eu diria sobre o comércio "paralelo" de produtos para ganhar massa muscular: as chamadas "bombas" das academias.

bomba O drogado e a culpa...

Remédio para ganhar massa com menos esforço: o tráfico de algumas academias. / Foto: internet

Outro dia escutava um conhecido desenvolver um raciocínio contrário ao tráfico de drogas. Mas ele não exitava em contar como conseguia remédios para malhar menos e "bombar" mais. Tudo "por baixo dos panos", como dizia ele. O esquema envolvia um farmacêutico que comprava uma "carga-extra" de remédios para a farmácia. Depois tudo era vendida sem controle. Como ele achava que essa "carga" aparecia? O rapaz não tinha a menor idéia. Não precisamos nem de dois minutos para o jovem entender porque tantas cargas de medicamentos (até para cavalos) são roubadas quando chegam ao Rio de Janeiro pela Via Dutra.    

Essa é a nossa dose diária de hipocrisia, que eu também sou vítima. As doses são cavalares, quase uma overdose de argumentos que só acreditamos quando alguém as vende em um embrulho "mais bonito". A questão do tráfico é a mesma coisa, na minha humilde opinião. É mais fácil para quem não consegue controlar o crime atribuí-lo APENAS ao usuário,  sem direito a defesa ou a tratamento digno.   

Para encerrar, vou destacar aqui alguns tópicos de um comentário muito interessante do leitor Segadas Vianna, enviado ao blog. Veja só:

"...Culpar apenas o usuário ou dependente químico pela violência não só é uma bobagem, como é também uma indignidade aos que sofrem da dependencia química e suas famílias. Uma verdadeira covardia até. É ser extremamente míope."

Agora o ponto mais forte e corajoso de se falar, na minha opinião:

"...Há dependentes químicos ou mesmo usuários recreativos, principalmente da maconha, que vivem o paradoxo de serem contra o narcoterrorismo e não terem outra opção de compra que não nas mãos dos traficantes."

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POSTAGEM ORIGINAL:

Sou contrário ao tráfico de drogas. Mas também sou contrário à uma droga, mais viciante e potente, que se chama demagogia. Falar em combate ao tráfico condenando apenas o usuário é no mínimo transferência de responsabilidade. É passar para o cidadão - aquele doente pelo consumo exacerbado de entorpecentes - a culpa por um combate que é inoperante não apenas às drogas e sim à criminalidade de maneira geral.

crack O drogado e a culpa...

Crack: a droga da morte que se expande na classe média. Foto: ilustração.

Sempre que escuto discursos sobre o assunto faço um exercício simples: substituo a palavra “tráfico” por “crime”. Com as palavrinhas trocadas o assunto ganha uma roupagem diferente. Quando o tráfico é tratado como “um crime”, salta aos olhos que o problema não é apenas a droga e sim o combate à criminalidade que envolve a droga. Combate este inapto e inepto em nosso país.

Em outras palavras: tráfico é problema de segurança pública, como o combate ao roubo de carros, o combate ao sequestro relâmpago, ao roubo à residência ou combate aos constantes e temerosos arrastões. E por que nesses crimes o estado não é 100% eficiente se não tem nenhum agente “passivo” como o usuário? Simples: porque no Rio de Janeiro se descobriu que é fácil associar tudo às drogas, como se elas fossem a única mola mestra de absolutamente todos os problemas e mazelas que enfrentamos.

Acostumamos a escutar que o roubo de carros é movido pelo tráfico que precisa de veículos para fazer os “bondes”. Acostumamos a conviver com a teoria pasteurizada de que sequestro relâmpago existe para fazer dinheiro e comprar armas para o tráfico. Banalizamos o argumento de que quem rouba residência é viciado que perde a noção do perigo para vender tudo o que rouba para conseguir mais e mais cocaína ou crack. Nos convencemos - por uma massificação conveniente às autoridades - de que os arrastões são formas do “poder paralelo” do tráfico mostrar tanto poder quanto o poder instituído, com uniformes e tudo. Como não temos como evitar todos esses crimes apenas com nossos comportamento cotidianos, somos apenas agentes passivos.

Nas drogas? Nas drogas é diferente: foi fácil descobrir que nossa sociedade - vítima dos tiroteios do tráfico - também é o principal agente causador destas mazelas quando, entre nós, estão os usuários. A receita ficou pronta: a culpa do tráfico é do usuário. E se meu questionamento ainda te deixar com alguma sombra de dúvida, relembro aqui aquela máxima publicitária dos biscoitos na década de 80: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”

tostines O drogado e a culpa...

Ilustração: internet

Meu texto hoje não trata de apologia aos entorpecentes. Absolutamente não. Meu texto não trata de conivência com o tráfico. Absolutamente não de novo. Meu texto nem de longe passa pelo assunto descriminalização - assunto sobre o qual já escrevi muito por aqui. Meu texto hoje não é para levantar bandeira nenhuma ou defender usuários - que também tem sua parcela de responsabilidade. Quero apenas ser agente questionador do tamanho dessa "parcela".

Quero tentar olhar nossa realidade por um prisma diferente, longe de idéias fixas e plantadas em algum momento por alguma entidade dominante. Acho que todo esse raciocínio é uma reflexão. Uma “virgula” nos nossos conceitos corridos e tão sedimentados que, as vezes, não permitem brechas para demais questionamentos.

Hoje é muito mais fácil colocar o usuário como único “bode espiatório” para um problema de inoperância do nosso poder público instituído. O poder público falha. A culpa acaba parecendo ser mais do usuário - doente - do que do bandido traficante. É uma questão de ponto de vista,  em um prisma que parece ser olhado apenas pelo lado mais interessante à quem supostamente "domina".

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