Os segredos de um “Noel”.
Não é fácil ser um "bom velhinho". Por trás da barba e de toda aquela roupa pesada, se esconde um profissional com agenda digna de grandes executivos nessa época do ano. Só que ao invés de reuniões, encontro com clientes e afins, o homem de vermelho tem agenda é com a criançada.
O dia do Papai Noel Silvio Furtado, 62 anos, começa cedo. A correria é para chegar ao Barra Shopping, onde passa o dia tirando fotos. Quantas? Uma média de 15 mil desde que os enfeites de Natal foram colocados na praça central do shopping, no final de novembro. O número de crianças que passaram pelo colo dele também impresisona: cerca de 15 mil "pimpolhos" que as vezes tem reações imprevissíveis. Já teve a que começou a rir compulsiamente, até aquelas que desatam a chorar. Calma que para isso tem técnica! As "noeletes" - vamos dispensar explicações - já levam o pequeno de costas, olhando apenas para a câmera fotrográfica. Depois do registro feito, aí sim, o Papai Noel vira a criança de frente pra ele. "Eu já até sei qual criança vai chorar. Pela carinha dela eu já aviso que aquela menina ou aquele menino precisam ser trazidos de costas." - conta o bom velhinho.

Silvio Furtado (centro) e dois colegas "Noéis". Maratona de compromissos na véspera do Natal. / Foto: arquivo pessoal.
Código Secreto - Na noite mais esperada do período de festas, que família que nada! Papai Noel que é Papai Noel tem compromisso agendado madrugada à dentro, longe dos próprios filhos as vezes. Os maiores clientes são aqueles que tem as maiores contas bancárias, digamos assim. O segredo é a alma do negócio. Tem cleintes que Silvio não pode revelar onde moram e nem quem são. Gente graúda que pode desembolsar até 1 mil reais para os filhos receberem a vista de um Noel de verdade. E para esse acesso à casa dos "ricos e famosos" tem até senha, sabia? Em se tratando de Rio de Janeiro, infelizmente o medo também pode vir de trenó. Para não ser confundido com bandidos - que insistem em queimar o filme de bom velhinho usando suas roupas para assaltar - existe até a necessidade de uma senha secreta para entrar na casa. Um espécie de "código" combinado entre a empresa que agencia os Noéis e seus cleintes. Se não disser a "palavra -chave" não adianta: não entra em muitas mansões nem apelando para a chaminé, viu?
Quanto ganha? Bom, acho que o Papai Noel está de saco cheio desse tipo de pergunta. A nossa produão descobriu que um profissional bem colocado no mercado - com barba natural e barriga sem enchimento - pode faturar, por baixo, 4 mil reais no mês. Mas como disse o bom velhinho da minha "entrevista com o Noel", isso é relativo. É como apresentador de televisão, me disse um deles certa vez. Tem uns que ganham muito e outros que nem tanto. Preferi não perguntar mais. Faz sentido...
Curiosodades à parte, não dá pra esconder: a figura do Papai Noel remete a uma doce lembrança da infância, e não dá para apertar muito o entrevistado: melhor se render a ele. Para encerrar pergunto do que o Papai Noel está de "saco cheio". A resposta: de injustiça social, da violência contra crianças; e o mais surpreendente: "das pessoas esquecerem que o motivo da festa não sou eu e sim o menino Jesus". - Palavra de Papai Noel.
A entrevista termina. Pelo jeito não dá pra ser Noel sem introjetar o amor do bom velhinho. Piegas? Nâo mesmo. Não é uma exigência para se candidatar à vaga, mas ele confesa que todos eles, com barba verdadeira ou não, são manteigas-derretidas por dentro. Os olhos quase transbordam. Em uma conversa de 5 minutos fica provado: nâo é só vestir vermelho. Tem muito mais ciência na profissão do que relamente imaginamos.
O papai Noel faz "hou-hou-hou", se despede, levanta e vai embora. Agora eu entendo melhor esse senhorzinho simpático. Que nas nossas famílias "ele" distribua mais que presentes. A gente descobre numa entrevista dessas que a alegria, a confraternização e a festa do nascimendo do filho do DEUS vivo não dependem necessariamente dele. Agora entendi que acreditar no velhinho é quase que uma paródia debochada à nossa pouca fé. Aos 35 anos aprendi a acreditar não em Papai Noel e sim no Papai Noel.
Simbolo de tradição, comércio e capitalismo? Posso até concordar que ele também é esse ícone. Mas esse vovôzinho de vermelho faz a gente se perguntar proque não acreditar mais? Porque não ter mais fé? A gente está perdendo o hábito de acreditar.










