Passos básicos para acertar um tiro-no-pé.
No meio do caminho tinha um pacote. Tinha um pacote no meio do caminho. Só que na rota diária de cada carioca também tinha o pânico. As caixas eram de uma empresa de produtos de higiene, distribuídas nas ruas da zona sul de propósito, para atiçar a curiosidade das pessoas. A empresa não poderia ter escolhido campanha promocional pior nessa época de terrorismo no Rio de Janeiro.
O que as caixas significavam? A empresa não explicou à polícia. Mas espalhar os pacotes de madeira - com direito a cadeado e tudo - definitivamente não foi uma boa ídeia. Além de bom-senso faltou também o básico: autorização da prefeitura que já tinha dito não à idéia macabra.
Pior tiro-no-pé que este? Existe: é brincar com a situação de pânico que atinge a cidade exercitando esse suposto "bom-humor" com trotes. O número de ligações para o 190 só está aumentando. Sempre pessoas denunciando que novos veículos estão sendo incendiados. Uma atendente do serviço da PM chegou a confidenciar hoje que, até lixo sendo queimado no quintal era motivo de denúncia. Resumindo: nem tudo é trote e tudo mundo está em pânico no Rio de Janeiro.
O prefeito Eduardo Paz não mediu palavras e falou na língua do povo que é terrorismo mesmo. O governo do estado demorou uma semana para admitir que eram atentados em série. Não vou nem condenar tanto: foi melhor que na época dos arrastões - sem fogo nos carros no final - em que a polícia negava veementemente que houvesse qualquer ação orquestrada.
Na manhã desta quarta-feira, em São Paulo, a pergunta número 1 dos colegas quando me viam dentro da emissora era sempre a mesma: "quais são as últimas notícias do Rio de Janeiro com todos esses ataques?" Não tinha muito o que responder. Na verdade tinha mais o que eu me questionar: será que se isso acontecesse final de setembro mudaria o rumo das eleições no Rio de Janeiro?
Para os colegas paulistas que queriam saber as útimas do Rio respondi com a descontração típica do carioca, que já nem sei mais se é sinal de senso de humor aguçado ou banalização da violência: "As últimas do Rio são que o Rio, infelizmente, parece estar nas últimas."

Carros e ônibus queimados: 500 mil reais de prejuízo para cada coletivo destruído. / Foto: Agência "O Dia".










