O registro de uma tragédia.
Não são dias fáceis. É impossível ver tudo que estamos vendo sem nos emocionar. A destruição é grande e tenho certeza que as imagens que mostramos pela TV ainda são pouca coisa perto do que realmente estamos vivendo.
As informações também são precárias. Esses números que colocamos todos os dias no ar são estatísticas. Dados que nos são passados pelas autoridades e que, tenho certeza absoluta, não traduzem a realidade. Primeiro porque só são contabilizados os mortos depois que são identificados. Então, imagine a quantidade de cadáveres que se amontoam em um caminhão frigorífico - de transporte de peixe - e que ainda não foram contabilizados?
Em segundo lugar porque acredito piamente no que muitos policias e bombeiros contam, mas que as "autoridades" não confirmam: muita gente sequer será retirada de tanta lama. Infelizmente muitos corpos continuarão "naturalmente" sepultados onde estão. O bairro de Campo Grande é um exemplo de local inacessível. De acordo com o último censo, o local era moradia de 6 mil pessoas. Apenas 12 cadáveres foram retiradas de lá mesmo quatro dias depois da tragédia. Alguns lugares já cheiram mal. O cheiro da morte impreguina até nas roupas.
Os relatos vão daí para pior. Tudo é muito triste e é difícil não se deixar contaminar. As vezes choramos por dentro. As vezes não dá para segurar. Não importa se é homem ou mulher, durão ou "manteiga-derretida" como eu: quem tem sangue circulando nas veias, sabe o valor de uma vida... sabe os prejuízos e a tristesa dessa tragédia.
As vezes é preciso caminhar sobre lama sem saber quantos corpos estão por baixo. Muitas famílias só querem enterrar seus mortos sem ser no barro misturado a restos de casas e entulhos.
Só peço a Deus que conforte os que ficaram.









