A culpa é da mosca.
Não é só mosquito da dengue que me assunta. Surto maior que esse - temido para o verão - é o que começou ainda nesta primavera e faz as coisas estarem longe de serem “só flores” para o Rio de Janeiro. A “mosquinha da banalização” parece que pousou na pele do carioca e agora deixa sua fétida contaminação: acharmos que tudo isso que acontece na cidade é muito comum.
Se você não se identifica com esse perfil, analisemos então nossas autoridades públicas. O secretário de segurança do estado, José Mariano Beltrame, ganhou destaque hoje na mídia com afirmações polêmicas em Brasília. Ele disse que a polícia não tem como combater a ação de criminosos nas ruas do Rio de Janeiro que acontecem desde o fim de semana. Não chega a ser de todo uma mentira o que o secretário disse: realmente não existe “bola de cristal” para se prever exatamente todos os ataques como estes que, sem exagero nenhum, podemos chamar de “terroristas”. Mas a afirmação do secretário me lembra uma lenda que ouvi a algum tempo em um destes eventos de motivação empresarial.
Era uma vez uma tropa romana em guerra que, faltando apenas uma batalha a ser vencida, sofreu uma terrível perda: a de seu principal líder que guiava todo o exército. O general morto significaria o sepultamento de toda a força, de toda a motivação do grupo que precisava ser bravo e guerreiro. O que fazer então? Alguém teve a brilhante idéia: colocaram o general morto, dentro da armadura amarrado a seu cavalo. Foi só dar uma chicotada no animal e pronto. Lá estava ele, na frente, guiando todo o exército... porém morto.
Temo que o secretário de segurança pública - longe de estar “morto” funcionalmente, não me entenda mal - esteja seguindo o exemplo inverso sem sentir. Será que dizer que a polícia não tem como combater ataques nas ruas significa dizer ao crime organizado que estamos à mercê deles? É que não sei se nossos bandidos são tão brilhantes em análise de texto para compreenderem que o secretário está falando de previsibilidade e não de policiamento ostensivo, entende?
Pior ainda é ver que a “mosquinha da banalização” também já pousou nas nossas cabeças quando se fala sobre a origem da ordem para os ataques. Falamos com muita tranqüilidade que bandidos continuam dando ordens, mesmo depois de presos, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo! Alertem-me, por favor, se o fato de não ter nascido no Rio me faça ser tão radical. Mas não consigo imaginar discutirmos “efeitos” sem discutirmos “causas”. Toda explicação do secretário hoje para mim é discussão apenas de “efeitos”. Acho que é por isso que uma mosca, hoje, consegue derrubar um exército policial: a “mosquinha da banalização”.










