Depois da morte.
Foi a primeira coisa que contei quando cheguei ao camarim. Tive um sonho muito estranho, daqueles que temos quando já estamos praticamente acordando. Eu estava em uma espécie de escritório, redação ou algo do tipo. Dentre as várias pessoas que alí estavam trabalhando uma me chamou a atenção: era um homem de cabelos bem grisalhos, barba branquinha e olhar sereno. Na hora comentei com alguém que estava ao meu lado: eu não lembrava exatamente quem era, mas que aquele olhar não me era nada estranho.
A dúvida não durou muito tempo. Alguém de pronto respondeu meu pensamento como em um passe de mágica: "Ele é o Mário Márcio, Fábio. Claro que você sabe quem é!" Na horas as memórias me vieram à tona como em uma cena de "flash-back" de filme hollywoodiano.
Mário Márcio era jornalista. Na década de 90, depois de muito "ralar" como repórter de televisão, resolveu abrir a própria empresa com amigos: uma espécie de assessoria ou treinamento mesmo num bom português, para aspirantes a profissão. Mário Márcio foi um dos primeiros repórteres da primeira formatação do extinto "Aqui Agora" do SBT. Isso citando apenas um de seus últimos trabalhos que o haviam feito entrar para a lista dos jornalistas que inovaram e fizeram história na TV brasileira. Mário dava um curso, em Brasília, para estudantes de jornalismo. Gente que, como eu, queria se aventurar na área, mas ainda no começo da faculdade nunca tinham segurado um microfone.
Este seria mais um sonho de reencontro - pelo menos na minha mente - com pessoas que não via há muito tempo se não fosse por um detalhe: Mário Márcio morreu há mais de 10 anos. E foi isso que eu disse, ainda no sonho, a quem estava ao meu lado. Argumentei, muito assustado, que aquele encontro era muito estranho, que não poderia ser real. A pessoa que estava ao meu lado repetiu: "mas é ele sim que está aqui, não está vendo?" Nessa hora o antigo professor passa ao meu lado, me comprimenta, dá um leve abraço e sorri. Não diz mais nada. Numa rápida busca no YouTube, resgatei algumas imagens de quem foi Mário Márcio.
Minha reação era de perplexidade. Como era possível? Eu tenho amigos que foram ao enterro dele! Todos sabemos da perda que tinha sido para o jornalismo brasileiro. Não acreditava no que estava vendo. Não pelo menos alí naquela realidade virtual que o sonho me proporcionava. Segundos depois consegui identificar onde realmente estávamos. Eu, Mariana Leão - com quem tenho o privilégio de apresentar o "Hoje em Dia - Rio" e nossa diretora, Vanessa Andrade, estávamos no estúdio, revendo enquadramentos do programa. A todo momento uma câmera se deslocava sobre um tripê com rodinhas para vermos de que lado do cenário ficaria melhor gravarmos. Foi aí que o sonho ficou ainda mais intrigante.
Ao olhar para um dos monitores de estúdio vi alguém sentado no alto do cenário, como que a se equilibrar em uma das "tapadeiras" que compõe o estúdio, bem no alto mesmo, perto do "set" de iluminação. Voltei os olhos para o estúdio. Não via nada a olho nú. Mas quando a câmera passava por aquele ponto todas vezes, eu via alguém de cabelos grisalhos e barba branca sentado. Eu não acreditava no que estava vendo. Mais perplexo ainda pedi ao cinegrafista que fizesse o tal movimento de câmera de novo. Olhando diretamente para o cenário não via nada. Mas na tela do aparelho que mostrava a imagem capturada pela câmera... lá estava ele.
Mário Márcio estava de braços cruzados, como que a supervisionar, com um sorriso largo no rosto, tudo que estávamos fazendo. Seu semblante de satisfação era evidente. Eu tentava apontar, gesticular, mostrar a todos que alí estavam que não estávamos sozinhos. Mas ninguém via nada.
Não consigo explicar porque sonhos assim acontecem. Não tenho embasamento científico ou muito menos espiritual para compreender porque cenas como estas passam pelas nossas cabeças. Tenho minhas convicções religiosas e sei que muitas outras pessoas teriam explicações para o que seria aos mais incrédulos um "simples sonho". Não sei se minha mente absorveu ao extremo - e sei que isso é possível - o tema de um debate descontraído durante o almoço com amigos na sexta-feira passada. As pessoas que se vão, podem de alguma forma voltar e observar o que fazemos?
Não tenho 100% de convicção para nenhuma resposta à respeito. Sei que, assim como já havia sonhado com meu pai morto há 3 anos, essa era uma sensação confortante. Ver ou ouvir - mesmo que sabendo se tratar de sonho - pessoas que perdemos, parece nos fazer bem. Foi assim que acordei e me lembrei com o coração cheio de saudade de um velho amigo-colega-professor. Essa experiência acabou fazendo parte do nosso programa de hoje.








