Arrastões: o tráfego do tráfico.

29
set
13h36

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 30/09/2010 às 14h23

Já percebeu que a mudança no perfil do crime por causa das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio também afeta diretamente crianças e adolescentes? Parece loucura mas não é. O "troca-troca" de funções, fazendo "traficantes" virarem "assaltantes" - o que descrevi na postagem original - serve para quem já está "consolidado" no tráfico, digamos assim. Gente que já vivia das drogas e agora precisa de outra fonte de renda. 
 
 Mas sabemos que não é só de traficante conhecido ou experiente que vive o comércio de entorpecentes. Para suprir as baixas que o tráfico sofre - como em qualquer "carreira profissional" -  há sempre a necessidade de novos ingressos ao mercado. Aí que entra aquela história de jovens aliciados pelo tráfico, que começam como "olheiros" ou "aviõezinhos" e vão sendo promovidos aos poucos. Prosseguindo então o nosso raciocínio: pra onde vão então esses jovens que entrariam para o tráfico nessas comunidades onde esse comércio já está - teoricamente - sufocado?  A resposta pode estar no novo aliciamento que surge para que esses jovens ingressem agora em novos crimes, novas fronteiras para a bandidagem. Raciocínio explícito na sonora de um delegado, entrevistado hoje, quando falava justamente sobre o aumento de menores envolvidos em assaltos à mão armada na Baixada Fluminense.

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Menores no crime: estatística mostra aumento de crimes envolvendo adolescentes no Rio. / Foto: jornal "O Globo".

  
É importante frisar aqui - sem nenhum ar professoril ou de autoridade nesse tipo de assunto - que é nessa hora que o estado precisa ser atuante. É nessa hora que esses jovens precisam ter opções. É quando o tráfico enfraquece e menores não tem mais essa alternativa tão tentadora de lucros - fáceis e rápidos - que é preciso investir em educação, cursos profissionalizantes. Em outras palavras: alternativas! 
 
Que o poder público haja rápido para depois não precisar mudar o seu eixo do argumento quando explica porque não consegue combater o tráfico de drogas. Hoje a culpa é do usuário, né? Se essa massa traficante - e a de "new-comers" adolescentes - seguir para arrastões e assaltos à motoristas, não vai adiantar dizer que a culpa é nossa por comprarmos carros... 
 
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POSTAGEM ORIGINAL:

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Vítimas do último arrastão no Jardim Botânico na delegacia. O quinto caso desde segunda. / Foto: jornal "O Dia".

Assim como nosso mercado de trabalho, o mercado da criminalidade é dinâmico. Tem sempre aquelas profissões que estão em alta ou em baixa. Ao que tudo indica, no Rio de Janeiro, a "profissão" traficante está dando lugar a "profissão" assaltante. As Unidades de Polícia Pacificadora "varreram" (?) a criminalidade ligada às drogas, mas trouxeram para o asfalto a droga dos arrastões. Eles estão de volta - e a todo vapor - aterrorizando motoristas do Rio de Janeiro. Hoje foi registrada a quinta ação de roubo em sequência desde a segunda-feira à noite. Em outras palavras, para não "tucanar" o crime: cinco arrastões em pouco mais de 24 horas. 

O desafia do próximo governador do Rio - que deve ser o mesmo Sergio Cabral de acordo com as pesquisas - vai ser esse: lidar com os reflexos de uma política de segurança que vem dando certo, mas que carrega, à reboque, seus próprios reflexos. Há muito tempo as ações criminosas na Baixada Fluminense, em Niterói e em São Gonçalo são destaque em nossos telejornais. São notícias de violência no asfalto, bem como notícias até de pagamento de pedágio para chefes do tráfico - foragidos de suas comunidades de origem -  se esconderem no Complexo do Alemão, ainda considerado uma fortaleza impenetrável pelo tráfico. 

fuzil Arrastões: o tráfego do tráfico.

Fuzil MT-40. Arma usada pela PM. Uma das mais procuradas por bandidos. / Fonte: ISP/RJ. / Foto: fabricante.

Não precisa ser especialista - destes que analisam esse " tráfego do tráfico" - para perceber: se nada for feito agora,  o panorama pode não ser muito positivo para o interior do estado, bem como para os estados vizinhos nos próximos anos. As cidades interioranas, que já tinham uma participação considerável no tráfico, estão registrando cada vez mais ocorrências deste tipo. Traficantes de cidades da Região do Lagos, por exemplo, estão não só alargando seus domínios, como também aumentando sua movimentação de chegada e saída de entorpecentes. As cidades ao redor do Rio de Janeiro estão sendo os novos "entrepostos" comerciais da droga em substituição à algumas comunidades ocupadas. Aliado a este fato temos que considerar ainda que quando todo esse movimento cresce, também aumenta a corrida armamentista em busca de mais equipamentos para proteger seus negócios. Afinal de contas, se uma facção se move, é certo que as concorrentes também se moverão e recomeça a disputa por território. 

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Cena do filme "Tropa de Elite". O tráfico, aos poucos, vai mudando de endereço. / Foto: divulgação.

Se essa história lhe parece familiar, saiba que você, leitor, não está errado. Esse retrato é apenas um "remake", um filme repetido, de como teve início historicamente a mazela número um da capital fluminense: o tráfico de drogas. A principal arma agora é a experiência. É não esquecermos de usar esse conhecimento adquirido para não deixar que o problema brote de novo, só mudando de endereço. O Rio está tendo a chance de um novo começo. Resta saber o que vai ser feito de diferente já que, agora, o tráfico está aparentemente mais longe, embora os arrastões estejam notoriamente mais perto. 

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