Expulso da “favela” pela primeira vez.
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 11/05/2011 às 9h37
CONTINUAÇÃO DO RELATO...
Não foi uma abordagem amistosa. Um deles, lembro-me bem, foi com as mãos direto na câmera do repórter cinematográfico. Do pouco francês que consigo entender - e do pouco inglês que eles fingiam não saber falar - consegui compreender que queriam a fita que estava dentro do equipamento. Nessa hora disse ao André - nosso cinegrafista - em português e em voz baixa para que não entendessem: “não desligue a câmera. Vamos gravar tudo!”
Esses homens representavam justamente uma minoria excluída: negros e descendentes árabes que são as maiores vítimas de descriminação em Paris. Os franceses que me perdoem mas a verdade precisa ser dita. O tempo todo, com muita truculência só diziam: “vocês tem que parar agora. Precisam de autorização para filmar qualquer coisa por aqui”. Surpreso por já ter gravado em outros países do mundo e inclusive em Paris - no mesmo dia - perguntava apenas quem eles eram. Em francês se apresentaram com “líderes da comunidade”. Depois, mudando o discurso, disseram que eram “representantes da prefeitura”. Um dele chegou a dizer que era a vice-prefeito do departamento. Curiosamente quando pedi, nenhum deles teve qualquer identificação para apresentar.
A abordagem grosseira não era necessária. Já tínhamos parado de gravar. A forma com que nos tratavam fez repensarmos se tínhamos tomado a decisão certa de visitar aquele lugar. A informação que tínhamos, inclusive de autoridade locais em Paris, era que a “comunidade” tinha alto índice de violência doméstica, abandono escolar - será? - e tráfico de drogas que, apesar de não ser armado, seria uma constante por ali naqueles prédios. Difícil de acreditar que havia algo para se esconder. O fato é que a tal abordagem, violenta e descabida, nos fez acreditar que tudo aquilo seria verdade. Ouvi um relato inclusive que um policial havia sido morto com uma geladeira - isso mesmo, uma GELADEIRA - que teria sido atirada de uma das janelas. Não dá pra separar o que era verdade do que é boato. Mas a atitude dos supostos “líderes-cuminatários-representates-da-prefeitura” os confundia mais com bandidos, traficantes ou milicianos do que com autoridades supostamente estabelecidas.
A situação só se acalmou quando mostramos as imagens - que eles assistiram atentamente pela câmera mesmo - e quando disse que poderíamos ir com eles até a polícia, mas que entregar qualquer coisa do nosso equipamento era hipótese nula. Eles estavam sem armas. O que teríamos a perder “peitando” um pouco? Outro fator que resolveu tudo foi falar uma língua internacional que todo mundo conhece: o “futebolês”.
O diálogo seguiu com uma série de palavras balbuciadas entre o francês e o inglês onde se podia entender e pinçar palavras soltas como “Ronaldinho”, “Romário” e “Neymar”. Falando de futebol, eles conseguiram seguir a linha de raciocínio de que muitos de nossos craques haviam saído de favelas cariocas, bem diferentes do que eles chamavam de “favelas” ali. Ficou claro que a matéria era positiva para a localidade e, por fim, fomos liberados.
De volta à Paris descobri que nunca foi preciso autorização para gravar em nenhum lugar aberto e público em toda a França. Informação passada por policiais, quando fazia outra reportagem às margens do Rio Sena. Foi uma pergunta a um policial, só mesmo por desencargo de consciência.
A avaliação que faço disso tudo? Independentemente do tráfico, da milícia ou de qualquer força paralela ao estado - ou mesmo o estado, se é que eles alí o representavam mesmo - algumas reações comportamentais são iguais em Paris ou no Rio de Janeiro. Aquele povo estava cansado de ser excluído, sofrer com um preconceito que nós brasileiros nem sabemos o significado se comparado ao que eles vivem. Casas boas eles tinham. Mas nós, brasileiros, temos mais dignidade para lidar com classes menos favorecidas economicamente.
É duro morar no Rio de Janeiro há quase 6 anos e ser expulso de uma “comunidade” em outro continente. Isso nunca tinha me acontecido no Brasil. Mais complicado é ainda é termos sangue frio para pelo menos compreender as razões -certas ou não - que explicam, mas não justificam, a forma de nos tratarem naquele momento. Os cineastas entenderam, eu também entendi. Mas sem dúvida morava ali um roteiro para mais um filme de comunidades e seus povos, dessa vez, prontinho para ser rodado na França
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POSTAGEM ORIGINAL:
Essa história de cobrir festival de cinema vai longe. Tão longe que ninguém queria sair de Paris para ir com nossa equipe em busca de uma idéia inusitada. Se um dos filmes em exibição no “Festival de Cinema Brasileiro de Paris” era o “4x UPP” - que fala justamente do impacto da instalação das Unidades de Polícia Pacificadora em comunidades cariocas - porque não ir conhecer com é uma “favela” na periferia da capital francesa? Os convidados foram os 4 diretores do longa que são moradores de comunidades do Rio. Os cineastas aceitaram o desafio, mas comecei a perceber que a idéia poderia ser um pouco arriscada: nenhum motorista das vans do festival achou a idéia interessante. Muito pelo contrário, todos foram unânimes em dizer em bom Francês “pra lá eu não vou”.
A área de comunidade escolhinha se chama Sarcelles, no departamento de Saint Denis, pouco mais de 45 minutos de carro do centro de Paris. O que será que iríamos encontrar por lá? Tráfico armado? Ação de milícias? Porque seria tão ruim visitar uma área pobre que o parisiense mesmo prefere fingir que não existe? Partimos do bairro de Marais, onde acontecia o festival, e seguimos viagem para descobrir.
O local nem de longe parece uma favela brasileira. Aliás, se fosse aqui no Brasil, chamar aquele lugar de favela seria no mínimo um desrespeito. O que os franceses chamam de “favela” é nada mais nada menos que um conjunto habitacional bem construído, com apartamentos pequenos, porém com varandas e grandes janelas. Sabe aqueles prédios do PAC, construídos aqui no Brasil? Esquece! Os pequenos edifícios de no máximo 4 andares seriam de luxo perto do que temos aqui. Como poderia ser perigoso estar neste local?
Caminhamos por algumas ruas como os quatro diretores de cinema gravando suas impressões sobre o local. Os relatos foram muito ricos sobre as diferenças entre uma comunidade no Brasil e uma comunidade em Paris. Mas descobrimos que algumas coisas não são tão diferentes assim quando fomos abordados por sete homens: cinco negros e dois de aparência árabe. Bastante nervosos e falando alto eles chegaram colocando às mãos nas nossas câmeras, indagando o que estávamos fazendo ali.
O RELATO CONTINUA...








