Bala perdida: caso perdido.

15
set
14h57

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 16/09/2010 às 14h23

 

A decisão foi inédita e deve criar o que se chama de "jurisprudência". O que é "jurisprudência"? Trata-se de uma decisão da justiça que acaba dando respaldo para que outros juízes se posicionem da mesma forma: punir o estado quando a segurança pública falha e permite que aberrações chamadas de "balas perdidas" se repitam.   

Estou falando da decisão - inédita - do Tribunal de Justiça do Rio, que determinou que uma família receba uma indenização do estado por ter perdido um parente, vítima desse mal que de "perdido" não tem nada.  

Não acredito que essa deva ser uma decisão a ser seguida paulatinamente: os cofres públicos sofreriam em demasia com tais "garfadas" frequentes. Mas não vejo outra alternativa, senão a punição, para que haja o condicionamento. Não funciona assim conosco, cidadãos? Quando avançamos o sinal, quando estacionamos no lugar errado, o estado não pune, não multa? Então porque o estado não pode ser cobrado na mesma moeda quando falha na sua obrigação básica? Faltou policiamento para que armas não entrassem no Rio clandestinamente.  Faltou controle para que o tráfico não tivesse raizes tão profundas na nossa cidade. Faltou tudo e só nós somos cobrados?  

Depois o estado - união, estado, município - não entende porque não consegue ser respeitado em todas suas esferas. Como respeitar quem não se respeita e não olha corretamente por seus contribuintes? Por isso que, na crítica social, o assunto já virou até piada, como a charge que reproduzo abaixo.    

charge 22 05 07 Bala perdida: caso perdido. 

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 POSTAGEM ORIGINAL:

  

bala perdida 2 Bala perdida: caso perdido.Entrevistar um delegado de polícia quando o assunto é bala perdida é uma terefa complicada. Eu sei que essa é uma ocorrência sem solução em 99% dos casos e o delegado também. A diferença é que eu posso falar isso no ar... Ele infelizmente não.  

Acredito que o caso do menino Matheus, de 13 anos, - morto por bala perdida dentro de um posto de saúde de Caxias -  é mais um caso que, infelizmente, vai virar estatística. E não digo isso desmerecendo o trabalho de investigação ou desmerecendo o sofrimento da família que quer justiça. Gostaria de estar errado.  

Me apóio em fatos para chegar a esta conclusão. Siga o raciocínio comigo: estamos falando de uma bala de fuzil, armamento pesado e de guerra, que consegue percorrer uma distância de 4 km antes de perder força. Puxando para pontos de referência no Rio de Janeiro, é como se um tiro fosse dado na pista do aeroporto Santos Dumont e coseguisse acertar uma pessoa no alto do Pão de Açucar!  

O primeiro passo então é derminar a direção de onde a bala veio. Isso a perícia até resolve bem: a forma com que a bala perfurou o crânio do adolescente pode esclarecer muito sobre a trajetória. A tecnologia hoje permite facilmente sabermos qual parábola ela fez antes de cair com força redizida atingindo o menor.  

O segundo passo é descobrir se havia "alguém atirando" na direção de onde a bala veio, em um raio de 4 km. Aí a investigaçao se baseia em apurar se havia, por exemplo, alguma operação, em alguma comunidade, algum ponto de conflito, no momento em que o jovem foi atingido.  Se a resposta for positiva, o próximo passo é testar os fuzis dos policiais militares que estariam no local. Exames de balística também conseguem definir isso através de "ranhuras" que ficam impressas no projétil, de acordo com "ranhuras" que também existentes no cano do fuzil por onde ela passa antes de sair. Mas o progresso pára por aí se a conclusão for que a Polícia Militar não fazia nenhuma operação nas redondezas. Coisa que a secretaria de segurança pública já disse (?) ontem mesmo. Então sobra uma opção: o tiro foi dado por algum traficante, algum assaltante, algum bandido em ação.  

bala perdida Bala perdida: caso perdido.

Bala perdida: de cada 25 casos, apenas 1 deles é esclarecido. / Fonte: ISP-RJ

 A investigação terminou aí. Porque? Por que não há como definir de qual fuzil essa bala veio sem ter acesso ao próprio fuzil!  A polícia vai fazer exame balístico em cada fuzil que for apreendido daqui para frente para definir as armas "donas" de cada bala que matou um inocente no Rio? A investigação pára por aqui e o caso vira apenas mais um número na estatística.    

Minha conclusão: discutir de onde veio bala perdida no Rio é gastar energia em um trabalho que pode ser frustrante. As investigações, claro, precisam ser feitas. Sem dúvidas sobre isso. Mas trabalhando no Rio de Janeiro há 5 anos aprendi - vendo na prática - que nossas autoridades são impotentes na maioria desses casos. Acho que pouca coisa muda quando se gasta energia numa investigação sobre a origem da bala perdida e quase nenhuma energia (não tanto quanto gostaríamos) para se retirar armas pesadas de circulação na nossa cidade. É frustrante a polícia saber que o Matheus pode virar apenas mais um número. O delegado, certamente, não pôde dizer isso no ar.

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