Preconceito por 1 dia.

17
nov
14h27

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 18/11/2010 às 14h31

Esse relato é interessante demais para ficar apenas na sessão de depoimentos. Merece destaque. Imagine quantas pessoas vivem a mesma realidade do leitor que o escreve só que, ao invês de igualdade, ainda assim pregam intolerância para se "blindarem" de qualquer desconfiaça da sociedade, hein? Veja só:

"Vamos respeitar! Sou casado e já tive relação com homem. Não quero morar com homem, apenas ter alguns momento de prazer. Me protejo para evitar levar possíveis doenças para casa, mas tudo isso poderia ser mais aberto e liberal, se não fosse o preconceito. Existem muitos casos iguais ao meu, não adianta ser hipócrita! Muitos casados gostam de ser "passivos" - como eu - e outros gostam de ser ativos, as vezes por causa das próprias esposas que não fazem tudo o que o marido pede. Mas isos não vem ao caso agora. Menos guerra e mais amor! É do que precisamos." - Haroldo Passtson

________________________________________

POSTAGEM ORIGINAL:

 

Logo 150x150 Preconceito por 1 dia. Vou tentar ser preconceituoso por um dia. Vou tentar me imaginar sendo intolerante com a sexualidade dos outros. Imaginar o quanto deve ser estranho ver dois homens ou duas mulheres, juntos, numa situação dita por muitos como supostamente “absurda” para um heterossexual ortodoxo e radical. É um breve exercício para tentar entender a cabeça de quem - aparentemente com nada na cabeça - dá um tiro num rapaz de 19 anos por ele ser homossexual, como aconteceu na última Parada Gay do Rio de Janeiro.

14 parada gay abrum575 Preconceito por 1 dia.

Divergência de números: Parada Gay em Copacabana teria atraído o dobro de paticipantes em relação aos números oficiais. / Foto: Alexandre Brum / Agência "O Dia".

Como preconceituoso assumido que sou nesses próximos parágrafos, não vou tolerar quem foge de um esteriótipo básico heterossexual. Se a cidade que eu vivo é considerada o melhor destino gay do planeta - como aconteceu no ano passado - devo considerar que esse é um problema da cidade e não meu.

A partir de hoje não posso mais ser "politicamente-correto". Talvez isso comprometa meu “ganha-pão” básico como jornalista. Já não sei mais primar por imparcialidade, por respeito aos direitos humanos básicos. Talvez não possa trabalhar também como motorista de ônibus, como empresário, lixeiro, piloto de avião ou como porteiro. Nada que me exija lidar com seres humanos, salvo aqueles que não se declaram exceção à minha regra. Como policial ou agente de autoridade pública que tem porte de arma? É melhor esquecer... Meu equilíbrio pode estar comprometido.

Mas o anúncio de “precisa-se de garçom”, na vitrine, depois de tantas portas fechadas, talvez possa me ser interessante. Talvez precise apenas colocar pratos e bandejas sobre a mesa sem olhar necessariamente para quem sirvo. Será que estarei saindo do meu exercício pró-intolerância? Talvez isso nem passe pela minha cabeça quando o gerente me mostrar que gays gastam mais em restaurantes e com mais frequência. Talvez eu mude ao saber que, sem uma família ortodoxa e os gastos que vem à reboque delas, muito provavelmente homossexuais sejam mais desprendidos na hora de dar as minhas gorjetas. A minha intolerância começa a ser lapidada quando descubro que meu salário está vindo do bolso daqueles que, há até bem pouco tempo, eu preferiria dar um tiro no parque do Arpoador simplesmente porque estavam com seus companheiros.

Alexandre Ivo1 Preconceito por 1 dia.

Alexandre Ivo, 14 anos. Assassinado por homofobia em São Gonçalo no começo do ano. / Foto: arquivo R7.

Ser intolerante talvez comece a pesar no meu bolso, ou melhor: a deixa-lo menos cheio. Talvez eu descubra que quando a primeira página de um jornal internacional estampa uma manchete de homofobia, menos gays - que eu agora até já vejo com outros olhos - se dirigem ao Rio para passar suas férias. Talvez o hotel, ao lado do restaurante onde trabalho, fique mais vazio e eu tenha menos refeições a servir. Talvez a culinária requintada que levo às mesas, não sirva para todos os tipos de público. Supresa: a casa acabou se especializando neste tipo de público.  Talvez o restaurante feche e eu me veja na situação de me perguntar: aonde estão os homossexuais que tanto movimentavam a economia e o caixa do restaurante?

A minha intolerância parece que não vai durar muito tempo. Dar importância ao que os outros fazem da sua sexualidade me parece agora vazio como  estão as panelas. Penso que eu já quero todos os gays de volta, até de mãos dadas - porque não? - aqui dentro de novo.

Acho que meu breve devaneio da intolerância pode ir ficando por aqui. Em meros 7 parágrafos já percebi que sexualidade dos outros não se discute, não se agride, não se dispara contra. E se meus valores morais; os direitos humanos e até meu lado cristão não me permitirem tal “superação”; que pelo menos eu seja mercenário: que nunca me esqueça que cada emprego que é gerado quando a Avenida Atlântica é tomada por 1 milhão 250 mil homossexuais e simpatizantes, pode ser o meu, o da minha esposa, ou até do meu filho. Rapaz que, ao contrário do meu “eu-fictício”, talvez seja mais flexível com seus conceitos ou que até me choque ainda mais fazendo fazer parte justamente desse grupo que, antes, eu queria almejar com um revolver porque estava no parque do Arpoador se beijando.

Mas isso só quando era filho dos outros...

16 gay mae ssilva5751 Preconceito por 1 dia.

Abraçado à mãe, jovem espera ajuda de testemunhas para identificar agressores. / Foto: Severino Silva / Agência "O Dia".


Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • del.icio.us
  • Twitter
  • Digg
  • Netvibes
  • Facebook
  • Google Bookmarks
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009-2011 Rádio e Televisão Record S/A