Qual a maior Festa Junina do mundo?
Carne de sol, pamonha, canjica, tapioca. Imagine tudo isso em qualquer festa junina que você foi recentemente e... triplique! Triplique não, multiplique por pelo menos 10 vezes. Talvez assim você consiga imaginar o que é um verdadeiro São João no nordeste. E não basta conhecer uma para dizer que se viu todas não. Se você perguntar para qualquer paraibano qual a maior Festa Junina do mundo, ele certame te ira lhe dizer que é a de Campina Grande. Mas se a pergunta for dirigida a um pernambucano, na ponta da língua estará Caruaru.
A cidade não fica longe: de Recife são cerca de 60 minutos indo de carro. Mas o ideal é não contar com a possibilidade de ter que dirigir depois de tanta festa. Em Caruaru também tem bebida, e bebida da boa. Não precisa dizer que com a fábrica da "Pitú" alí, nas redondezas, a caipirinha é quase sempre mais barata que uma água mineral! Durma com um barulho desses, hein? Por isso o melhor é ir de ônibus, pau-de-arara ou com quem não bebe se o seu caso for o daqueles que não estão em excursões que chegam sem parar de todo o nordeste.
A aventura começou no "Alto do Moura", região da cidade onde a rua vira um forró só. Os restaurantes colocam suas mesas nas calçadas. As lojas de artesanato colocam todo seu estoque de peças em barro - nos moldes da obra de "Mestre Vitalino" - nas prateleiras fazendo um verdadeiro mosaico de cores e de bonecos chamativos que podem ser vistos à distância. Todas as referencias estão lá: Luiz Gonzaga, Lampião, Maria Bonita e tantos outros.

Todas as referências nordestinas moldadas no barro. Preço: 10 reais cada peça! / Foto: acervo pessoal.
Para mesclar e combinar todos os sentidos, além do cheiro convidativo da carne de sol, ainda temos o som. Se faltar luz, por algum minuto que seja, não se preocupe: além dos que tiram sons das sanfonas "unplugged" mesmo, sempre há uma legião de jovens com seus carros envenenados com aparelhagens de som que hoje não apenas ocupam o porta-malas, mas também já completam a rua com efeitos especias que vão desde o laser até o gelo seco. Qualquer "carango" tem um onde, fácil, fácil, tem gente que coloca 20 mil reais em carro que vale pouco mais de 10 mil.
A folia por essa região também só não vai até muito tarde: depois de boas cervejas, cachaças e bebidas afins, todos descem dessa região alta para uma mais baixa, no centro de Caruaru. O chamado "Parque de Eventos", onde pontualmente, às 7 da noite, começa uma das disputas de quadrilhas mais animadas de Pernambuco.
Eu que semana passada reclamava - via Twitter - da festa junina mais mercenária do Rio de Janeiro, (que tinha o disparati de cobrar quase 5 reais por um refrigerante) descobri que, em Caruaru, se faz quase uma refeição inteira em Festa Junina, exatamente com o mesmo valor.
São três palcos diferentes que se alternam para que a música não pare. Se parar o som é ainda assim curioso: quase uma "sinfonia" de sandálias se arrastando pelo chão, nessa altura do campeonato já polido pelo couro dos calçados. Quando sanfoneiro começa, aí não resta dúvida de que estamos mesmo no nordeste. O pessoal da Feira de São Cristovão que me perdoe, mas tentativa de fazer Festa Junina fora do nordeste é realmente apenas "tentativa".
Percebe-se claramente que há divisão de estilos. Pés mais velhos - mas não menos cansados - fazem a poeira subir em uma tenda onde se toca o mais tradicional do ritmo. O "Rei do Baião" é novamente referência e personalidade homenageada com tanto fervor quase que a ponto de deixar o santo que é dono da festa enciumado!
Em frente a um outro palco - o maior de todos - é a vez dos mais jovens e descolados curtirem o forró mais "comercial", eu diria. Para nāo deixar de fora nenhuma "tribo", tem ainda um palco, um pouco menor, onde estrelas infláveis coloridas em tons "neon" brilham mostrando que ali, não demora muito, o que vai imperar é música eletrônica. Sem dúvida alguma, até se você for “metaleiro” o passeio será interessante. Isso se além do "metal pesado" você também gostar de cultura.
Caruaru é isso. É facilmente a maior Festa Junina do Brasil até que me provem o contrário. Um Brasil diferente do nosso sudeste mercantilizado. Lugar onde até "cabra macho" chora ao ouvir a sanfona cantar até seu último suspiro. Lugar onde o que as pessoas procuram não é o lucro exorbitante no churrasquinho, no curau de milho verde ou na simples cerveja. A diversão é comemorar a tradição, a festa do santo, ou simplesmente pular a fogueira para quem tem filosofia religiosa diferente.
Apesar das piadinhas recorrentes de que quem vem de Brasília está mais acostumado com "quadrilha" do que qualquer outra pessoa, ver essa quadrilha em ação - na terra onde a dança foi criada - me faz sentir com se nunca estivesse pisado em uma festa dessas antes. Vai ser difícil ano que vem ir a algum "arraiá" fora do nordeste e achar interessante.












