Amin Kahder: “O Twitter me matou.”
ÚLTIMA ATUALIZAÇÃO: 20/06/2011 às 07h02
Para quem não viu, segue a entrevista de Amin Kahder no programa de ontem.
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POSTAGEM ORIGINAL:
Gostaria de dar notícias erradas todos os dias. Gostaria de poder mostrar perdas, mortes e calamidades, tendo a prerrogativa de descobrir que, num passe de mágica, tudo não teria passado de uma informação "mal apurada" por toda a nossa mídia. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu ontem, com a falsa morte de Amin Kahder.
Sem querer destruir castelos de areia de algum "romântico" em relação ao jornalismo, é preciso dizer: o processo de apuração nesses casos de "morte" não é tão simples como parece. Não se trata de fazer uma ligação ou constatar a presença imóvel de um corpo dentro de uma urna. Muito antes disso se busca a confirmação do hospital, de pessoas próximas, ou a confirmação da família. Jornalistas não emitem ou solicitam atestado de óbito para noticiar. No caso do Amin Kahder essa apuração seria um pouco mais complexa. Sem parentes no Rio de Janeiro - e sem a menor chance de ter chegado ao hospital depois de um "pseudo-ataque-cardíaco-fulminante" - só restava a opção de buscar a verdade dos fatos junto a alguém muito próximo.
É nessa hora que entra o amigo e o ex-companheiro David Brasil. Aliás, David já estava na história antes, já que foi o primeiro a dar a notícia da suposta morte, ainda de madrugada, pelo Twitter. Apesar de toda incredulidade que me desperta um aviso de morte em um microblog, ele era eleito então, a pessoa mais apropriada para esta tarefa de passar informações. Aliás se referir a David Brasil como "amigo" ou "companheiro" é metáfora barata: Amin e David tiveram um casamento de mais de 10 anos. Como não confiar no que ele estava dizendo?
Por telefone, David Brasil confirmou então, novamente, a morte para a imprensa e dessa vez com riqueza de detalhes: trâmites burocráticos para o velório, data e hora do enterro em Petrópolis. Não faltou nada.
Façamos uma pausa e um pequeno exercício então: o telefone da sua casa toca e o marido de sua melhor amiga diz que, infelizmente, ela morreu na última madrugada. Você pediria algum tipo de confirmação em relação à essa morte? Pediria uma foto do corpo ou algum atestado de óbito? Será que o relato desesperado do próprio marido não lhe serviria como depoimento comprobatório? A apuração em jornalismo também segue os mesmos preceitos.
De volta ao caso "morte e vida" de Amin Kahder, é simples entender porque tanta confusão. O erro não estava embutido em qualquer processo de apuração, e sim na má- fé de quem divulgou o falecimento. Fomos todos induzidos ao erro. David não se mostrava mais surpreso. Se mostrava como alguém conformado, próximo, e que já cuidava de todo o processo, desde funeral a té sepultamento.
Não consigo imaginar que tipo de interesse David Brasil teria em divulgar a "falsa-morte" de Amin numa situação como esta. Mas o fato é que David Brasil sabe que Amin não mantinha contato com nenhum familiar próximo que motivasse uma ligação, no meio da madrugada, para avisar que Amin estava morto. Isto seria surreal para quem conhece Amin. Também não consigo vislumbrar que tipo de beneficio o próprio Amim Kahder teria em se declarar morto, como muita gente vem comentando. Desejo de popularidade?
Eu acreditei na notícia que estava dando. A fonte era segura, falava com desenvoltura nos meios de comunicação e, repito, já organizava a ida de amigos e conhecidos para o velório. Artistas, celebridades e fãs tinham em David Brasil a única referência familiar de Amin no Rio de Janeiro. No ar, lamentei e - com a voz embargada - tive que dizer com todas as letras que o amigo Amin Kahder estava morto.
Segurei o choro. Eu segurei a emoção como fiz tantas outras vezes quando as notícias não eram das mais agradáveis para serem dadas. Mas quando é um amigo, aí a coisa muda de figura.
O que tiramos disso tudo? - Honestamente não acredito que o caso reflita a fragilidade na busca por informações. Não acredito que o sistema de apuração jornalístico seja precário. Você pode não acreditar, mas desconfie quando os sistemas de segurança "antimentira" falham em vários veículos de comunicação, todos ao mesmo tempo. Não adiana criar: no jornalismo não existe "inconsciente coletivo" na apuração de fatos. Houve orquestração. Cheguei a ouvir pessoas perguntarem porque simplesmente não ligamos para o Amin Kahder. Alguém acha mesmo que não tentamos o básico?
Hoje celebro o fato de Amin estar vivo. Sei que isso tudo arranha a credibilidade de dois artistas de peso que, agora, trocam acusações de quem teria sido o mentor de um plano "mirabolante" de auto-promoção. Seria quase um caso de polícia se não fosse uma fofoca mal resolvida. Sorte, não houve uma falsa comunicação de qualquer crime. Mas foi uma fofoca que respingou em nosso jornalismo, e é isso que me interessa. Nós, jornalistas, não estamos acima do bem e do mal. Nós também erramos quando somos induzidos a isso por "planos maquiavélicos" ou apenas sequências desastrosas de "coincidências" - no que "prefiro" acreditar. Não demos uma notícia comum. Noticiamos um plano frustrado com propósitos desconhecidos.
Depois de encontrá-lo na praia - correndo calmamente como se nada tivesse acontecido - veio meu sossego. Me perdoem de coração, mas foi um sentimento maior que a preocupação se a notícia estava ou não correta. Amin Kahder disse que foi morto pelo Twitter. Não caro amigo... microblog não mata ninguém. O que mata são as "micro-pessoas".









