A gente precisa de energia assim?

16
mar
10h19

ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 17/03/2011 às 09h21

O chargista Alpino, sempre atento a estas situações mundiais, não ficou de fora dessa. Achei interessante a analogia feita através da arte, usando um dos maiores símbolos da  "terra do sol nascente". Não é piada. A iustração traduz bem toda a agonia de um povo que já começa a evacuar até sua principal cidade, a matrópole Tóquio com medo de problemas radioativos.

Charge Alpino A gente precisa de energia assim?

Estava lendo um estudo curioso que mostra que o raio de isolamento de uma área com vazamento radioativo é um conceito relativo. No Japão esse raio começou com a marca de 30 Km. Agora já se fala em 200Km. Mas o artigo em questão dizia que material radioativo também se propaga pelo vento. E aí? Como fica a questão dos japoneses que além do terremoto e tsunami ainda estão em um período de nevascas e de fortes ventanias?  

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POSTAGEM ORIGINAL:

Logo radiação A gente precisa de energia assim?

Sei que os defensores da energia nuclear vão criticar meu texto de hoje. Sei que uma barragem como a de Itaipú, por exemplo, também traria prejuízos impensáveis às regiões atingidas no caso de uma ruptura inesperada. Mas nada se compara com o que a tal da "energia nuclear" representa em casos de acidentes. Os eventos recentes no Japão mostram que se preocupar com segurança nesse tipo de produção energética  não é um zêlo extremado ou paranóia de ambientalistas. De tempos em tempos a historia mostra que o perigo ronda estas usinas espalhadas pelo mundo. O pior é pensar que algumas delas estão aqui bem perto da gente, em Angra dos Reis.

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Usina de Angra II. Vizinha perigosa? / Foto: internet.

Meu objetivo não é alarmar, não é fazer campanha contrária: é propor uma reflexão. Uma reflexão baseada na técnica que nossos "vizinhos" de olhos puxados, lá do outro lado do mundo, supostamente dominariam. Se mesmo com essa supremacia tecnológica os problemas acontecem por lá depois de uma catástrofe natural, como seria essa situação de acidente nuclear aqui no Brasil? Claro que estamos falando de uma situação 100% atípica, envolvendo terremoto e tsunami ao mesmo tempo. Mas em Chernobyl, na Ucrânia, há exatos 25 anos, não foi preciso tanto. Agora a prova de que a produção desse tipo de energia envolve riscos consideráveis pode ser bem resumida no chamado "grupo dos 50".

O "grupo dos 50", como já é chamado, envolve exatamente meia centena de químicos nucleares que já estão "praticamente mortos". Longe de qualquer inspiração no filme "Dead Man Walking" , onde Sean Penn é um condenado à morte que vive numa prisão de segurança máxima seus últimos dias de vida, já sabendo de seu destino trágico. Na vida real esses homems que estão dentro da usina nuclear que fica na província de Fukushima, no Japão. Eles são os últimos funcionários que tentam controlar um vazamento nuclear que teve nesta madrugada mais um episódio. Os relatos são de que eles já estariam dispensando equipamentos de segurança mais pesados, que impeçam uma locomoção rápida pelas redondezas da usina. O motivo? Levando-se em conta a proximidade que estão do núcleo de um dos reatores, nem todo equipamento de proteção seria 100% eficaz. Em outras palavras: são pessoas que já sabem seu destino trágico e agora são tratados como heróis por todo o mundo.

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Helicópteros jogam água em reatores: tentativa de resfriar reatores de usina nuclear no Japão. / Foto: R7

Não estamos falando dos mineiros soterrados no Chile. Estamos falando de pessoas que sabem que seu destino inclui nenhuma possibilidade de salvamento. Pessoas que já estão alertadas: mesmo que saiam daquele local com vida, não terão nem direito a um tratamento eficiente. Cada indivíduo que tem contato com esse tipo de energia se torna, automaticamente, uma bomba relógio. A radiaçao passada de um reator para um ser humano o transforma em uma "cápsula radioativa" ambulante. Como tratar uma pessoa que só de se aproximar dela, um médico por exemplo, já se contamina também? Observe que estamos tratando de um mal que supera, em qualquer esfera, qualquer outro tipo de doença contagiosa.

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Arquivo: criança tem nível de radiação medido em Goiânia. / Foto: R7.

Se os exemplos acima não forem o suficiente, não precisamos ir muito longe:  Goiânia já viveu isso em 1987 com a tragédia do Césio- 137. Uma cápsula usada para radiografias - encontrada em um ferro-velho desativado - virou a coqueluche entre catadores de lixo por causa de um pó verde que brilhava  no escuro. Claro que são situações difrentes. Eu não seria leviano a ponto de comparar um acidente causado por displicência, com um acidente causado por uma tragédia natural da magnetude da ocorrida com os japoneses. Mas o paralelo aqui não é relacionado às causas e sim às consequências.

O jornal Extra de ontem fez um questionamento intrigante: qual seria a situação do Rio de Janeiro se um tsunami nos moldes japoneses chegasse aqui? Pontos como Recreio, Barra da Tijuca,  orla de Copacabana, Ipanema e toda região da zona sul simplesmente desapareceriam. Mas e se o acidente nuclear fosse em Angra? Os defensores desse tipo de energia - e os competentes responsáveis pelas usinas de Angra - que me perdoem: impossível não imaginar o mesmo enquanto temos esse tipo de reator como vizinho.

O "grupo dos 50" é um conjunto universo de grandes e poucos heróis. Mas são heróis que não vão sobreviver para colher os louros de um feito que até agora nem é garantido: evitar um vazamento maior de radiação em território japonês. A energia nuclear é assim: uma ciência de rara beleza. Mas nossa natureza também é assim: imprevisível como a energia de milhares de bombas de "Hiroshima". Os japoneses já são escaldados nesse tipo de problema. Mas parece que a crença na ciência humana ainda supera a crença na natureza. O mal do homem é achar que controla tudo. Na verdade tudo está é fora do nosso controle.

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