Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

10
nov
13h58

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 11/11/2010 às 14h01 

Coragem ou impulso?  

Das comparações à Klark Kent até à piadinhas sobre não ter nem conseguido segurar a "batedora de carteiras" em São Paulo, ficou uma lição para mim: e se a mulher que agia na feira estivesse com um segundo "meliante"  (a polícia adora esse termo)  devidamente armado, dando cobertura ao furto? Esse racicínio me fez pensar e reforçar ainda mais a  tese do porquê muitas pessoas simplesmente fingem que não estão vendo nada quando presenciam um roubo. 

super homem2 Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Impunidade: a "criptonita" que enfraquece o cidadão. / Foto: ilustrativa.

Tenho que admitir: foi mais "impulso" que "coragem". Ninguém é super-herói numa hora dessas. Acostumado a dizer sempre, no ar, que a melhor saída é não reagir a uma tentativa de roubo, me peguei questionando se fiz a coisa certa numa situação de furto. Mas também não pude me furtar ao pensamento de que, se não fizermos nada, até ladrão de galinha vai se sentir à vontade para agir sem que haja revolta da população. 

A lição que tirei disso tudo é não deixar pensamentos conflitantes nos confundirem. Em uma tentativa de furto - ou em qualquer situação armada  em que o perigo seja iminente - ainda vale a máxima de não reagir. Mas em um caso de abuso declarado ao cidadão de bem - como aconteceu no caso da feira - acho que colocar a boca no trombone é ser cidadão! É muito bacana ler os comentários que respondem exatamente ao título desta postagem. Você apontaria um bandido? Comentários estes que  faço questão de responder na própria caixa de comentários! 

Mais uma vez tenho a certeza de que o raciocínio é verdadeiro:  a impunidade para o bandido é o combustível  para o acovardamento do cidadão.  

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POSTAGEM ORIGINAL:

  

O cheiro da Yakisoba, da Guioza e dos doces de feijão - deliciosamente feitos na hora - me puxavam pelas narinas como que um anzol na boca de um peixe. Impossível resistir a tentação de provar uma destas guloseimas na feirinha de domingo, na Liberdade, bairro tradiconal japonês de São Paulo. Foi exatamente o que fazia quando meu devaneio gastronômico foi interrompido por um grito de "pega ladrão"

liberdade feira Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Bairro da Liberdade, São Paulo: tradicional feira de produtos japoneses, todo domingo. / Foto: ilustrativa.

 Logo atrás de mim uma senhora grisalha gritava para uma jovem oriental: "Cuidado! Essa mulher aí atrás está tirando a carteira de dentro da sua mochila!" Foi o que precisou para que a tal "ladra" corresse e passasse bem ao meu lado. Olha, foi a reação mais impulsiva que já tive: segurei-a na hora pelo braço. Confesso que foi impulsivo e fiquei com medo. Do outro lado, outro homem também fez o mesmo. A mulher ainda tentava se soltar e ao se debater muito, realmente coseguiu. Só que a população, numa feira lotada, não se intimidou. Dois passos na frente ela já estava sendo segurada de novo. A gritaria foi tão grande que a Guarda Municial ouviu e agiu rápido. Não foram nem dois minutos para que um guarda já estivesse imobilizando a mulher que, a essa altura do campeonato, já tinha conseguido se livrar da carteira, do celular e do bilhete único roubados. Sem produto do furto... sem flagrante, certo? Não foi bem assim. 

A senhora que viu o momento em que a mulher abria a mochila da estudante deu uma prova de cidadania: aceitou a proposta do Guarda Municipal e foi junto, direto para a delegacia, para registrar o furto. Sem aquele testemunho - disse o polícial que chegou para dar apoio - qualquer delegado exitaria em fazer a ocorrência por não haver produto do roubo. Você interromperia seu passeio num domingo de sol para ir à delegacia registrar uma ocorrência dessas? A senhora de Sorocaba, que assim como eu passeava por São Paulo e viu tudo, não se negou  a colaborar para que a tal suspeita fosse parar atrás das grades. 

A pergunta sobre a disponibilidade das pessoas em casos assim me ocorreu quando ontem, o repórter Ernani Alvez flagrou a mesma situação, no centro do Rio, junto com nossa equipe de reportagem. Ele também ouviu o triste grito de "pega ladrão" e correu atrás junto com o cinegrafista. O resultado da correria e da gravação você pode rever no vídeo abaixo.

A pergunta que me ficou é: será que se não fossem policias à pisana, o término desse caso teria sido o mesmo? Questiono isso porque o carioca - não menos solidário que o paulista - convive com uma realidade mais assustadora: o fato de qualquer bandido, por mais que seja batetor de carteira do tipo "ladrão de galinha" sempre andar armado. Já ouvi inúmeros relatos de pessoas que asistem crimes, roubos, assaltos e furtos dentro de ônibus, por exemplo, e sequer se movem com medo de denunciar! O bem maior que é a vida fica "leiloado" entre a vontade de reagir e o medo de ser o próximo. 

Quando escuto relatos assim percebo que o morador da nossa cidade parece viver mais acuado que em outros lugares do Brasil. Não é falta de solidariedade. É excesso de impunidade. Ninguém quer, logo no dia seguinte, encontrar com o criminoso no mesmo ônibus, na mesma linha e no mesmo horário. Em casos assim eu consigo entender - mesmo sem aceitar - porque ser carioca as vezes é sinônimo também de viver sempre com medo. 

doce de feijão2 Pega ladrão! Você apontaria um bandido?

Doce de feijão: parece estranho para brasileiros mas o sabor é impressionante. / Foto: ilustrativa.

 

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