Correspondente de guerra… sem guerra.
Queria uma pílula que deixasse as emoções atrás da porta. Entrar em casa e ter uma “amnésia” momentânea de tudo o que aconteceu. Não sou um ser humano perfeito. Não consigo sequer chegar perto de médicos, policiais, legistas e tantos outros profissionais que fazem com facilidade - ou não - um exercício diário de deixar no trabalho o que é do trabalho.
Uma mensagem no celular enviada por uma amiga, logo cedo, dizia que o filho “nasceu de novo”. Ele escapou sem um arranhão do massacre apesar de ter ouvido todos os disparos da quadra esportiva. A tão evitada aula de educação física foi o que salvou adolescente de 14 anos.
Também ouvi o mesmo “nasceu de novo” da mãe da pequena Bruna de 12 anos. A menina perdeu amigas, colegas, e viu isso tudo diante de seu nariz. Percebendo que a menina ainda era uma das mais equilibradas psicologicamente depois do massacre, não hesitei em pedir autorização da mãe para que voltássemos à escola comigo com ela. Não foi um exercício de tortura. Como a menina mesmo disse, “foi bom voltar e ver de perto onde tudo aconteceu. Ajuda a perder o medo da escola.” Mesmo assim Bruna já pediu a mãe: quer trocar de colégio o quanto antes.
O relato da pequena Jade, se não me engano com 9 anos de idade, é assustador pela maturidade que não remete aos devaneios da infância. Ela disse que pegou uma canetinh, e começou a fazer desenhos na palma da mão para se acalmar enquanto se encolhia no canto de uma sala. A casinha desenhada ficou com paredes tortas, tremidas. “Era minha mão que tremia junto com as pernas e não deixava o desenho sair certinho.” - me contou ela.
O dia todo foi assim. Relatos emocionantes e cenas impensáveis para jovens com tão pouca idade. Impensáveis até para “jovens” de 80 anos que nunca imaginariam viver para ver isso. Foi o caso de uma simpática vovó que comemorou o neto de 12 anos ter saído com vida daquela escola que viveu momentos de “inferno na terra”.
Hoje é dia de sepultamento dessas vítimas do que já e chamado de "massacre de Realengo". Mas as imagens ficam gravadas nas nossas cabeças. Numa das casas, em frente ao colégio, uma porta estreita foi passagem de vários alunos que buscavam socorro. Ao passar por ali todos nós vimos marcas de sangue na parede e pelo chão. Ontem à noite, ao chegar em casa, percebi que minha camisa também havia voltado com uma mancha dessas. Fiquei imaginando se aquele sangue pertencia a algum aluno que teve a sorte de escapar vivo dessa história, mesmo ferido, ou se teve final trágico com pelo menos uma dúzia de estudantes. Não dá pra esquecer esses horrores quando eles vêm marcados nas suas costas.
Coberturas como estas, dos deslizamentos de Teresópolis, Angra, Morro do Bumba e tantas outras que vivemos no Rio de Janeiro, me fazem pensar que somos correspondentes de uma guerra, sem sair de casa. É difícil deixar atrás da porta o quem vem dentro do peito.








