Alemão: ressurgindo das cinzas.

30
nov
12h25

tanque1 Alemão: ressurgindo das cinzas.Os traficantes não acreditaram. Pensaram que tudo seria um tremendo ato teatral e que o Complexo do Alemão continuaria no alto de sua invencibilidade. Talvez, em alguns momentos, tenha até parecido: tanques de guerra, veículos com camuflagem, soldados com caras pintadas.  Parecia... mas não era. O efeito psicológico para intimidar os bandidos foi a primeira arma "disparada". Isso antes mesmo da polícia entrar no complexo de 16 comunidades.

A paz chegou mas isso não significa que a guerra terminou. Encaremos que essa foi apenas uma batalha. Desacreditado? Não mesmo. Como entusiasta de que a "cidade maravilhosa" pode ser mais maravilhosa ainda, acho,  mais do que nunca, que a cidade do Rio tem jeito quando realmente querem dar um jeito nela. Só não quero imaginar uma onda de "ufanismo" sendo aproveitada com finalidades eleitoreiras no futuro. O carioca quer soluções definitivas, como as Unidades de Polícia Pacificadora prometem e cumprem. Até aí tudo bem. Mas não podemos esquecer que ainda é momento de cautela: comemorar guerra vencida agora, pode acabar sendo um "tiro no pé" dando espaço para o inimigo se reestruturar.    

bandeiras Alemão: ressurgindo das cinzas.

Bandeira do Brasil e do Rio de Janeiro: um marco da ocupação. / Foto: Jornal " A Tarde".

Durante toda a cobertura dessa guerra que vivemos, ficando mais de 5 horas no ar por dia, ao vivo, transmitindo desde os ataques até a invasão do domingo; um argumento foi comum entre todos, absolutamente TODOS os entrevistados: o Rio nunca precisou de articulação policial e sim articulação política para ter o problema do crime organizado resolvido.

Façamos contas rápidas: se o poder público conseguiu mobilizar 2600 homens em 2 semana para invadir o Alemão - que tinha no máximo 600 traficantes - ficou claro e evidente que margem de manobra pessoal  e a té poder de fogo o estado (entenda-se governo em qualquer esfera) realmente tem. Então me pergunto: porque não fizeram antes?

Policias Alemão: ressurgindo das cinzas.

Exército e polícia: ação conjunta para combater o tráfico. Porque não foi feito antes? / Foto: Jornal "A Tarde".

Quem mora no Alemão sofreu, tenho certeza disso. Mas como formador de opinião me sinto no direito de pedir paciência. Paciência em relação à revista pessoal, em relação a entrada nas casas, paciência em relação a possíveis erros que possam ser cometidos, como o R7 noticiou hoje, no caso de um rapaz de 18 anos confundido com bandido. Os moradores precisam denunciar até mesmo excessos que teriam sido cometidos por policiais militares. Toda guerra tem baixas e também erros. Mas as mudanças já começam a aparecer. O comércio vai resurgir, voltando a circular seus 36 milhões de reais diários. O ensino vai melhorar e o acesso aos serviços públicos também. Até as casas vão valorizar dando um salto de valores. Vai ser bom para todo mundo.

Como a ave mitológica da grécia antiga, o complexo do Alemão é uma "Fênix contemporânea". Das cinzas da tragédia, não tenha dúvida, vai ressurgir mais vida. Como diz o samba enredo da Imperatriz, ainda de 1989,  "Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós." Vinte e um anos depois o enredo não poderia ser tão atual se o tema voltasse à Marques de Sapucaí.


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Hoje em Dia: a casa cresceu!

26
nov
14h29

top interna2 Hoje em Dia: a casa cresceu!

Se aquele ditado que diz que coração de mãe sempre cabe mais um for verdadeiro, a casa do Hoje em Dia é uma mãe. Mãe que ganha mais um filho a partir deste sábado. Foi com esse imenso coração aberto que a produção do programa, diretores e apresentadores me receberam esta semana em São Paulo. E quando digo de coração aberto, não é um exagero. Foi com um fraterno abraço que Celso Zucatelli, Chris Flores, Edu Guedes, Gianne Albertoni e Mariana Leão me receberam no programa. Esta última com um abraço ainda mais forte, né? Afinal de contas é com ela que passo a dividir a casa do Hoje em Dia aqui no Rio de Janeiro.

gianie1 Hoje em Dia: a casa cresceu!celso Hoje em Dia: a casa cresceu!O contato com o programa não é novidade. Desde 2007 o quadro "direto da redação" já levava as notícias do Rio para o Hoje em Dia num descontraído bate-papo com Britto Júnior. O quadro deu certo e motivou a crianção de um estúdio do programa - ou uma casa como a gente chama - para o Rio de Janeiro. Foi aí que entrou a brava guerreira Mariana Leão que, do salto alto do estúdio à cobertura de catástrofes como enchentes e ataques de traficantes, nunca deixou a "peteca" cair.

Hoje em Dia agora ganha mais espaço. A nossa tarefa é levar notícias, entretenimento, música e variedades em 40 minutos de programação voltada só para o Rio de Janeiro! Essa é a explicação para meu afastamento do RJ Record desde a semana passada.

edu1 Hoje em Dia: a casa cresceu!chris Hoje em Dia: a casa cresceu!Mais que anunciar uma novidade na "minha tela, na sua tela"; essa postagem também é um agradecimento aos colegas Jayme Ribeiro, Aline Pacheco e Gustavo Marques que me substituíram com maestria nesses dias. Para assumir o posto, em definitivo, a novidade também entra no ar na segunda-feira: o jornalista Luiz Bacci assume o RJ Record com a mesma competência com que já apresentava o SBT-Rio.

Para todos aqueles que se preocuparam e questionaram minha ausência no blog, no Orkut, no Facebook, e no Twitter? Para estes o meu muito obrigado pelo carinho de todo coração.

Mas vale lembrar aos nossos telespectadores: nosso novo encontro está marcado, sempre de  segunda a sexta, sempre às 9h30 da manhã. Excepcionalmente neste sábado com uma edição especial sobre a onda de ataques "terroristas" no Rio de Janeiro.

Fábio Hoje em Dia: a casa cresceu!mariana Hoje em Dia: a casa cresceu!

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Passos básicos para acertar um tiro-no-pé.

24
nov
20h29

No meio do caminho tinha um pacote. Tinha um pacote no meio do caminho. Só que na rota diária de cada carioca também tinha o pânico. As caixas eram de uma empresa de produtos de higiene, distribuídas nas ruas da zona sul de propósito, para atiçar a curiosidade das pessoas. A empresa não poderia ter escolhido campanha promocional pior nessa época de terrorismo no Rio de Janeiro.

bomba ipanema 300x225 Passos básicos para acertar um tiro no pé.

Uma das caixas deixadas em Ipanema: rua interditada e medo de bomba. / Foto: R7.

O que as caixas significavam? A empresa não explicou à polícia. Mas espalhar os pacotes de madeira - com direito a cadeado e tudo - definitivamente não foi uma boa ídeia. Além de bom-senso faltou também o básico: autorização da prefeitura que já tinha dito não à idéia macabra.

Pior tiro-no-pé que este? Existe: é brincar com a situação de pânico que atinge a cidade exercitando esse suposto "bom-humor" com trotes. O número de ligações para o 190 só está aumentando. Sempre pessoas denunciando que novos veículos estão sendo incendiados. Uma atendente do serviço da PM chegou a confidenciar hoje que, até lixo sendo queimado no quintal era motivo de denúncia. Resumindo: nem tudo é trote e tudo mundo está em pânico no Rio de Janeiro.

190 Passos básicos para acertar um tiro no pé.

Central do 190: atendimentos sérios, pânico e também trotes. / Foto: PMRJ

O prefeito Eduardo Paz não mediu palavras e falou na língua do povo que é terrorismo mesmo. O governo do estado demorou uma semana para admitir que eram atentados em série. Não vou nem condenar tanto: foi melhor que na época dos arrastões - sem fogo nos carros no  final - em que a polícia negava veementemente que houvesse qualquer ação orquestrada.   

Na manhã desta quarta-feira, em São Paulo, a pergunta número 1 dos colegas quando me viam dentro da emissora era sempre a mesma: "quais são as últimas notícias do Rio de Janeiro com todos esses ataques?"  Não tinha muito o que responder. Na verdade tinha mais o que eu me questionar: será que se isso acontecesse final de setembro mudaria o rumo das eleições no Rio de Janeiro?

Para os colegas paulistas que queriam saber as útimas do Rio respondi com a descontração típica do carioca, que já nem sei mais se é sinal de senso de humor aguçado ou banalização da violência: "As últimas do Rio são que o Rio, infelizmente, parece estar nas últimas."

carroqueimadonoite280 Passos básicos para acertar um tiro no pé.

Carros e ônibus queimados: 500 mil reais de prejuízo para cada coletivo destruído. / Foto: Agência "O Dia".


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

A culpa é da mosca.

23
nov
00h03

Mosca Da Sopa 150x150 A culpa é da mosca.Não é só mosquito da dengue que me assunta. Surto maior que esse - temido para o verão - é o que começou ainda nesta primavera e faz as coisas estarem longe de serem “só flores” para o Rio de Janeiro. A “mosquinha da banalização” parece que pousou na pele do carioca e agora deixa sua fétida contaminação: acharmos que tudo isso que acontece na cidade é muito comum.

Se você não se identifica com esse perfil, analisemos então nossas autoridades públicas. O secretário de segurança do estado, José Mariano Beltrame, ganhou destaque hoje na mídia com afirmações polêmicas em Brasília. Ele disse que a polícia não tem como combater a ação de criminosos nas ruas do Rio de Janeiro que acontecem desde o fim de semana. Não chega a ser de todo uma mentira o que o secretário disse: realmente não existe “bola de cristal” para se prever exatamente todos os ataques como estes que, sem exagero nenhum, podemos chamar de “terroristas”. Mas a afirmação do secretário me lembra uma lenda que ouvi a algum tempo em um destes eventos de motivação empresarial.

van A culpa é da mosca.

Carro incendiado após ataque na manhã desta segunda-feira. / Foto: R7.

 Era uma vez uma tropa romana em guerra que, faltando apenas uma batalha a ser vencida, sofreu uma terrível perda: a de seu principal líder que guiava todo o exército. O general morto significaria o sepultamento de toda a força, de toda a motivação do grupo que precisava ser bravo e guerreiro. O que fazer então? Alguém teve a brilhante idéia: colocaram o general morto, dentro da armadura amarrado a seu cavalo. Foi só dar uma chicotada no animal e pronto. Lá estava ele, na frente, guiando todo o exército... porém morto.

 Temo que o secretário de segurança pública - longe de estar “morto” funcionalmente, não me entenda mal - esteja seguindo o exemplo inverso sem sentir. Será que dizer que a polícia não tem como combater ataques nas ruas significa dizer ao crime organizado que estamos à mercê deles? É que não sei se nossos bandidos são tão brilhantes em análise de texto para compreenderem que o secretário está falando de previsibilidade e não de policiamento ostensivo, entende?  

 Pior ainda é ver que a “mosquinha da banalização” também já pousou nas nossas cabeças quando se fala sobre a origem da ordem para os ataques. Falamos com muita tranqüilidade que bandidos continuam dando ordens, mesmo depois de presos, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo! Alertem-me, por favor, se o fato de não ter nascido no Rio me faça ser tão radical. Mas não consigo imaginar discutirmos “efeitos” sem discutirmos “causas”. Toda explicação do secretário hoje para mim é discussão apenas de “efeitos”. Acho que é por isso que uma mosca, hoje, consegue derrubar um exército policial: a “mosquinha da banalização”.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Esse assunto é uma #*!+@!

19
nov
14h05

papel higienico2 150x150 Esse assunto é uma #*!+@!Quem nunca usou a frase que é título dessa postagem, mesmo que em um daqueles momentos de raiva intensa, que atire a primeira pedra. E que fique bem claro que me refiro a jogar apenas “pedra”, ok?

Longe de qualquer aptidão para agredir alguma “Maldita Geni”, o pior seria arremessar o objeto de estudo desta postagem no "ventilador", como se diz quando algum assunto polêmico é denunciado ou notíca ruim espalhada por aí. O assunto pode não ser dos mais agradáveis mas é dele mesmo que estamos falando: do "cocô".

Se o nome lhe parece repugnante fique sabendo que o assunto é sério. Ele pode falar mais de você do que você pensa. Os escritores norte americanos Anish Sheth e Josh Richman, colocaram a mão na massa (eu disse na massa...) e saiu o livro "O que Seu Cocô Está Dizendo a Você - Montes de Fatos Importantes Sobre a sua Saúde".

capadolivro1 Esse assunto é uma #*!+@!

Livro: dicas sérias e úteis sobre como cuidar do trato intestinal.

 Mais sério que imaginei, o livro traz exatamente isso: informações importantes sobre a relação entre o que excretamos e a nossa saúde intestinal. A publicação funciona como um guia de identificação imediata - com desenhos e tudo - de cada tipo de fezes e a relação de seu formato, coloração e até textura com o que se passa dentro do nosso trato intestinal. Claro que a análise é puramente visual. Os autores dão nomes auto-explicativos e bem humorados aos tipos de excrementos, como "Os Que Flutuam e Os Que Afundam", "O Cocô Empedrado", "O Pingente", "O Cocô Que Põe Fim à Lua-de-Mel", entre outras definições pra lá de curiosas. Clinicamente todas fazem muito sentido.

 A leitura tem que ser sem pudor. Nada de ficar enojado ou envergonhado ao tratar do assunto, afinal de contas, todo munda faz. Para exemplificar, vou citar apenas um dos tipos de “cocôs” descritos: o "Cocô Já-Te-Vi". É aquele que vem com pedaços de comida. Normalmente milho. Segundo Dr. Barroso, médico que expõe suas opiniões e dicas de saúde no livro, o milho é um alimento que contém um altíssimo teor de fibras insolúveis. E como nosso organismo tem que eliminar o que não consegue digerir, o milho sai como entrou. Nem de longe isso significa algum problema. O livro mostra ainda os prejuízos que prender a vontade de ir ao banheiro pode gerar a ainda como prevenir câncer em órgãos do aparelho digestivo. Uma coisa que eu não sabia, por exemplo, é que até a “flutuabilidade” das fezes no vaso sanitário podem dizer muita coisa sobre alimentação deficitária, por exemplo, em fibras. Demorar muito para ir ao banheiro, dores ao evacuar e ou fezes duras demais podem indicar que algo está errado não só na “saída”, mas sim na alimentação, na “entrada”.

VASO SANITARIO Esse assunto é uma #*!+@!

 Como descobri esse livro? Simples: um colega de emissora comprou a publicação e trouxe para a redação. A primeira reação foi rir e achar curioso. Mas confesso que me surpreendi com a o grau técnico e a seriedade das informações. Claro que para falar de algo tão mal cheiroso - aliás até sobre isso o livro fala - é preciso ter bom humor. Antes do livro, a última vez que havia escutado qualquer menção a “ele”, foi no programa infantil “Cocoricó” da TV Cultura. Para quem acha que é balela e que não há propósito educativa nisso, vale prestar a atenção no vídeo abaixo.

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Preconceito por 1 dia.

17
nov
14h27

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 18/11/2010 às 14h31

Esse relato é interessante demais para ficar apenas na sessão de depoimentos. Merece destaque. Imagine quantas pessoas vivem a mesma realidade do leitor que o escreve só que, ao invês de igualdade, ainda assim pregam intolerância para se "blindarem" de qualquer desconfiaça da sociedade, hein? Veja só:

"Vamos respeitar! Sou casado e já tive relação com homem. Não quero morar com homem, apenas ter alguns momento de prazer. Me protejo para evitar levar possíveis doenças para casa, mas tudo isso poderia ser mais aberto e liberal, se não fosse o preconceito. Existem muitos casos iguais ao meu, não adianta ser hipócrita! Muitos casados gostam de ser "passivos" - como eu - e outros gostam de ser ativos, as vezes por causa das próprias esposas que não fazem tudo o que o marido pede. Mas isos não vem ao caso agora. Menos guerra e mais amor! É do que precisamos." - Haroldo Passtson

________________________________________

POSTAGEM ORIGINAL:

 

Logo 150x150 Preconceito por 1 dia. Vou tentar ser preconceituoso por um dia. Vou tentar me imaginar sendo intolerante com a sexualidade dos outros. Imaginar o quanto deve ser estranho ver dois homens ou duas mulheres, juntos, numa situação dita por muitos como supostamente “absurda” para um heterossexual ortodoxo e radical. É um breve exercício para tentar entender a cabeça de quem - aparentemente com nada na cabeça - dá um tiro num rapaz de 19 anos por ele ser homossexual, como aconteceu na última Parada Gay do Rio de Janeiro.

14 parada gay abrum575 Preconceito por 1 dia.

Divergência de números: Parada Gay em Copacabana teria atraído o dobro de paticipantes em relação aos números oficiais. / Foto: Alexandre Brum / Agência "O Dia".

Como preconceituoso assumido que sou nesses próximos parágrafos, não vou tolerar quem foge de um esteriótipo básico heterossexual. Se a cidade que eu vivo é considerada o melhor destino gay do planeta - como aconteceu no ano passado - devo considerar que esse é um problema da cidade e não meu.

A partir de hoje não posso mais ser "politicamente-correto". Talvez isso comprometa meu “ganha-pão” básico como jornalista. Já não sei mais primar por imparcialidade, por respeito aos direitos humanos básicos. Talvez não possa trabalhar também como motorista de ônibus, como empresário, lixeiro, piloto de avião ou como porteiro. Nada que me exija lidar com seres humanos, salvo aqueles que não se declaram exceção à minha regra. Como policial ou agente de autoridade pública que tem porte de arma? É melhor esquecer... Meu equilíbrio pode estar comprometido.

Mas o anúncio de “precisa-se de garçom”, na vitrine, depois de tantas portas fechadas, talvez possa me ser interessante. Talvez precise apenas colocar pratos e bandejas sobre a mesa sem olhar necessariamente para quem sirvo. Será que estarei saindo do meu exercício pró-intolerância? Talvez isso nem passe pela minha cabeça quando o gerente me mostrar que gays gastam mais em restaurantes e com mais frequência. Talvez eu mude ao saber que, sem uma família ortodoxa e os gastos que vem à reboque delas, muito provavelmente homossexuais sejam mais desprendidos na hora de dar as minhas gorjetas. A minha intolerância começa a ser lapidada quando descubro que meu salário está vindo do bolso daqueles que, há até bem pouco tempo, eu preferiria dar um tiro no parque do Arpoador simplesmente porque estavam com seus companheiros.

Alexandre Ivo1 Preconceito por 1 dia.

Alexandre Ivo, 14 anos. Assassinado por homofobia em São Gonçalo no começo do ano. / Foto: arquivo R7.

Ser intolerante talvez comece a pesar no meu bolso, ou melhor: a deixa-lo menos cheio. Talvez eu descubra que quando a primeira página de um jornal internacional estampa uma manchete de homofobia, menos gays - que eu agora até já vejo com outros olhos - se dirigem ao Rio para passar suas férias. Talvez o hotel, ao lado do restaurante onde trabalho, fique mais vazio e eu tenha menos refeições a servir. Talvez a culinária requintada que levo às mesas, não sirva para todos os tipos de público. Supresa: a casa acabou se especializando neste tipo de público.  Talvez o restaurante feche e eu me veja na situação de me perguntar: aonde estão os homossexuais que tanto movimentavam a economia e o caixa do restaurante?

A minha intolerância parece que não vai durar muito tempo. Dar importância ao que os outros fazem da sua sexualidade me parece agora vazio como  estão as panelas. Penso que eu já quero todos os gays de volta, até de mãos dadas - porque não? - aqui dentro de novo.

Acho que meu breve devaneio da intolerância pode ir ficando por aqui. Em meros 7 parágrafos já percebi que sexualidade dos outros não se discute, não se agride, não se dispara contra. E se meus valores morais; os direitos humanos e até meu lado cristão não me permitirem tal “superação”; que pelo menos eu seja mercenário: que nunca me esqueça que cada emprego que é gerado quando a Avenida Atlântica é tomada por 1 milhão 250 mil homossexuais e simpatizantes, pode ser o meu, o da minha esposa, ou até do meu filho. Rapaz que, ao contrário do meu “eu-fictício”, talvez seja mais flexível com seus conceitos ou que até me choque ainda mais fazendo fazer parte justamente desse grupo que, antes, eu queria almejar com um revolver porque estava no parque do Arpoador se beijando.

Mas isso só quando era filho dos outros...

16 gay mae ssilva5751 Preconceito por 1 dia.

Abraçado à mãe, jovem espera ajuda de testemunhas para identificar agressores. / Foto: Severino Silva / Agência "O Dia".


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

RESTART: a moda colorida. ( parte 2)

15
nov
20h02

banda restart1 150x150 RESTART: a moda colorida. ( parte 2)PeLu (Pedro Lucas), PeLanza (Pedro Lanza), Koba (Kobayashi) e Thómas (chamado carinhosamente de “Thominhas”), não se sentem Justin Bieber. Mas foi impossível não perguntar a eles o que já havia ouvido Justin Bieber responder em uma entrevista na televisão: qual a primeira coisa que compraram com o primeiro dinheiro que ganharam com a banda? Os quatro responderam quase que em coro: celulares! Aparelhos coloridos é preciso frisar.

 O assunto dinheiro não é tabu para eles. Questionados sobre o futuro, eles contam que guardam parte do que ganham com “juízo”, digamos assim. “A gente tem uma base familiar boa, então aprendemos desde pequenos a administrar dinheiro.” - finaliza PeLu. De fato, nenhum deles me passou ar de deslumbramento com esse binômio tão difícil de lidar com tão pouca idade: fama e dinheiro. 

DSC00163 768x1024 RESTART: a moda colorida. ( parte 2)

Fã orgulhosa: roupas e acessório com a marca "Restart".

Mas porque a primeira compra foi celular do tipo “smartphone”? Simples: foi na rede mundial de computadores que os quatro nasceram e cresceram perante o público. Aparelhos que permitem twittar o tempo todo são equipamentos de primeira necessidade! Há dois anos, quando lançavam músicas pela internet, foi só utilizar as redes de relacionamento que, em uma semana - garantem eles de pés juntos - a primeira música “Recomeçar” entrou para o “top 10” das mais pedidas. “A gente nunca vai largar a internet. Todos os artistas deveriam pensar em vender ou comercializar seu trabalho pela rede”. - completa PeLanza. E olha que o rapaz não está de brincadeira não. Basta uma rápida olhada na “webstore” do grupo para ver que lá se encontra de tudo - tudo colorido -  para todos os fãs de carteirinha ou não.

 Será que precisar ser tão colorido assim para gostar do grupo? PeLu garante que não. “A gente vê nos shows desde aqueles que só curtem Restart, até os que conhecem no máximo duas ou três músicas nossas. São pessoas que na verdade são do funk ou do samba. Mas está todo mundo lá, trocando uma idéia.” - arremata.

 Exageros à parte, pode não ser bem assim quando alguns estilos são um pouco mais intolerantes. Os resistentes a esse “estilo cheio de cores de viver” não mediram esforços para vaiar a Restart esse ano no VMB da MTV. Mas quem liga? Os garotos levaram nada menos que 5 prêmios, desde melhor música até banda revelação. Você ligaria?

 A entrevista já ia longe e já tinha virado um belo bate-papo, mas lembrando que já era quase hora do show e uma multidão estava há 4 horas em pé esperando o Restart, fui caminhando o para o final.

250px Banda Restart 2009 RESTART: a moda colorida. ( parte 2)

 Para encerrar, não deu para deixar de perguntar as impressões sobre a cidade maravilhosa. Não esperava declarações contundentes ou polêmicas sobre o Rio. A violência passa longe do repertório de impressões sobre a cidade. “Falem o que for mas o Rio continua lindo” -  disse-me o desinibido PeLanza. Todos demonstram que não tem medo da cidade - quem teria com tantos seguranças? - e se mostram apaixonados pelo Rio de Janeiro. E nesse ponto dá pra perceber, pelo brilho nos olhos, que não é discurso ensaiado pra vender mais discos na terra que faz o “s” virar um “x” em cada frase não. “Nunca passamos por situação ruim que deixasse alguma imagem ruim pra gente. O que fica é o carinho” - disse Koba fechando o raciocínio.

 O que marcou a cidade para Thomas? Uma cena peculiar: a praia de Copacabana vista pela varanda do Hotel Othon Rio, onde ficaram em uma das várias outras 5 vezes que estiveram se apresentando no Rio. “O Rio é uma mistura. É o sambista com roqueiro, o baladeiro com o surfista.” - conta PeLu. Carioca de carteirinha como sou, não pude discordar. Fim de papo e hora de seguir para o ginásio onde seria o show. As mãos que quase destruíam o portão de ferro na pousada agora faziam “música” ao ouvido dos quatro rapazes batendo na lataria do veículo. Entendo porque antes de cada show eles fazem questão de, além de passar as música que vão tocar, agradecer a Deus pelo sucesso estrondoso em menos de 2 anos de carreira.

 A pouca experiência com os meninos do Restart me deu uma percepção do que fez o grupo “bombar” independentemente de qualquer avaliação de conteúdo das músicas ou de “sucesso instantâneo” como vemos hoje. Eles criaram o que ninguém tinha vendido até então no mercado do fonográfico brasileiro: as cores gritantes, as músicas que falam de paixão adolescente associadas ao visual sem preconceitos, que permite até cinto de oncinha na cintura do baterista Thómas. O fama para eles é assim: sem estrelismos, sem deslumbramentos. Não precisa usar óculos cor-de-rosa para descobrir que, para os fãs, visitas assim vendem discos e deixam o Rio muito mais colorido.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

RESTART: a moda colorida. (parte 1)

15
nov
18h38

Restart2 150x150 RESTART: a moda colorida. (parte 1)Nenhum dos quatro tinha sequer uma cor repetida nas roupas. Tênis coloridos, calças com tons intensos, camisetas com estampas divertidas. Os casacos, em tons que variavam do azul ao amarelo mais “cheguei” - como se dizia na década de oitenta - arrematavam o visual e aqueciam os quatro garotos de São Paulo que não esperavam uma noite tão fria e chuvosa em pleno Rio de Janeiro.

Aliás, Rio de Janeiro que nada. A banda estava quase que “escondida” em uma pousada a aproximadamente 1 hora e meia do Rio, no município de Itaboraí, região metropolitana da cidade. Porque tão longe? Confesso que passou de tudo na minha cabeça: desde corte nos custos, até preferência por um local mais perto de São Gonçalo, município vizinho onde estava marcada a apresentação daquela noite. Só mesmo ao chegar à pousada deu para entender o motivo: mesmo tão longe da capital havia uma legião de crianças e adolescentes no portão quase que colocando a estrutura de ferro abaixo. Como seria na cidade grande então, hein?

restart2607012 300x214 RESTART: a moda colorida. (parte 1) 

Foi escutando o barulho das pessoas batendo no portão e gritando o nome do grupo que o Restart me recebeu em uma das suítes da pousada para uma entrevista. Não sei qual deles dormiu naquele quarto, mas a televisão ligada no jogo do Corinthians me deu a entender que talvez fosse o quarto do vocalista e baixista Pe Lanza, um corintiano fanático. Com a televisão devidamente desligada - para não tirar a atenção da entrevista segundo ele mesmo - iniciamos a conversa.

IMG 3444 1024x768 RESTART: a moda colorida. (parte 1)

Televisão ligada no jogo do Corinthians, descontração: a entrevista começa.

Para começar o básico: quem é o Restart por ele mesmo? “Somos happy rock” - definiu logo de cara o vocalista. Isso nem precisa ter perguntado: a alegria dos moleques era visível mesmo depois de terem dormido menos de 3 horas na noite anterior. O grupo vinha de uma apresentação em Porto Alegre e depois ainda seguiria - no ônibus da turnê - para Franca, interior de São Paulo. Difícil se definir “happy” fazendo quatro shows em um fim de semana de dois dias? Talvez. Mas eles realmente se mostraram felizes e simpáticos e isso não me cheirou a marketing. Para falar a verdade nada me pareceu “pasteurizado” na banda. Desde o figurino, os cabelos, o estilo como um todo: tudo parecia feito por eles mesmos. Claro que fica bem mais fácil ter estilo bem marcado com tênis de 500 reais no pé e roupas de marca, certo? Mas tudo ali era autêntico. E não é das grifes que estou falando... 

restart uol 300x146 RESTART: a moda colorida. (parte 1)
Em sentido horário: Pe Lanza (óculos); Thomas, Pe Lu, e Koba.

 O portão de ferro, que continuava a emitir um som à parte na entrevista, motivou entramos no assunto dos fãs. E eu digo “dos” fãs, porque muito se engana quem pensa que são só as meninas que se enfrentavam para ver de perto qualquer um deles. Muitos meninos também marcavam presença, assim como muitas crianças pequenas mesmo!

De volta ao assunto “frenesi" dos fãs, eles não se intimidam nem semeiam falsa modéstia ao admitir: é sempre assim. O carinho das pessoas está justamente naquilo que eu estava testemunhando: serem descobertos mesmo longe, lá onde “Judas perdeu as Botas” como um desses fãs definiu. “Se estivéssemos em algum lugar que não nos reconhecessem aí sim iríamos estranhar.” - diz o guitarrista Pe Lu, o porta-voz da banda a essa altura do campeonato.

DSC00146 1024x768 RESTART: a moda colorida. (parte 1)

Assédio e legião de fãs que querem fotos: a rotina da banda que faz 4 shows por fim de semana.

Mas esse “carinho” todo já resultou em alguns hematomas. Thomas lembra que, uma vez, uma fã correu de encontro aos garotos e, com o piso molhado, acabou escorregando. Pronto: foram a menina e o guitarrista Koba direto para o chão! Isso sem contar as inúmeras histórias que um dos seguranças do grupo me contava enquanto eu esperava que eles se arrumassem antes da entrevista. Já teve caso de adolescente que quebrou a trava da janela da van e se escondeu debaixo do banco. Foram horas de corpo totalmente imóvel até que, depois que o veículo já estava em movimento a caminho do hotel, as meninas mostravam para que vieram: tietar à bordo! Mas relatar tudo o que ouvi seria, sem dúvida, assunto para outra postagem. “Machucar às vezes elas nos machucam sim, mas a gente entende que tem pessoas que realmente não conseguem se controlar muito bem. A gente sente que é carinho.” - completa Koba sem mencionar os arranhões e puxadas de cabelo também já sentidas.

Todo esse carinho deixa marcas mas também leva um pouco deles: a privacidade. Todos são unânimes em dizer que não tem do que reclamar, que é a vida que sempre sonharam ter. Mas um deles confessa: “sinto falta de quando podíamos sair do colégio e ia todo mundo comer no shopping, as cinco da tarde. Hoje não dá mais pra fazer isso sem criar alguma confusão.” O vocalista Pe Lanza está sendo modesto quando fala de “alguma” confusão. Em abril de 2010 o Restart precisou cancelar uma sessão de autógrafos em um shopping de São Paulo porque mais de 3 mil pessoas se engalfinhavam para ver os meninos. O alerta da segurança soou: seria impossível prosseguir com o evento planejado sem que tudo acabasse em uma grande confusão. Um caso que projetou ainda mais a banda dos quatro meninos que vestem colorido até para fora do Brasil. Sem precedentes? Não. Em proporção até maior o astro teen canadense Justin Bieber já tinha passado por isso nos Estados Unidos. Mas, aqui no Brasil, o recorde é deles: do Restart.

A continuação da entrevista com a banda Restart você confere amanhã, terça-feira, na atualização do blog. Até lá!

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

“SEXY is the CITY”

12
nov
14h16

O mundo reconheceu o que Vinícius de Moraes já tinha descoberto e cantado em 1962. A música "Garota de Ipanema" - quase uma cinquentona - mostra em sua letra, sem tirar nem pôr, o espirito pra lá de SEXY que o Rio de Janeiro tem e esbanja. Mas certamente Vinícius e Tom Jobim não imaginaram que esse reconhecimento seria reafirmado em agora, em 2010.

 

Não precisa procura muito para descobrir que a beleza da cidade não está só nos corpos dourados ao sol. As "curvas" masculinas e femininas - principalmente - são emolduradas por curvas maiores: a silhueta das montanhas "espetadas" pelas linhas retas dos prédios da orla. Os morros cariocas parecem brincar com as luzes que piscam à distância das pequenas casinhas. Sim, caro leitor, vamos combinar que até nas favelas o Rio de janeiro tem um recorte de cores e de beleza.

Quando o mundo rebescobre isso a cidade inteira ganha. São eleiçoes para títulos assim - que até podem parecer bobos - que garantem um fluxo cada vez maior de turistas querendo desbravar esse paraíso chamado Rio. Violência? Que violência que nada... Se o carioca sabe passar por cima dessa mazela para curtir a cidade, porque que os visitantes iriam criticar a sujeia debaixo do tapete?  

rio 1 SEXY is the CITY

Amanhecer no Rio de Janeiro. / Foto: Ronaldo Monte.

Para descorbri todas essas qualidades não precisa ter essas três palavras na certidão de nascimento. Ter escrito "Rio de Janeiro" no coração vale mais. Faz a gente ver as coisas com muito mais romantismo. E se é romântio e SEXY ao mesmo tempo... pronto! Está fechada a receita para uma relação pra vida toda. Depois de ser consdidera a cidade mais alegre do mundo e o melhor destino gay do planeta, o Rio de Janeiro assume, sem preconceitos: o "sex-appeal" é a especialidade do carioca, nascido ou não na cidade.

RIO PRAIA SEXY is the CITY

Praia lotada: a cara do verão carioca. / Foto: João Donato.


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks

Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

10
nov
13h58

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 11/11/2010 às 14h01 

Coragem ou impulso?  

Das comparações à Klark Kent até à piadinhas sobre não ter nem conseguido segurar a "batedora de carteiras" em São Paulo, ficou uma lição para mim: e se a mulher que agia na feira estivesse com um segundo "meliante"  (a polícia adora esse termo)  devidamente armado, dando cobertura ao furto? Esse racicínio me fez pensar e reforçar ainda mais a  tese do porquê muitas pessoas simplesmente fingem que não estão vendo nada quando presenciam um roubo. 

super homem2 Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Impunidade: a "criptonita" que enfraquece o cidadão. / Foto: ilustrativa.

Tenho que admitir: foi mais "impulso" que "coragem". Ninguém é super-herói numa hora dessas. Acostumado a dizer sempre, no ar, que a melhor saída é não reagir a uma tentativa de roubo, me peguei questionando se fiz a coisa certa numa situação de furto. Mas também não pude me furtar ao pensamento de que, se não fizermos nada, até ladrão de galinha vai se sentir à vontade para agir sem que haja revolta da população. 

A lição que tirei disso tudo é não deixar pensamentos conflitantes nos confundirem. Em uma tentativa de furto - ou em qualquer situação armada  em que o perigo seja iminente - ainda vale a máxima de não reagir. Mas em um caso de abuso declarado ao cidadão de bem - como aconteceu no caso da feira - acho que colocar a boca no trombone é ser cidadão! É muito bacana ler os comentários que respondem exatamente ao título desta postagem. Você apontaria um bandido? Comentários estes que  faço questão de responder na própria caixa de comentários! 

Mais uma vez tenho a certeza de que o raciocínio é verdadeiro:  a impunidade para o bandido é o combustível  para o acovardamento do cidadão.  

_______________________________________ 

  

POSTAGEM ORIGINAL:

  

O cheiro da Yakisoba, da Guioza e dos doces de feijão - deliciosamente feitos na hora - me puxavam pelas narinas como que um anzol na boca de um peixe. Impossível resistir a tentação de provar uma destas guloseimas na feirinha de domingo, na Liberdade, bairro tradiconal japonês de São Paulo. Foi exatamente o que fazia quando meu devaneio gastronômico foi interrompido por um grito de "pega ladrão"

liberdade feira Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Bairro da Liberdade, São Paulo: tradicional feira de produtos japoneses, todo domingo. / Foto: ilustrativa.

 Logo atrás de mim uma senhora grisalha gritava para uma jovem oriental: "Cuidado! Essa mulher aí atrás está tirando a carteira de dentro da sua mochila!" Foi o que precisou para que a tal "ladra" corresse e passasse bem ao meu lado. Olha, foi a reação mais impulsiva que já tive: segurei-a na hora pelo braço. Confesso que foi impulsivo e fiquei com medo. Do outro lado, outro homem também fez o mesmo. A mulher ainda tentava se soltar e ao se debater muito, realmente coseguiu. Só que a população, numa feira lotada, não se intimidou. Dois passos na frente ela já estava sendo segurada de novo. A gritaria foi tão grande que a Guarda Municial ouviu e agiu rápido. Não foram nem dois minutos para que um guarda já estivesse imobilizando a mulher que, a essa altura do campeonato, já tinha conseguido se livrar da carteira, do celular e do bilhete único roubados. Sem produto do furto... sem flagrante, certo? Não foi bem assim. 

A senhora que viu o momento em que a mulher abria a mochila da estudante deu uma prova de cidadania: aceitou a proposta do Guarda Municipal e foi junto, direto para a delegacia, para registrar o furto. Sem aquele testemunho - disse o polícial que chegou para dar apoio - qualquer delegado exitaria em fazer a ocorrência por não haver produto do roubo. Você interromperia seu passeio num domingo de sol para ir à delegacia registrar uma ocorrência dessas? A senhora de Sorocaba, que assim como eu passeava por São Paulo e viu tudo, não se negou  a colaborar para que a tal suspeita fosse parar atrás das grades. 

A pergunta sobre a disponibilidade das pessoas em casos assim me ocorreu quando ontem, o repórter Ernani Alvez flagrou a mesma situação, no centro do Rio, junto com nossa equipe de reportagem. Ele também ouviu o triste grito de "pega ladrão" e correu atrás junto com o cinegrafista. O resultado da correria e da gravação você pode rever no vídeo abaixo.

A pergunta que me ficou é: será que se não fossem policias à pisana, o término desse caso teria sido o mesmo? Questiono isso porque o carioca - não menos solidário que o paulista - convive com uma realidade mais assustadora: o fato de qualquer bandido, por mais que seja batetor de carteira do tipo "ladrão de galinha" sempre andar armado. Já ouvi inúmeros relatos de pessoas que asistem crimes, roubos, assaltos e furtos dentro de ônibus, por exemplo, e sequer se movem com medo de denunciar! O bem maior que é a vida fica "leiloado" entre a vontade de reagir e o medo de ser o próximo. 

Quando escuto relatos assim percebo que o morador da nossa cidade parece viver mais acuado que em outros lugares do Brasil. Não é falta de solidariedade. É excesso de impunidade. Ninguém quer, logo no dia seguinte, encontrar com o criminoso no mesmo ônibus, na mesma linha e no mesmo horário. Em casos assim eu consigo entender - mesmo sem aceitar - porque ser carioca as vezes é sinônimo também de viver sempre com medo. 

doce de feijão2 Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Doce de feijão: parece estranho para brasileiros mas o sabor é impressionante. / Foto: ilustrativa.

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A