Do LUXO ao LIXO.
É incrível como um único dia pode proporcionar experiências tão difusas. Em menos de 24 horas se está dirigindo uma Ferrari de 1 milhão e meio de reais e à noite se “embarca” em um ônibus que mais parece o “expresso para o inferno”.
Miséria nesse caso não é andar de ônibus. Nunca foi. Miséria é viajar ao lado de quem, de passageiro comum na volta para casa carioca, se transforma em algoz.
Niterói 15h23 - A Ferrari, claro, não era minha. Estávamos gravando uma reportagem sobre aluguel de "super-carros". Um daqueles que não se encontra em locadoras comuns. A “máquina” em questão saia por 500 reais para um período de apenas 1 hora. Um verdadeiro capricho para poucos endinheirados que podem se dar ao luxo de gastar quase um salário mínino inteiro para colocar as mãos em um volante tão exclusivo. Como jornalista, fui um privilegiado: tive a chance de pilotar o “brinquedinho”.
O arranque de uma máquina dessas é algo alucinante. Não percebi ao entrar no carro como o banco é tão justo e envolvente, quase que “abraçando” as nossas costas. Quando se dá o mais leve toque no acelerador, logo fica claro o motivo: é preciso estar preso, bem preso ao banco do carro para agüentar o impulso. O corpo é jogado para trás, contra o banco, quando o carro é jogado para frente. Apesar de nunca ter atirado me ocorreu que, talvez, a melhor forma de descrever isso seria comparando com o "coice" que uma arma dá para trás quando um tiro é dado. A energia precisa se dissipar em algum lugar...
Rio de Janeiro 20h45 - Voltando para casa do trabalho - que trabalho árduo pilotar a Ferrari, não? - vejo outro piloto em pânico. O motorista do ônibus à minha frente, em plena Avenida Presidente Vargas, desce desesperado e balançando os braços em sinal de socorro. Sinto bater em meu retrovisor o braço de um policial militar que, correndo, passa com seu fuzil já mirado para o tal coletivo. É a tentativa desesperada de impedir um assalto dentro do ônibus.
Os dois bandidos também tentam ser rápidos: ao perceberem a aproximação da polícia reagem com tiros. Os vidros do ônibus se desprendem e chegam até o chão como se fossem pó. O estampido é seco e frenético. Minha primeira - e única - reação foi me abaixar no carro.
Logo que os tiros cessam vejo os bandidos saindo algemados do coletivo. Esta é a deixa para que desembarque do meu carro e possa ver de perto o que aconteceu. A ação rápida da polícia é aplaudida por populares que, assim como eu, ao verem que o tiroteio termina chegam mais perto, ainda assustados. O saldo - além do mérito policial por cumprir seu papel de forma ágil - é um homem caído no chão: o cobrador agoniza com um tiro na cabeça. Nessa hora baixei a câmera do celular que gravava tudo. Duas opções: era triste demais para ser registrado ou meus olhos não acreditavam no que viam pela tela do aparelho.
Em casa, horas depois - Fico imaginando como vivemos de contrastes. Do “luxo” da Ferrari ao “lixo” em poucas horas. Sim, caro leitor: lixo. Assim considero um bandido que usa um cobrador como escudo numa tentativa medíocre de roubar relógios de pulso e poucos reais. Cédulas agora tingidas com sangue. Como pode? Menos de 2 horas de hiato e tanta coisa antagônica vista!
Aprendi: tudo é relativo na VIDA, a bordo de uma Ferrari , ou na MORTE, a bordo de um coletivo. Fui para casa com as imagens na mão e com esse pensamento na cabeça.









