No rabo da saia…
Adão e Eva podem ser os responsáveis por isso. A singela folha verde cobrindo as partes íntimas talvez tenha expressado bem mais que o simbolismo bíblico da tentativa do ser humano cobrir seus pecados. Mal sabiam eles que estariam dando início a um comportamento humano - que muito se “costurou” à vaidade - e que perdura até hoje: o ato de se vestir.
Não existia “folha masculina” ou “folha feminina”. Foram as diferenças anatômicas, com o passar do tempo, que começaram a traçar as diferenças de vestuários quando os primeiros couros, peles de animais e depois tecidos, começaram a ser usados para a mesma tarefa das simples folhinhas do Jardim do Éden.
Hoje nossa moda parece voltar ao Gênesis. Não é pelo excesso da nudez do mundo moderno apenas. É pelo conceito cada vez mais “andrógeno” que se atribui a cada peça. As roupas femininas não têm mais traços apenas permitidos a “elas”. As masculinas estão longe de terem moldes restritos apenas a “eles”. Na verdade “eles e elas” começaram a se misturar há mais de 100 anos por causa da roupa que revolucionou comportamentos: a calça feminina.
Sim, caro leitor: mulheres usando calças - hábito tão comum nos dias de hoje - eram verdadeiras aberrações há mais de 10 décadas. Elas - as calças - expunham suas usuárias à rótulos tão desconcertantes quanto os atribuídos a homens que resolvam usar atualmente, por exemplo, uma saia! E onde foi que se escreveu que saia só poderia ser usada pelas mulheres? Mais que um modismo, a saia também pode ser uma tradição. Na Escócia, por exemplo, o chamado “kilt”, uma saia pregueada atrás e trançada na frente, era usado por guerreiros. Era e ainda é sinal de virilidade.

O "Kilt" escocês: de roupa típica para moda acidental. Sinônimo de bravura e virilidade. / Foto: internet.
Você usaria? - A discussão sobre a saia masculina surgiu no ar e ao vivo. Depois de uma matéria sobre os 100 anos da calça, veio a pergunta inevitável: os homens estão preparados para desbravar um território notoriamente feminino?
Concordo que uma roupa pode dizer muito sobre quem a usa: personalidade, ousadia, segurança. Mas acho que é retorno ao tempo das cavernas condicionar uma saia - que cubra até mesmo pernas cabeludas! - a uma definição sexual. Não: homens não deixaram de ser homens quando passaram a usar brincos. Heterossexuais não deixaram de ser heterossexuais quando passaram a depilar as pernas. Para se permitir confortos e vaidades ditas “femininas”, trataram logo de criar um termo novo para “amenizar” o que o preconceito taxaria com outras palavras: homem que faz isso agora é “metrossexual”.
Eu usaria e disse isso no ar. Não pela moda apenas. Não me considero escravo dela. Mas acredito que quebra de paradigmas se começa dentro de nós. Talvez nem ficasse bem em mim: sou desajeitado até tentando usar as calças “saruel” masculinas, tão em voga atualmente. Tenho duas. Mas sobre a saia, não poderia endossar nenhum raciocínio de que um comportamento social seja “recibo” de qualquer orientação sexual. Os homens, tão conservadores no passado, deram um show em suas declarações na reportagem, dizendo que não vêem nenhum problema em usar saias. Até quando mulheres começaram a usar sutiã foi um baque para os mais conservadores. Porque varrer para baixo da saia um preconceito arcaico e retrógrado?
O ator Bruno Ferrari, que esteve conosco no estúdio, pensa como eu: quem atira muita pedra na saia alheia, pode estar escondendo alguma verdade não assumida debaixo de suas próprias calças. “Quem se garante não teme e não se incomoda” - disse ele que confessou já ter usado quando adolescente. Palavra de ator que não deixa nenhuma dúvida em relação a sua sexualidade estampando páginas de revistas ao lado da namorada e também atriz, Paloma Duarte.
Quando o programa acabou, uma surpresa: um e-mail da estilista que participou da matéria trazia uma saudação e me parabenizava pelo o que disse em relação ao preconceito associado a uma saia masculina. Minha declaração se transformaria em um presente. Sim Fernanda Sansil, fico feliz por querer me presentear com uma saia para homens!









