A Parada Gay e a PM carioca.
Se aquela máxima de que “toda regra tem sua exceção” é verdadeira, talvez esse seja um dos casos de maior aplicabilidade desse ditado: para uma festa popular, democrática e sem preconceitos como a Paraday Gay do Rio de Janeiro a decisão do comandante geral da PM de proibir policiais militares fardados e viaturas na marcha, me parece, no mínimo, estranha na mesma semana em que a cidade lança uma campanha contra a homofobia.
Não acho que seja uma decisão preconceituosa. O comandante geral da corporação, Cel. Mário Sérgio Duarte, talvez seja um dos homens de maior credibilidade e lisura profissional que já vim a conhecer dentro da PM. Mas o regime disciplinar espartano e inflexível das nossas corporações também pode cegar como um punhado de purpurina nos olhos. Primeiro porque uma corporação como a PM não é estática. Estamos falando de servidores públicos dinâmicos como grupo social, que precisa se adequar aos tempos que vivemos. Se isso não bastar, lembro mais: é preciso não perder de vista que ainda precisamos nos adequar, e muito, à nossa realidade “econômica-turística”. Afastados de qualquer valor dogmático pessoal, social ou religioso, o Rio de Janeiro é o destino gay mais procurado de toda a América Latina, e gostemos disso ou não, isso traz dinheiro para nossos bolsos em boates, bares, restaurante e hotéis que, diga-se de passagem, já estão com lotação praticamente esgotada para o período da Parada.

Parada Gay de 2010: números confusos quando autoridades falam em 500 mil pessoas enquanto organizadores em mais de 1 milhão. / Foto: R7.
Apensar de ter jogado um balde de areia - ou eu voltaria à “purpurina”? - nos planos do governador Sérgio Cabral, que já tinha liberado a participação de PM´s gays fardados e suas respectivas viaturas no evento; o comandante geral da PM também tem seus argumentos: de acordo com o estatuto da Polícia Militar é vetada a participação de militares e seus veículos caracterizados em qualquer tipo de evento que não seja restrito da corporação. É um entrave legal - onde a idéia do governador tropeça - que tem sua parcela de “pseudo-verdade”. Imagine se outros grupos sociais organizados também se sentissem no direito de pleitear a liberação de homens fardados e viaturas em suas marchas, fossem elas religiosas, pró-discriminalização da maconha ou protestos por melhores salários? Entendo a preocupação em se confundir opinião pessoal de cada PM com a da corporação como um todo nesses casos. Mas o que talvez não vejamos atrás desse “argumento-cortina-de-fumaça” é que em nenhum outro caso como no da Parada Gay, a participação de policiais militares pode impactar, diretamente é no trabalho que a própria corporação tem quando o assunto é combate a violência causada por intolerância às diferenças. Será que se essa liberação, como quer o governador, fosse praxe nas nossas corporações um militar teria sido acusado de agredir dois jovens homossexuais depois da Parada Gay do ano passado aqui no Rio de Janeiro?

Jovem agredido por militar na Parada Gay de 2010 abraçado à mãe: "tudo que queremos é punição". Foto: R7.
O preconceito pode ser um erva daninha tão entranhada no nosso inconsciente que, às vezes, não conseguimos identificá-lo a olho nu, nem com a mira laser mais tecnológica que nossas forças de segurança possam ter. Mais que fazer média com um grupo social que também vota, o governador Sérgio Cabral seguiu o que outros países do mundo já fazem, ao sugerir que os policiais militares também mostrem seu lado gay quando assim o tiverem. Isso aproxima o PM ao cidadão e o cidadão ao PM, infelizmente e injustamente (?) ainda tão mal visto em nosso estado. Se tivermos o poder de propor mudanças em nossa lei máxima que é a constituição, porque as diretrizes da PM também não poderiam mudar num momento em que nossa sociedade também mudou?
Não sou “Sérgio Cabral Futebol Clube” de carteirinha. Também não sou resistente às regras e procedimentos disciplinas que garantem a credibilidade da nossa corporação. Ainda tenho um apreço todo especial ao Cel. Mário Sérgio que esteve inclusive conosco em Paris durante o lançamento do filme “4xUPP”, entre vários outros compromissos profissionais. Mas acho que a corporação perde uma chance de se adequar a uma parcela da população que também tem por princípio defender. Perde a chance de mostrar que ser conservador não te nada a ver com inflexibilidade de regras e procedimentos, já que nenhum policial militar seria obrigado a desfilar se não se sentisse confortável com a causa que não é só de homossexuais e sim de quem luta por igualdade e desenvolvimento econômico do estado.
Nadar contra a corrente, nesse caso, é mais que correr o risco de parecer preconceituoso. É um tiro no pé com bala de fuzil dado por olhos cegos de tanta purpurina envolta.








